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HistóriaTeólogos arminianos1 de 125

Caspar Brandt: o pregador remonstrante que escreveu a vida de Armínio

Diego Gonçalves12 min de leitura2.467 palavras

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Neste texto

Em 1724, um jovem de Amsterdã chamado Gerard Brandt mandou para a gráfica um manuscrito em latim que o pai começara a escrever quase trinta anos antes. Caspar Brandt morrera em 1696, com o texto quase pronto, quando já preparava a impressão. O filho, ainda menor de idade, herdou os papéis, que ficaram sob a guarda de um tutor; com a morte do tutor, o manuscrito passou a outras mãos e sumiu por anos, até que Gerard conseguiu reavê-lo. O livro saiu com o título Historia vitae Jacobi Arminii, a história da vida de Jacó Armínio, e se tornou a biografia clássica do pastor de Amsterdã que deu nome ao arminianismo.

Retrato de Caspar Brandt
Retrato de Caspar Brandt, gravura de Jacob Houbraken a partir de pintura de Michiel van Musscher, com versos de Claes Bruin, entre 1708 e 1732. Rijksmuseum, domínio público (CC0), via Wikimedia Commons.

Vida

Neto de Barlaeus, filho de Brandt

Caspar Brandt nasceu em Nieuwkoop, na Holanda, em 25 de junho de 1653. Era o filho mais velho de Geeraert Brandt (1626-1685), pregador remonstrante, poeta e historiador, autor de uma célebre História da Reforma nos Países Baixos, e de Susanna van Baerle (1622-1674). A mãe era filha do humanista Caspar Barlaeus, professor do Athenaeum Illustre de Amsterdã e autor da história latina do governo de Maurício de Nassau no Brasil holandês (1647). O menino recebeu o nome do avô. O irmão Joannes, nascido em 1660, também seria pastor remonstrante e poeta.

Os remonstrantes, herdeiros de Armínio, tinham sido depostos e exilados depois que o Sínodo de Dort (1618-1619) condenou a Remonstrância. Quando Caspar nasceu, a Irmandade Remonstrante já vivia como igreja tolerada, com um seminário próprio em Amsterdã, onde Simão Episcópio fora o primeiro professor.

Em 1660 o pai foi chamado para a igreja remonstrante de Hoorn, e ali Caspar aprendeu latim e letras sob o reitor Johannes van Briemen. Em 1667 a família se mudou para Amsterdã, onde o pai assumiu a congregação remonstrante da cidade. Na escola latina, Caspar estudou com tanto empenho que, em nove meses, passou com o primeiro prêmio para a classe mais alta, a do reitor Hadrianus Junius. Em 1669 passou aos estudos superiores no Athenaeum Illustre e, no seminário remonstrante, estudou filosofia e teologia com Philippus van Limborch, o principal teólogo da irmandade na época. Em 1674 foi aprovado no exame de proponente, a licença para pregar e receber chamado de uma igreja.

Seis igrejas em vinte anos

Na Grande Assembleia da irmandade, em 17 de julho de 1674, Brandt aceitou o chamado da pequena congregação de Schoonhoven, onde ficou três anos. Em 1678 passou para Hoorn, a igreja onde o pai tinha servido. Ali começou a sofrer de uma doença persistente, e em outubro de 1679 aceitou o chamado de Warmond, perto de Leiden, onde também ajudava os pregadores remonstrantes da cidade universitária. Em 11 de agosto de 1680 casou-se ali com Sara Zwaardekroon, que lhe deu quatro filhos.

Em 1682 a saúde melhorou o bastante para que aceitasse Alkmaar, onde ficou só alguns meses. Em setembro de 1683, chamado por unanimidade, assumiu a igreja de Roterdã. O pai morreu em 1685, e a congregação de Amsterdã quis o filho no lugar dele. Caspar recusou o primeiro convite, em novembro de 1685, mas aceitou o segundo, em julho de 1686, e sucedeu ao pai no púlpito remonstrante da cidade.

Nos anos seguintes cuidou também da herança literária do pai. Com o irmão Joannes, publicou as obras póstumas de Geeraert Brandt: um volume de sermões (1685), a biografia do almirante Michiel de Ruyter (1687), os poemas (1688) e o Dagwyser, um calendário de fatos históricos (1689).

A vida familiar foi marcada pelo luto. Sara morreu em Roterdã. A segunda mulher, Leonora Tongerloo, com quem se casou em Haia, morreu em Amsterdã em 9 de dezembro de 1689, depois de lhe dar um filho. Em 1691 casou-se em Amsterdã com Agatha Paets, que lhe sobreviveu.

O pastor e a doença

Quem o conheceu descreveu um pastor fiel até o escrúpulo, de vida irrepreensível, que pregava com seriedade porque estava convencido do que dizia. Estudava no quarto de manhã cedo e tarde da noite, à luz de vela, mesmo no frio mais duro, e evitava os banquetes dos poderosos.

