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Ediudson Fontes: o pastor assembleiano que liga o arminianismo ao pentecostalismo

Diego Gonçalves13 min de leitura2.650 palavras

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Neste texto

Um adolescente recém-convertido na Assembleia de Deus de Fazenda Botafogo, na zona norte do Rio de Janeiro, pediu emprestadas a uma irmã da igreja as revistas da Escola Dominical e passou a estudá-las por conta própria. Foi nessas lições que Ediudson da Silva Fontes aprendeu a base da teologia pentecostal. Anos depois, ele escreveria três livros para mostrar que essa teologia tem raízes no arminianismo, e faria dessa identidade o eixo do seu trabalho de pastor, professor e colunista.

Vida

Formação

Ediudson Fontes cursou o bacharelado em Teologia na Faculdade de Teologia Semear (Fateos) entre 2001 e 2005, diploma convalidado em 2015 pela Faculdade de Teologia Integrada (Fatin). Entre 2008 e 2010 fez na mesma Fateos um mestrado livre em Teologia Sistemática, com a dissertação Comprovando a existência de Deus pela Bíblia. Em 2017 concluiu uma especialização em Ciências da Religião na Faculdade Kennedy.

O primeiro contato acadêmico dele com o arminianismo veio pela Teologia sistemática: uma perspectiva pentecostal, organizada por Stanley Horton e publicada pela CPAD. Depois veio Teologia arminiana: mitos e realidades, de Roger Olson, que ele diz ter lido mais de quatro vezes.

Em 2025 entrou no mestrado em Teologia Sistemático-Pastoral da PUC-Rio, como bolsista da CAPES. O projeto de dissertação, orientado por Luís Corrêa Lima, tem o título Soteriologia das Assembleias de Deus: uma leitura arminiana da eleição e predestinação. Na PUC-Rio escreveu um capítulo para o livro do simpósio sobre os dez anos da encíclica Laudato Si’ (Letra Capital, 2025) e apresentou um trabalho sobre escatologia pentecostal e transformação social.

Professor de institutos bíblicos

A carreira de professor começou em 2006, no Seminário Comunidade Batista Ebenezer, e seguiu pelos institutos bíblicos do Rio de Janeiro: o Instituto Bíblico das Assembleias de Deus do Estado do Rio de Janeiro (Ibaderj), quase todos os anos entre 2017 e 2024; o Seminário Teológico Cefav, de 2015 a 2024; o Ibadep, a Fatun, a Faculdade Sarça Ardente e a Faculdade Iguaçuana de Teologia, onde em 2024 deu aulas de Pentateuco, profetas e exegese. Desde 2025 é professor visitante do Seminário Batista Livre, em Guarulhos (SP).

Uma turma do Ibadep levou o nome dele em 2017, e ele foi paraninfo de formandos do Cefav e do Ibadep. Entre os trabalhos que orientou estão uma monografia sobre a graça preveniente na teologia armínio-wesleyana (Fatin, 2018) e outra, numa pós-graduação em Arminianismo do Seminário Batista Livre, com o título Monergismo condicional (2022).

O arminianismo como causa

A militância arminiana de Ediudson cresceu junto com a literatura que a Editora Reflexão e a CPAD passaram a publicar a partir de 2013. Ele participou dos três Encontros de Teologia Arminiana, em 2015, 2016 e 2017; no terceiro, falou sobre a Reforma Protestante e a teologia pentecostal. Em dezembro de 2016, o grupo “Arminianismo Autêntico”, no Facebook, administrado pelo pastor Zwinglio Rodrigues e outros, promoveu um concurso de textos sobre a teologia arminiana. O texto de Ediudson venceu, em 1º de janeiro de 2017, e voltou em duas partes como as primeiras colunas dele de 2023 no portal Guiame.

Em 2018 publicou um artigo sobre a justificação pela fé em John Wesley e deu uma palestra sobre a eleição corporativa na perspectiva arminiano-wesleyana, ao lado de Luis Roldan e Thiago Titillo. No mesmo ano a Reflexão lançou o primeiro livro dele, Panorama da Teologia Arminiana, uma introdução de 80 páginas. Seguiram-se Reforma Protestante e Pentecostalismo (2019) e A Soteriologia na relação entre Arminianismo e Pentecostalismo (2020), com 198 páginas. Em 2020 a editora o incluiu entre os seus autores mais procurados, e os lançamentos o levaram a igrejas, seminários e programas na internet, inclusive para Angola.

Entre 2020 e 2021 escreveu na revista Clube de Sabedoria uma série sobre os “pilares do arminianismo”, na ordem em que ele os ensina: depravação total, expiação ilimitada, livre pela graça, eleição condicional e segurança em Cristo. Desde maio de 2022 é colunista do Guiame, onde publicou mais de oitenta textos sobre arminianismo, Reforma, história do pentecostalismo e doutrina pentecostal, incluindo perfis de Charles Fox Parham e Maria Woodworth-Etter. É consultor teológico do blog O Cristão Pentecostal, escreveu capítulos de teologias sistemáticas pentecostais coletivas e apresentou edições brasileiras de textos dos primeiros pentecostais, como Uma voz que clama no deserto, de Parham (2020).

