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Bernhard Johnson Jr.: O evangelista das cruzadas que fundou a EETAD
Neste texto
- Vida
- Filho de missionários no sul de Minas
- O pastor em Minas Gerais
- A Cruzada Boas Novas
- O mundo pentecostal e evangélico
- As escolas e a obra social
- A última cruzada
- Pensamento
- Um pentecostal arminiano
- O nome de Jesus
- A cura divina e a glória de Cristo
- O evangelista que fundou escolas
- Onde ele difere da nossa declaração de fé
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Numa noite de 1976, em sua casa em San José, na Califórnia, o missionário Bernhard Johnson Jr. foi despertado pelo que descreveu como um ser angelical que tinha algo a lhe mostrar. Ele viu, como um filme projetado numa tela, os planos de uma escola, os nomes e os rostos das pessoas que deveria chamar para trabalhar nela. A visão o incomodou. Havia quase doze anos ele percorria o Brasil com grandes campanhas de evangelização, e se considerava um evangelista, e não um teólogo. Muitos pastores das Assembleias de Deus da época achavam que estudar teologia esfriava a fé. Mesmo assim, ele entendeu que o tempo de ensinar tinha chegado, sem que o tempo de pregar tivesse terminado. Daquela noite nasceu a Escola de Educação Teológica das Assembleias de Deus (EETAD), em Campinas, que levou o estudo da teologia a milhares de obreiros nas igrejas do país.
Vida
Filho de missionários no sul de Minas
Bernhard Johnson Jr. nasceu em 20 de junho de 1931, em Alameda, na Califórnia. O pai, também chamado Bernhard Johnson, era sueco, e a mãe, Antonette, norueguesa. Os dois eram missionários pentecostais e, em dezembro de 1940, começaram a trabalhar no Brasil, fundando igrejas no sul de Minas Gerais. O filho chegou com nove anos e cresceu no país. Contava que o chamado para o ministério veio ainda na infância.
Jovem, foi estudar engenharia civil em Lavras, também em Minas. No quarto ano do curso teve uma experiência que descreveu como uma visão sobrenatural, e o chamado da infância voltou com força. Abandonou os planos de carreira e se matriculou no Central Bible Institute (depois Central Bible College), a escola das Assembleias de Deus americanas em Springfield, no Missouri. Lá conheceu, em 1951, Doris Pearl Puckett, de Detroit. Os dois se casaram no ano seguinte, ainda estudantes, e trabalharam juntos pelos 43 anos seguintes. Bernhard se formou em 1953. O casal teve três filhos: Elizabeth (Beth), Terry e David.
Antes de voltar ao Brasil, Bernhard pastoreou duas pequenas igrejas no norte da Califórnia, a primeira delas a Assembleia de Deus de Half Moon Bay, e passou um tempo viajando como evangelista pelos Estados Unidos. Foi ordenado ministro das Assembleias de Deus americanas.
O pastor em Minas Gerais
Em 1957, Bernhard e Doris chegaram ao Brasil como missionários das Assembleias de Deus americanas. O missionário Gustavo Bergström lhe entregou a direção do campo de Divinópolis, onde ficou até 1961. Naquele ano o pai morreu, e o filho assumiu o seu lugar à frente da igreja de Varginha. Bernhard foi um dos fundadores da convenção estadual das Assembleias de Deus em Minas Gerais e o seu primeiro presidente, cargo que ocupou até 1963. Em 1960 entrou para a mesa diretora da Sociedade Bíblica do Brasil.
A Cruzada Boas Novas
Em agosto de 1964, convencido de que Deus o chamava para a evangelização em massa, Bernhard fundou a Cruzada Boas Novas, que começou no Espírito Santo, em templos das igrejas, e mais tarde passou a se chamar Cruzada Bernhard Johnson. Em 1967 o trabalho mudou de escala. Em março ele formou uma equipe fixa, com cantores e pregadores jovens: os irmãos Otoniel e Oziel de Paula, Eliel de Carvalho, Elizeu Menezes de Oliveira e o solista Elienai Cabral, que seria a voz das cruzadas por quase nove anos. Em abril, o pastor José Ezequiel da Silva, da Assembleia de Deus de Taubaté (SP), decidiu receber a campanha num ginásio, e não no templo. Foi a primeira grande cruzada. Semanas depois, em Santos, a libertação de uma mulher chamada Rita, descrita como possuída por sete espíritos, entrou para a história da cruzada.
O formato se repetiu por quase trinta anos. A equipe chegou a fazer cerca de dez campanhas por ano, marcadas com anos de antecedência, em todas as capitais do país e em muitas cidades do interior. A maior delas aconteceu em 1984, no Rio de Janeiro, com cerca de 200 mil pessoas. De 1967 a 1995 foram 225 grandes cruzadas, com mais de 1,8 milhão de decisões por Cristo registradas. Milhares contaram ter sido curados ou libertos depois da oração dele e da equipe. Nos relatórios, Bernhard costumava encerrar os números com a mesma frase: “a Deus seja toda a honra e toda a glória”. Houve quem o chamasse de “Billy Graham do Brasil”.
