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Brenda B. Colijn: A teóloga dos Irmãos que leu a salvação em imagens

Diego Gonçalves13 min de leitura2.667 palavras

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Neste texto

O reino de Deus é como um navio de cruzeiro em alto-mar. Com essa frase começa a parábola que Brenda B. Colijn publicou em 2004 no Ashland Theological Journal. O capitão avisa os passageiros de que não devem pular na água, porque o casco é alto, não há escadas e o mar está cheio de tubarões. Todos pulam. Então o capitão anuncia pelo alto-falante que pode salvar todos: basta agarrar as boias que ele vai lançar. Em seguida manda jogar boias só para alguns passageiros escolhidos por ele e deixa os outros se afogarem, enquanto a mensagem de resgate continua soando. “Esta é uma parábola do calvinismo”, escreveu Colijn, e terminou o artigo com uma pergunta: qual capitão preferiríamos ter “no leme do universo”? A autora era professora de interpretação bíblica e teologia no Seminário Teológico de Ashland, em Ohio, e escrevia como membro da Igreja dos Irmãos (Brethren Church), um ramo da família anabatista e pietista com sede em Ashland.

Vida

Da literatura inglesa à teologia

Brenda B. Colijn começou a carreira longe da teologia: fez mestrado e doutorado em literatura inglesa na Universidade Cornell, no estado de Nova York. A crítica literária marcou o trabalho que ela fez depois com a Bíblia, atento às metáforas e às histórias mais do que a versículos usados como munição.

Já doutora, matriculou-se no mestrado do Seminário Teológico de Ashland, ligado à Igreja dos Irmãos. Ainda aluna, publicou no periódico do seminário dois estudos sobre Paulo: “Os três tempos da salvação nas cartas de Paulo” (1990) e “O uso que Paulo faz da fórmula ‘em Cristo’” (1991). O segundo defende que “em Cristo” indica participação real do crente em Cristo, e não só representação legal.

A própria Colijn contou, na introdução do seu livro de 2010, que adotou a tradição anabatista e dos Irmãos já adulta. A denominação descende dos Irmãos de Schwarzenau, grupo fundado na Alemanha em 1708 por Alexander Mack sob a influência do pietismo e do anabatismo. A ala “progressista” desses Irmãos se organizou como Igreja dos Irmãos em 1883, em Dayton, com ênfase em educação, missões e ministério feminino. Em 1939 a denominação se dividiu de novo, entre outras coisas por causa da segurança eterna: os que defendiam o “uma vez salvo, salvo para sempre” saíram e formaram as igrejas da Graça. As raízes mais antigas estão na origem dos anabatistas em Zurique.

Professora em Ashland

Em 1995, Colijn era professora adjunta do seminário e servia como diaconisa e líder leiga na Smoky Row Brethren Church, a congregação dos Irmãos que ela usava como exemplo no artigo “Um modelo bíblico e contemporâneo de ministério”. No ano seguinte o Journal of the Evangelical Theological Society publicou o seu estudo sobre a salvação na Epístola aos Hebreus, “‘Aproximemo-nos’: a soteriologia da Epístola aos Hebreus”.

Em 1998 ela já era professora assistente de teologia; em 2002, professora assistente de interpretação bíblica e teologia e diretora do centro do seminário em Columbus; em 2004, professora associada; depois, professora titular da mesma cadeira. Recebeu a ordenação ao ministério na Igreja dos Irmãos e passou a ser presbítera da denominação.

Em novembro de 2002, o seminário recebeu Clark Pinnock para as conferências anuais de outono, e o tema foi o teísmo aberto. Colijn escreveu para o periódico do seminário um artigo que organizava o debate e, dois anos depois, publicou a parábola do navio, que o editor do periódico apresentou como fruto daquelas conferências.

O livro e os anos seguintes

O trabalho principal de Colijn saiu em 2010 pela IVP Academic: Images of Salvation in the New Testament (Imagens da salvação no Novo Testamento). Ben Witherington III o comparou ao clássico de George Caird sobre as imagens da Bíblia. No mesmo ano ela resenhou na Mennonite Quarterly Review o estudo de Marcus Meier sobre a origem dos Irmãos de Schwarzenau.

Em 2013, na Quinta Assembleia Mundial dos Irmãos, falou sobre “Palavra e Espírito na espiritualidade dos Irmãos”. Resumiu a herança do grupo assim: para os Irmãos, tanto a Palavra exterior quanto a Palavra interior, que é o Espírito, dão testemunho da Palavra viva de Deus, que é Cristo. O catálogo do seminário de 2021-2022 ainda a lista como professora; o de 2023-2024, como professora emérita. Aposentada, ela serve como pastora de ensino na Smoky Row Brethren Church, a congregação em que foi diaconisa, cuidando do discipulado e da formação espiritual.