Pastor e pesquisador

Ediudson é pastor auxiliar da Assembleia de Deus Ministério Cidade Santa, no Rio de Janeiro. É casado com Caroline Fontes, com quem divide palestras sobre família e programas sobre a história das pioneiras assembleianas, como Frida Vingren. Desde 2024 é diretor adjunto do Centro de Preservação e Estudo do Movimento Pentecostal (CPEMP). Em 9 de julho de 2026 apresentou no 38º Congresso Internacional da Soter o trabalho “Eleição, liberdade e responsabilidade humana: contribuições do arminianismo para o enfrentamento das violências contemporâneas”.

Pensamento

Um pentecostal arminiano

Ediudson Fontes é um pentecostal arminiano: assembleiano, defende o batismo no Espírito Santo e a atualidade dos dons, e se declara arminiano na doutrina da salvação. A tese central dos seus livros é que a Assembleia de Deus é arminiana desde a pregação dos pioneiros. Ele a apoia na Declaração de Fé da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (2017), que afirma que “a salvação está disponível a todos os que creem”, e na mensagem dos fundadores. Daniel Berg, Gunnar Vingren e Frida Vingren anunciavam, segundo ele, um Cristo que salva, cura, batiza no Espírito e voltará, e um Cristo que morreu por todos.

Ele delimita a tese com cuidado: “Só na soteriologia que a Assembleia de Deus é arminiana” (entrevista a O Cristão Pentecostal, 2020). Armínio batizava crianças e, na avaliação de Ediudson, provavelmente não esperava a continuidade dos dons espirituais; os assembleianos batizam só quem crê e oram pelos dons. A ponte histórica passa por Wesley, pelo movimento de santidade e por William Seymour, que veio desse movimento antes de liderar o avivamento da Rua Azusa. No livro de 2020 ele aproxima do pentecostalismo John Fletcher, que lia a história em dispensações ligadas a cada Pessoa da Trindade.

A graça no centro

O ponto em que Ediudson mais insiste é que o arminianismo não gira em torno do livre-arbítrio. “O essencial da teologia arminiana é a graça preveniente”, escreveu no texto premiado de 2016. Graça preveniente é a graça que vem antes: Deus age no pecador antes de qualquer resposta, ilumina, convence do pecado e o torna capaz de crer, sem forçá-lo. Ela é necessária porque, depois da queda, o ser humano está espiritualmente morto e não consegue voltar-se para Deus por si mesmo. É isso que o arminianismo chama de depravação total, e Ediudson a põe como o primeiro dos seus cinco pilares, citando Armínio e o sermão de Wesley sobre o pecado original.

Daí a resposta dele a um pastor calvinista que, num podcast, chamou o arminianismo de antropocêntrico: “O Arminianismo não é uma visão centrada no ser humano”, porque “é Deus que toma iniciativa no plano da salvação” (Guiame, 2023). Na coluna sobre o livre-arbítrio libertário, ele explica que a expressão não quer dizer autonomia. A pessoa é libertada pela graça e, assim, pode receber ou rejeitar a Cristo; por isso, “quem pensa que o livre-arbítrio é o cerne do arminianismo é um engano”. Ele também critica o “livre-arbítrio popular” dos púlpitos, que trata a conversão como uma escolha tão simples quanto trocar de roupa. A acusação de semipelagianismo, a ideia de que o homem dá o primeiro passo e a graça só ajuda, ele rejeita com Wesley: “Não há nada de semipelagianismo na teologia de Wesley” (Guiame, 2023).

Na mesma linha, Ediudson apresenta o arminianismo como herdeiro da Reforma. Armínio afirmou na Declaração de Sentimentos não ensinar sobre a justificação nada diferente das igrejas reformadas, e Ediudson conclui que “o Arminianismo segue fielmente o pilar da Reforma Protestante Sola Fide”: as boas obras são fruto da salvação, e nunca a causa dela. O mesmo argumento aparece no site em o arminianismo é reformado?.

Cristo morreu por todos

Se a graça preveniente é o começo, a expiação ilimitada é o fundamento. Expiação ilimitada significa que Cristo morreu por todos os seres humanos, e não só pelos que serão salvos. Ediudson chega a dizer que “o cerne do arminianismo não é livre-arbítrio, e sim a expiação ilimitada para todos” (Guiame, 2023), e sustenta a tese com três razões: o pecado é universal (Romanos 3:23), Deus quer que todos sejam salvos (1 Timóteo 2:4) e a graça é iniciativa divina que precisa ser recebida. O amor de Deus não tem limites, mas não anula a santidade: quem rejeita o Filho permanece sob a ira (João 3:36).

