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Vinicius Couto: O pastor nazareno que leu Armínio no latim e no holandês
Neste texto
- Vida
- Do Rio a Barroso
- Formação
- Pastor e professor
- O escritor
- Pensamento
- Um wesleyano que lê Armínio
- Depravação total, contra o semipelagianismo
- Uma só graça, do começo ao fim
- Os nomes no livro da vida
- Armínio, a dúvida e a liberdade de consciência
- A graça que vai para a rua
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Em 6 de outubro de 2022, a Universidade Metodista de São Paulo aprovou uma tese de 404 páginas sobre um pastor holandês morto em 1609. O título vinha de uma frase dele: “Não somos daqueles que dominam a fé dos outros”. O autor, Vinicius Couto, pastor da Igreja do Nazareno em Vinhedo, no interior paulista, traduzira cartas e tratados de Jacó Armínio a partir do latim e do holandês antigo, com a ajuda de professores holandeses e de um colega especialista em grego. A banca, presidida pelo orientador Helmut Renders, reuniu professores da UMESP, da Unicamp e da Faculdade Teológica Batista de São Paulo, esta representada por Ivan de Oliveira Durães. A pergunta da tese era nova: o que Armínio pensava sobre tolerância, paz entre os cristãos e liberdade de consciência.
Vida
Do Rio a Barroso
Vinicius Magno Borges Nunes Couto nasceu no Rio de Janeiro, na primeira metade dos anos 1980. As lembranças mais antigas que guarda do evangelho são da avó paterna levando-o, por volta dos cinco anos, a uma pequena congregação da Assembleia de Deus no Rio, onde ele tentava acompanhar os corinhos e os hinos da Harpa Cristã. Ainda menino, foi morar em Barroso, cidade do interior de Minas Gerais, onde passou a maior parte da vida.
A conversão veio por volta dos dezessete anos, numa Assembleia de Deus de Barroso. Ali ele começou a caminhada cristã e chegou a pastor auxiliar. Saiu da igreja por “convicções ministeriais na área de educação”, como contou em entrevista ao blog O Cristão Pentecostal (2020). O desligamento foi amigável: o pastor orou com ele durante um mês antes da decisão e, anos depois, pregou na igreja que Couto passou a pastorear. Couto ainda volta àquela igreja para pregar e diz ter por ela “um imenso carinho”.
O novo caminho foi a Igreja do Nazareno, denominação do movimento de santidade, herdeira da teologia de John Wesley. Couto foi ordenado ministro e, em 2016, era o pastor titular da Igreja do Nazareno de Barroso. Nos primeiros anos de vida cristã, chegou perto do calvinismo. “Meus pés resvalaram o calvinismo”, contou, lembrando a época em que ouvia pregadores calvinistas muito convincentes e não tinha acesso às obras de Armínio. Quando conseguiu lê-las, em inglês, concluiu que muitos críticos de Armínio cometiam “desonestidade intelectual” ao descrevê-lo.
Formação
Couto se formou em administração de empresas e em teologia, esta pela Faculdade Nazarena do Brasil. Fez duas especializações, um mestrado em Ciências da Religião pelo Seminário Nazareno das Américas, na Costa Rica, e um mestrado em Teologia pela Faculdade Batista do Paraná, com dissertação sobre a teologia de John Wesley. Depois se licenciou em História.
Em 2019 já cursava o doutorado em Ciências da Religião na UMESP, com bolsa da CAPES, como pesquisador do grupo RIMAGO. Depois do doutorado, seguiu para um pós-doutorado em Educação, Artes e História na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Pastor e professor
Desde 2017, Couto pastoreia a 1ª Igreja do Nazareno de Vinhedo (SP). Leciona na graduação e na pós-graduação do Seminário Teológico Nazareno do Brasil, em Campinas, e também ensinou na Faculdade Nazarena do Brasil e na Faculdade Evangélica de São Paulo (FAESP). Em 2017 coordenou no seminário nazareno uma especialização em Teologia Armínio-Wesleyana; os melhores trabalhos de conclusão viraram o livro Soberania divina e responsabilidade humana: ensaios sobre a teologia armínio-wesleyana, em que ele escreveu o capítulo “O futuro do arminianismo no Brasil”. Ali defende que o país já tem muitos livros sobre os cinco pontos arminianos e ainda precisa de uma teologia sistemática robusta em português.
Fora da sala de aula, foi articulista da revista Defesa da Fé, é membro fundador do Núcleo de Estudos Wesleyanos e, desde o segundo semestre de 2018, edita a Bona Conscientia, revista acadêmica dedicada à teologia arminiana e wesleyana. Colaborou com verbetes, traduções e revisões na Bíblia de Estudo John Wesley, da Sociedade Bíblica do Brasil, a primeira edição completa em português das notas de Wesley sobre a Bíblia.