Joannes, o irmão, deixou um relato franco de outro lado dessa vida. Caspar herdou do avô Barlaeus, junto com o nome, “uma doença do entendimento” que de tempos em tempos o abatia. Os primeiros sinais apareceram no começo do ministério, e em Hoorn as crises foram tão fortes que ele lutava com angústias “mortais”, nascidas de uma compreensão distorcida das coisas, que ele mesmo corrigia quando a saúde voltava. Foi por causa da doença que ele deixou Hoorn. Mesmo assim, nos dez anos de Amsterdã, exerceu o cargo até onde o corpo frágil permitia. Morreu em Amsterdã em 5 de outubro de 1696, aos 43 anos, de um derrame. Joannes assumiu o lugar dele na congregação.

O biógrafo de Armínio e de Grócio

Do pai, Brandt herdou o gosto pela pesquisa histórica, que rendeu duas biografias. A primeira foi a de Jacó Armínio, escrita nas horas livres e em latim, para que todo o mundo cristão pudesse julgar a piedade e a doutrina de um homem cujo nome corria cercado de boatos. Ele se apoiou na oração fúnebre de Petrus Bertius, nos escritos de Johannes Wtenbogaert e em manuscritos inéditos, como o calendário pessoal de Armínio e as cartas dele a Wtenbogaert. O livro saiu em Amsterdã em 1724, com os poemas fúnebres que Hugo Grócio e Dominicus Baudius escreveram para Armínio. No ano seguinte, o historiador luterano Johann Lorenz von Mosheim o reeditou em Brunswick, com prefácio e notas.

A obra atravessou o mar. James Nichols a incorporou, em partes, às Works of James Arminius (1825). Nathan Bangs, ao resumir Nichols em 1843, levou trechos de Brandt para a sua vida de Armínio. Em 1854, o escocês John Guthrie publicou a tradução inglesa completa, e em 1857 Thomas Osmond Summers a reeditou em Nashville, com introdução sua, para a Igreja Metodista Episcopal do Sul.

A segunda biografia foi a de Hugo Grócio, o jurista que defendeu os remonstrantes. Brandt a levou até o começo da embaixada de Grócio na França a serviço da Suécia e não pôde terminá-la. Adriaan van Cattenburgh, professor do seminário remonstrante, completou a narrativa até a morte de Grócio, e a obra saiu em 1727, em dois volumes. Brandt tinha usado as memórias que o próprio Grócio escrevera na prisão de Loevestein. Em 1866, o historiador Robert Fruin encontrou na biblioteca remonstrante de Amsterdã o autógrafo de uma dessas memórias, dada como perdida, e comparou-o com o livro. Concluiu que Brandt seguira o texto de perto e que era “honesto e exato demais” para se afastar do relato de Grócio. Por muito tempo, o livro continuou a ser a base de todo estudo sobre a vida de Grócio.

Pregador e poeta

Brandt ficou famoso sobretudo como pregador. Os sermões foram publicados depois da sua morte, em parte pelo irmão: uma exposição do pai-nosso em dez sermões (por volta de 1705), onze sermões para dias de oração e penitência, os Bede- en boetstoffen (1707), e uma coletânea de trinta e dois sermões com mais três, reeditada em Leiden em 1737. Ao resenhar o volume de 1707, a revista Boekzaal der geleerde Wereld observou que aqueles sermões não se perdiam em disputas inúteis nem em conjecturas incertas, mas tratavam de coisas essenciais, com aplicações práticas e edificantes, numa língua melhor que a de costume nesse gênero. Ainda no século XIX, os sermões dele eram apontados como modelo de pregação que põe o trabalho dos teólogos do passado a serviço das necessidades do presente.

Como poeta, escreveu sobretudo versos de ocasião: epitáfios, elegias, como a da rainha Maria II da Inglaterra (1695), e versos para amigos. A Poëzy saiu em Amsterdã em 1701 e, em 1725, num volume único com os poemas de Joannes. O crítico Witsen Geysbeek achou na sua Christelyke bespiegeling van ‘t laetste oordeel (meditação cristã sobre o juízo final) expressões “ousadas e vigorosas”, dignas de Milton. No poema Hervormt Christendom in Engelant (o cristianismo reformado na Inglaterra), sobre a Revolução Gloriosa de 1688, que levou o estatuder Guilherme III ao trono inglês, há um verso que pergunta: “Que importa o nome de remonstrantes e contra-remonstrantes?”

Pensamento

Brandt foi arminiano clássico, da linha remonstrante. Formou-se no seminário da Irmandade Remonstrante com Limborch, pastoreou só igrejas remonstrantes, sucedeu ao pai no púlpito de Amsterdã e dedicou anos a defender, com documentos, a memória de Armínio. A teologia dele aparece menos em tratados que na história que escreveu, e nela três ideias se destacam.