Nos anos 1960 manteve na televisão o programa Palavras de Vida, e entre 1980 e 1987 um programa evangelístico semanal na televisão brasileira, que em 1985 recebeu nos Estados Unidos o troféu Silver Angel. Em 1971 a família se mudou para San José, na Califórnia, base das viagens com que Bernhard levantava recursos para a obra.
O mundo pentecostal e evangélico
Entre 1974 e 1984 presidiu o conselho dos missionários das Assembleias de Deus americanas no país. Pregou nas Conferências Mundiais Pentecostais de Londres (1976) e de Nairóbi (1982). A convite de Billy Graham, falou nas Conferências Internacionais para Evangelistas de Amsterdã, em 1983 e 1986. Foi delegado em Berlim (1986) e no congresso Lausanne II, em Manila (1989). Ao morrer, tinha pregado em cerca de setenta países; uma das últimas campanhas no exterior foi nas Bahamas, em 1993. No Brasil, ele e Doris eram respeitados como mediadores entre os diversos grupos pentecostais que cresciam desde os anos 1970.
As escolas e a obra social
Em 1972 Bernhard tinha trazido ao Brasil o ICI, o Instituto por Correspondência Internacional das Assembleias de Deus americanas, hoje Global University. Em 1973, depois de trazer ao Brasil o pastor David Wilkerson para uma série de cruzadas, ajudou a fundar o Desafio Jovem do Brasil, que presidiu até 1979.
Para montar a EETAD, ele convidou o professor Antonio Gilberto, que chefiou a equipe que escreveu o primeiro currículo. A escola se firmou em 1979, com o Curso Básico de Teologia, ano em que ficaram prontos os primeiros prédios em Campinas. O método era a educação teológica por extensão: em vez de levar o aluno para um seminário, a escola levava o livro-texto até núcleos de estudo nas igrejas locais, e o obreiro estudava sem deixar a cidade nem o trabalho. Em meados dos anos 1990 a EETAD já contava mais de 15 mil alunos. Vieram depois o Instituto Bíblico de Campinas (IBICAMP), em 1984, e a Faculdade de Educação Teológica das Assembleias de Deus (FAETAD), em 1987, com cursos de nível médio e superior. Em 1993 o Instituto Bíblico Pentecostal do Rio de Janeiro, fundado pelo missionário N. Lawrence Olson, passou a fazer parte do Ministério Bernhard Johnson.
Em 1981 ele fundou em Campinas a Associação Beneficente Evangélica para Menores (ABEM), que construía creches e escolas de educação infantil junto às igrejas, para crianças pobres. Em meados dos anos 1990 a ABEM já tinha construído onze escolas com mais de dois mil alunos, além de ensino religioso que alcançava 90 mil estudantes por mês.
Em 1983 a Bethany College, das Assembleias de Deus, em Santa Cruz (Califórnia), lhe deu o título de Doctor of Humane Letters, e em 1987 a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil o fez conselheiro vitalício da CPAD. Doris contava que ele lia pelo menos um livro por semana e gostava de escrever.
A última cruzada
Em 8 de fevereiro de 1995, Bernhard dirigiu um culto com missionários e líderes da igreja americana. No jantar de confraternização que se seguiu, sentiu-se mal e foi internado. Morreu nos Estados Unidos em 16 de fevereiro de 1995, aos 63 anos, e foi sepultado em San José. No culto memorial pregou Charles T. Crabtree, vice-superintendente geral das Assembleias de Deus americanas, diante de líderes brasileiros como José Wellington Bezerra da Costa, presidente da CGADB. O evangelista Eliel de Carvalho, companheiro das primeiras cruzadas, resumiu a vida dele dizendo que fora “uma vela que se queimou dos dois lados”.
Doris assumiu a presidência do Ministério Bernhard Johnson nos Estados Unidos e só se aposentou como missionária das Assembleias de Deus americanas em 2023, depois de 68 anos de serviço. Morreu em 27 de abril de 2025. O filho Terry, terceira geração de missionários da família no Brasil, preside a EETAD, cuja editora se chama Edições Bernhard Johnson. Em 2002 Varginha deu o nome dele a um logradouro da cidade (Lei 3.732).
Pensamento
Um pentecostal arminiano
Bernhard Johnson Jr. foi um pentecostal arminiano. Evangelista, e não teólogo de gabinete, expressou a sua teologia na pregação, e a posição dele é a das Assembleias de Deus que o ordenaram. A Declaração de Verdades Fundamentais das Assembleias de Deus americanas, que ele subscrevia como ministro, ensina que a salvação “é recebida pelo arrependimento para com Deus e pela fé no Senhor Jesus Cristo”, e o documento oficial da denominação sobre a segurança do crente (The Security of the Believer, 1978) afirma que um verdadeiro crente pode abandonar a fé em Cristo e se perder. É a perseverança condicional da tradição de Jacó Armínio: o crente está seguro enquanto permanece unido a Cristo pela fé. O primeiro currículo da escola que ele fundou saiu das mãos de Antonio Gilberto, para quem a eleição “está em Cristo” e o ensino de “uma vez salvo, salvo para sempre” é antibíblico. Sobre a raiz arminiana das Assembleias de Deus brasileiras, veja a biografia de José Gonçalves.
