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Peter Cartwright: O pregador itinerante que levou o arminianismo metodista à fronteira americana

Diego Gonçalves13 min de leitura2.511 palavras

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Neste texto

Numa noite de 1801, no condado de Logan, no Kentucky, um rapaz de quinze anos voltou de um casamento em que tinha passado horas dançando. Sentado junto ao fogo, sentiu-se culpado e condenado. A vista escureceu, e ele teve certeza de que ia morrer sem estar preparado. Caiu de joelhos e pediu misericórdia a Deus. Foram três meses de angústia até que, numa reunião ao ar livre, ele ouvisse por dentro as palavras “os teus pecados estão perdoados”. Esse rapaz era Peter Cartwright, que pregaria por mais de sessenta anos nas matas e pradarias do Oeste americano e se tornaria o mais conhecido dos pregadores itinerantes metodistas.

Retrato de Peter Cartwright
Retrato de Peter Cartwright, gravura de autor desconhecido, publicada em A Youth's History of Kentucky, de Ed Porter Thompson, 1897. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Infância em “Rogues’ Harbor”

Peter Cartwright nasceu em 1º de setembro de 1785, no condado de Amherst, às margens do rio James, na Virgínia. Os pais eram pobres. O pai tinha lutado na Guerra da Independência; a mãe, órfã, era metodista. Quando ele era pequeno, a família atravessou a mata até o Kentucky numa caravana de duzentas famílias e, no outono de 1793, fixou-se no condado de Logan, junto à divisa com o Tennessee. A região tinha o apelido de “Rogues’ Harbor”, o porto dos velhacos, porque ali se escondiam fugitivos da justiça.

Quando Peter tinha nove anos, o itinerante Jacob Lurton pregou na cabana da família, e o menino saiu pela vizinhança chamando as pessoas. A mãe passou a caminhar todos os domingos até uma classe metodista a seis quilômetros de casa. O filho preferia corridas de cavalo, cartas e dança, e a escola mal lhe ensinou a ler, escrever e fazer contas.

Conversão e chamado

A crise de 1801 aconteceu no meio do grande avivamento que varria o Kentucky, o mesmo de Cane Ridge, que deu origem às reuniões campais. Cartwright chegou a ser tentado a crer que era um réprobo, condenado sem chance de salvação, embora nunca tivesse aceitado a eleição e a reprovação incondicionais. Na primavera, o pastor presbiteriano James McGready convocou uma reunião de comunhão perto da fazenda e convidou o pregador metodista John Page. A multidão era tão grande que armaram um púlpito num bosque. Num sábado à noite, ajoelhado ali, Cartwright recebeu a certeza do perdão. Mais de cinquenta anos depois ele escreveria que, embora tivesse sido infiel muitas vezes, nunca duvidou, “por um momento sequer”, de que o Senhor o perdoara ali.

Entrou para a Igreja Metodista Episcopal naquele mesmo ano. Em maio de 1802, aos dezesseis anos, recebeu de Jesse Walker a licença de exortador. No outono a família mudou-se para a foz do rio Cumberland, e a igreja lhe deu a tarefa de reunir os metodistas espalhados na região. No ano seguinte ele apresentou o plano de um circuito novo, o de Livingston.

O primeiro sermão veio quase à força, por ordem de um líder metodista. Cartwright pediu a Deus uma prova do chamado, a conversão de uma pessoa naquela noite, e pregou sobre Isaías 26:4, “confiai no Senhor perpetuamente”. Um incrédulo declarado que estava na sala saiu convertido.

O circuito e o cavalo

Em 1804 foi admitido como pregador itinerante na Conferência do Oeste, que abrangia todo o território habitado além dos Montes Apalaches. Serviu nos circuitos de Salt River e Shelbyville, no Kentucky, sob William McKendree, que orientou as suas leituras. Foi ordenado diácono por Francis Asbury em setembro de 1806 e presbítero por McKendree em 4 de outubro de 1808. Em 18 de agosto de 1808 casou-se com Frances Gaines, com quem teve dois filhos e sete filhas.

Os circuitos tinham centenas de quilômetros e eram percorridos a cavalo em qualquer tempo, no Kentucky, no Tennessee, em Ohio, em Indiana e em Illinois. A biblioteca cabia no alforje: a Bíblia, o hinário e o Livro de Disciplina. Chamava a si mesmo de “lavrador de Deus”. Nas reuniões campais, enfrentou bêbados e valentões, às vezes com os próprios punhos. Numa delas, dois rapazes que tinham jurado matar um ao outro chegaram armados, foram ao banco dos penitentes sem saber que o outro estava ali e, convertidos de madrugada, se abraçaram. Cartwright guardou as pistolas deles na tenda dos pregadores.

