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Caspar Brandt: o pregador remonstrante que escreveu a vida de Armínio
Em 1724, um jovem de Amsterdã chamado Gerard Brandt mandou para a gráfica um manuscrito em latim que o pai começara a escrever quase trinta anos antes. Caspar Brandt morrera em 1696, com o texto quase pronto, quando já preparava a impressão. O filho, ainda menor de idade, herdou os papéis, que ficaram sob a guarda de um tutor; com a morte do tutor, o manuscrito passou a outras mãos e sumiu por anos, até que Gerard conseguiu reavê-lo. O livro saiu com o título Historia vitae Jacobi Arminii, a história da vida de Jacó Armínio, e se tornou a biografia clássica do pastor de Amsterdã que deu nome ao arminianismo.
Vida
Neto de Barlaeus, filho de Brandt
Caspar Brandt nasceu em Nieuwkoop, na Holanda, em 25 de junho de 1653. Era o filho mais velho de Geeraert Brandt (1626-1685), pregador remonstrante, poeta e historiador, autor de uma célebre História da Reforma nos Países Baixos, e de Susanna van Baerle (1622-1674). A mãe era filha do humanista Caspar Barlaeus, professor do Athenaeum Illustre de Amsterdã e autor da história latina do governo de Maurício de Nassau no Brasil holandês (1647). O menino recebeu o nome do avô. O irmão Joannes, nascido em 1660, também seria pastor remonstrante e poeta.
Os remonstrantes, herdeiros de Armínio, tinham sido depostos e exilados depois que o Sínodo de Dort (1618-1619) condenou a Remonstrância. Quando Caspar nasceu, a Irmandade Remonstrante já vivia como igreja tolerada, com um seminário próprio em Amsterdã, onde Simão Episcópio fora o primeiro professor.
Em 1660 o pai foi chamado para a igreja remonstrante de Hoorn, e ali Caspar aprendeu latim e letras sob o reitor Johannes van Briemen. Em 1667 a família se mudou para Amsterdã, onde o pai assumiu a congregação remonstrante da cidade. Na escola latina, Caspar estudou com tanto empenho que, em nove meses, passou com o primeiro prêmio para a classe mais alta, a do reitor Hadrianus Junius. Em 1669 passou aos estudos superiores no Athenaeum Illustre e, no seminário remonstrante, estudou filosofia e teologia com Philippus van Limborch, o principal teólogo da irmandade na época. Em 1674 foi aprovado no exame de proponente, a licença para pregar e receber chamado de uma igreja.
Seis igrejas em vinte anos
Na Grande Assembleia da irmandade, em 17 de julho de 1674, Brandt aceitou o chamado da pequena congregação de Schoonhoven, onde ficou três anos. Em 1678 passou para Hoorn, a igreja onde o pai tinha servido. Ali começou a sofrer de uma doença persistente, e em outubro de 1679 aceitou o chamado de Warmond, perto de Leiden, onde também ajudava os pregadores remonstrantes da cidade universitária. Em 11 de agosto de 1680 casou-se ali com Sara Zwaardekroon, que lhe deu quatro filhos.
Em 1682 a saúde melhorou o bastante para que aceitasse Alkmaar, onde ficou só alguns meses. Em setembro de 1683, chamado por unanimidade, assumiu a igreja de Roterdã. O pai morreu em 1685, e a congregação de Amsterdã quis o filho no lugar dele. Caspar recusou o primeiro convite, em novembro de 1685, mas aceitou o segundo, em julho de 1686, e sucedeu ao pai no púlpito remonstrante da cidade.
Nos anos seguintes cuidou também da herança literária do pai. Com o irmão Joannes, publicou as obras póstumas de Geeraert Brandt: um volume de sermões (1685), a biografia do almirante Michiel de Ruyter (1687), os poemas (1688) e o Dagwyser, um calendário de fatos históricos (1689).
