
HistóriaTeólogos arminianos18 de 125
B. T. Roberts: o advogado que fundou a Igreja Metodista Livre
Neste texto
Num domingo à tarde de 1844, em Gowanda, no oeste do estado de Nova York, um rapaz de 21 anos que se preparava para o exame da ordem dos advogados foi a uma reunião de oração só porque os amigos o convidaram. A igreja estava fria, e nada de especial acontecia, até que um tanoeiro analfabeto e muito gago se levantou para contar o que Deus tinha feito na vida dele. O testemunho atravessou Benjamin Titus Roberts. Durante mais de três semanas ele orou pedindo a Deus que o convertesse, mas que o deixasse escolher a profissão. Depois escreveu: “Cristo exigiu uma rendição incondicional; eu a fiz”. Abandonou o direito, tornou-se pregador metodista e, dezesseis anos depois, expulso da sua conferência, fundou a Igreja Metodista Livre.
Vida
Do direito ao púlpito
Benjamin Titus Roberts nasceu em 25 de julho de 1823, filho de Titus e Sally Roberts, e cresceu entre as fazendas de Gowanda, no condado de Cattaraugus. Na escola dominical presbiteriana decorou capítulos inteiros da Bíblia; numa lição recitou de memória toda a Epístola de Tiago. Quando o pastor presbiteriano da cidade se ofereceu para prepará-lo para o ministério, o rapaz recusou: “Não posso aceitar, porque ainda não me converti”. Antes de se converter a Cristo, ele já tinha abraçado a causa contra a escravidão.
Aos dezesseis anos dava aulas e estudava direito; em 1844 estava perto de ser admitido na advocacia. A conversão, em julho, mudou todos os planos. Olhando para trás, ele disse que desde as primeiras lembranças o Espírito de Deus “lutava comigo e me refreava”, e que ele resistia por achar que resistir era coisa de homem.
Em abril de 1845 entrou no Seminário Wesleyano de Genesee, em Lima, e no outono passou para a Wesleyan University, em Middletown, Connecticut. Ali viu um avivamento dirigido pelo evangelista leigo John Wesley Redfield, mais tarde seu companheiro de lutas, e teve como colega de turma Daniel Steele. Licenciado para pregar em 1847, formou-se em 1848 entre os primeiros da turma. Pouco antes conhecera Ellen Lois Stowe, sobrinha do editor metodista George Lane, que morava em Nova York perto do círculo de Phoebe Palmer. Casaram-se em maio de 1849.
Pastor na Conferência de Genesee
Em 1848 Roberts foi admitido na Conferência de Genesee da Igreja Metodista Episcopal. Serviu sete igrejas em dez anos, de Caryville a Pekin, e pregava seis ou mais vezes por semana.
Em 1850, no acampamento de Collins, onde Phoebe Palmer pregou a santidade, ele viu dois caminhos: ser um pregador popular, aplaudido e inútil, ou “declarar toda a verdade como ela está em Jesus” e enfrentar oposição. Consagrou-se de novo, e “o Espírito caiu sobre mim de modo avassalador”. Anos depois acrescentou: “É só pela graça que sou salvo”. Naquele ano foi ordenado diácono pelo bispo Beverly Waugh, e em 1852, presbítero.
Em Brockport fundou o acampamento de Bergen e perdeu a única filha, Sarah Georgiana, morta em 1855 com sete meses. Em Albion, em 1856, publicou no Northern Christian Advocate três artigos chamados “Igrejas livres” contra o costume de vender e alugar os bancos da igreja para pagar templos caros, o que deixava os pobres sem lugar para sentar.
As duas expulsões
Em 1857, seis dias antes da reunião anual, Roberts publicou no Northern Independent o artigo “New School Methodism” (Metodismo da Nova Escola). Dizia que cerca de trinta pregadores da conferência agiam como um partido, faziam reuniões secretas e ensinavam uma “nova teoria da religião”: punham as boas obras no lugar da fé em Cristo, confundiam a justificação com a inteira santificação e sustentavam as igrejas com venda de bancos, festas e loterias. Acusado de “conduta não cristã e imoral”, defendeu-se com a habilidade de advogado, mas foi condenado por 52 votos a 43 e repreendido pelo bispo Osman Baker.
Nomeado para Pekin, fez ali um avivamento com Redfield. Um pregador, George Estes, reimprimiu o artigo com um relato do julgamento, sem que Roberts soubesse, e isso bastou para um segundo processo. Em outubro de 1858 ele foi condenado por 62 votos a 32 e expulso por 54 a 33. Ellen escreveu que tinha mais vontade de rir do que de chorar, com o riso de uma criança inocente.
Convenções de leigos passaram a sustentá-lo, e ele viajou pregando a convite. Em janeiro de 1860 lançou a revista The Earnest Christian (O Cristão Fervoroso), que dirigiu até morrer.