Em 1812 foi nomeado presbítero presidente pela primeira vez, função que equivale hoje à de superintendente distrital. Ocupou o cargo, com poucas interrupções, até o fim da vida. Em 1816 foi eleito delegado à Conferência Geral, a assembleia nacional da igreja, e participou de treze delas. Em 1818, durante a conferência de Nashville, pregava sobre Marcos 8:36 quando Andrew Jackson entrou na igreja. Avisado pelo pastor da cidade, Cartwright perguntou em voz alta quem era o general Jackson e disse que, se ele não se convertesse, Deus o condenaria como a qualquer outro pecador. Jackson depois elogiou a sua coragem.

A escravidão e a mudança para Illinois

No Kentucky e no Tennessee, Cartwright viu os pregadores metodistas se enredarem na escravidão e as leis estaduais fecharem as portas da alforria. Ele defendia a regra da Disciplina que obrigava pregadores e membros a libertar os escravos onde a lei permitisse. Em 1823 foi conhecer Illinois, estado livre, e anotou quatro motivos para a mudança: ficar livre do mal da escravidão, criar os filhos onde o trabalho não fosse visto como degradação, comprar terras para eles e levar o evangelho a quem tinha ficado sem os meios de graça.

No outono de 1824 a família partiu. Na viagem, uma árvore junto à fogueira do acampamento caiu sobre a terceira filha do casal e a matou. Eles se estabeleceram no condado de Sangamon, perto de Pleasant Plains, onde Cartwright viveu até morrer. A classe metodista que começou na casa dele deu origem à igreja que ainda leva o seu nome, hoje marco histórico da Igreja Metodista Unida.

Política e o encontro com Lincoln

Partidários da escravidão tinham tentado mudar a constituição de Illinois. Para barrar nova tentativa, Cartwright foi eleito à Assembleia estadual em 1828 e em 1832, como democrata. Na eleição de 1832 um dos derrotados foi um jovem chamado Abraham Lincoln. Cartwright saiu da política decepcionado com a corrupção do legislativo. Em 1846 voltou a disputar, agora uma cadeira no Congresso, e perdeu para Lincoln em 3 de agosto. Na campanha espalhou-se que Lincoln era um “infiel”, e ele respondeu num panfleto que não era membro de igreja alguma, mas nunca tinha negado a verdade das Escrituras. A fé de Lincoln mudaria muito depois, como contamos em Abraham Lincoln: fé, oração e conversão na Guerra Civil.

O velho presbítero

Em Illinois, Cartwright dirigiu distritos de mais de seiscentos quilômetros de extensão. Ele ajudou a fundar o McKendree College, em Lebanon, a Illinois Wesleyan University, em Bloomington, e a academia feminina da conferência em Jacksonville, hoje MacMurray College. Na Conferência Geral de 1844, que terminou com a separação das conferências do Sul por causa da escravidão, opôs-se à divisão e, depois, à partilha dos bens da igreja com os que tinham saído.

Em 1856 publicou a Autobiography of Peter Cartwright, the Backwoods Preacher, editada por W. P. Strickland. Em um ano o livro chegou ao décimo quinto milhar de exemplares, e Charles Dickens escreveu que, se não era possível amar o autor pela mansidão, era preciso honrá-lo pela verdade e pelo zelo. Em 24 de setembro de 1869, na cidade de Lincoln, a Conferência de Illinois celebrou o seu quinquagésimo ano como presbítero presidente, fato sem paralelo na igreja. Ele tinha oitenta e quatro anos e nunca tinha deixado o serviço ativo. Pregou cerca de quinze mil sermões e batizou muitos milhares de pessoas. Peter Cartwright morreu em 25 de setembro de 1872, perto de Pleasant Plains, e foi sepultado no cemitério local.

Pensamento

Cartwright foi um wesleyano, metodista da geração dos fundadores na América. Ele mesmo descreveu a fé da sua igreja como as “doutrinas cardeais do evangelho” pregadas por John Wesley e “defendidas de modo irrespondível” por John Fletcher, e chamava essa fé, sem rodeios, de arminianismo.

Nenhum poder natural, toda a graça

Por volta de 1820, Cartwright reimprimiu e espalhou pelo Kentucky dois panfletos satíricos contra o calvinismo, The Dagon of Calvinism e A Useful Discovery. Três pastores presbiterianos, convencidos de que ele era o autor, mandaram-lhe uma carta assinada pelo diabo, agradecendo-lhe por promover a “doutrina arminiana”. Cartwright publicou a carta com uma longa resposta, reimpressa em 1871 em Fifty Years as a Presiding Elder, onde expõe com cuidado o que o arminiano crê.

