
HistóriaTeólogos arminianos12 de 100
Tassos Lycurgo: o filósofo ex-ateu que fez da apologética um ministério
Neste texto
- Vida
- Família católica, Noruega e filosofia analítica
- Direito, Cariri e UFRN
- Rhema, Oral Roberts e o Defesa da Fé
- Iphan, redes e livros recentes
- Pensamento
- Onde ele fica
- Liberdade e responsabilidade
- Presciência sem determinação
- O Espírito e o arrependimento
- Graça, fé e obras
- Uma fé que pensa
- Jó e a bondade de Deus
- Cultura e linguagem
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Lissa, a segunda filha de Tassos Lycurgo e Camila, viveu nove dias. O pai era então professor universitário de filosofia, formado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e na Universidade de Sussex, na Inglaterra, e se dizia ateu por razões intelectuais. Anos antes, quando um exame de pré-natal acusou risco no primeiro filho, a esposa prometeu a Deus ler a Bíblia e fazer o que ela manda; o menino nasceu saudável, e Camila passou a frequentar uma igreja batista. Lycurgo já tinha lido C. S. Lewis e estava, como ele mesmo diz, convencido com a cabeça. Foi diante da morte de Lissa que precisou decidir, e o que aceitava com a razão, conta ele, tomou conta da alma. Desde então ele repete que a razão remove obstáculos, mas não converte.
Vida
Família católica, Noruega e filosofia analítica
Tassos Lycurgo Galvão Nunes é potiguar. Cresceu numa família católica não praticante e, no colégio católico, fazia às freiras perguntas sobre a origem do universo e a confiabilidade da Bíblia que ficavam sem resposta. Entre 1993 e 1994 estudou na Noruega como estudante de intercâmbio, com patrocínio do governo norueguês, em escolas secundárias de Fauske e de Harstad, e de lá trouxe o norueguês e o interesse pela física moderna.
A graduação foi em filosofia, na UFRN, de 1996 a 1998, orientada por Ângela Maria Paiva Cruz, com quem depois pesquisou lógica deôntica, a lógica das normas e dos deveres. Em 1998 seguiu para a Universidade de Sussex, onde fez o mestrado em filosofia analítica com Richard Gaskin e escreveu Constructive Philosophy: An Epistemological Defiance to Our Scepticism. De volta a Natal, foi professor substituto de filosofia na UFRN e, com bolsa da CAPES, fez o doutorado em educação, na linha de matemática e lógica, orientado por John Andrew Fossa. A tese, A respeito da existência da educação, foi defendida em agosto de 2002.
Direito, Cariri e UFRN
Ainda em 2002, Lycurgo fez estágio de pós-doutorado em sociologia do direito na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), com Rubens Pinto Lyra, e se tornou professor efetivo da Universidade Regional do Cariri (URCA), no Crato (CE), onde ensinou filosofia do direito. Na mesma URCA cursou direito, de 2000 a 2004, e depois se especializou em direito do trabalho. É advogado inscrito na OAB do Rio Grande do Norte. Com Lauro Ericksen publicou três manuais de direito pela Edipro em 2011.
Em 2005 voltou à UFRN como professor do Departamento de Artes, onde ensinou estética e direito autoral, orientou mestrados em artes cênicas e em design e se tornou professor titular. Escreveu crônicas para o Jornal de Hoje, de Natal; uma delas, de março de 2005, leva o nome de Lissa. No mesmo ano saiu na revista Tendências, do Crato, o artigo “A forma matemática de Cristo”.
Rhema, Oral Roberts e o Defesa da Fé
A formação teológica veio nos Estados Unidos. Lycurgo e Camila se graduaram em ministério pastoral e em estudos bíblicos no RBT College (Rhema Bible Training College), em Oklahoma, e ele foi ordenado pastor pela associação ministerial ligada a essa escola, a RMAI. Também fez o curso de liderança avançada do Haggai Institute, na Tailândia. De 2012 a 2014 fez o pós-doutorado em apologética cristã na Oral Roberts University (ORU), em Tulsa, onde foi professor visitante até 2015. Mais tarde foi pesquisador visitante do Reasons to Believe, ministério de ciência e fé do astrônomo Hugh Ross.
Em 2015 Lycurgo fundou o Ministério Internacional Defesa da Fé, que preside, com sede na Grande Natal, sob o lema “aqui é proibido não pensar”. A igreja se define como pentecostal, com ênfase nas Escrituras, na intimidade com o Espírito Santo e na atualidade dos dons; a declaração de fé chama a razão de fundamento intelectual da fé. Camila também é pastora da igreja. O ministério organiza desde 2017 o CaFé com Ciência, encontro de apologética para estudantes, e a partir de 2016 publicou pela Defesa da Fé Editora os livros cristãos dele, de Cristianismo simples, escrito com Camila, a Deus, o Big Bang e o universo (2021). Em 2025 a igreja celebrou dez anos.
