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Brenda B. Colijn: A teóloga dos Irmãos que leu a salvação em imagens
Neste texto
- Vida
- Da literatura inglesa à teologia
- Professora em Ashland
- O livro e os anos seguintes
- Pensamento
- Anabatista, ao lado dos arminianos
- A graça vem primeiro
- Muitas imagens da salvação
- Eleição em Cristo
- Perseverança condicional e certeza
- Mulheres na liderança
- Onde ela se afasta do site
- Obras principais
- Para aprofundar
O reino de Deus é como um navio de cruzeiro em alto-mar. Com essa frase começa a parábola que Brenda B. Colijn publicou em 2004 no Ashland Theological Journal. O capitão avisa os passageiros de que não devem pular na água, porque o casco é alto, não há escadas e o mar está cheio de tubarões. Todos pulam. Então o capitão anuncia pelo alto-falante que pode salvar todos: basta agarrar as boias que ele vai lançar. Em seguida manda jogar boias só para alguns passageiros escolhidos por ele e deixa os outros se afogarem, enquanto a mensagem de resgate continua soando. “Esta é uma parábola do calvinismo”, escreveu Colijn, e terminou o artigo com uma pergunta: qual capitão preferiríamos ter “no leme do universo”? A autora era professora de interpretação bíblica e teologia no Seminário Teológico de Ashland, em Ohio, e escrevia como membro da Igreja dos Irmãos (Brethren Church), um ramo da família anabatista e pietista com sede em Ashland.
Vida
Da literatura inglesa à teologia
Brenda B. Colijn começou a carreira longe da teologia: fez mestrado e doutorado em literatura inglesa na Universidade Cornell, no estado de Nova York. A crítica literária marcou o trabalho que ela fez depois com a Bíblia, atento às metáforas e às histórias mais do que a versículos usados como munição.
Já doutora, matriculou-se no mestrado do Seminário Teológico de Ashland, ligado à Igreja dos Irmãos. Ainda aluna, publicou no periódico do seminário dois estudos sobre Paulo: “Os três tempos da salvação nas cartas de Paulo” (1990) e “O uso que Paulo faz da fórmula ‘em Cristo’” (1991). O segundo defende que “em Cristo” indica participação real do crente em Cristo, e não só representação legal.
A própria Colijn contou, na introdução do seu livro de 2010, que adotou a tradição anabatista e dos Irmãos já adulta. A denominação descende dos Irmãos de Schwarzenau, grupo fundado na Alemanha em 1708 por Alexander Mack sob a influência do pietismo e do anabatismo. A ala “progressista” desses Irmãos se organizou como Igreja dos Irmãos em 1883, em Dayton, com ênfase em educação, missões e ministério feminino. Em 1939 a denominação se dividiu de novo, entre outras coisas por causa da segurança eterna: os que defendiam o “uma vez salvo, salvo para sempre” saíram e formaram as igrejas da Graça. As raízes mais antigas estão na origem dos anabatistas em Zurique.
Professora em Ashland
Em 1995, Colijn era professora adjunta do seminário e servia como diaconisa e líder leiga na Smoky Row Brethren Church, a congregação dos Irmãos que ela usava como exemplo no artigo “Um modelo bíblico e contemporâneo de ministério”. No ano seguinte o Journal of the Evangelical Theological Society publicou o seu estudo sobre a salvação na Epístola aos Hebreus, “‘Aproximemo-nos’: a soteriologia da Epístola aos Hebreus”.
Em 1998 ela já era professora assistente de teologia; em 2002, professora assistente de interpretação bíblica e teologia e diretora do centro do seminário em Columbus; em 2004, professora associada; depois, professora titular da mesma cadeira. Recebeu a ordenação ao ministério na Igreja dos Irmãos e passou a ser presbítera da denominação.
Em novembro de 2002, o seminário recebeu Clark Pinnock para as conferências anuais de outono, e o tema foi o teísmo aberto. Colijn escreveu para o periódico do seminário um artigo que organizava o debate e, dois anos depois, publicou a parábola do navio, que o editor do periódico apresentou como fruto daquelas conferências.