O escritor
Antes de 2016, Couto publicou quatro livros: dois de tom pastoral, Os três choros de José do Egito e A verdade sobre o G-12, Culto cristão: origens, desenvolvimento e desafios contemporâneos e, em 2014, Introdução à teologia armínio-wesleyana (Reflexão). Ele lembra que foi o primeiro brasileiro a publicar uma obra com esse título, nos anos em que a Reflexão lançava em português Roger Olson (2013) e Carl Bangs (2015).
O quinto livro, Em favor do arminianismo-wesleyano (Reflexão, 2016), tem 415 páginas, prefácio de Carlos Augusto Vailatti, e foi lançado em setembro daquele ano em Barroso e na região de Campinas. Começa pelos pais da Igreja dos cinco primeiros séculos e trata de seis pontos: depravação total, eleição condicional, expiação ilimitada, graça preveniente, segurança da salvação e soberania de Deus. A parte final pergunta se uma teologia nascida no século XVI tem algo a dizer sobre educação, sexualidade, saúde, ecologia, política e cultura.
Em 2017, no aniversário de quinhentos anos da Reforma, organizou Igreja reformada sempre sendo reformada (Reflexão), para mostrar que Armínio e Wesley foram fiéis aos cinco solas da Reforma. Ele escreveu sobre o sola Scriptura; Thiago Titillo, sobre o sola gratia; Vailatti, sobre o sola fide; Marlon Marques, sobre o solus Christus; e Wellington Mariano, sobre o soli Deo gloria. Em 2018 publicou Fé x obras: ortodoxia e ortopraxia na teologia de John Wesley (Reflexão) e, em 2019, organizou Cosmovisão cristã: reflexões éticas contemporâneas a partir da teologia armínio-wesleyana (Reflexão), com vinte ensaios de autores de várias denominações arminianas. O prefácio é do teólogo wesleyano J. Richard Middleton, traduzido pelo próprio Couto.
Em 2021, Couto foi o editor geral da nova coleção Arminianismo da Reflexão, com livros de Rustin Brian, Ivan de Oliveira Durães, Vic Reasoner, Carlos Augusto Vailatti, Zwinglio Rodrigues e Keith Stanglin, e escreveu para ela o volume Depravação total. No mesmo ano organizou (In)tolerâncias religiosas nos Países Baixos e traduziu o segundo volume de Os ensinamentos de John Wesley, de Thomas Oden. Em 2024 saiu Teologia armínio-wesleyana: teoria e práxis (Reflexão).
Pensamento
Um wesleyano que lê Armínio
Couto é wesleyano: ministro da Igreja do Nazareno, ele chama a sua tradição de “armínio-wesleyana” e trabalha com os dois autores ao mesmo tempo. Na sua leitura, Wesley aceitou com clareza os cinco pontos da Remonstrância: pecado original, eleição condicional, graça preveniente e resistível, expiação ilimitada e perseverança condicional. No artigo “‘O que é um arminiano?’ Antigos e novos caminhos a partir do pensamento de John Wesley” (Reflexus, 2023), ele reconstrói os contatos de Wesley com a literatura arminiana: os trechos da Declaração de Sentimentos citados num manual de estudos que Wesley leu em 1730 e 1731; a leitura de Simão Episcópio sobre o Sínodo de Dort, em 1741; e o “arminianismo inglês” de Samuel e Susanna Wesley: numa carta de 1725, ela escreveu ao filho que a predestinação dos calvinistas rígidos faz de Deus o autor do pecado. Couto discorda de Oden, que descreveu o arminianismo de Wesley como um calvinismo moderado: o Sínodo de Dort, lembra Couto, considerou heterodoxa exatamente a teologia que Wesley professava.
Depravação total, contra o semipelagianismo
O primeiro ponto que Couto defende é a incapacidade humana. Num texto de 2016 sobre o pecado original, ele afirma que o homem não regenerado está “totalmente depravado e morto em seus delitos e pecados” e que calvinistas e arminianos concordam nisso. A ideia de que o ser humano foi só parcialmente afetado pela queda pertence ao semipelagianismo, a doutrina condenada no Concílio de Orange (529), segundo a qual a pessoa dá o primeiro passo e a graça ajuda depois. Couto aponta o avivalista Charles Finney como quem popularizou essa ideia entre os evangélicos e lamenta que “muitos cristãos que se intitulam arminianos” defendam a depravação parcial. Muitas igrejas evangélicas brasileiras, disse em 2020, são na prática “mais semi-pelagianas” do que arminianas. Em Depravação total (2021), ele mostra que Armínio, nas cartas a Francisco Júnio, foi mais duro que o professor reformado sobre a corrupção da imagem de Deus no ser humano.