Iphan, redes e livros recentes
Em 8 de dezembro de 2020, Lycurgo foi nomeado diretor do Departamento de Patrimônio Imaterial do Iphan, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Quinze entidades culturais criticaram a nomeação por falta de experiência na área, e o Iphan a defendeu como técnica. Em novembro de 2021 ele passou ao Departamento de Cooperação e Fomento e foi exonerado em 3 de agosto de 2022.
Nos anos seguintes o alcance dele cresceu nas redes, com cortes de pregações, entrevistas em podcasts e a Lycurgo Academy, plataforma de cursos bíblicos. Em 2026 saíram A batalha pela verdade (Vida) e As bases satânicas do comunismo. Em janeiro de 2026, um coletivo estudantil entregou à ouvidoria da UFRN um dossiê que acusa o professor de declarações transfóbicas e conspiratórias nas redes e pediu a demissão dele; líderes evangélicos saíram em sua defesa, e ele atribuiu a campanha a militantes políticos.
Pensamento
Onde ele fica
Lycurgo é um pentecostal de soteriologia arminiana. Não usa o rótulo de arminiano, mas rejeita a eleição incondicional e a reprovação incondicional, afirma que Deus conhece de antemão quem será salvo sem determinar essa escolha, ensina que ninguém se arrepende sem a ajuda do Espírito Santo e que essa ajuda pode ser recusada. “Deus sabe quem será salvo, mas isso não significa que Ele escolheu alguns para o Céu e outros para o inferno”, escreveu em 2024. A formação no Rhema e na Oral Roberts, escolas do pentecostalismo carismático americano, e a igreja que pastoreia o colocam na grande família pentecostal de Myer Pearlman e Stanley Horton, mas ele chega a essas conclusões pela filosofia analítica.
Liberdade e responsabilidade
O argumento central de Lycurgo sobre a salvação parte da responsabilidade moral. “Um corolário lógico da suposição de que não há livre-arbítrio é aceitar que não existiria qualquer responsabilidade do homem”, escreveu em 2024, porque alguém só responde por um ato se poderia ter agido de outro modo. Um Deus que punisse quem não é livre seria como alguém que punisse um triângulo por ser triângulo. O segundo argumento vem do amor: sem liberdade não há amor, e uma criatura programada para obedecer não ama. Daí a leitura de 1 Samuel 8: Deus sabia que pedir um rei era má escolha, respeitou-a e não abandonou o povo, até enviar o Rei perfeito. Que Deus respeite as nossas escolhas é, para ele, “o mais aterrorizante princípio bíblico”.
Presciência sem determinação
Contra a objeção de que a presciência fixaria as escolhas, Lycurgo usa a atemporalidade de Deus: Deus é mais do que eterno, está fora do tempo e vê passado, presente e futuro de uma só vez. Por isso conhecer não é impor. Jesus sabia que Judas o trairia, mas Judas traiu por escolha própria, e não por decreto. A solução é a de Boécio e de boa parte da tradição, e é diferente do conhecimento médio de William Lane Craig, outro autor que ele leu no caminho da conversão. Com ela Lycurgo mantém o que o arminianismo clássico sempre afirmou contra o teísmo aberto: Deus conhece todo o futuro, inclusive as decisões livres, e essas decisões continuam reais (ver Presciência, eleição e predestinação e A soberania de Deus e o livre-arbítrio humano).
O Espírito e o arrependimento
O texto em que Lycurgo mais se aproxima da doutrina da graça é um estudo de 2017 sobre o pecado contra o Espírito Santo (Mateus 12:31-32; Marcos 3:28-29). Deus quer perdoar e perdoa todos os que o procuram arrependidos; foi para isso que enviou o Filho (João 3:16). Quem quer voltar a Deus consegue porque o Espírito está pronto a ajudar: “Sem ele, o pecado não nos permitiria conseguir por nossa própria força”. A blasfêmia contra o Espírito não tem perdão porque recusa sistematicamente o único que leva ao arrependimento. A conclusão é pastoral: quem teme ter cometido esse pecado não o cometeu, porque a própria preocupação mostra que o Espírito está agindo nele.
Aqui convém medir a distância em relação ao arminianismo clássico. Lycurgo afirma a incapacidade humana sem o Espírito e a resistibilidade da graça, mas diz que o Espírito ajuda “desde que […] assim o queiramos” e fecha o estudo sobre 1 Samuel com “a escolha, como sempre, depende de nós”. Armínio e Wesley põem a ênfase em outro lugar: a graça preveniente liberta uma vontade que estava morta, e até o querer de quem crê é fruto dessa graça (ver a Declaração de Sentimentos, de Jacó Armínio). A conclusão pastoral do próprio Lycurgo, de que quem busca já está sendo ajudado pelo Espírito, aponta nessa direção.