O livro e os anos seguintes
O trabalho principal de Colijn saiu em 2010 pela IVP Academic: Images of Salvation in the New Testament (Imagens da salvação no Novo Testamento). Ben Witherington III o comparou ao clássico de George Caird sobre as imagens da Bíblia. No mesmo ano ela resenhou na Mennonite Quarterly Review o estudo de Marcus Meier sobre a origem dos Irmãos de Schwarzenau.
Em 2013, na Quinta Assembleia Mundial dos Irmãos, falou sobre “Palavra e Espírito na espiritualidade dos Irmãos”. Resumiu a herança do grupo assim: para os Irmãos, tanto a Palavra exterior quanto a Palavra interior, que é o Espírito, dão testemunho da Palavra viva de Deus, que é Cristo. O catálogo do seminário de 2021-2022 ainda a lista como professora; o de 2023-2024, como professora emérita. Aposentada, ela serve como pastora de ensino na Smoky Row Brethren Church, a congregação em que foi diaconisa, cuidando do discipulado e da formação espiritual.
Pensamento
Anabatista, ao lado dos arminianos
No artigo da parábola, Colijn escreveu que se aproxima da doutrina de Deus “de uma perspectiva anabatista, que tecnicamente não é arminiana”, porque o anabatismo é anterior à controvérsia arminiana dentro da Igreja Reformada, “mas é decididamente não calvinista”. Por isso a classificamos aqui como anabatista, próxima do arminianismo, na linha de Menno Simons e Balthasar Hubmaier. Nos pontos centrais da salvação ela fica com os arminianos: Deus quer salvar todos, a graça pode ser recusada, a eleição é em Cristo e a perseverança é condicional. A Sociedade dos Arminianos Evangélicos apresentou o livro dela de 2010 como “um novo livro arminiano” sobre a salvação.
A graça vem primeiro
A parábola do navio começa por uma concordância. Todos os cristãos ortodoxos, escreveu Colijn, creem que o pecador está em perigo de morte eterna e que a única esperança é ser resgatado por Deus, pela obra de Cristo; e ninguém pode ser resgatado a menos que Deus tome a iniciativa, estenda a oferta e capacite a pessoa a recebê-la. A diferença com o calvinismo, para ela, está na intenção de Deus: anabatistas e arminianos creem que Deus deseja resgatar todos, convida todos e capacita a responder todos os que ouvem o convite.
É o que o arminianismo clássico chama de graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana e liberta a vontade para crer (ver a graça preveniente em Armínio). A crítica de Colijn mira o caráter de Deus. Se ele anuncia a todos um chamado geral ao qual não podem responder e reserva o chamado eficaz para alguns, tem uma vontade secreta que contradiz a vontade revelada no evangelho. Ela cita a imagem de John Wesley em Predestinação calmamente considerada (1752): o Deus que convida os prisioneiros a sair decidido a nunca abrir a porta. E responde a quem diz que não podemos julgar a Deus pelas nossas ideias de justiça lembrando que as Escrituras mandam imitar o caráter dele: “sereis santos, porque eu sou santo” (Levítico 11:45, Almeida Revista e Corrigida, como as demais citações bíblicas deste texto) e “sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso” (Lucas 6:36). Com o anabatista Pilgram Marpeck, ela conclui que a pergunta não é o que Deus pode fazer, mas o que Deus escolheu fazer, e que ele revelou esse plano em Jesus Cristo.
Muitas imagens da salvação
A tese de Images of Salvation in the New Testament cabe numa frase da autora: “O Novo Testamento não desenvolve uma doutrina sistemática da salvação”. Ele oferece imagens tiradas de ângulos diferentes. De um ângulo, o problema humano é a rebelião contra Deus, e a salvação se parece com viver sob o reinado dele. De outro, o problema é a escravidão a forças de dentro e de fora, e a salvação é liberdade. De um terceiro, o problema é a alienação de Deus, dos outros, da criação e de si mesmo, e a salvação é reconciliação. Os treze capítulos vão da herança na nova aliança à perseverança, passando por reino, vida eterna, nova criação, redenção, adoção, justificação, eleição e santificação.