A Igreja Metodista Livre
A primeira igreja “livre” que Roberts organizou foi em St. Louis, onde Redfield pregava e onde ainda havia leilões de escravos. Ao ver passar pela rua uma fila de escravos levados para o sul, escreveu: “A praga da escravidão atinge tudo”. A nova igreja proibia ter escravos. Em 2 de julho de 1860, uma convenção de leigos em St. Charles, Illinois, organizou a igreja no oeste e o elegeu superintendente geral. Em 23 de agosto, numa fazenda perto de Pekin, uma convenção votou por 45 a 7 pela organização da Igreja Metodista Livre no leste.
A base eram as doutrinas do metodismo primitivo, com o testemunho do Espírito e a inteira santificação recebida pela fé, além de bancos gratuitos, canto congregacional, simplicidade no vestir, representação igual de pastores e leigos e a proibição de ter escravos e de pertencer a sociedades secretas. “Livre” queria dizer tudo isso: bancos livres, escravos livres, liberdade das lojas secretas e liberdade do Espírito no culto. Roberts resumia a missão da igreja assim: manter o padrão bíblico do cristianismo e pregar o evangelho aos pobres.
Em 1862, ele e Ellen alugaram por dez dólares mensais uma sala em cima de um bar no bairro portuário de Five Points, em Buffalo, onde, segundo ele, quase todo prédio tinha um bordel e um bar. Jovens prostitutas que se converteram ali foram morar na casa da família até poderem se sustentar.
Educador, editor e superintendente
Em 1866 o casal comprou uma fazenda em North Chili, perto de Rochester, e abriu o Seminário de Chili, escola para que “meninos e meninas pobres” pudessem estudar. Os alunos trabalhavam algumas horas por dia na escola ou na lavoura, porque “o trabalho é uma bênção, não uma maldição”. A escola é hoje a Roberts Wesleyan University. Em 1874 a igreja elegeu um segundo superintendente, Edward Payson Hart, que dividiu com Roberts a direção até o fim. Em 1886 a igreja tinha 17.114 membros, e já mandava missionários à Índia e à África. De 1886 a 1890 Roberts editou também o semanário The Free Methodist.
Num discurso na Feira do Oeste de Nova York, “Uma conspiração contra os agricultores”, mostrou como ferrovias e corretores de grãos tiravam dos lavradores o fruto das colheitas e propôs que eles se unissem numa aliança, ideia que deu origem à Aliança dos Agricultores de Nova York. Em First Lessons on Money (1886) pediu leis que impedissem a concentração de grandes fortunas de geração em geração.
Os últimos anos
Desde 1888 Roberts sofria do coração. Na Conferência Geral de 1890, em Chicago, propôs que ninguém chamado por Deus e preparado para o ministério fosse recusado à ordenação por causa de sexo, raça ou condição. A proposta chegou a ser aprovada, mas na manhã seguinte a votação foi reconsiderada e ela caiu por pequena maioria. Não voltou a outra Conferência Geral. Quando um incêndio destruiu os prédios do seminário, disse que nenhuma vida se perdera e que aquilo era nada perto da perda do caráter; em outubro de 1892 dedicou os prédios novos.
Em 24 de fevereiro de 1893 saiu de casa para uma reunião trimestral em Cattaraugus e passou a noite em Gowanda com a mãe, quase nonagenária. No dia seguinte, ao trocar de trem, sentiu fortes dores no peito. Morreu em Cattaraugus em 27 de fevereiro, ajoelhado, orando: “Jesus, tira esta dor”. Suas últimas palavras foram “Louvado seja o Senhor! Amém!”. Ex-alunos levaram o caixão até o cemitério vizinho ao seminário. Ellen morreu em 1908.
Pensamento
Wesleyano do movimento de santidade
Roberts é um teólogo wesleyano do movimento de santidade. Ao lançar o Earnest Christian, anunciou que a santidade cristã “como ensinada por Wesley e Fletcher” teria lugar de destaque na revista, e a igreja que fundou adotou as doutrinas do metodismo primitivo. O seu arminianismo é o de John Wesley e de John Fletcher: Deus quer salvar todos, a graça pode ser resistida e o crente persevera pela fé.
Ele não pôs a vontade humana no centro. A sua conversão, como ele a conta, começa com o Espírito que “lutava” com ele desde a infância, o que a teologia wesleyana chama de graça preveniente: a graça que vem antes de qualquer resposta humana, convence e torna possível crer. Em “New School Methodism” a acusação mais grave contra os adversários foi trocarem a fé pelas obras. Para Roberts, a condição da salvação é a fé em Cristo, precedida de arrependimento, e a caridade é fruto da religião verdadeira, não a própria religião. Nisso, lembrava, Paulo, Lutero, Wesley, Calvino e Edwards concordavam: o pecador é justificado pela fé em Cristo.
Sobre a perseverança, ensinava que Deus guarda o crente “por meio da fé” (1 Pedro 1:5) e está tão pronto a guardar um quanto outro. Se nem todos são guardados, “a razão está em nós, e não em Deus”: quem duvida rompe a união com Deus e cai. É a perseverança condicional do arminianismo clássico. Roberts ia além e dizia que quem volta a cometer pecado perde a justificação e precisa voltar arrependido. A declaração de fé do Diego também afirma a perseverança condicional, mas descreve a apostasia como abandono da fé, sem fazer de cada queda uma perda da salvação.