A história como defesa

A biografia de Armínio é uma apologia feita de fontes. No primeiro capítulo, Brandt diz que pretende oferecer “uma memória fiel e resumida” da vida dele, tirada de documentos “os mais autênticos” que pôde reunir (Historia vitae Jacobi Arminii, 1724, cap. 1). O argumento de abertura é histórico. A predestinação, lembra ele, sempre dividiu os cristãos: Agostinho e os seus discípulos de um lado, João Crisóstomo e Ambrósio de outro; entre os reformadores, Lutero, Calvino e Beza de um lado, Erasmo, Melanchthon, Bullinger e Latimer de outro. Nos próprios Países Baixos houve pastores e professores que pensavam diferente sem quebrar a paz da igreja nem a concórdia entre irmãos. O conflito começou quando um grupo quis transformar a sua opinião sobre os decretos divinos em lei e excluir do ministério quem discordasse. Armínio, nessa leitura, não foi o autor de um cisma, mas o pastor que resistiu a esse estreitamento.

O livro conta também como Armínio mudou de ideia. Em Amsterdã, o consistório pediu que ele refutasse o humanista Dirck Coornhert, crítico da predestinação absoluta, e o professor Martinus Lydius, de Franeker, pediu que defendesse Beza contra dois pastores de Delft. Ao pesar os argumentos dos dois lados à luz da Escritura e dos antigos, ele achou dificuldades sem saída nas duas formas de decreto absoluto, interrompeu a refutação e passou a estudar o tema a fundo.

A graça e o modo como ela age

Brandt descreve com cuidado a conferência de Haia, em agosto de 1609, entre Armínio e Gomaro. No ponto da graça e do livre-arbítrio, os dois concordavam que o ser humano, por si mesmo e pelas próprias forças, não pode realizar nada do bem que salva. A diferença estava no modo de agir da graça: Armínio declarou que aceitava todas as operações da graça divina que se pudessem afirmar na conversão, contanto que nenhuma delas fosse irresistível. É exatamente o que a Declaração de Sentimentos de 1608 ensina: a controvérsia não é sobre quanto se atribui à graça, mas sobre se ela pode ou não ser recusada. Graça resistível quer dizer que Deus age primeiro, liberta a vontade e chama de verdade, sem arrastar ninguém à força.

Na mesma conferência, Armínio negou que a fé fosse o “instrumento” da justificação, porque a justificação é ato de Deus; a fé é o modo humano de receber Cristo, e Deus a aceita com graça. Sobre a perseverança, Brandt registra que Armínio não negava a doutrina, mas expunha dúvidas e dificuldades, a mesma posição aberta que a Remonstrância de 1610 tomou no quinto artigo.

O pastor acima do polemista

O retrato que Brandt traça de Armínio mostra o tipo de ministro que ele admirava. Durante a peste de 1602, Armínio entrou numa casa pobre onde toda a família agonizava de sede e onde os vizinhos não ousavam pôr o pé, e deu de beber e consolou cada um. O lema favorito dele era Bona conscientia paradisus, “a boa consciência é um paraíso”. As condenações em série de quem discordava em pontos secundários o levavam às lágrimas, e ele repetia o lamento de Hilário de Poitiers: enquanto um lança anátemas contra o outro, quase ninguém é ganho para Cristo.

Esse ideal combina com a pregação do próprio Brandt, centrada no pai-nosso, na oração e no arrependimento, sem gosto pela especulação. O filho Gerard resumiu a lição do livro no prefácio de 1724: o espírito da religião cristã está mais na mansidão e no amor do que nas opiniões especulativas, e nas controvérsias que não ferem os fundamentos da fé a tolerância mútua é necessária.

A declaração de fé deste site acompanha Brandt no essencial da soteriologia arminiana: graça que vem antes, que é necessária para todo bem e que pode ser resistida. Ela acrescenta a doutrina da inteira santificação, que John Wesley formularia no século seguinte e que não fazia parte do vocabulário dos remonstrantes holandeses do tempo de Brandt.

Obras principais

  • Historia vitae Jacobi Arminii (Amsterdã, 1724; edição de J. L. von Mosheim, Brunswick, 1725).
  • Historie van het leven des heeren Huig de Groot, continuada por Adriaan van Cattenburgh (Dordrecht e Amsterdã, 1727, 2 volumes; 2ª ed., 1732).
  • Poëzy (Amsterdã, 1701; com a poesia de Joannes Brandt, 1725).
  • Exposição do pai-nosso em dez sermões (Amsterdã, c. 1705).
  • Bede- en boetstoffen in elf predikaatsien (Amsterdã, 1707).
  • XXXII predikatien over verscheide texten der Heilige Schriften (póstumo; nova edição com três sermões a mais, Leiden, 1737).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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