O método, que ela chama de realismo crítico, vem da formação literária: ouvir cada autor no seu ambiente histórico, ver como os textos funcionam como literatura e só então fazer a pergunta teológica.
Eleição em Cristo
No capítulo “Eleição em Cristo para o bem do mundo”, ser escolhido por Deus é ser chamado ao serviço e à bênção. Cristo é o Eleito, e a igreja é eleita nele. Nas palavras dela, a eleição de Cristo e da igreja em Cristo acontece na eternidade, enquanto a eleição dos indivíduos para a salvação acontece no tempo, quando eles respondem ao evangelho. Para explicar como Deus pode predestinar sem determinar quem entra, ela usa uma imagem de sala de aula: a professora pode decidir oferecer um curso e definir de antemão que ele valerá quatro créditos sem decidir quais alunos vão se matricular. Ela dialoga com Robert Shank, para quem a eleição é incondicional para a igreja e condicional para os indivíduos, e acha mais forte a leitura arminiana clássica da presciência em Romanos 8:29 e 1 Pedro 1:2. É a mesma eleição corporativa que o site expõe ao tratar dos decretos de Deus na teologia arminiana.
Perseverança condicional e certeza
No estudo de 1990 sobre Paulo, a partir de 1 Coríntios 15:2 (“se o retiverdes tal como vo-lo tenho anunciado; se não é que crestes em vão”), ela concluiu que a concepção de salvação de Paulo “inclui certeza, mas não segurança eterna”. A certeza se apoia na obra completa de Cristo, na ação presente do Espírito e na promessa da ressurreição, e não na lembrança da conversão.
No artigo de 1996, a salvação em Hebreus é peregrinação rumo à promessa, e “a essência da salvação é o culto”: aproximar-se de Deus pelo novo e vivo caminho que Cristo abriu (Hebreus 10:19-22). O contrário é afastar-se, com “um coração mau e infiel” (Hebreus 3:12). Ela afirma que a salvação final depende de uma fé obediente que mantém a confissão e vive da promessa de Deus, e lê Hebreus 6:4-6 como advertência dirigida a quem de fato experimentou os dons da salvação. Mesmo assim, insiste, Hebreus não baseia a certeza do crente nas obras: a base é a intercessão permanente de Cristo, que “pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus” (Hebreus 7:25). Ver também apostasia na Bíblia.
No estudo de 1998 sobre Marcos, a salvação é dom e exigência. O Evangelho, escreveu, nunca sugere que o discipulado conquista a salvação; o discipulado é apenas a única resposta adequada ao reino de Deus presente em Jesus. É uma tese bem anabatista, a do discipulado como forma da fé, e evita fazer da obediência um mérito.
Mulheres na liderança
O artigo de 2002 sobre as mulheres troca a briga por versículos isolados por uma teologia bíblica que segue a história da salvação: a liderança das mulheres concedida na criação, ferida na queda, restaurada na redenção e confirmada na consumação. Ela mostra que a palavra hebraica ‘ezer, de Gênesis 2:18, é usada para o próprio Deus como socorro de Israel e não indica subordinação. Para ela, proibir hoje a plena participação das mulheres no ministério tira credibilidade do evangelho. A posição combina com a história da Igreja dos Irmãos, cujos fundadores progressistas, nos anos 1880, já defendiam a ordenação de mulheres.