As cruzadas mostram essa teologia em ação. As campanhas terminavam com um apelo dirigido a todos os presentes, porque a pregação das Assembleias de Deus parte da convicção de que Cristo morreu por todos e de que o convite do evangelho é real para cada ouvinte. Esse apelo não confia na força de decisão do ouvinte: ninguém se volta para Deus por si mesmo, e quem responde ao chamado responde porque a graça preveniente, a ação do Espírito Santo que vem antes de qualquer resposta humana, o convenceu do pecado e o tornou capaz de crer, sem forçá-lo. A fé recebe o que Deus dá, e não acrescenta mérito. A frase com que Bernhard fechava os relatórios, “a Deus seja toda a honra e toda a glória”, diz o mesmo em linguagem de evangelista: o 1,8 milhão de decisões era, para ele, obra de Deus.
O nome de Jesus
O centro da pregação dele era a pessoa de Cristo. “O nome de Jesus”, insistia, “é o nome que está acima de todo nome, porque é o único nome que leva os homens a Deus.” A frase junta Filipenses 2:9 e Atos 4:12 e explica a urgência das cruzadas: se só em Cristo há salvação, o evangelho precisa chegar a todos. A pregação era simples e bíblica, e a equipe dele ficou conhecida por amar mais as pessoas do que os números.
A cura divina e a glória de Cristo
Bernhard pregava a cura divina, que as Assembleias de Deus contam entre as suas verdades fundamentais e ligam à obra de Cristo na cruz (Isaías 53:4-5; Tiago 5:14-15). Ele escreveu sobre o tema no seu livro mais conhecido no Brasil, Como receber a cura divina (CPAD), cujo subtítulo resume a ideia: é a bênção dos que têm Jesus como médico da alma e do corpo. O livro insiste que a cura não serve para engrandecer o pregador: “que toda a glória seja centrada em Cristo”, escreveu (Como receber a cura divina, 2.ª ed., 1995). A frase marca uma posição: quem cura é Cristo, e o evangelista só ora.
O evangelista que fundou escolas
Uma contribuição duradoura de Bernhard Johnson foi a convicção de que evangelização e ensino andam juntos. A EETAD respondeu à desconfiança das igrejas em relação aos seminários levando o estudo para dentro da igreja local, com livro-texto e Bíblia, sem tirar o obreiro do campo. Com a ABEM, o mesmo cuidado chegou às crianças pobres: levar alguém a Cristo era, para ele, o começo de um cuidado com a pessoa inteira. Veja também por que estudar teologia é importante.
Onde ele difere da nossa declaração de fé
Na salvação, a convergência com a declaração de fé do site é grande: a salvação pela graça mediante a fé, a expiação por todos, o chamado universal do evangelho e a perseverança condicional. As diferenças estão nos pontos em que as Assembleias de Deus se separam do metodismo. As Assembleias de Deus, em que ele foi ministro, ensinam o batismo no Espírito Santo como experiência posterior à conversão, com a evidência inicial das línguas, e a cura divina provida na expiação, que a nossa declaração não inclui entre os seus artigos. A denominação entende a santificação como obra progressiva e não afirma a inteira santificação como segunda obra da graça recebida pela fé, como faz a declaração na linha de John Wesley. E a escatologia das Assembleias de Deus é pré-milenista, enquanto a nossa declaração é amilenista. É a mesma distância que costuma separar metodistas e pentecostais.
Obras principais
- Como receber a cura divina: a bênção dos que têm a Jesus como o médico da alma e do corpo (CPAD; 2.ª edição, 1995).
- Divine Healing: A Touch from God (Gospel Publishing House, 1998).
Livros em português
- Como receber a cura divina (CPAD, 1995). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- Pr. Bernhard Johnson, página do fundador, Escola de Educação Teológica das Assembleias de Deus (EETAD).
- Família Johnson, biografia do Pr. Bernhard Johnson Jr., anexa à Lei 3.732, de 13 de setembro de 2002, Câmara Municipal de Varginha (MG).
- “When the Spirit moves”, galeria de biografias, Christian History, n. 153 (“Global outpouring”).
- “Christian History Timeline: The Spirit, the gospel, and prayer”, Christian History, n. 153.
- “Doris Pearl Johnson”, obituário, Central Oregonian, 5 de maio de 2025.
- Jacó Rodrigues Santiago, “Missionário Bernhard Johnson Júnior”, janeiro de 2017 (a partir do encarte especial da revista Obreiro, CPAD).
- Elienai Cabral, “Equipe: Cruzada Boas Novas”, blog do autor, 12 de agosto de 2007.
- “Uma visão, nossa missão e a sua vocação”, Raízes Pentecostais, 6 de maio de 2025.
- “Assemblies of God Position Paper: The Security of the Believer”, Society of Evangelical Arminians.
- “Cura divina: uma contribuição do pentecostalismo”, Revista Clube de Sabedoria, 1.º de abril de 2021.
- Bernhard Johnson ainda fala, livro sobre o ministério dele, Livraria da EETAD.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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