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HistóriaTeólogos arminianos18 de 125

B. T. Roberts: o advogado que fundou a Igreja Metodista Livre

Diego Gonçalves12 min de leitura2.483 palavras

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Neste texto

Num domingo à tarde de 1844, em Gowanda, no oeste do estado de Nova York, um rapaz de 21 anos que se preparava para o exame da ordem dos advogados foi a uma reunião de oração só porque os amigos o convidaram. A igreja estava fria, e nada de especial acontecia, até que um tanoeiro analfabeto e muito gago se levantou para contar o que Deus tinha feito na vida dele. O testemunho atravessou Benjamin Titus Roberts. Durante mais de três semanas ele orou pedindo a Deus que o convertesse, mas que o deixasse escolher a profissão. Depois escreveu: “Cristo exigiu uma rendição incondicional; eu a fiz”. Abandonou o direito, tornou-se pregador metodista e, dezesseis anos depois, expulso da sua conferência, fundou a Igreja Metodista Livre.

Retrato de B. T. Roberts
Retrato de B. T. Roberts, autor desconhecido, antes de 1893. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Do direito ao púlpito

Benjamin Titus Roberts nasceu em 25 de julho de 1823, filho de Titus e Sally Roberts, e cresceu entre as fazendas de Gowanda, no condado de Cattaraugus. Na escola dominical presbiteriana decorou capítulos inteiros da Bíblia; numa lição recitou de memória toda a Epístola de Tiago. Quando o pastor presbiteriano da cidade se ofereceu para prepará-lo para o ministério, o rapaz recusou: “Não posso aceitar, porque ainda não me converti”. Antes de se converter a Cristo, ele já tinha abraçado a causa contra a escravidão.

Aos dezesseis anos dava aulas e estudava direito; em 1844 estava perto de ser admitido na advocacia. A conversão, em julho, mudou todos os planos. Olhando para trás, ele disse que desde as primeiras lembranças o Espírito de Deus “lutava comigo e me refreava”, e que ele resistia por achar que resistir era coisa de homem.

Em abril de 1845 entrou no Seminário Wesleyano de Genesee, em Lima, e no outono passou para a Wesleyan University, em Middletown, Connecticut. Ali viu um avivamento dirigido pelo evangelista leigo John Wesley Redfield, mais tarde seu companheiro de lutas, e teve como colega de turma Daniel Steele. Licenciado para pregar em 1847, formou-se em 1848 entre os primeiros da turma. Pouco antes conhecera Ellen Lois Stowe, sobrinha do editor metodista George Lane, que morava em Nova York perto do círculo de Phoebe Palmer. Casaram-se em maio de 1849.

Pastor na Conferência de Genesee

Em 1848 Roberts foi admitido na Conferência de Genesee da Igreja Metodista Episcopal. Serviu sete igrejas em dez anos, de Caryville a Pekin, e pregava seis ou mais vezes por semana.

Em 1850, no acampamento de Collins, onde Phoebe Palmer pregou a santidade, ele viu dois caminhos: ser um pregador popular, aplaudido e inútil, ou “declarar toda a verdade como ela está em Jesus” e enfrentar oposição. Consagrou-se de novo, e “o Espírito caiu sobre mim de modo avassalador”. Anos depois acrescentou: “É só pela graça que sou salvo”. Naquele ano foi ordenado diácono pelo bispo Beverly Waugh, e em 1852, presbítero.

Em Brockport fundou o acampamento de Bergen e perdeu a única filha, Sarah Georgiana, morta em 1855 com sete meses. Em Albion, em 1856, publicou no Northern Christian Advocate três artigos chamados “Igrejas livres” contra o costume de vender e alugar os bancos da igreja para pagar templos caros, o que deixava os pobres sem lugar para sentar.

As duas expulsões

Em 1857, seis dias antes da reunião anual, Roberts publicou no Northern Independent o artigo “New School Methodism” (Metodismo da Nova Escola). Dizia que cerca de trinta pregadores da conferência agiam como um partido, faziam reuniões secretas e ensinavam uma “nova teoria da religião”: punham as boas obras no lugar da fé em Cristo, confundiam a justificação com a inteira santificação e sustentavam as igrejas com venda de bancos, festas e loterias. Acusado de “conduta não cristã e imoral”, defendeu-se com a habilidade de advogado, mas foi condenado por 52 votos a 43 e repreendido pelo bispo Osman Baker.

Nomeado para Pekin, fez ali um avivamento com Redfield. Um pregador, George Estes, reimprimiu o artigo com um relato do julgamento, sem que Roberts soubesse, e isso bastou para um segundo processo. Em outubro de 1858 ele foi condenado por 62 votos a 32 e expulso por 54 a 33. Ellen escreveu que tinha mais vontade de rir do que de chorar, com o riso de uma criança inocente.

