
HistóriaTeólogos arminianos4 de 100
Zwinglio Rodrigues: o pastor batista baiano que escreveu sobre o arminianismo clássico
Neste texto
- Vida
- Pastor e professor em Vitória da Conquista
- As conferências de 2014
- O livro de 2015
- O debate com Franklin Ferreira
- Línguas, graça e a Coleção Arminianismo
- Pensamento
- O arminianismo não é pelagiano
- Eleição em Cristo e expiação para todos
- Depravação total e graça resistível
- Graça preveniente
- Perseverança e livre-arbítrio
- Pontos de contato com a fé do site
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Em fevereiro de 2015 a editora Sal Cultural, de Maceió, pôs nas livrarias um volume de duzentas páginas com um título sem enfeite: Uma introdução ao arminianismo clássico: história, doutrinas e fundamentação bíblica. O autor era um pastor batista de Vitória da Conquista, no sudoeste da Bahia, e o prefácio, assinado em Natal pelo pastor assembleiano Kleber Maia, dizia que o livro chegava num país em que a maioria dos evangélicos concorda com a soteriologia arminiana e ignora quase tudo sobre Jacó Armínio. Com esse livro, Zwinglio Rodrigues entrou para a primeira leva de autores brasileiros com obra própria sobre o arminianismo.
Vida
Pastor e professor em Vitória da Conquista
Zwinglio Rodrigues é ministro da Igreja Batista Vida, em Vitória da Conquista. A formação dele junta a teologia e a educação. É bacharel em Teologia pelo Instituto Teológico no Centro Evangelístico Urbano (ITCEU) e graduado também em Pedagogia. Fez especialização em Metodologia do Ensino Superior e outra em Ciências da Religião, com ênfase em história e filosofia, pela Faculdade Batista Brasileira. Em 2015 cursava o mestrado em Educação na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), que concluiu; a partir daí a Editora Reflexão passou a apresentá-lo como “prof. Me.”.
Como escritor, ele começou na internet. Manteve o blog Dokimos, dedicado a expor e defender o arminianismo, e escreveu para o portal Good Prime. Em 15 de janeiro de 2013 publicou ali “O que é arminianismo?”, um estudo que já trazia o roteiro do livro que viria depois. Em 2015 já aparecia ligado ao Instituto Teológico Jacob Arminius, em cuja página publicou a sua resposta ao teólogo calvinista Franklin Ferreira.
As conferências de 2014
Nos dias 21 e 22 de fevereiro de 2014, em Caruaru, Pernambuco, aconteceu a primeira conferência arminiana de repercussão nacional no Brasil, organizada por Carlos Gomes, diácono da Assembleia de Deus da cidade. Os palestrantes vinham de quatro tradições: o bispo Ildo Mello, da Igreja Metodista Livre; Kleber Maia e Wellington Mariano, das Assembleias de Deus; Rubens Rodrigues, da Igreja do Nazareno; e Zwinglio Rodrigues, o batista do grupo. Ao escrever a história do arminianismo no Brasil, Mariano apontou três nomes como os palestrantes de destaque desse primeiro momento: Ildo Mello, Kleber Maia e Zwinglio Rodrigues.
O livro de 2015
Uma introdução ao arminianismo clássico saiu em fevereiro de 2015 pela Sal Cultural, com coordenação editorial de Eduardo Vasconcellos e revisão de Marlon Marques, e no mesmo ano ganhou uma edição da Reflexão, de São Paulo, com 250 páginas. O livro traz o endosso do presbítero Valmir Nascimento. No histórico que Mariano fez do movimento, o livro aparece entre as primeiras obras arminianas de autores brasileiros, ao lado de A gênese da predestinação na história da teologia cristã, de Thiago Titillo, e da Introdução à teologia armínio-wesleyana, de Vinicius Couto, ambos de 2014.
O livro tem três partes: a distinção entre arminianismo, pelagianismo e semipelagianismo; a história de Armínio, da Remonstrância e do Sínodo de Dort; e os cinco artigos remonstrantes, com dois capítulos finais sobre a graça preveniente e o livre-arbítrio. Nos anexos estão o memorial de Simão Episcópio sobre Armínio e a defesa que os remonstrantes entregaram em Dort contra a acusação de pelagianismo.