Contra a acusação de que o arminiano se julga com a salvação “nas próprias mãos”, Cartwright citou a Confissão de Westminster, segundo a qual Deus dotou a vontade humana de uma “liberdade natural”, e perguntou quem, afinal, atribuía poder ao homem. O arminiano, respondeu, crê que Adão, no momento da queda, perdeu toda a liberdade da vontade, e que o homem caído “não tem poderes naturais para realizar atos morais” (1 Coríntios 2:14; Romanos 7:18). O que existe de bom em qualquer pessoa, “desde o primeiro momento da queda”, vem “da graça e não da natureza”. Quando Deus deu a Adão e à sua descendência a promessa de um Salvador, restaurou por pura graça a liberdade e o poder de aceitar ou recusar a salvação oferecida. O arminiano, concluiu, sabe “que a sua suficiência vem de Deus”.

Essa é a doutrina da graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer movimento humano em direção a Deus, em linguagem de fronteira. Cartwright a fundamentava em Tito 2:11 e em João 1:9: Cristo é a luz que ilumina todo homem, e Deus dá a cada pessoa, “durante o dia da sua visitação”, uma medida de luz e graça suficiente para a salvação. Essa graça pode ser recebida em vão (2 Coríntios 6:1), e quem a acolhe recebe “graça sobre graça” (João 1:16). É a posição de Armínio e de Wesley, que o site apresenta no estudo A graça preveniente em Armínio.

Em 1837, numa reunião em Jacksonville, um pastor presbiteriano da chamada Nova Escola dizia aos que buscavam a salvação que bastava “mudar de propósito” para ser cristão. Cartwright foi atrás dele e disse aos penitentes que não confiassem numa mudança de propósito, mas cressem no Senhor Jesus Cristo. Para ele, aquele ensino fazia a pessoa se tornar cristã “pelo próprio ato, sem o Espírito de Deus”, e ignorava a doutrina bíblica do novo nascimento.

Expiação universal, justificação pela fé e perseverança condicional

Na mesma resposta, Cartwright negou que o arminiano tome as boas obras como mérito para a salvação ou faça de Cristo “meio Salvador”: entre o fariseu orgulhoso e o arminiano humilde, disse, a diferença é total. Cristo morreu por todos, e quem se perde é condenado com justiça porque recusou a misericórdia oferecida.

Sobre a perseverança, criticou os presbiterianos de Cumberland, que tinham rejeitado a expiação limitada mas mantido a perseverança final incondicional: como pode o pecador ser livre para vir a Cristo e, depois de convertido, perder essa liberdade e ser trazido de volta mesmo que se afaste? Chamou essa doutrina de “relíquia de João Calvino”. Para ele, o crente, sem Cristo, nada pode fazer, e pode desviar-se da justiça e naufragar na fé, cair gravemente como Davi ou definitivamente como Judas. É a perseverança condicional que o site expõe em Arminianismo: segurança da salvação.

Santidade, experiência e disciplina

A conversão de Cartwright seguiu o padrão wesleyano: convicção de pecado, perdão recebido pela fé e certeza interior dada pelo Espírito. Nas suas reuniões campais os crentes buscavam a inteira santificação, o “amor perfeito”. Numa delas, uma senhora que buscava essa bênção só encontrou paz quando prometeu a Deus libertar os seus escravos, e a família os libertou pouco depois. Ele via nas classes metodistas o meio de graça que mais tinha edificado a igreja, e no fim da vida resistiu a mudanças no governo metodista, convencido de que o defeito da igreja estava em não guardar as regras que já tinha.

O tom dele era o da polêmica do seu tempo, ácido e às vezes injusto com Calvino. No mesmo texto, porém, declarou amar muitos calvinistas e esperar encontrá-los no céu, e reconheceu que Deus abençoou a pregação de John Bunyan e de George Whitefield. Nos pontos de doutrina a crítica dele coincide com a do site, que prefere tratar os irmãos calvinistas sem essa aspereza. Há também uma diferença com a declaração de fé do Diego: como a Igreja Metodista Episcopal, Cartwright batizava crianças, enquanto a declaração entende que o batismo deve seguir a conversão.

Leia também as biografias de Jacó Armínio e Asa Shinn, outro pregador da fronteira, e a tradução da Declaração de Sentimentos de Armínio.

Obras principais

  • Resposta à carta assinada pelo diabo, panfleto contra o calvinismo (c. 1820), reimpresso em 1871.
  • Autobiography of Peter Cartwright, the Backwoods Preacher, editada por W. P. Strickland (Nova York: Carlton & Porter, 1856); edição moderna com introdução de Charles L. Wallis (Abingdon, 1956).
  • Fifty Years as a Presiding Elder, editada por W. S. Hooper (Cincinnati, 1871), com as cartas polêmicas sobre o calvinismo e o relato do jubileu de 1869.

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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