Convenções de leigos passaram a sustentá-lo, e ele viajou pregando a convite. Em janeiro de 1860 lançou a revista The Earnest Christian (O Cristão Fervoroso), que dirigiu até morrer.

A Igreja Metodista Livre

A primeira igreja “livre” que Roberts organizou foi em St. Louis, onde Redfield pregava e onde ainda havia leilões de escravos. Ao ver passar pela rua uma fila de escravos levados para o sul, escreveu: “A praga da escravidão atinge tudo”. A nova igreja proibia ter escravos. Em 2 de julho de 1860, uma convenção de leigos em St. Charles, Illinois, organizou a igreja no oeste e o elegeu superintendente geral. Em 23 de agosto, numa fazenda perto de Pekin, uma convenção votou por 45 a 7 pela organização da Igreja Metodista Livre no leste.

A base eram as doutrinas do metodismo primitivo, com o testemunho do Espírito e a inteira santificação recebida pela fé, além de bancos gratuitos, canto congregacional, simplicidade no vestir, representação igual de pastores e leigos e a proibição de ter escravos e de pertencer a sociedades secretas. “Livre” queria dizer tudo isso: bancos livres, escravos livres, liberdade das lojas secretas e liberdade do Espírito no culto. Roberts resumia a missão da igreja assim: manter o padrão bíblico do cristianismo e pregar o evangelho aos pobres.

Em 1862, ele e Ellen alugaram por dez dólares mensais uma sala em cima de um bar no bairro portuário de Five Points, em Buffalo, onde, segundo ele, quase todo prédio tinha um bordel e um bar. Jovens prostitutas que se converteram ali foram morar na casa da família até poderem se sustentar.

Educador, editor e superintendente

Em 1866 o casal comprou uma fazenda em North Chili, perto de Rochester, e abriu o Seminário de Chili, escola para que “meninos e meninas pobres” pudessem estudar. Os alunos trabalhavam algumas horas por dia na escola ou na lavoura, porque “o trabalho é uma bênção, não uma maldição”. A escola é hoje a Roberts Wesleyan University. Em 1874 a igreja elegeu um segundo superintendente, Edward Payson Hart, que dividiu com Roberts a direção até o fim. Em 1886 a igreja tinha 17.114 membros, e já mandava missionários à Índia e à África. De 1886 a 1890 Roberts editou também o semanário The Free Methodist.

Num discurso na Feira do Oeste de Nova York, “Uma conspiração contra os agricultores”, mostrou como ferrovias e corretores de grãos tiravam dos lavradores o fruto das colheitas e propôs que eles se unissem numa aliança, ideia que deu origem à Aliança dos Agricultores de Nova York. Em First Lessons on Money (1886) pediu leis que impedissem a concentração de grandes fortunas de geração em geração.

Os últimos anos

Desde 1888 Roberts sofria do coração. Na Conferência Geral de 1890, em Chicago, propôs que ninguém chamado por Deus e preparado para o ministério fosse recusado à ordenação por causa de sexo, raça ou condição. A proposta chegou a ser aprovada, mas na manhã seguinte a votação foi reconsiderada e ela caiu por pequena maioria. Não voltou a outra Conferência Geral. Quando um incêndio destruiu os prédios do seminário, disse que nenhuma vida se perdera e que aquilo era nada perto da perda do caráter; em outubro de 1892 dedicou os prédios novos.

Em 24 de fevereiro de 1893 saiu de casa para uma reunião trimestral em Cattaraugus e passou a noite em Gowanda com a mãe, quase nonagenária. No dia seguinte, ao trocar de trem, sentiu fortes dores no peito. Morreu em Cattaraugus em 27 de fevereiro, ajoelhado, orando: “Jesus, tira esta dor”. Suas últimas palavras foram “Louvado seja o Senhor! Amém!”. Ex-alunos levaram o caixão até o cemitério vizinho ao seminário. Ellen morreu em 1908.

Pensamento

Wesleyano do movimento de santidade

Roberts é um teólogo wesleyano do movimento de santidade. Ao lançar o Earnest Christian, anunciou que a santidade cristã “como ensinada por Wesley e Fletcher” teria lugar de destaque na revista, e a igreja que fundou adotou as doutrinas do metodismo primitivo. O seu arminianismo é o de John Wesley e de John Fletcher: Deus quer salvar todos, a graça pode ser resistida e o crente persevera pela fé.

