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HistóriaTeólogos arminianos2 de 125

C. Stephen Evans: o filósofo batista que leu Kierkegaard como pensador cristão

Diego Gonçalves15 min de leitura2.952 palavras

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Neste texto

Em 1977, um jovem professor do Wheaton College recebeu uma bolsa George C. Marshall para um ano de estudos na Dinamarca. Ele tinha escrito a tese de doutorado em Yale comparando Kant, Kierkegaard e William James, e o pensador dinamarquês seria o assunto da sua vida. Quatro décadas depois, Charles Stephen Evans era um dos maiores especialistas americanos em Søren Kierkegaard, com mais de vinte livros sobre fé, razão, moral e a pessoa humana. Pelo caminho, deixou no debate entre calvinistas e arminianos um argumento curto e preciso: crer em Cristo livremente não dá a ninguém motivo para se gloriar.

Vida

De Atlanta a Yale

Evans nasceu em 26 de maio de 1948, em Atlanta, na Geórgia, filho de Charles Hinton Evans, motorista de ônibus, e de Pearline Prewett Evans, professora. Estudou na Northside High School, em Atlanta, e foi para o Wheaton College, a faculdade evangélica de Illinois, onde se formou em filosofia em 1969, com distinção. No mesmo ano casou-se com Jan Walter, que mais tarde seria professora de literatura espanhola em Baylor e especialista em Miguel de Unamuno. Os dois têm três filhos.

Com uma bolsa Danforth, Evans fez o mestrado e o doutorado em filosofia na Universidade Yale, concluídos em 1971 e 1974. Sob a orientação de John E. Smith, a tese, Subjective Justifications of Religious Beliefs, comparou as justificações subjetivas da fé religiosa em Kant, Kierkegaard e James. Revista, virou Subjectivity and Religious Belief (1978). Antes disso, ainda estudante, Evans já tinha publicado Despair: A Moment or a Way of Life? (1971), uma introdução cristã ao existencialismo.

Wheaton e St. Olaf

Depois de dois anos no Trinity College, em Deerfield, Evans voltou a Wheaton em 1974 e ficou dez anos, como professor de filosofia e, a partir de 1982, também de psicologia. Em Preserving the Person (1977), ele examinou o peso de Comte, Freud, Watson, Skinner e Durkheim nas ciências humanas e defendeu o conceito de pessoa contra a ideia de que o ser humano é só uma máquina que pensa ou um organismo programado. O tema voltou em Wisdom and Humanness in Psychology (1989) e em Søren Kierkegaard’s Christian Psychology (1990), que lê o dinamarquês como um psicólogo cristão útil ao aconselhamento pastoral.

Em 1984 ele se mudou para o St. Olaf College, em Northfield, Minnesota, a faculdade luterana onde Howard e Edna Hong tinham passado a vida traduzindo Kierkegaard para o inglês. Os Hong doaram ao St. Olaf, em 1976, a biblioteca que tinham reunido para o trabalho de tradução; de 1986 a 1994, Evans foi o curador da Howard and Edna Hong Kierkegaard Library, pensada pelos doadores como centro de estudo e publicação. Nesses anos, Evans presidiu a Sociedade Søren Kierkegaard dos Estados Unidos (1991) e traduziu com a esposa o estudo de Paul Müller sobre As obras do amor, publicado em Copenhague (1993). Também escreveu dois comentários sobre os livros do pseudônimo Johannes Climacus: Kierkegaard’s Fragments and Postscript (1983) e Passionate Reason (1992), sobre as Migalhas filosóficas.

Calvin e Baylor

De 1994 a 2001 Evans ensinou no Calvin College, em Grand Rapids, a faculdade da Igreja Cristã Reformada. Foi o primeiro titular da cátedra William Spoelhof de professor-pesquisador e, de 1997 a 2000, decano de pesquisa. Nesse período presidiu a Sociedade de Filósofos Cristãos (1998-2001), fundada em 1978 por filósofos que, como Alvin Plantinga, defendiam o lugar da fé cristã na filosofia acadêmica.