Na introdução o autor avisa que o livro é “antes de qualquer coisa, uma compilação”, uma síntese da literatura especializada para leigos, líderes e estudantes, arminianos ou calvinistas. A recepção acadêmica veio no fim de 2015. Claiton André Kunz resenhou a obra na Via Teológica, revista das Faculdades Batista do Paraná: achou a argumentação “muito bem estruturada”, apontou erros de redação e recomendou a leitura a arminianos e a calvinistas. Em 2020, Marcia Elias, na Protestantismo em Revista, citou o livro entre as obras que confrontam as acusações feitas a Armínio.
O debate com Franklin Ferreira
Em maio de 2015 o teólogo batista Franklin Ferreira publicou uma avaliação crítica de “Em defesa do arminianismo”, artigo do pastor assembleiano Silas Daniel na revista Obreiro Aprovado. Zwinglio respondeu com “Comentários e respostas à crítica de Franklin Ferreira ao artigo ‘Em defesa do arminianismo’”. Elogiou o tom irênico do crítico e tomou dois textos do artigo de Daniel, 1 Timóteo 2:4 e 1 João 2:2, para defender com análise de palavras a expiação ilimitada, isto é, a doutrina de que Cristo morreu por todas as pessoas. No dia 31 de maio, o blogueiro calvinista Mário Magalhães publicou uma réplica em defesa da expiação limitada, centrada nesses dois versículos.
Línguas, graça e a Coleção Arminianismo
Em 2016 a Reflexão publicou dois livros dele. Falar em línguas: um estudo sobre o fenômeno da glossolalia (188 páginas) defende que o dom de línguas continua por toda a era da igreja e acompanha o fenômeno na história, dos pais da igreja ao período depois da Reforma, em diálogo com a linguística e com conselhos pastorais. Ediudson Fontes, ao escrever sobre os pentecostais e as línguas, chamou o autor de “batista carismático” e usou a leitura que ele faz de Números 11.
O outro livro, Graça resistível, entrou na Coleção Arminianismo da Reflexão, uma série de volumes curtos sobre os pontos do arminianismo, ao lado de O que é teologia arminiana?, de Mariano, Pelagianismo e semipelagianismo, de Ivan de Oliveira Durães, e Perseverança dos santos, de Keith Stanglin. Em 2021, quando a coleção foi refeita sob a direção de Vinicius Couto, com autores como Rustin Brian e Carlos Augusto Vailatti, Graça resistível ganhou nova edição, de 100 páginas. Pela mesma editora publicou Temas da teologia de Jacó Armínio, sobre outros temas da teologia de Armínio além da doutrina da salvação.
Pensamento
Zwinglio Rodrigues é um arminiano clássico de igreja batista. Ele mesmo define o termo: arminiano clássico é quem adota os cinco artigos da Remonstrância e a conclusão a que os remonstrantes chegaram sobre o quinto. Por isso se apoia sobretudo em Armínio e em Simão Episcópio, lidos com a ajuda de Roger Olson, Carl Bangs, José Carlos Rodríguez e Frederick Calder, o biógrafo inglês de Episcópio. No texto de 2013 ele já separava esse arminianismo do arminianismo wesleyano, que tem as mesmas raízes e caminho próprio. Na doutrina do Espírito, é continuísta: crê que o dom de línguas continua ativo na igreja.
O arminianismo não é pelagiano
Pelágio negava o pecado original e achava que a vontade humana podia evitar o pecado por si. O semipelagianismo, ligado a João Cassiano, admitia que a vontade caída dá o primeiro passo para a fé e que Deus confirma esse passo. Armínio, segundo Zwinglio, tinha uma visão pessimista do ser humano: cria na depravação total, na herança do pecado original e na dependência absoluta da graça. Daí a frase dura do livro: ligar o arminianismo clássico ao pelagianismo e ao semipelagianismo “se constitui em uma fraude intelectual” ou revela ignorância acadêmica. O exemplo histórico que ele dá é o remonstrante Filipe van Limborch: para Limborch, a graça preveniente apenas fortalece uma vontade que conservou um resto de boa disposição, e nisso, conclui Zwinglio, ele já é semipelagiano. Ver também O arminianismo é reformado.
