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Bill T. Arnold: o hebraísta de Asbury que lê Gênesis e Deuteronômio com Wesley

Diego Gonçalves13 min de leitura2.558 palavras

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Neste texto

Em 20 de maio de 2023, Bill T. Arnold subiu à tribuna da formatura do Asbury Theological Seminary, em Wilmore, no Kentucky, e abriu Gênesis 11. O professor de Antigo Testamento parou na gramática hebraica da Torre de Babel, nos verbos de exortação “vamos fazer tijolos” e “vamos edificar”, para mostrar a determinação daqueles construtores que queriam fazer um nome para si. E terminou com um aviso aos novos pastores: “você e eu ainda somos construtores de torres, e ficamos bons nisso”. Hebraísta formado num seminário judaico, presbítero da Igreja Metodista Unida e editor de três grandes coleções de comentários bíblicos, ele é um dos nomes mais respeitados do estudo do Antigo Testamento na tradição wesleyana.

Vida

De Wilmore a Cincinnati

Bill T. Arnold bacharelou-se no Asbury College, hoje Asbury University, em 1977, e concluiu o mestrado em divindade no Asbury Theological Seminary em 1980. As duas escolas, vizinhas em Wilmore, nasceram do movimento de santidade metodista e levam o nome de Francis Asbury, o pioneiro do metodismo nos Estados Unidos.

O doutorado veio do Hebrew Union College-Jewish Institute of Religion, o seminário do judaísmo reformado em Cincinnati, no Ohio, em estudos hebraicos e cognatos, isto é, o hebraico estudado junto com as línguas semíticas aparentadas, como o acadiano. A tese, de 1985, examinou cartas babilônicas tiradas das ruínas de Nínive como testemunho da cidade de Uruk no século VII antes de Cristo, sob os assiriólogos David B. Weisberg e Samuel Greengus.

Com Weisberg, Arnold publicou em 2002 um balanço do centenário das conferências “Babel und Bibel”, em que o assiriólogo alemão Friedrich Delitzsch usou os textos babilônicos para negar o valor do Antigo Testamento para os cristãos. Os dois mostram como o nacionalismo e o preconceito contra os judeus marcaram a obra de um filólogo brilhante.

Pastorado e primeiros anos de ensino

Arnold é presbítero ordenado da Conferência de Kentucky da Igreja Metodista Unida e foi pastor de duas igrejas. Antes de voltar a Wilmore, ensinou no próprio Hebrew Union College-Jewish Institute of Religion, no Wesley Biblical Seminary, em Jackson, no Mississippi, e, de 1991 a 1995, no Ashland Theological Seminary, no Ohio.

Três décadas no Asbury Seminary

Em 1995 voltou ao seminário onde estudara, agora como professor. Recebeu a cátedra Paul S. Amos de Interpretação do Antigo Testamento, dirigiu os estudos de hebraico e ocupou, em sequência, os principais cargos acadêmicos da casa: coordenador da área de estudos bíblicos, diretor de pós-graduação e vice-presidente de assuntos acadêmicos. Ele e a esposa, Susan, têm três filhos.

Os livros vieram em ritmo constante. O mais difundido é Encountering the Old Testament (1999), escrito com Bryan E. Beyer, manual que chegou à quarta edição e foi traduzido para o alemão, o chinês e o português. Who Were the Babylonians? (2004) condensa a sua especialidade: a história da Babilônia, de Hamurábi a Nabucodonosor II, e o seu peso na história de Israel. Para a Cambridge University Press escreveu o comentário a Gênesis da New Cambridge Bible Commentary (2009), uma gramática de sintaxe hebraica com John H. Choi (2003) e uma introdução ao Antigo Testamento (2014) que lê as Escrituras hebraicas a partir da origem do monoteísmo, herança comum de judeus, cristãos e muçulmanos.

Arnold também trabalhou para a igreja que lê a Bíblia sem saber hebraico. Integrou a equipe de tradutores do Antigo Testamento da New Living Translation, responsável por 1 e 2 Reis, foi editor associado da Wesley Study Bible (2009) e escreveu o comentário a Gênesis do Wesley One Volume Commentary (2020), organizado por Kenneth J. Collins e Robert W. Wall.

Na crise da Igreja Metodista Unida

Arnold foi delegado à Conferência Geral da Igreja Metodista Unida de 2012, em Tampa, uma das assembleias marcadas pela disputa sobre a sexualidade. Antes dela leu Seeing Gray in a World of Black and White, do pastor Adam Hamilton, que propunha uma terceira via para o impasse. A resposta saiu em 2014, pela editora Seedbed: Seeing Black and White in a Gray World (“Ver preto e branco num mundo cinzento”). Arnold trata Hamilton como amigo, mas aponta no livro falácias de raciocínio e argumentos pragmáticos no lugar de argumentos teológicos.