Em setembro de 2001 ele assumiu o posto de University Professor de filosofia e humanidades na Universidade Baylor, a grande universidade batista de Waco, no Texas. Ali dirigiu o Centro Baylor de Filosofia Cristã, orientou teses de doutorado e foi escolhido, em 2018, o professor do ano da universidade. Foi também membro (professorial fellow) do Instituto Logos de teologia analítica, na Universidade de St. Andrews, na Escócia.

Em Baylor vieram os livros mais conhecidos. Natural Signs and Knowledge of God (2010) ganhou em 2012 o primeiro lugar do Prêmio C. S. Lewis, de filosofia da religião para o público geral. Naquela semana Evans falava na Universidade Samford, no Alabama, e pediu aos estudantes que levassem “cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2 Coríntios 10:5) e construíssem a vida dentro da grande história da Bíblia. De 2017 a 2023, liderou uma equipe interdisciplinar, financiada pela Templeton Religion Trust, que estudou a prestação de contas como virtude. Hoje é professor emérito. Evans é batista e disse que escreve, antes de tudo, para contribuir com o desenvolvimento de uma filosofia cristã.

Pensamento

Evans é um filósofo batista que se alinha com o arminianismo no ponto em que entrou no debate sobre a salvação. Em 1989 escreveu o capítulo 9 de The Grace of God, the Will of Man, coletânea organizada por Clark Pinnock com o subtítulo A Case for Arminianism, ao lado de Jack Cottrell, I. Howard Marshall, William Lane Craig e Bruce Reichenbach. Um crítico calvinista leu o seu trabalho do mesmo modo: o teólogo David Schrock, ao resenhar a coletânea sobre cristologia que Evans organizou, chamou as suas premissas sobre a liberdade humana de “noções arminianas”. Evans entrou na questão como filósofo: não escreveu uma soteriologia, e boa parte da sua obra conversa de perto com a epistemologia reformada. Por isso a série o trata como simpatizante do arminianismo, com um argumento que o arminianismo clássico pode assinar.

Fé sem mérito

O capítulo de 1989 chama-se “Salvation, Sin, and Human Freedom: A Kierkegaardian View” e responde a uma das objeções mais antigas contra os arminianos. Se a fé é um ato livre, quem crê não teria uma parte na própria salvação e, portanto, algum motivo de glória? Evans aceita o ponto de partida calvinista: toda a glória da salvação pertence a Deus. Mas mostra, com Kierkegaard, que a objeção mistura duas perguntas. O passo decisivo, escreve ele, é “separar a questão do mérito da questão da participação livre e subjetiva” (“Salvation, Sin, and Human Freedom”, 1989, p. 182). A fé é um ato da pessoa, mas consiste justamente em reconhecer que ela não tem mérito nenhum diante de Deus, e seria estranho chamar de meritório o reconhecimento de que não se tem mérito (p. 184).

É a imagem de Armínio: o mendigo que estende a mão para receber a esmola não merece mais a comida por ter estendido a mão. A fé recebe e não contribui. Para o arminianismo clássico, porém, essa liberdade de crer já é obra da graça. Depois da queda, a vontade humana está presa ao pecado, e só a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta, a liberta o bastante para crer (ver a Declaração de Sentimentos e A graça preveniente: a graça que vem antes). A declaração de fé deste site põe esse ponto na frente do argumento de Evans: a pessoa crê livremente porque Deus, pelo Espírito, a capacitou a crer (ver Livre-arbítrio e graça: a vontade libertada). Numa entrevista de 2011, o próprio Evans insistiu que a fé é dom de Deus.

