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Natanael Rinaldi: O advogado de Santos que fez da apologética o seu ministério

Diego Gonçalves13 min de leitura2.698 palavras

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Neste texto

Durante uns quinze anos, a principal contribuição de Natanael Rinaldi na Assembleia de Deus foi a música. Tocava bandolim, depois pistom, e pedia ao pastor que não o chamasse ao púlpito, porque era tímido e já tinha a sua tarefa na igreja. Um dia, dois desconhecidos bateram à sua porta. Eram adventistas do sétimo dia e traziam um desafio: membros da sua congregação, numa região da Baixada Santista, tinham combinado com os obreiros adventistas uma reunião numa casa, e Rinaldi, responsável por aqueles irmãos, estava convidado a debater se o cristão deve guardar o sábado. Ele não sabia nada do assunto, e nenhum pastor jamais tinha tocado no tema. Comprou o livro Sabatismo à luz da Palavra de Deus, praticamente o decorou e aceitou o debate. Dali saiu o apologista que presidiu o Instituto Cristão de Pesquisas, escreveu com Paulo Romeiro Desmascarando as Seitas e passou mais de sessenta anos respondendo às seitas.

Vida

Um filho de crentes que precisou nascer de novo

Natanael Rinaldi nasceu num lar evangélico. Frequentava a Escola Dominical e era aluno aplicado nos concursos bíblicos da Igreja Presbiteriana Independente. Anos depois, lembrava a frase que se costuma dizer, “Deus não tem netos”, para explicar que ser filho de crentes não o tinha feito cristão: faltava-lhe o novo nascimento de João 3.3-5. A conversão aconteceu na adolescência, por volta dos doze anos, num salão da Assembleia de Deus em São Vicente, no litoral paulista.

Depois de convertido, passou a visitar por conta própria os novos convertidos e a ajudar nos cultos nos lares e ao ar livre. Numa dessas visitas percebeu que, logo depois que saía de uma casa, dois homens entravam nela: eram adventistas, que semeavam a sua doutrina justamente nos lares onde ele evangelizava. O debate sobre o sábado veio dali.

Do sábado às Testemunhas de Jeová

O primeiro debate puxou outros. Rinaldi passou a ser chamado para discutir nas igrejas adventistas do movimento de Reforma e a viajar para socorrer irmãos pressionados pelos sabatistas. O adventismo se tornou a sua especialidade, o assunto que ele dizia conhecer melhor. Quando se mudou para São Paulo, vieram os embates com as Testemunhas de Jeová, que ele descrevia como pessoas “belicosas no debate religioso”, e depois com os mórmons e o espiritismo. “Nunca mais parei de estudar sobre seitas”, contou numa entrevista.

Fora da igreja, seguiu outra carreira: formou-se em Direito e em Teologia e era advogado de profissão.

O Instituto Cristão de Pesquisas

Em 1983, o apologista norte-americano Walter Martin, fundador do Christian Research Institute, fez uma série de palestras no Rio de Janeiro e em São Paulo. Durante cerca de uma semana, os missionários do instituto falaram sobre as seitas a seminaristas reunidos em São Paulo. O impacto levou Martin a abrir uma extensão do ministério no Brasil, e em 18 de novembro de 1984 o Instituto Cristão de Pesquisas (ICP) começou a funcionar em São Paulo, de início como simples representação do instituto americano. O primeiro presidente foi Aristóteles Alencar. Rinaldi fez parte da primeira equipe, como secretário e palestrante, numa sala modesta no centro da cidade, onde crentes de várias igrejas vinham buscar o material já traduzido para o português.

Alguns anos depois, assumiu a direção do instituto, que presidiu por cerca de quatro anos, nas contas dele mesmo. A sua gestão contribuiu para a expansão do ICP pelo país. Rinaldi organizou palestras, simpósios e seminários, ajudou a criar em 1996 a revista Defesa da Fé, que se tornou a principal ferramenta do instituto, e criou um programa de rádio com o mesmo nome, transmitido em várias emissoras. No mesmo ano, a CPAD, editora das Assembleias de Deus, publicou Desmascarando as Seitas, que ele escreveu com Paulo Romeiro. O livro reunia as apostilas que o ICP produzia havia anos, uma para cada grupo, em onze capítulos, dos adventistas e mórmons ao espiritismo, às Testemunhas de Jeová e à Nova Era. O prefácio era de Esequias Soares, então vice-presidente do ICP. A segunda edição saiu em 1997, e o livro continua à venda.

Em 2000 saiu a primeira edição da Bíblia Apologética de Estudo, com Jamierson Oliveira como editor e Rinaldi como coordenador teológico. A maior parte das notas de rodapé foi escrita ou revisada por ele. Depois de uma fase de desentendimentos internos no instituto, em 2002 a direção passou a Antônio Fonseca, e Rinaldi ficou como presidente de honra.