O editor e o mestre

Arnold é hoje editor geral da parte do Antigo Testamento da New Cambridge Bible Commentary, editor da Baker Commentary on the Old Testament: Pentateuch e, desde 2020, editor da New International Commentary on the Old Testament, ao lado de Robert L. Hubbard. Para a NICOT escreveu o novo comentário a Deuteronômio, em dois volumes, que substitui o de Peter Craigie (1976); o primeiro, sobre os capítulos 1 a 11, saiu pela Eerdmans em 2022, com cerca de setecentas páginas.

Em 4 de fevereiro de 2026, três ex-alunos que hoje são professores, David B. Schreiner, Mark A. Awabdy e Drew S. Holland, entregaram a ele a capa de um livro em sua homenagem, God of the Fathers (“O Deus dos pais”), sobre Gênesis e Deuteronômio, com textos de 23 autores, entre eles John H. Walton, Sandra L. Richter e Ben Witherington III. Schreiner resumiu o que viu no professor: o desejo de “fortalecer as igrejas da tradição wesleyana e a sua liderança” em conhecimento, formação e serviço.

Pensamento

Um wesleyano no estudo do Antigo Testamento

Classe: wesleyano. Arnold é presbítero metodista, ensina há três décadas num seminário da tradição de John Wesley e escreve como wesleyano declarado: no artigo sobre o pecado original, a pergunta de partida é “como nós, wesleyanos, entendemos” a doutrina. Ali ele afirma a depravação total, atribui à graça preveniente a capacidade de responder a Deus e recusa as doutrinas agostinianas e reformadas da predestinação individual. É a soteriologia do arminianismo na forma que Wesley lhe deu.

O pecado original lido a partir de Gênesis

Em junho de 2020, na revista wesleyana Firebrand, Arnold publicou “Toward a Wesleyan Understanding of ‘Original Sin’” (“Para uma compreensão wesleyana do pecado original”). Ele parte de que a igreja nunca chegou a um acordo sobre o conteúdo da doutrina: os credos dos Apóstolos e de Niceia falam apenas da “remissão dos pecados”. Mas todos concordam que pecamos até que o Espírito Santo mude o coração pela fé.

Arnold não aceita jogar a doutrina fora. O otimismo herdado do Iluminismo, que espera da educação e da ação social a cura dos males humanos, é para ele uma doutrina do pecado “seriamente anêmica”. Ele lê em Wesley uma distinção entre a transmissão de uma natureza corrompida, que Wesley aceitava, e a transmissão da culpa, que teria rejeitado: cada pessoa responde pelo próprio pecado, mas todos partilham uma inclinação natural para pecar. Gênesis 3 explica a ruptura das relações humanas com Deus, com o outro e com a terra, e os capítulos 4 a 11 mostram o pecado se espalhando, do fratricídio ao dilúvio e a Babel. A Bíblia, diz Arnold, mostra pouco interesse pela origem do pecado e muito interesse pela sua universalidade, pelo seu caráter de doença que infecta todos e pelos seus efeitos sociais.

O passo decisivo é a graça. Sem a graça preveniente, a depravação total significaria que nunca poderíamos responder ao convite para nos arrependermos e recebermos Cristo, porque a mente estaria distorcida demais. A obra de Deus em cada pessoa vence essa incapacidade a ponto de a tornar capaz de responder ao amor salvador. Há quem diga que a graça preveniente nos dá livre-arbítrio, escreve ele, mas “é mais exato dizer que ela nos dá uma vontade libertada”. Essa graça não salva por si; torna possível receber ou rejeitar a salvação. É a mesma ordem descrita em Armínio e na lição sobre a vontade libertada: Deus age primeiro, e a resposta humana já é fruto da graça.

Gênesis entre a Babilônia e Israel

No comentário de 2009, Arnold lê o texto final de Gênesis sem perder de vista a história da sua composição e compara os seus gêneros com textos da Mesopotâmia, de Ugarit e do Egito. Vê o livro organizado em onze painéis pelas fórmulas de toledot (“estas são as gerações de…”) e lê Gênesis 1 a 11 no ritmo de criação, descriação e recriação. Em Babel, logo depois da Tabela das Nações, vê o avanço do pecado e, ao mesmo tempo, da graça.

O discurso de formatura de 2023 põe essa leitura a serviço da igreja. Os construtores de Babel usaram a tecnologia mais nova do seu tempo, o tijolo cozido, e a própria religião, no zigurate, para fazer um nome para si, e o castigo foi a dispersão que temiam. Para Arnold, os profissionais da religião são “os melhores construtores de torres do mundo”: cada vez que um pastor manipula colegas ou alunos, ou deixa a família de lado para escrever mais um parágrafo, afasta-se do Éden e aproxima-se de Babel.