O eu diante de Deus

O fundo dessas ideias é a leitura que Evans faz de Kierkegaard. Contra a imagem de um Kierkegaard irracionalista e pai do existencialismo, ele apresenta um pensador cristão, herdeiro da Bíblia e de Sócrates. Num ensaio de 2019, compara-o com Sartre. Para Sartre, não existe natureza humana, porque não existe Deus para concebê-la, e por isso cada pessoa inventa os próprios valores por uma escolha sem critério. Kierkegaard via o ser humano como criatura, feita por Deus com um caráter próprio e chamada a tornar-se o que Deus quis que ela fosse. Nas palavras de Evans, “ser um eu é receber uma tarefa” (“Kierkegaard: Father of Existentialism or Critic of Existentialism?”, 2019). O eu que tenta criar a si mesmo acaba, como diz A doença para a morte, um rei sem país, e por isso Kierkegaard foi um crítico profético do existencialismo, e não o seu pai.

Nas Migalhas filosóficas (1844), o pseudônimo Johannes Climacus contrasta Sócrates com o cristianismo. Para Sócrates, a verdade já está dentro do aprendiz, e o mestre só o ajuda a lembrá-la. No cristianismo, o aprendiz está na não verdade por culpa própria, e o mestre, que é Deus em forma humana, precisa dar a ele não só a verdade, mas a condição para recebê-la. Diante desse paradoxo, a pessoa pode crer ou escandalizar-se. Evans resume o ponto assim: “os seres humanos perderam a verdade por causa do pecado” (Kierkegaard: An Introduction, 2009). A leitura deixa claro o que o arminianismo clássico também afirma: o pecado tirou do ser humano a capacidade de alcançar a verdade sozinho, a condição para crer vem de Deus, e mesmo assim ela pode ser recusada.

Em Kierkegaard and Spirituality (2019), preparado em palestras como a que deu na Universidade Biola em 2014, Evans amplia o tema. Todo ser humano é espírito, capaz de viver diante de Deus, e Deus se faz presente na consciência de cada um como aquele que tem autoridade e pede que nos tornemos certo tipo de pessoa. Prestar contas a Deus é, para ele, um presente: “mesmo quando ele pede e exige, isso é graça, é amor da parte dele” (palestra na Universidade Biola, 2014). A vida cristã segue um ritmo. Cristo é o modelo que nunca igualamos e a expiação que nos restaura, e por gratidão voltamos a imitá-lo, porque “devemos sempre ver Cristo como modelo e como redentor” (Biola, 2014). Os meios que ele recomenda são ler a Bíblia como palavra dirigida a nós, meditar, orar, participar do culto e da Ceia.

Sinais que se deixam resistir

Na apologética, Evans segue a epistemologia reformada: a crença em Deus pode ser justificada sem passar por uma demonstração. Mas mostra que há sinais de Deus na experiência comum. Em Why Believe? (1996) eram quatro: o assombro diante de um universo que poderia não existir, a ordem com propósito da natureza, a consciência de uma ordem moral objetiva e o desejo humano de Deus.

Em Natural Signs and Knowledge of God (2010), a ideia ganha forma técnica. Evans toma do filósofo escocês Thomas Reid a noção de sinal natural, aquilo que nos leva a perceber outra coisa sem raciocínio, como a sensação nos faz perceber o objeto. O assombro cósmico, a ordem benéfica da natureza, a obrigação moral e a dignidade da pessoa seriam sinais dessa espécie, que apontam para Deus, e os argumentos clássicos seriam formulações deles. Um Deus que quer relacionar-se com pessoas livres, argumenta Evans, daria sinais de acesso amplo, ao alcance de quase todos, e de fácil resistência, que podem ser ignorados ou explicados de outro modo. Por isso as provas são sugestivas, mas não coercitivas, e por isso o problema principal, disse ele numa entrevista de 2011, “não está na evidência, mas em quem conhece”. A lógica lembra a da graça resistível: Deus se dá a conhecer a todos, sem forçar ninguém.

Deus e a obrigação moral

Em God and Moral Obligation (2013), Evans defende uma teoria do mandamento divino restrita à obrigação. A lei natural descreve os bens da vida humana, que já dão razões para agir; o que transforma algumas dessas razões em deveres objetivos, que obrigam a todos, é a vontade de Deus comunicada às pessoas. Como Deus é essencialmente bom, os seus mandamentos não são arbitrários. Ninguém precisa crer em Deus para conhecer os próprios deveres, mas a existência deles é um sinal de Deus. No verbete sobre os argumentos morais da Stanford Encyclopedia of Philosophy (2014), Evans reconhece que nenhuma versão do argumento é uma “prova”; o valor delas está em mostrar quanto custa rejeitar a conclusão.