Uma só graça, do começo ao fim
A tese de 2022 lê a Declaração de Sentimentos no holandês e no latim e descreve a graça em Armínio em três momentos: um favor imerecido de Deus pela humanidade caída; uma ação interior, que Couto, pela palavra holandesa, entende como “demolição” da incapacidade espiritual, com força irresistível nesse primeiro estágio, para libertar a vontade; e uma assistência contínua do Espírito à pessoa regenerada. Armínio se afasta do pelagianismo, escreve ele, quando atribui à graça “o início, a continuidade e a consumação de todo o bem”, e se afasta do calvinismo quando diz que muitos resistem ao Espírito e rejeitam a graça oferecida. É a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana.
Em Wesley, Couto encontra a mesma ordem. Comentando a frase do jovem Wesley “resolvi, por Sua graça”, escreve que ele “só pôde resolver” porque “a graça veio primeiro e o habilitou a isso”. Couto usa a palavra sinergismo para essa resposta, mas sempre qualificada: é um modelo que “privilegia a primazia e a iniciativa da graça de Deus”, na linha da “graça responsável” de Randy Maddox, que habilita a resposta sem coagi-la. A pessoa não acrescenta mérito; responde porque foi alcançada.
Os nomes no livro da vida
Sobre a perseverança, Couto defende que o crente pode cair. Num estudo exegético de 2016 sobre o livro da vida, ele parte da promessa de Apocalipse 3:5: “Jamais apagarei o seu nome do livro da vida”. A promessa é feita ao vencedor, ao que persevera até o fim, e por isso supõe que haverá quem não vença. Com o tempo perfeito grego de Apocalipse 17:8 e de Hebreus 12:23 (“cujos nomes estão escritos nos céus”), ele sustenta que Deus conhece os nomes desde a eternidade, mas os inscreve na história, quando a pessoa responde à graça preveniente e é regenerada. A imagem final é a corrida de 2 Timóteo 4:7, que começa na conversão e termina na glorificação: alguns começam e não terminam. É a perseverança condicional que a declaração de fé deste site também afirma, com a apostasia entendida como abandono da fé.
O historiador, porém, não força Armínio a dizer mais do que disse. Na tese, Couto mostra que a tradução inglesa de James Nichols acrescentou um “can” (pode) à frase em que Armínio declara nunca ter ensinado que um verdadeiro crente cai total ou finalmente da fé. Sem o acréscimo, Armínio admite a possibilidade da apostasia e deixa aberta a questão de ela acontecer de fato, como faria em 1610 o quinto artigo da Remonstrância.
Armínio, a dúvida e a liberdade de consciência
Na biografia de Armínio, Couto revê a tese de Carl Bangs, para quem Armínio nunca foi calvinista nem mudou de pensamento. A objeção de Bangs, diz Couto, se apoia num argumentum e silentio, um argumento tirado do silêncio das fontes. As cartas contam outra história: em 1591 Armínio confessa dúvidas sobre a predestinação a Grynaeus, e em 1597 diz ao amigo Wtenbogaert que estava em dúvida havia sete anos, desde que fora encarregado de refutar o humanista Dirck Coornhert e os ministros de Delft. Couto propõe quatro fases na vida intelectual de Armínio: a formação humanista e filosófica (1569-1581), o desenvolvimento teológico (1582-1597), a decisão pela predestinação condicional (1597-1608) e a maturidade da Declaração (1608-1609).
O tema central da tese é a tolerância. Armínio, conclui Couto, não criou ideias novas sobre o assunto: repetiu o que vinha de Erasmo, de Sébastien Castellion e de Coornhert. Mas deu a elas uma base na sua doutrina da graça. Se Cristo comprou todas as pessoas com a sua morte e, ainda assim, Deus não força ninguém a crer, porque a graça pode ser recusada, as autoridades civis e eclesiásticas também não têm direito de coagir consciências, e a pena de morte para hereges é injusta. Daí a proposta de Armínio de uma “confissão com o mínimo de artigos” e a frase que deu título à tese, na tradução de Couto: “não sou daqueles que possuem domínio sobre a fé de outro homem”.
A graça que vai para a rua
O “novo caminho” que Couto tira de Wesley é a extensão da graça a toda a vida. Em Fé x obras, a ortodoxia, a fé correta, precisa gerar ortopraxia, a prática correta, senão vira fé morta. Em Teologia armínio-wesleyana: teoria e práxis, ele apresenta a tradição como uma cosmovisão inteira, maior que a doutrina da salvação, e escreve capítulos sobre ética, economia (a partir do sermão de Wesley O uso do dinheiro), ecologia, saúde, educação e cuidado pastoral. Em “Tristeza solidária” (2025), conclui pelos sermões de Wesley que Deus se revela no sofrimento pela compaixão e pelo amor ao próximo.