Deuteronômio: amor e temor

Num artigo de 2011 na revista Vetus Testamentum, Arnold estudou as palavras “amar” e “temer” em Deuteronômio 5 a 11. Muitos estudiosos supõem que um amor ordenado só pode ser lealdade de conduta, como nos tratados antigos entre um rei e os seus vassalos. Arnold defende que esse amor tem também um lado afetivo, e que o livro junta de propósito amor e temor para que um delimite o outro: o amor fica protegido de virar afeto sem reverência, e o temor, de virar pavor sem alegria. É a leitura que dá peso ao Shemá: “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração” (Deuteronômio 6:5).

No comentário de 2022, a teologia do livro começa pelo Shemá, “o Senhor é um”, pedra fundamental de um edifício que inclui os Dez Mandamentos e as instruções que vêm depois. Arnold pede que Deuteronômio fale com a própria voz antes de ser lido com as categorias do Novo Testamento. Sobre a composição, ele recomenda “modéstia metodológica”: vê o livro como fruto de um longo trabalho de escribas que preservaram e atualizaram a tradição da voz de Moisés, com um núcleo ligado aos profetas do século VIII e à reforma de Josias. O mandamento de destruir os cananeus (Deuteronômio 7:1-6), que ele considera o problema moral e teológico mais difícil do Antigo Testamento, é lido como linguagem retórica e metafórica, e não como ordem literal de matar.

A Escritura no debate da igreja

Em Seeing Black and White in a Gray World, a contribuição mais duradoura está no método. Arnold critica o uso corrente do Quadrilátero wesleyano como se Escritura, tradição, razão e experiência fossem quatro fontes iguais, e pede uma leitura canônica da Bíblia, aquilo que Wesley chamava de “teor geral” das Escrituras. Pede também categorias teológicas, e não analogias políticas como a dos direitos civis. Na conclusão, resume a tese: o problema da igreja de hoje não é preto e branco demais, mas de menos, e “o que realmente precisamos é de menos cinza, e não de mais”.

Diferenças com a nossa declaração de fé

Há dois pontos em que Arnold se afasta do que o site afirma. O primeiro é o pecado original. A nossa declaração de fé ensina que todos nascemos pecadores e “sob a justa condenação de Deus”. Arnold prefere falar de uma inclinação universal ao pecado, sem culpa herdada, e brinca que a doutrina talvez devesse se chamar “concupiscência originária”. Ele atribui essa distinção a Wesley, mas o próprio Wesley, no tratado A doutrina do pecado original (1757), defendeu contra John Taylor a doutrina tradicional, com Adão como cabeça de toda a raça humana.

O segundo é a leitura das origens. Arnold aceita o chamado teísmo evolucionário e pergunta, no mesmo artigo, se é preciso crer num primeiro casal histórico para crer no pecado original; nos comentários, adota um modelo moderado de composição em várias etapas para Gênesis e Deuteronômio. A nossa declaração afirma que os escritos originais da Bíblia foram preservados de erro. Arnold escreve sob a autoridade das Escrituras e defende a graça e a incapacidade humana com a clareza de um wesleyano; nesses dois pontos, porém, a posição é dele, e não a do site.

Obras principais

  • Encountering the Book of Genesis (Baker, 1998).
  • Encountering the Old Testament: A Christian Survey, com Bryan E. Beyer (Baker, 1999; 4.ª ed.).
  • The Face of Old Testament Studies, organizado com David W. Baker (Baker, 1999).
  • 1 & 2 Samuel, NIV Application Commentary (Zondervan, 2003).
  • A Guide to Biblical Hebrew Syntax, com John H. Choi (Cambridge University Press, 2003; 2.ª ed., 2018).
  • Who Were the Babylonians? (Society of Biblical Literature, 2004).
  • Dictionary of the Old Testament: Historical Books, organizado com H. G. M. Williamson (InterVarsity, 2005).
  • Genesis, New Cambridge Bible Commentary (Cambridge University Press, 2009).
  • Introduction to the Old Testament (Cambridge University Press, 2014; 2.ª ed., 2026).
  • Seeing Black and White in a Gray World (Seedbed, 2014).
  • The World around the Old Testament, organizado com Brent A. Strawn (Baker, 2016).
  • The Cambridge Companion to Genesis, organizador (Cambridge University Press, 2022).
  • The Book of Deuteronomy, Chapters 1-11, New International Commentary on the Old Testament (Eerdmans, 2022).
  • Deuteronomy 12-26: A Handbook on the Hebrew Text, com Paavo N. Tucker (Baylor University Press, 2022).

Livros em português

  • Descobrindo o Antigo Testamento, com Bryan E. Beyer (Cultura Cristã, 2001). Ver na Amazon
  • Faces do Antigo Testamento: um exame das pesquisas mais recentes, organizado com David W. Baker (CPAD, 2017). Ver na Amazon · Ver na Shopee

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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