O motivo de escrever, diz ele, é que “são as deturpações dos ensinos de Armínio que acabam por circunscrevê-lo num cenário de controvérsias” (Uma introdução ao arminianismo clássico, 2015, p. 15). Na parte histórica, Armínio aparece como teólogo reformado e conciliador, que tinha catecismos e confissões por obras humanas e defendia sola scriptura, tota scriptura, a Escritura só e a Escritura inteira. O Sínodo de Dort (1618-1619) aparece como um tribunal em que o adversário era também juiz e os remonstrantes eram réus sem voto.
Eleição em Cristo e expiação para todos
Sobre a eleição, Zwinglio segue a ordem dos decretos de Armínio. O primeiro decreto de Deus é dar Cristo como Salvador, e a eleição se faz nele: Deus escolhe salvar os que crerem e perseverarem, e conhece de antemão quem são. É a eleição condicional, em que a condição é a fé, e não uma qualidade que a pessoa traga de si. A expiação é universal: Cristo morreu por todos, a oferta do evangelho é sincera para todos, e a salvação se aplica a quem crê. Ele acusa o calvinismo de manter ao mesmo tempo a expiação limitada e a oferta universal do evangelho, o que chama de “duplipensar”.
Depravação total e graça resistível
O capítulo sobre o terceiro e o quarto artigos começa pela queda. A depravação total é extensiva, isto é, atinge o intelecto, as afeições e a vontade,. Sem a graça o ser humano não pensa, não quer e não faz nada de bom para a salvação, e Zwinglio cita a confissão de Armínio na Declaração de Sentimentos para mostrar isso.
A graça, porém, pode ser resistida (Atos 7:51; Mateus 23:37). O argumento mais trabalhado do livro está em João 6:44, “ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, o não trouxer”. R. C. Sproul lê o verbo grego helkō como “arrastar” ou “compelir”. Com os léxicos de Strong, Vine e Gingrich e Danker, Zwinglio mostra que helkō tem o sentido de “arrastar” quando se trata de pessoas agindo com violência sobre outras (Atos 16:19; Tiago 2:6) e o de “atrair” quando o sujeito é Deus (João 6:44; 12:32). O verbo que exprimiria uma graça irresistível seria surō, “arrastar”, “puxar”. À luz de Zacarias 4:6, “não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito”, ele resume: “Deus não arrasta, Ele persuade, chama, atrai.”
Para mostrar que aceitar a graça não faz da fé um mérito, ele retoma a imagem de Armínio, citada por Olson, do mendigo que estende a mão para receber a esmola: o gesto não torna o presente menos presente. “Tudo é pela graça”, escreve. Em Graça resistível (2016) ele chama o arminianismo de soteriologia sinergística, palavra que costuma confundir, e explica o sentido em que a usa: a vontade humana “apenas resiste, ou não, à graça que oferta uma salvação pronta e acabada”, em que nada se acrescenta (p. 68). Na mesma obra, a graça é universal no alcance porque Deus quer salvar a todos, mas essa universalidade não leva ao universalismo, a ideia de que todos serão salvos (p. 42).
Graça preveniente
A graça preveniente é a graça que vem antes de qualquer decisão humana diante do evangelho. Para Zwinglio, ela é o centro da soteriologia de Armínio: “A graça é o fator decisivo na salvação do homem.” Ela ilumina, convence e liberta a vontade, que só então pode crer ou recusar, e é a mesma graça que depois regenera e santifica. Ele lembra que Armínio às vezes chamava de “regeneração” essa primeira obra libertadora da graça. Os textos centrais são João 1:9 e Tito 2:11. Ver também A graça preveniente em Armínio.