Pensamento

Anabatista, ao lado dos arminianos

No artigo da parábola, Colijn escreveu que se aproxima da doutrina de Deus “de uma perspectiva anabatista, que tecnicamente não é arminiana”, porque o anabatismo é anterior à controvérsia arminiana dentro da Igreja Reformada, “mas é decididamente não calvinista”. Por isso a classificamos aqui como anabatista, próxima do arminianismo, na linha de Menno Simons e Balthasar Hubmaier. Nos pontos centrais da salvação ela fica com os arminianos: Deus quer salvar todos, a graça pode ser recusada, a eleição é em Cristo e a perseverança é condicional. A Sociedade dos Arminianos Evangélicos apresentou o livro dela de 2010 como “um novo livro arminiano” sobre a salvação.

A graça vem primeiro

A parábola do navio começa por uma concordância. Todos os cristãos ortodoxos, escreveu Colijn, creem que o pecador está em perigo de morte eterna e que a única esperança é ser resgatado por Deus, pela obra de Cristo; e ninguém pode ser resgatado a menos que Deus tome a iniciativa, estenda a oferta e capacite a pessoa a recebê-la. A diferença com o calvinismo, para ela, está na intenção de Deus: anabatistas e arminianos creem que Deus deseja resgatar todos, convida todos e capacita a responder todos os que ouvem o convite.

É o que o arminianismo clássico chama de graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana e liberta a vontade para crer (ver a graça preveniente em Armínio). A crítica de Colijn mira o caráter de Deus. Se ele anuncia a todos um chamado geral ao qual não podem responder e reserva o chamado eficaz para alguns, tem uma vontade secreta que contradiz a vontade revelada no evangelho. Ela cita a imagem de John Wesley em Predestinação calmamente considerada (1752): o Deus que convida os prisioneiros a sair decidido a nunca abrir a porta. E responde a quem diz que não podemos julgar a Deus pelas nossas ideias de justiça lembrando que as Escrituras mandam imitar o caráter dele: “sereis santos, porque eu sou santo” (Levítico 11:45, Almeida Revista e Corrigida, como as demais citações bíblicas deste texto) e “sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso” (Lucas 6:36). Com o anabatista Pilgram Marpeck, ela conclui que a pergunta não é o que Deus pode fazer, mas o que Deus escolheu fazer, e que ele revelou esse plano em Jesus Cristo.

Muitas imagens da salvação

A tese de Images of Salvation in the New Testament cabe numa frase da autora: “O Novo Testamento não desenvolve uma doutrina sistemática da salvação”. Ele oferece imagens tiradas de ângulos diferentes. De um ângulo, o problema humano é a rebelião contra Deus, e a salvação se parece com viver sob o reinado dele. De outro, o problema é a escravidão a forças de dentro e de fora, e a salvação é liberdade. De um terceiro, o problema é a alienação de Deus, dos outros, da criação e de si mesmo, e a salvação é reconciliação. Os treze capítulos vão da herança na nova aliança à perseverança, passando por reino, vida eterna, nova criação, redenção, adoção, justificação, eleição e santificação.

O método, que ela chama de realismo crítico, vem da formação literária: ouvir cada autor no seu ambiente histórico, ver como os textos funcionam como literatura e só então fazer a pergunta teológica.

Eleição em Cristo

No capítulo “Eleição em Cristo para o bem do mundo”, ser escolhido por Deus é ser chamado ao serviço e à bênção. Cristo é o Eleito, e a igreja é eleita nele. Nas palavras dela, a eleição de Cristo e da igreja em Cristo acontece na eternidade, enquanto a eleição dos indivíduos para a salvação acontece no tempo, quando eles respondem ao evangelho. Para explicar como Deus pode predestinar sem determinar quem entra, ela usa uma imagem de sala de aula: a professora pode decidir oferecer um curso e definir de antemão que ele valerá quatro créditos sem decidir quais alunos vão se matricular. Ela dialoga com Robert Shank, para quem a eleição é incondicional para a igreja e condicional para os indivíduos, e acha mais forte a leitura arminiana clássica da presciência em Romanos 8:29 e 1 Pedro 1:2. É a mesma eleição corporativa que o site expõe ao tratar dos decretos de Deus na teologia arminiana.