A vida familiar foi marcada pelo luto. Sara morreu em Roterdã. A segunda mulher, Leonora Tongerloo, com quem se casou em Haia, morreu em Amsterdã em 9 de dezembro de 1689, depois de lhe dar um filho. Em 1691 casou-se em Amsterdã com Agatha Paets, que lhe sobreviveu.
O pastor e a doença
Quem o conheceu descreveu um pastor fiel até o escrúpulo, de vida irrepreensível, que pregava com seriedade porque estava convencido do que dizia. Estudava no quarto de manhã cedo e tarde da noite, à luz de vela, mesmo no frio mais duro, e evitava os banquetes dos poderosos.
Joannes, o irmão, deixou um relato franco de outro lado dessa vida. Caspar herdou do avô Barlaeus, junto com o nome, “uma doença do entendimento” que de tempos em tempos o abatia. Os primeiros sinais apareceram no começo do ministério, e em Hoorn as crises foram tão fortes que ele lutava com angústias “mortais”, nascidas de uma compreensão distorcida das coisas, que ele mesmo corrigia quando a saúde voltava. Foi por causa da doença que ele deixou Hoorn. Mesmo assim, nos dez anos de Amsterdã, exerceu o cargo até onde o corpo frágil permitia. Morreu em Amsterdã em 5 de outubro de 1696, aos 43 anos, de um derrame. Joannes assumiu o lugar dele na congregação.
O biógrafo de Armínio e de Grócio
Do pai, Brandt herdou o gosto pela pesquisa histórica, que rendeu duas biografias. A primeira foi a de Jacó Armínio, escrita nas horas livres e em latim, para que todo o mundo cristão pudesse julgar a piedade e a doutrina de um homem cujo nome corria cercado de boatos. Ele se apoiou na oração fúnebre de Petrus Bertius, nos escritos de Johannes Wtenbogaert e em manuscritos inéditos, como o calendário pessoal de Armínio e as cartas dele a Wtenbogaert. O livro saiu em Amsterdã em 1724, com os poemas fúnebres que Hugo Grócio e Dominicus Baudius escreveram para Armínio. No ano seguinte, o historiador luterano Johann Lorenz von Mosheim o reeditou em Brunswick, com prefácio e notas.
A obra atravessou o mar. James Nichols a incorporou, em partes, às Works of James Arminius (1825). Nathan Bangs, ao resumir Nichols em 1843, levou trechos de Brandt para a sua vida de Armínio. Em 1854, o escocês John Guthrie publicou a tradução inglesa completa, e em 1857 Thomas Osmond Summers a reeditou em Nashville, com introdução sua, para a Igreja Metodista Episcopal do Sul.
A segunda biografia foi a de Hugo Grócio, o jurista que defendeu os remonstrantes. Brandt a levou até o começo da embaixada de Grócio na França a serviço da Suécia e não pôde terminá-la. Adriaan van Cattenburgh, professor do seminário remonstrante, completou a narrativa até a morte de Grócio, e a obra saiu em 1727, em dois volumes. Brandt tinha usado as memórias que o próprio Grócio escrevera na prisão de Loevestein. Em 1866, o historiador Robert Fruin encontrou na biblioteca remonstrante de Amsterdã o autógrafo de uma dessas memórias, dada como perdida, e comparou-o com o livro. Concluiu que Brandt seguira o texto de perto e que era “honesto e exato demais” para se afastar do relato de Grócio. Por muito tempo, o livro continuou a ser a base de todo estudo sobre a vida de Grócio.
Pregador e poeta
Brandt ficou famoso sobretudo como pregador. Os sermões foram publicados depois da sua morte, em parte pelo irmão: uma exposição do pai-nosso em dez sermões (por volta de 1705), onze sermões para dias de oração e penitência, os Bede- en boetstoffen (1707), e uma coletânea de trinta e dois sermões com mais três, reeditada em Leiden em 1737. Ao resenhar o volume de 1707, a revista Boekzaal der geleerde Wereld observou que aqueles sermões não se perdiam em disputas inúteis nem em conjecturas incertas, mas tratavam de coisas essenciais, com aplicações práticas e edificantes, numa língua melhor que a de costume nesse gênero. Ainda no século XIX, os sermões dele eram apontados como modelo de pregação que põe o trabalho dos teólogos do passado a serviço das necessidades do presente.