Perseverança e livre-arbítrio
Sobre o quinto artigo, Zwinglio lembra que a Remonstrância de 1610 suspendeu o juízo e pediu mais estudo das Escrituras. Ele toma posição e afirma a perseverança condicional, com Episcópio e Limborch: crê “na possibilidade de um autêntico cristão decair da fé e perder-se”. Apoia-se nas advertências do Novo Testamento (João 15:6; Hebreus 3:12-14) e lê Hebreus 6:4-6 como palavra dirigida a crentes verdadeiros em risco de apostasia.
O último capítulo defende o livre-arbítrio libertário, a capacidade de escolher sem que causas anteriores fixem a escolha. Mas ele faz duas ressalvas. A vontade só é livre diante de Deus porque a graça a libertou, e o livre-arbítrio não é a pedra angular do arminianismo, que começa pela bondade de Deus. Ele nega que Deus seja autor do pecado e trata a liberdade humana como exigência da justiça divina: “O livre-arbítrio é condição sine qua non para a responsabilização humana.” A conclusão do livro amarra tudo: “Sem dúvida, o arminianismo clássico apresenta uma teologia da graça de alto valor”, porque o livre-arbítrio “não precede ou suplanta a graça”.
Pontos de contato com a fé do site
A soteriologia de Zwinglio coincide com a declaração de fé do site na depravação total, na expiação universal, na graça preveniente resistível e na perseverança condicional. As diferenças estão em outros pontos. Ele escreve como arminiano clássico, a partir de Armínio e dos remonstrantes, e não trata da inteira santificação wesleyana, que o site afirma. Como batista carismático, ensina a continuidade do dom de línguas, tema que a declaração do site não trata.
Obras principais
- Uma introdução ao arminianismo clássico: história, doutrinas e fundamentação bíblica (Sal Cultural, 2015; Reflexão, 2015)
- Falar em línguas: um estudo sobre o fenômeno da glossolalia (Reflexão, 2016)
- Graça resistível, Coleção Arminianismo (Reflexão, 2016; nova edição, 2021)
- Temas da teologia de Jacó Armínio (Reflexão, 2017)
- “O que é arminianismo?”, Good Prime, 15 jan. 2013
- “Comentários e respostas à crítica de Franklin Ferreira ao artigo ‘Em defesa do arminianismo’” (2015)
Livros em português
- Uma introdução ao arminianismo clássico: história e doutrinas (Reflexão, 2015). Ver na Amazon
- Falar em línguas: um estudo sobre o fenômeno da glossolalia (Reflexão, 2016). Ver na Amazon
- Graça resistível (Reflexão, 2021). Ver na Amazon
- Temas da teologia de Jacó Armínio (Reflexão, 2017). Ver na Amazon
Para aprofundar
- Zwinglio Rodrigues, Uma introdução ao arminianismo clássico: história, doutrinas e fundamentação bíblica. Maceió: Sal Cultural, 2015 (com o prefácio de Kleber Maia e a nota biográfica do autor).
- Zwinglio Rodrigues, “O que é arminianismo?”, Good Prime, 15 jan. 2013.
- Claiton André Kunz, “A doutrina arminiana em sua essência”, resenha de Uma introdução ao arminianismo clássico, Via Teológica, v. 16, n. 32, dez. 2015.
- Wellington Mariano, “Arminianismo no Brasil: uma introdução histórica”, CACP, 2015.
- Marcia Elias, “A teologia de Jacó Armínio: tempo de revisar”, Protestantismo em Revista, v. 46, n. 1, 2020.
- Carlos Kleber Maia, “Os cinco pontos do arminianismo clássico”, Revista Batista Pioneira, v. 9, n. 1, 2020.
- Kleber Maia, “A graça divina no arminianismo”, Good Prime, 10 mar. 2020.
- Biblioteca Arminiana, “Introdução ao arminianismo clássico”, 3 abr. 2015.
- Franklin Ferreira, “Uma avaliação do artigo ‘Em defesa do arminianismo’”, Bereianos, 29 maio 2015.
- Mário Magalhães, “Em defesa da expiação limitada e uma refutação ao texto de Zwinglio Rodrigues”, 31 maio 2015.
- Ediudson Fontes, “Os pentecostais e a importância em falar em línguas (parte 2)”, Guiame.
- Editora Reflexão, Graça resistível, Coleção Arminianismo, 2021.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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