Ele não pôs a vontade humana no centro. A sua conversão, como ele a conta, começa com o Espírito que “lutava” com ele desde a infância, o que a teologia wesleyana chama de graça preveniente: a graça que vem antes de qualquer resposta humana, convence e torna possível crer. Em “New School Methodism” a acusação mais grave contra os adversários foi trocarem a fé pelas obras. Para Roberts, a condição da salvação é a fé em Cristo, precedida de arrependimento, e a caridade é fruto da religião verdadeira, não a própria religião. Nisso, lembrava, Paulo, Lutero, Wesley, Calvino e Edwards concordavam: o pecador é justificado pela fé em Cristo.

Sobre a perseverança, ensinava que Deus guarda o crente “por meio da fé” (1 Pedro 1:5) e está tão pronto a guardar um quanto outro. Se nem todos são guardados, “a razão está em nós, e não em Deus”: quem duvida rompe a união com Deus e cai. É a perseverança condicional do arminianismo clássico. Roberts ia além e dizia que quem volta a cometer pecado perde a justificação e precisa voltar arrependido. A declaração de fé do Diego também afirma a perseverança condicional, mas descreve a apostasia como abandono da fé, sem fazer de cada queda uma perda da salvação.

A inteira santificação

O tema que mais ocupou Roberts foi a santidade. Para ele, a inteira santificação é uma segunda obra da graça, distinta da justificação e posterior a ela. Na conversão o crente já é santificado em parte: vence o pecado exterior, mas o pecado continua no coração, sem reinar. Os coríntios eram “crianças em Cristo” e ainda carnais (1 Coríntios 3:1), e Paulo ora para que Deus santifique “por completo” os tessalonicenses, que já eram exemplo para as igrejas vizinhas (1 Tessalonicenses 5:23). A comparação dele é de lavrador: na justificação a erva daninha é cortada; na inteira santificação é arrancada pela raiz.

Santificar, insistia, é obra de Deus: em Ezequiel 36:25-27 é Deus quem promete purificar, dar um coração novo e pôr o seu Espírito dentro do homem. A santidade se recebe pela fé, depois de uma consagração completa e da confissão dos pecados cometidos e do pecado que ainda habita no coração. Ela “é um estado”, escreveu, e não uma série de boas ações: é a fonte limpa de onde as boas ações correm. Quem a recebe é livrado de disposições como o orgulho e a cobiça, e o amor passa a governar os pensamentos, as palavras e as ações. É a doutrina da declaração de fé do Diego, que vê na inteira santificação uma obra posterior à regeneração, recebida pela fé, que enche o coração de amor perfeito.

Santidade e os pobres

Roberts ligava a pureza do coração à ordem da igreja e da sociedade. “O culto ao dinheiro não pode ser santificado”, escreveu, e “é tão perverso negociar bancos quanto negociar votos”. Num editorial sobre as igrejas livres, lembrou que os males da vida caem com peso esmagador sobre os pobres e que entre eles estariam os maiores troféus da graça. A abolição, a missão de Five Points, a escola para filhos de pobres e a defesa dos agricultores saíam da mesma convicção: a santidade bíblica alcança o próximo.

A ordenação de mulheres

Em 1861, quando a convenção de Genesee da nova igreja aprovou resoluções contra a pregação feminina, Roberts se opôs e foi vencido. A igreja punha mulheres como evangelistas nos circuitos mais pobres, mas não as ordenava. Ordaining Women (1891), construído sobre Gálatas 3:28, é a sua resposta. Homem e mulher foram criados iguais, a sujeição da mulher veio com a queda e Cristo restaurou a lei original; as objeções bíblicas nascem de traduções erradas e de interpretações forçadas; e no Novo Testamento houve mulheres apóstolas, como Júnia (Romanos 16:7), profetisas e diaconisas. A conclusão repete a proposta de 1890: o evangelho, no que provê e nos agentes que usa para salvar, “não conhece distinção de raça, condição ou sexo”. A Igreja Metodista Livre só deu às mulheres igualdade plena no ministério em 1974.

Obras principais

  • “Free Churches” (1856), artigos no Northern Christian Advocate.
  • “New School Methodism” (1857), artigo no Northern Independent.
  • The Earnest Christian (1860-1893), revista mensal que fundou e dirigiu.
  • Fishers of Men; or, Practical Hints to Those Who Would Win Souls (1878).
  • Why Another Sect (1879), história das expulsões e da origem da Igreja Metodista Livre.
  • First Lessons on Money (1886).
  • Ordaining Women (1891).
  • Holiness Teachings (1893), editoriais sobre a santidade reunidos pelo filho Benson Howard Roberts.
  • Pungent Truths (1912), trechos dos seus escritos.

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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