Como poeta, escreveu sobretudo versos de ocasião: epitáfios, elegias, como a da rainha Maria II da Inglaterra (1695), e versos para amigos. A Poëzy saiu em Amsterdã em 1701 e, em 1725, num volume único com os poemas de Joannes. O crítico Witsen Geysbeek achou na sua Christelyke bespiegeling van ‘t laetste oordeel (meditação cristã sobre o juízo final) expressões “ousadas e vigorosas”, dignas de Milton. No poema Hervormt Christendom in Engelant (o cristianismo reformado na Inglaterra), sobre a Revolução Gloriosa de 1688, que levou o estatuder Guilherme III ao trono inglês, há um verso que pergunta: “Que importa o nome de remonstrantes e contra-remonstrantes?”
Pensamento
Brandt foi arminiano clássico, da linha remonstrante. Formou-se no seminário da Irmandade Remonstrante com Limborch, pastoreou só igrejas remonstrantes, sucedeu ao pai no púlpito de Amsterdã e dedicou anos a defender, com documentos, a memória de Armínio. A teologia dele aparece menos em tratados que na história que escreveu, e nela três ideias se destacam.
A história como defesa
A biografia de Armínio é uma apologia feita de fontes. No primeiro capítulo, Brandt diz que pretende oferecer “uma memória fiel e resumida” da vida dele, tirada de documentos “os mais autênticos” que pôde reunir (Historia vitae Jacobi Arminii, 1724, cap. 1). O argumento de abertura é histórico. A predestinação, lembra ele, sempre dividiu os cristãos: Agostinho e os seus discípulos de um lado, João Crisóstomo e Ambrósio de outro; entre os reformadores, Lutero, Calvino e Beza de um lado, Erasmo, Melanchthon, Bullinger e Latimer de outro. Nos próprios Países Baixos houve pastores e professores que pensavam diferente sem quebrar a paz da igreja nem a concórdia entre irmãos. O conflito começou quando um grupo quis transformar a sua opinião sobre os decretos divinos em lei e excluir do ministério quem discordasse. Armínio, nessa leitura, não foi o autor de um cisma, mas o pastor que resistiu a esse estreitamento.
O livro conta também como Armínio mudou de ideia. Em Amsterdã, o consistório pediu que ele refutasse o humanista Dirck Coornhert, crítico da predestinação absoluta, e o professor Martinus Lydius, de Franeker, pediu que defendesse Beza contra dois pastores de Delft. Ao pesar os argumentos dos dois lados à luz da Escritura e dos antigos, ele achou dificuldades sem saída nas duas formas de decreto absoluto, interrompeu a refutação e passou a estudar o tema a fundo.
A graça e o modo como ela age
Brandt descreve com cuidado a conferência de Haia, em agosto de 1609, entre Armínio e Gomaro. No ponto da graça e do livre-arbítrio, os dois concordavam que o ser humano, por si mesmo e pelas próprias forças, não pode realizar nada do bem que salva. A diferença estava no modo de agir da graça: Armínio declarou que aceitava todas as operações da graça divina que se pudessem afirmar na conversão, contanto que nenhuma delas fosse irresistível. É exatamente o que a Declaração de Sentimentos de 1608 ensina: a controvérsia não é sobre quanto se atribui à graça, mas sobre se ela pode ou não ser recusada. Graça resistível quer dizer que Deus age primeiro, liberta a vontade e chama de verdade, sem arrastar ninguém à força.