A inteira santificação
O tema que mais ocupou Roberts foi a santidade. Para ele, a inteira santificação é uma segunda obra da graça, distinta da justificação e posterior a ela. Na conversão o crente já é santificado em parte: vence o pecado exterior, mas o pecado continua no coração, sem reinar. Os coríntios eram “crianças em Cristo” e ainda carnais (1 Coríntios 3:1), e Paulo ora para que Deus santifique “por completo” os tessalonicenses, que já eram exemplo para as igrejas vizinhas (1 Tessalonicenses 5:23). A comparação dele é de lavrador: na justificação a erva daninha é cortada; na inteira santificação é arrancada pela raiz.
Santificar, insistia, é obra de Deus: em Ezequiel 36:25-27 é Deus quem promete purificar, dar um coração novo e pôr o seu Espírito dentro do homem. A santidade se recebe pela fé, depois de uma consagração completa e da confissão dos pecados cometidos e do pecado que ainda habita no coração. Ela “é um estado”, escreveu, e não uma série de boas ações: é a fonte limpa de onde as boas ações correm. Quem a recebe é livrado de disposições como o orgulho e a cobiça, e o amor passa a governar os pensamentos, as palavras e as ações. É a doutrina da declaração de fé do Diego, que vê na inteira santificação uma obra posterior à regeneração, recebida pela fé, que enche o coração de amor perfeito.
Santidade e os pobres
Roberts ligava a pureza do coração à ordem da igreja e da sociedade. “O culto ao dinheiro não pode ser santificado”, escreveu, e “é tão perverso negociar bancos quanto negociar votos”. Num editorial sobre as igrejas livres, lembrou que os males da vida caem com peso esmagador sobre os pobres e que entre eles estariam os maiores troféus da graça. A abolição, a missão de Five Points, a escola para filhos de pobres e a defesa dos agricultores saíam da mesma convicção: a santidade bíblica alcança o próximo.
A ordenação de mulheres
Em 1861, quando a convenção de Genesee da nova igreja aprovou resoluções contra a pregação feminina, Roberts se opôs e foi vencido. A igreja punha mulheres como evangelistas nos circuitos mais pobres, mas não as ordenava. Ordaining Women (1891), construído sobre Gálatas 3:28, é a sua resposta. Homem e mulher foram criados iguais, a sujeição da mulher veio com a queda e Cristo restaurou a lei original; as objeções bíblicas nascem de traduções erradas e de interpretações forçadas; e no Novo Testamento houve mulheres apóstolas, como Júnia (Romanos 16:7), profetisas e diaconisas. A conclusão repete a proposta de 1890: o evangelho, no que provê e nos agentes que usa para salvar, “não conhece distinção de raça, condição ou sexo”. A Igreja Metodista Livre só deu às mulheres igualdade plena no ministério em 1974.
Obras principais
- “Free Churches” (1856), artigos no Northern Christian Advocate.
- “New School Methodism” (1857), artigo no Northern Independent.
- The Earnest Christian (1860-1893), revista mensal que fundou e dirigiu.
- Fishers of Men; or, Practical Hints to Those Who Would Win Souls (1878).
- Why Another Sect (1879), história das expulsões e da origem da Igreja Metodista Livre.
- First Lessons on Money (1886).
- Ordaining Women (1891).
- Holiness Teachings (1893), editoriais sobre a santidade reunidos pelo filho Benson Howard Roberts.
- Pungent Truths (1912), trechos dos seus escritos.
Para aprofundar
- B. T. Roberts, Why Another Sect (Rochester: The Earnest Christian Publishing House, 1879), com o texto integral de “New School Methodism”. Internet Archive.
- B. T. Roberts, Ordaining Women (Rochester: Earnest Christian Publishing House, 1891). Internet Archive.
- B. T. Roberts, First Lessons on Money (Rochester, 1886). Internet Archive.
- B. T. Roberts, Holiness Teachings, compilado por Benson Howard Roberts (North Chili: Earnest Christian Publishing House, 1893). Christian Classics Ethereal Library.
- Benson Howard Roberts, Benjamin Titus Roberts, Late General Superintendent of the Free Methodist Church: A Biography (1900). Internet Archive.
- Howard A. Snyder, B. T. Roberts and the Founding of Roberts Wesleyan University (Free Methodist Church USA, 2022). Resumo de Populist Saints: B. T. and Ellen Roberts and the First Free Methodists (Eerdmans, 2006).
- Kevin M. Watson, “An Unwilling Founder: The Early Life and Ministry of Benjamin Titus Roberts”, em Old or New School Methodism? The Fragmentation of a Theological Tradition (Oxford University Press, 2019).
- Jennifer Woodruff Tait, “Eating bread with widows and orphans”, Christian History 104 (2013).
- Os editores, “Timeline: the holiness movement”, Christian History 82 (2004).
- Roberts Wesleyan University, “B. T. Roberts”.
- Free Methodist Church in Canada, “History of Women in Free Methodist Ministry” (2025).
- “B. T. Roberts”, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
- Teólogos Arminianos
- Personagens
- Metodismo