O mesmo espírito vale para o debate com os calvinistas. Couto considera uma falácia o lema “não sou arminiano nem calvinista, sou bíblico”, porque quem o usa costuma aceitar outros rótulos, como dispensacionalista ou pentecostal. E insiste que arminianos e calvinistas não são adversários: “Somos irmãos em Cristo”, disse na entrevista de 2020. Na mesma conversa, lembrou o conselho de Wesley em O que é um arminiano? (1770): nenhum pregador deve usar a palavra “calvinista”, nem a palavra “arminiano”, como insulto.
Obras principais
- Introdução à teologia armínio-wesleyana (Reflexão, 2014).
- Em favor do arminianismo-wesleyano: um estudo bíblico, teológico e exegético de sua relevância na contemporaneidade (Reflexão, 2016).
- Igreja reformada sempre sendo reformada, organizador (Reflexão, 2017).
- Fé x obras: ortodoxia e ortopraxia na teologia de John Wesley (Reflexão, 2018).
- Cosmovisão cristã: reflexões éticas contemporâneas a partir da teologia armínio-wesleyana, organizador (Reflexão, 2019).
- Depravação total, coleção Arminianismo (Reflexão, 2021).
- (In)tolerâncias religiosas nos Países Baixos, organizador (Reflexão, 2021).
- Com Helmut Renders, “O ‘Carro triunfal arminiano’: uma sátira dortiana de Armínio e dos Remonstrantes”, Revista Brasileira de História das Religiões, n. 41, 2021.
- “Não somos daqueles que dominam a fé dos outros”: tolerância, irenismo e liberdade de consciência em Jacó Armínio, tese de doutorado (UMESP, 2022).
- “‘O que é um arminiano?’ Antigos e novos caminhos a partir do pensamento de John Wesley”, Reflexus, v. 17, n. 2, 2023.
- Teologia armínio-wesleyana: teoria e práxis (Reflexão, 2024).
- “Tristeza solidária: um caminho wesleyano de compaixão e amor ao próximo para o problema do sofrimento”, Revista de Cultura Teológica, n. 110, 2025.
Livros em português
- Em favor do arminianismo-wesleyano (Reflexão, 2016). Ver na Amazon
- Teologia armínio-wesleyana: teoria e práxis (Reflexão, 2024). Ver na Amazon
- Depravação total (Reflexão, 2021). Ver na Amazon
- Igreja reformada sempre sendo reformada, organizado por Vinicius Couto (Reflexão, 2017). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Fé x obras: ortodoxia e ortopraxia na teologia de John Wesley (Reflexão, 2018). Ver na Amazon
- Introdução à teologia armínio-wesleyana (Reflexão, 2014). Ver na Amazon
Para aprofundar
- Vinicius Magno Borges Nunes Couto, “Não somos daqueles que dominam a fé dos outros”: tolerância, irenismo e liberdade de consciência em Jacó Armínio, tese de doutorado, Universidade Metodista de São Paulo, 2022.
- Vinicius Couto, “‘O que é um arminiano?’ Antigos e novos caminhos a partir do pensamento de John Wesley”, Reflexus, v. 17, n. 2, p. 473-493, 2023.
- Vinicius Couto, “Tristeza solidária: um caminho wesleyano de compaixão e amor ao próximo para o problema do sofrimento”, Revista de Cultura Teológica, n. 110, 2025.
- Vinicius Couto, resenha de John Wesley e a luta abolicionista, de Helmut Renders, Caminhos, Goiânia, v. 17, n. 3, 2019 (com o currículo do autor).
- Vinicius Couto, “O que é pecado original?” e “Considerações bíblicas e exegéticas sobre o Livro da Vida”, blog Pr. Vinicius Couto, 2016.
- “Diálogos: Vinicius Couto”, entrevista ao blog O Cristão Pentecostal, 1º maio 2020.
- “Pastor Vinicius Couto lança seu mais novo livro”, Barroso em Dia, 20 set. 2016.
- J. Richard Middleton, “Reflections of a Kuyperian Wesleyan”, prefácio de Cosmovisão cristã publicado no blog do autor, 12 jun. 2019.
- Wellington Mariano, “Arminianismo no Brasil: uma introdução histórica”, CACP.
- Editora Reflexão, fichas de Depravação total, com a apresentação da coleção Arminianismo por Couto, e de Teologia armínio-wesleyana: teoria e práxis.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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