Na mesma conferência, Armínio negou que a fé fosse o “instrumento” da justificação, porque a justificação é ato de Deus; a fé é o modo humano de receber Cristo, e Deus a aceita com graça. Sobre a perseverança, Brandt registra que Armínio não negava a doutrina, mas expunha dúvidas e dificuldades, a mesma posição aberta que a Remonstrância de 1610 tomou no quinto artigo.
O pastor acima do polemista
O retrato que Brandt traça de Armínio mostra o tipo de ministro que ele admirava. Durante a peste de 1602, Armínio entrou numa casa pobre onde toda a família agonizava de sede e onde os vizinhos não ousavam pôr o pé, e deu de beber e consolou cada um. O lema favorito dele era Bona conscientia paradisus, “a boa consciência é um paraíso”. As condenações em série de quem discordava em pontos secundários o levavam às lágrimas, e ele repetia o lamento de Hilário de Poitiers: enquanto um lança anátemas contra o outro, quase ninguém é ganho para Cristo.
Esse ideal combina com a pregação do próprio Brandt, centrada no pai-nosso, na oração e no arrependimento, sem gosto pela especulação. O filho Gerard resumiu a lição do livro no prefácio de 1724: o espírito da religião cristã está mais na mansidão e no amor do que nas opiniões especulativas, e nas controvérsias que não ferem os fundamentos da fé a tolerância mútua é necessária.
A declaração de fé deste site acompanha Brandt no essencial da soteriologia arminiana: graça que vem antes, que é necessária para todo bem e que pode ser resistida. Ela acrescenta a doutrina da inteira santificação, que John Wesley formularia no século seguinte e que não fazia parte do vocabulário dos remonstrantes holandeses do tempo de Brandt.
Obras principais
- Historia vitae Jacobi Arminii (Amsterdã, 1724; edição de J. L. von Mosheim, Brunswick, 1725).
- Historie van het leven des heeren Huig de Groot, continuada por Adriaan van Cattenburgh (Dordrecht e Amsterdã, 1727, 2 volumes; 2ª ed., 1732).
- Poëzy (Amsterdã, 1701; com a poesia de Joannes Brandt, 1725).
- Exposição do pai-nosso em dez sermões (Amsterdã, c. 1705).
- Bede- en boetstoffen in elf predikaatsien (Amsterdã, 1707).
- XXXII predikatien over verscheide texten der Heilige Schriften (póstumo; nova edição com três sermões a mais, Leiden, 1737).
Para aprofundar
- Caspar Brandt, The Life of James Arminius, D.D., tradução de John Guthrie (Londres e Glasgow, 1854), Internet Archive.
- Caspar Brandt, The Life of James Arminius, D.D., com introdução de Thomas O. Summers (Nashville, 1857), Internet Archive.
- A. J. van der Aa, “Brandt (Kaspar)”, Biographisch woordenboek der Nederlanden, vol. 2 (1855), DBNL.
- H. Brugmans, “Brandt (Caspar)”, Nieuw Nederlandsch biografisch woordenboek, vol. 6 (1924), DBNL.
- L. A. van Langeraad e H. Visscher, “Brandt (Kaspar of Caspar)”, Biographisch woordenboek van protestantsche godgeleerden in Nederland, vol. 1 (1907), DBNL.
- E. O. G. Haitsma Mulier e G. A. C. van der Lem, “Brandt, Caspar”, Repertorium van geschiedschrijvers in Nederland 1500-1800 (1990), DBNL.
- P. G. Witsen Geysbeek, “Brandt (Kaspar en Joannes)”, Biographisch anthologisch en critisch woordenboek der Nederduitsche dichters, vol. 1 (1821), DBNL.
- Robert Fruin, “Memoriën van Hugo de Groot” (1866), em Verspreide geschriften, vol. 8, DBNL.
- Caspar Brandt, base ECARTICO, Universidade de Amsterdã.
- C. Brandt, 1653-1696, Album Academicum da Universidade de Amsterdã.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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