Perseverança condicional e certeza

No estudo de 1990 sobre Paulo, a partir de 1 Coríntios 15:2 (“se o retiverdes tal como vo-lo tenho anunciado; se não é que crestes em vão”), ela concluiu que a concepção de salvação de Paulo “inclui certeza, mas não segurança eterna”. A certeza se apoia na obra completa de Cristo, na ação presente do Espírito e na promessa da ressurreição, e não na lembrança da conversão.

No artigo de 1996, a salvação em Hebreus é peregrinação rumo à promessa, e “a essência da salvação é o culto”: aproximar-se de Deus pelo novo e vivo caminho que Cristo abriu (Hebreus 10:19-22). O contrário é afastar-se, com “um coração mau e infiel” (Hebreus 3:12). Ela afirma que a salvação final depende de uma fé obediente que mantém a confissão e vive da promessa de Deus, e lê Hebreus 6:4-6 como advertência dirigida a quem de fato experimentou os dons da salvação. Mesmo assim, insiste, Hebreus não baseia a certeza do crente nas obras: a base é a intercessão permanente de Cristo, que “pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus” (Hebreus 7:25). Ver também apostasia na Bíblia.

No estudo de 1998 sobre Marcos, a salvação é dom e exigência. O Evangelho, escreveu, nunca sugere que o discipulado conquista a salvação; o discipulado é apenas a única resposta adequada ao reino de Deus presente em Jesus. É uma tese bem anabatista, a do discipulado como forma da fé, e evita fazer da obediência um mérito.

Mulheres na liderança

O artigo de 2002 sobre as mulheres troca a briga por versículos isolados por uma teologia bíblica que segue a história da salvação: a liderança das mulheres concedida na criação, ferida na queda, restaurada na redenção e confirmada na consumação. Ela mostra que a palavra hebraica ‘ezer, de Gênesis 2:18, é usada para o próprio Deus como socorro de Israel e não indica subordinação. Para ela, proibir hoje a plena participação das mulheres no ministério tira credibilidade do evangelho. A posição combina com a história da Igreja dos Irmãos, cujos fundadores progressistas, nos anos 1880, já defendiam a ordenação de mulheres.

Onde ela se afasta do site

Há três diferenças com a declaração de fé do Diego e com o arminianismo de Armínio. A primeira está no teísmo aberto. Em 2002 Colijn classificou o teísmo aberto como “uma versão do arminianismo”, pediu que os seus defensores não fossem expulsos da comunhão evangélica e lembrou o lema adotado pelos Irmãos: “No essencial, unidade; no não essencial, liberdade; em tudo, caridade”. O site rejeita o teísmo aberto e afirma que Deus conhece todo o futuro, inclusive as decisões livres (ver presciência, eleição e predestinação). A segunda está na justificação. No capítulo “Justificação pela fé (fidelidade)”, Colijn conversa com a Nova Perspectiva sobre Paulo e lê a justificação no quadro da aliança: a justiça de Deus é a fidelidade dele às promessas, e a justificação é a vindicação final da igreja como povo de Deus. A declaração do site, com Armínio e Wesley, afirma a imputação da justiça de Cristo ao pecador que crê. A terceira é de detalhe: quando Colijn diz que Deus capacita a responder “todos os que ouvem o convite”, ela liga a graça à pregação, enquanto a declaração do site afirma que o Espírito age em todas as pessoas.

Colijn ajudou leitores evangélicos a ver a salvação como mais do que um tribunal: herança, cidadania, cura, adoção, peregrinação e culto, tudo obra da graça de Deus em Cristo.

Obras principais

  • “The Three Tenses of Salvation in Paul’s Letters”, Ashland Theological Journal 22 (1990).
  • “Paul’s Use of the ‘In Christ’ Formula”, Ashland Theological Journal 23 (1991).
  • “A Biblical and Contemporary Model of Ministry”, Ashland Theological Journal 27 (1995).
  • “‘Let Us Approach’: Soteriology in the Epistle to the Hebrews”, Journal of the Evangelical Theological Society 39, n. 4 (1996).
  • “Salvation as Discipleship in the Gospel of Mark”, Ashland Theological Journal 30 (1998).
  • “Open Theism: Framing the Discussion”, Ashland Theological Journal 34 (2002).
  • “A Biblical Theology of Women in Leadership”, Ashland Theological Journal 34 (2002).
  • “Family in the Bible: A Brief Survey”, Ashland Theological Journal 36 (2004).
  • “A Parable of Calvinism”, Ashland Theological Journal 36 (2004).
  • Images of Salvation in the New Testament (IVP Academic, 2010).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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