Onde ela se afasta do site
Há três diferenças com a declaração de fé do Diego e com o arminianismo de Armínio. A primeira está no teísmo aberto. Em 2002 Colijn classificou o teísmo aberto como “uma versão do arminianismo”, pediu que os seus defensores não fossem expulsos da comunhão evangélica e lembrou o lema adotado pelos Irmãos: “No essencial, unidade; no não essencial, liberdade; em tudo, caridade”. O site rejeita o teísmo aberto e afirma que Deus conhece todo o futuro, inclusive as decisões livres (ver presciência, eleição e predestinação). A segunda está na justificação. No capítulo “Justificação pela fé (fidelidade)”, Colijn conversa com a Nova Perspectiva sobre Paulo e lê a justificação no quadro da aliança: a justiça de Deus é a fidelidade dele às promessas, e a justificação é a vindicação final da igreja como povo de Deus. A declaração do site, com Armínio e Wesley, afirma a imputação da justiça de Cristo ao pecador que crê. A terceira é de detalhe: quando Colijn diz que Deus capacita a responder “todos os que ouvem o convite”, ela liga a graça à pregação, enquanto a declaração do site afirma que o Espírito age em todas as pessoas.
Colijn ajudou leitores evangélicos a ver a salvação como mais do que um tribunal: herança, cidadania, cura, adoção, peregrinação e culto, tudo obra da graça de Deus em Cristo.
Obras principais
- “The Three Tenses of Salvation in Paul’s Letters”, Ashland Theological Journal 22 (1990).
- “Paul’s Use of the ‘In Christ’ Formula”, Ashland Theological Journal 23 (1991).
- “A Biblical and Contemporary Model of Ministry”, Ashland Theological Journal 27 (1995).
- “‘Let Us Approach’: Soteriology in the Epistle to the Hebrews”, Journal of the Evangelical Theological Society 39, n. 4 (1996).
- “Salvation as Discipleship in the Gospel of Mark”, Ashland Theological Journal 30 (1998).
- “Open Theism: Framing the Discussion”, Ashland Theological Journal 34 (2002).
- “A Biblical Theology of Women in Leadership”, Ashland Theological Journal 34 (2002).
- “Family in the Bible: A Brief Survey”, Ashland Theological Journal 36 (2004).
- “A Parable of Calvinism”, Ashland Theological Journal 36 (2004).
- Images of Salvation in the New Testament (IVP Academic, 2010).
Para aprofundar
- Brenda B. Colijn, “A Parable of Calvinism”, Ashland Theological Journal 36 (2004), cópia da Society of Evangelical Arminians.
- Brenda B. Colijn, “‘Let Us Approach’: Soteriology in the Epistle to the Hebrews”, Journal of the Evangelical Theological Society 39/4 (1996).
- Brenda B. Colijn, artigos no Ashland Theological Journal (1990-2004), índice com PDFs em BiblicalStudies.org.uk: “The Three Tenses of Salvation in Paul’s Letters”, “Paul’s Use of the ‘In Christ’ Formula”, “A Biblical and Contemporary Model of Ministry”, “Salvation as Discipleship in the Gospel of Mark”, “Open Theism: Framing the Discussion”, “A Biblical Theology of Women in Leadership” e “Family in the Bible: A Brief Survey”.
- Brenda B. Colijn, Images of Salvation in the New Testament (IVP Academic, 2010), no Google Livros.
- InterVarsity Press, Images of Salvation in the New Testament, página do livro com sumário, resenhas e nota sobre a autora.
- Society of Evangelical Arminians, “A New Arminian Book on the Doctrine of Salvation: Brenda Colijn, Images of Salvation in the NT” (2013).
- Robert N. Wilkin, resenha de Images of Salvation in the New Testament, Journal of the Grace Evangelical Society, crítica a partir da teologia da Graça Livre.
- Brenda B. Colijn, resenha de The Origin of the Schwarzenau Brethren, de Marcus Meier, Mennonite Quarterly Review 84, n. 4 (2010), registro na Gale.
- Church of the Brethren Newsline, “Quotable Brethren: The 5th Brethren World Assembly in Soundbites” (2013).
- Ashland Theological Seminary, catálogos de 2021-2022 e 2023-2024, lista do corpo docente.
- Smoky Row Brethren Church, “Brenda Colijn”, página da pastora de ensino.
- Wikipédia, “Brethren Church”, verbete em inglês sobre a denominação.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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