Santos, a Igreja Evangélica da Paz e o rádio

A Igreja Evangélica da Paz nasceu em janeiro de 1994, de estudos bíblicos na casa do filho dele, Natanael Rinaldi Filho, no bairro do Boqueirão, em Santos. Rinaldi, que ainda morava em São Paulo, descia a serra para sustentar a obra. Liderou a igreja por oito anos, e depois a direção ficou com o filho. Em 2000 a congregação ganhou sede própria, no bairro do Macuco. A igreja é pentecostal: a sua declaração de fé afirma o batismo no Espírito Santo, com a evidência inicial de falar em outras línguas, e a atualidade dos dons espirituais.

Em Santos, o rádio se tornou o seu púlpito principal. O programa Consultando a Bíblia, de perguntas e respostas sobre doutrina, seitas e vida cristã, chegou a ocupar duas horas e meia diárias na Rádio Life FM, e por algum tempo Rinaldi manteve três programas diários de apologética em emissoras diferentes. Escreveu também para as revistas Obreiro e Resposta Fiel, da CPAD, e para a Defesa da Fé.

Nos últimos anos, Rinaldi foi consultor do Centro Apologético Cristão de Pesquisas (CACP), fundado em 1998 por João Flávio Martinez. Boa parte dos milhares de artigos do site do CACP veio do acervo pessoal de Rinaldi, e o seminário apologético realizado na Igreja Evangélica da Paz passou a levar o seu nome. Na nona edição, em outubro de 2014, ele mesmo deu as aulas sobre o adventismo e as Testemunhas de Jeová. Em 2015 publicou Consultando a Bíblia, volume 1, com respostas do programa de rádio.

Rinaldi foi casado com Paulina Camargo Rinaldi e teve três filhos. Paulina morreu em fevereiro de 2016. Exatamente uma semana depois, na madrugada de 24 de fevereiro de 2016, Natanael Rinaldi morreu em Santos, aos 89 anos. Foi velado na Igreja Evangélica da Paz e sepultado no dia seguinte no Memorial Necrópole Ecumênica de Santos. O escritor Johnny Bernardo escreveu que a sua morte encerrava o ciclo da “apologética combativa” no Brasil.

Pensamento

Um pentecostal arminiano

Natanael Rinaldi é um pentecostal arminiano. Viveu na Assembleia de Deus e numa igreja pentecostal que ajudou a fundar e, quando tratou da controvérsia com o calvinismo, ficou do lado de Jacó Armínio nos pontos em discussão. Num programa de rádio divulgado em vídeo pelo CACP, “O Calvinismo e a salvação dos homens”, respondeu a um ouvinte que queria conhecer os calvinistas. Apresentou Calvino e Armínio e leu um quadro com os cinco pontos de cada sistema, “para que o nosso consulente tire a sua conclusão”. A conclusão dele veio quando o apresentador lhe pediu que respondesse aos textos que os calvinistas mais citam.

O primeiro foi João 10.28: “e nunca hão de perecer”. Rinaldi mandou ler o versículo anterior: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem” (João 10.27). A promessa descreve quem nunca perecerá: as ovelhas que continuam ouvindo e seguindo. O segundo foi João 3.16. O verbo “crê”, explicou, está no particípio presente, e por isso o versículo promete a vida eterna aos que continuam crendo, e não aos que “creem por algum tempo e no tempo da tentação se desviam” (Lucas 8.13). Em seguida empilhou os textos de advertência: Mateus 10.22, Colossenses 1.23, com o seu “se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé”, Hebreus 10.26-27 e 2 Pedro 2.20-22. É a doutrina da perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e a apostasia, o abandono voluntário da fé, é uma possibilidade real. É também a posição dos remonstrantes posteriores e de John Wesley.

O mesmo raciocínio aparece num estudo sobre os desviados, escrito como comentário a um artigo de Antonio Gilberto no Mensageiro da Paz de fevereiro de 1997. Rinaldi separava duas classes de desviados: os que sentem saudade e voltam, como Manassés e Pedro, pelo caminho aberto de 2 Crônicas 7.14 e Isaías 55.7, e os impenitentes, para quem valem as palavras duras de 2 Pedro 2.20-22.

Presciência sem fatalismo

A segunda marca arminiana está no que ele dizia sobre o destino. Rinaldi combatia a ideia, comum diante das tragédias, de que “chegou a hora” de alguém e tudo foi vontade de Deus. Se o dia da morte de cada um estivesse fixado, argumentava, ninguém precisaria usar cinto de segurança, e a Bíblia diz que o temor do Senhor prolonga a vida (Provérbios 10.27). A conclusão teológica era esta: Deus deseja que todos se arrependam (2 Pedro 3.9), e se tudo o que acontece fosse vontade dele, todos se arrependeriam. Quanto à presciência, Rinaldi afirmava que “Deus sabe todos os acontecimentos de antemão”, mas que esse conhecimento não determina a escolha humana (Romanos 8.29; Deuteronômio 30.19). Deus conhece o futuro inteiro, e a pessoa continua responsável diante dele.