Cristo na história e a quenose

Evans também escreveu sobre Cristo. Em The Historical Christ and the Jesus of Faith (1996), defendeu que a Igreja tem razões para ler como história a narrativa da encarnação. Em 2006 organizou Exploring Kenotic Christology, sobre a “cristologia quenótica”, nome tirado do verbo grego de Filipenses 2:7, “esvaziou-se”. Essa leitura propõe que o Filho, ao se fazer homem, abriu mão temporariamente de alguns atributos divinos, como a onisciência, sem deixar de ser Deus. Evans a apresentou como uma via promissora, ao lado da cristologia clássica. A declaração de fé deste site fica com a formulação clássica da união hipostática: Cristo assumiu plenamente a natureza humana sem deixar de ser plenamente Deus, duas naturezas unidas numa só pessoa.

Os últimos livros voltam à prestação de contas. Living Accountably (2023) propõe tratá-la como virtude, e não como sinônimo de castigo: a disposição de responder de bom grado a quem tem autoridade legítima sobre nós, ligada à honestidade e à humildade. A History of Western Philosophy (2018) percorre num só volume a filosofia ocidental, dos pré-socráticos ao pós-modernismo.

O legado de Evans está nos doutores que orientou em Baylor e na leitura de Kierkegaard como pensador cristão, que ele defendeu em livros, traduções e na série Kierkegaard as a Christian Thinker, que organiza com Paul Martens pela Eerdmans. Numa frase dele, de 2011, alguém pode tirar nota máxima em ética e continuar vivendo como um monstro moral; por isso o conhecimento moral e religioso, para Evans, só se completa quando transforma quem conhece.

Obras principais

  • Despair: A Moment or a Way of Life? (1971), revisto como Existentialism: The Philosophy of Despair and the Quest for Hope (1984)
  • Preserving the Person: A Look at the Human Sciences (1977)
  • Subjectivity and Religious Belief: An Historical, Critical Study (1978)
  • Kierkegaard’s Fragments and Postscript: The Religious Philosophy of Johannes Climacus (1983)
  • Philosophy of Religion: Thinking about Faith (1985; 2ª edição com Zachary Manis, 2009)
  • The Quest for Faith (1986), revisto como Why Believe? Reason and Mystery as Pointers to God (1996)
  • “Salvation, Sin, and Human Freedom: A Kierkegaardian View”, em Clark Pinnock (org.), The Grace of God, the Will of Man (1989)
  • Wisdom and Humanness in Psychology (1989)
  • Søren Kierkegaard’s Christian Psychology (1990)
  • Passionate Reason: Making Sense of Kierkegaard’s Philosophical Fragments (1992)
  • The Historical Christ and the Jesus of Faith: The Incarnational Narrative as History (1996)
  • Faith Beyond Reason (1998)
  • Pocket Dictionary of Apologetics & Philosophy of Religion (2002)
  • Kierkegaard’s Ethic of Love: Divine Commands and Moral Obligations (2004)
  • Exploring Kenotic Christology: The Self-Emptying of God (org., 2006)
  • Kierkegaard on Faith and the Self: Collected Essays (2006)
  • Kierkegaard: An Introduction (2009)
  • Natural Signs and Knowledge of God: A New Look at Theistic Arguments (2010)
  • God and Moral Obligation (2013)
  • “Moral Arguments for the Existence of God”, Stanford Encyclopedia of Philosophy (2014; hoje assinado com David Baggett)
  • Why Christian Faith Still Makes Sense: A Response to Contemporary Challenges (2015)
  • A History of Western Philosophy: From the Pre-Socratics to Postmodernism (2018)
  • Kierkegaard and Spirituality: Accountability as the Meaning of Human Existence (2019)
  • Living Accountably: Accountability as a Virtue (2023)

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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