Essa doutrina, para ele, tem consequência prática direta, e é a evangelização. “Jesus Cristo morreu por todos, logo a pregação é para todos”, resumiu em 2020. Por isso ele liga o crescimento das Assembleias de Deus a uma pregação dirigida a todos, e escreve que “a graça de Deus não é seletiva” (Guiame, 2023). O tema já aparece no site em expiação para todos.

Eleição em Cristo e segurança

Ediudson defende a eleição condicional e a lê em chave cristológica, na linha de Robert Shank, de Eleitos no Filho. Deus decretou que Jesus Cristo é o Eleito e o Salvador do mundo; os que recebem a Cristo passam a fazer parte do seu corpo e participam da eleição e de tudo o que ela inclui, do chamado à glorificação. “Só é eleito em Cristo quem O recebe em sua vida”, e a eleição é condicional “porque podemos rejeitar o convite da salvação” (Guiame, 2023). Na palestra de 2018 ele expôs a eleição corporativa: o povo de Deus é eleito em Cristo, e cada pessoa entra nesse povo pela fé.

Sobre a segurança do crente, ele distingue três posições arminianas: os de “quatro pontos”, em geral batistas, que negam a perda da salvação; os arminianos clássicos que admitem a apostasia, conhecida por Deus de antemão; e os wesleyanos, para quem o crente pode cair da graça ao viver na prática do pecado e perder a presença do Espírito. Ele insiste que “a apostasia não pode ser entendida como algo hipotético” e que “com o pecado não se brinca” (Guiame, 2023). A segurança, para ele, está em Cristo, e quem está nele produz “frutos de salvos”. É a perseverança condicional que o site expõe em a segurança da salvação e em apostasia na Bíblia.

Reforma e Pentecostes

O segundo livro dele lê o pentecostalismo como continuação da Reforma, e não como ruptura. Os reformadores devolveram a Bíblia ao povo e recolocaram a graça e a fé no centro; o pentecostalismo, diz ele, mantém esses princípios e acrescenta a experiência do poder do Espírito. A frase que resume o argumento é de uma coluna de 2025: “A Reforma Protestante abriu o caminho; o Pentecostalismo reacendeu o fogo.”

O fundamento bíblico do pentecostalismo, para Ediudson, está em Lucas e Atos, lidos como modelo para a igreja de hoje, e não só como história. Daí o batismo no Espírito Santo como capacitação para a missão, distinto da regeneração e acompanhado do falar em línguas, e a expectativa dos dons de 1 Coríntios 12:8-10 na vida da igreja. Ele reconhece exageros, como o culto que busca emoção em vez de amadurecimento, mas responde aos críticos que “dizer que os pentecostais não têm uma base teológica é um grande equívoco” (O Cristão Pentecostal, 2020).

Na escatologia, defende a linha assembleiana tradicional: pré-milenismo, arrebatamento antes da Grande Tribulação e um plano de Deus ainda reservado para Israel. Nesse ponto ele se distancia da declaração de fé deste site, que é amilenista: lê os mil anos de Apocalipse 20 como o tempo presente entre as duas vindas de Cristo e espera uma única volta, seguida da ressurreição e do juízo. Na soteriologia, as posições coincidem: depravação total, graça preveniente e resistível, expiação universal, eleição em Cristo e perseverança condicional.

Ediudson não pede que todo pentecostal vire arminiano por obrigação: “Os calvinistas que são pentecostais têm o direito de serem calvinistas” (2020). Ele discorda, porém, de quem diz não ser nem calvinista nem arminiano, porque toda igreja está dentro de alguma tradição, e conhecê-la protege dos modismos. O lugar onde se aprende essa tradição, para ele, continua sendo a Escola Dominical, a mesma onde o adolescente de Fazenda Botafogo estudou as revistas emprestadas.

Obras principais

  • Panorama da Teologia Arminiana (Reflexão, 2018).
  • Reforma Protestante e Pentecostalismo: a conexão dos cinco solas e a teologia pentecostal (Reflexão, 2019).
  • A Soteriologia na relação entre Arminianismo e Pentecostalismo (Reflexão, 2020).
  • “Pneumatologia: doutrina do Espírito Santo”, em Teologia sistemática sob a ótica pentecostal (Versejar Gospel, 2021).
  • “A manifestação da graça de Deus na perspectiva pentecostal”, em Doutrinas pentecostais (Ensinai, 2023).
  • “Doutrina da salvação”, em Teologia sistemática em uma perspectiva pentecostal (Editora do Cristão, 2024).

Livros em português

  • Panorama da Teologia Arminiana (Reflexão, 2018). Ver na Amazon
  • Reforma Protestante e Pentecostalismo: a conexão dos cinco solas e a teologia pentecostal (Reflexão, 2019). Ver na Amazon
  • A Soteriologia na relação entre Arminianismo e Pentecostalismo (Reflexão, 2020). Ver na Amazon · Ver na Shopee

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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