Isso não fazia dele inimigo da providência. Num texto sobre a “força do destino”, definiu a providência divina como a ação pela qual Deus provê os meios para que cada criatura chegue ao seu fim, “sem destruir sua liberdade de arbítrio”, e lembrou a imagem atribuída a Agostinho do diabo como um cão acorrentado, que ladra muito, mas só morde quem se aproxima.

A obra consumada de Cristo

O centro da apologética de Rinaldi era a obra de Cristo na cruz. “A luta entre o legalismo e o evangelho da graça de Deus é muito antiga”, escreveu na apostila sobre o adventismo de 2014, ligando os sabatistas modernos aos judaizantes que Paulo enfrentou. Contra a doutrina adventista do juízo investigativo, que diz que Cristo entrou no lugar santíssimo do santuário celestial em 1844 para completar a expiação, ele respondia que Jesus entrou ali na ascensão e que a redenção foi concluída na cruz (Colossenses 2.14-17; Hebreus 9.12; 10.10-12). Fazer do bode emissário uma figura de Satanás, que levaria no fim os pecados dos remidos, era para ele transformar o diabo em co-salvador e pregar “outro evangelho” (Gálatas 1.8-9).

Sobre a lei, sustentava que a Bíblia fala de uma só lei, com os seus 613 mandamentos, e que a divisão adventista entre lei moral e lei cerimonial é artificial. Ninguém cumpre tudo o que está escrito no livro da lei (Gálatas 3.10-11); por isso a lei foi o aio que nos conduziu a Cristo, para que fôssemos justificados pela fé (Gálatas 3.24), e o cristão vive debaixo da lei de Cristo (1 Coríntios 9.21). Nas respostas sobre a salvação, insistia que boas obras e caridade “em momento algum” servem de mérito: “dependemos totalmente de Jesus para sermos salvos”. Deus quer a salvação de todos (1 Timóteo 2.4), e a salvação é oferecida gratuitamente a quem recebe Jesus em vida e permanece fiel até o fim.

Contra as seitas e contra os modismos

O lema de Rinaldi resume o seu ministério: “Estamos fazendo pela verdade o que as seitas fazem pela mentira”. Ele rejeitava a “atitude de Gamaliel” (Atos 5.38-39), de esperar que o erro se extinga sozinho, e dizia que a igreja que evangeliza e não ensina acaba trabalhando para as seitas, porque os novos convertidos são levados por elas (Efésios 4.14). O prefácio de Desmascarando as Seitas diz o tom do livro: a guerra é contra os líderes que enganam, e os adeptos, na maioria vítimas do engano, devem ser amados e alcançados.

A mesma régua servia para dentro das igrejas evangélicas. Rinaldi criticou a teologia da prosperidade, que via como distorção da cristologia e da expiação, o movimento G12, a quebra de maldições hereditárias (contra a qual citava 2 Coríntios 5.17) e os objetos ungidos, que comparava às indulgências medievais. Com Antonio Gilberto, distinguia os costumes, que são locais e temporários, da doutrina, que é permanente e universal.

Perto e longe da declaração de fé do Diego

Rinaldi e a declaração de fé do Diego concordam no essencial da soteriologia arminiana: Deus deseja a salvação de todos, a salvação é pela graça, sem mérito humano, e a perseverança é condicional. Rinaldi escrevia e falava para o crente comum e usava a linguagem da escolha (“escolha Jesus”). A declaração do Diego e a tradição de Armínio e da Remonstrância põem essa escolha debaixo da graça preveniente: é o Espírito que convence, chama e liberta a vontade, para que o pecador possa crer. As diferenças maiores ficam em outros capítulos. Rinaldi aguardava o arrebatamento da igreja (1 Tessalonicenses 4.16-17), sem marcar datas para os acontecimentos proféticos, e o Diego é amilenista. Rinaldi descrevia a santificação como um processo que começa na conversão, e o Diego crê também na inteira santificação, a obra da graça que purifica o coração e o enche de amor perfeito.

Obras principais

  • Desmascarando as Seitas, com Paulo Romeiro (CPAD, 1996; 2ª ed., 1997).
  • Bíblia Apologética de Estudo (ICP, 2000), como coordenador teológico e autor da maior parte das notas.
  • “Controvérsias da Congregação Cristã no Brasil: o dízimo, o sustento pastoral e a motivação evangelística”, Defesa da Fé, n. 92.
  • “Cristianismo x Adventismo” e “Falsas profecias e mudanças doutrinárias das Testemunhas de Jeová”, apostilas do 9º Seminário Apologético Pr. Natanael Rinaldi (Igreja Evangélica da Paz, 2014).
  • Consultando a Bíblia, volume 1 (2015).

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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