Graça, fé e obras
Sobre a justificação, ele é protestante sem ambiguidade: “A salvação é, e sempre será, pela graça”, mediante a fé em Cristo Jesus (2025). As obras são o resultado da salvação, e não a raiz. Tiago não diz que as obras salvam, mas que a fé sem obras está morta, porque a fé viva dá fruto (Tiago 2:26, tema de uma pregação de 2018). Num sermão sobre Romanos 7 e 8, Lycurgo afirma que viver confortável no pecado é sintoma de um espírito não recriado. Quem salva, insiste, é Jesus Cristo, e não a fé.
O traço pentecostal aparece na doutrina do Espírito: num estudo de 2017, Lycurgo afirma que o Espírito é uma pessoa que pensa, deseja e ama (Romanos 8:27; 1 Coríntios 12:11; Romanos 15:30), e não uma força, e que distribui os dons como quer.
Uma fé que pensa
A apologética de Lycurgo junta três frentes. A primeira é a sintonia fina do universo, as constantes que, alteradas minimamente, tornariam a vida impossível; contra a saída do multiverso, ele lembra que um conjunto de universos também precisaria de começo, como indica o teorema de Borde, Guth e Vilenkin. A segunda é a lógica: os teoremas de Gödel (1931) mostram que um sistema lógico consistente não prova todas as suas verdades por si mesmo, e Lycurgo conclui que a razão não é autossuficiente e aponta para um fundamento maior, que é Deus. O fundamento último é Cristo, que é a Verdade (João 14:6). A terceira é a biologia do design inteligente: aceita a microevolução, a variação dentro de um mesmo tipo de ser vivo, e rejeita a macroevolução com o argumento da complexidade irredutível de Michael Behe, ilustrado pela ratoeira e pelo flagelo bacteriano.
A frase que resume essa apologética é de 2017: a fé cristã exige evidência, e “temos fé porque é verdadeiro”. A razão limpa o caminho, e a conversão fica com o Espírito (ver Apologética cristã: o que é e para que serve).
Jó e a bondade de Deus
O livro sobre Jó, escrito com Jai Jind, pergunta se Deus teria entregado um homem fiel ao Diabo para vencer uma aposta. Os autores respondem que Deus não quis, não causou nem permitiu sem razão o sofrimento de Jó, mas interveio a favor dele, porque a bondade é o centro do seu caráter. É uma leitura minoritária, que se afasta da interpretação comum, para a qual Deus permite a prova (ver A história de Jó).
Cultura e linguagem
A batalha pela verdade sustenta que a linguagem se tornou “uma ferramenta central na guerra cultural do século XXI”: quem redefine palavras como verdade, liberdade e identidade muda o modo como a realidade é interpretada. O livro recorre a Orwell, a Huxley e aos experimentos de Asch e Milgram sobre conformidade e obediência, e examina a educação, a mídia, a família e a religião. As bases satânicas do comunismo parte dos escritos de Marx para afirmar que o comunismo de hoje é uma proposta ideológica, e não econômica, porque as previsões de Marx e Engels não se cumpriram.
Obras principais
- O fim da educação: elementos epistêmicos da ignorância (Edufrn, 2008); Variações do indizível: ensaios de risco (Edufrn, 2009); Imagem in ação: contos da cidade, do sertão e do cais (Edufrn, 2010).
- Filosofia do direito, Teoria geral do direito e da política e Ética e estatuto jurídico da magistratura nacional, com Lauro Ericksen (Edipro, 2011).
- Cristianismo simples: conhecimento para a vida de uma nova criatura, com Camila Lycurgo (Defesa da Fé Editora, 2016).
- Jó: traído por Deus? Entregue ao Diabo?, com Jai Jind (Defesa da Fé Editora, 2016; edição inglesa em 2017 e espanhola em 2020).
- Questões sobre Deus e a ciência (Defesa da Fé Editora, 2018).
- Os dinossauros e a Bíblia, com Everton Alves (Defesa da Fé Editora, 2020).
- Deus, o Big Bang e o universo (Defesa da Fé Editora, 2021).
- A batalha pela verdade: da manipulação da linguagem à desconstrução da família (Vida, 2026).
- As bases satânicas do comunismo (2026).
Livros em português
- A batalha pela verdade: da manipulação da linguagem à desconstrução da família (Vida, 2026). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- As bases satânicas do comunismo (2026). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- Currículo Lattes de Tassos Lycurgo Galvão Nunes, reproduzido no Escavador.
- Reasons to Believe, perfil de Tassos Lycurgo (2021) e página de autor.
- Guiame, “De ateu a teólogo: Tassos Lycurgo diz que passou a crer em Deus após perder filha” (15/01/2026).
- Verbo da Vida, “Tassos Lycurgo fala sobre defesa da fé e família cristã” (26/12/2023).
- Ministério Defesa da Fé, quem somos e declaração de fé e página de imprensa.
- Tassos Lycurgo, “Por que não há perdão para quem peca contra o Espírito Santo?”, “Acertando em nossas escolhas”, “Você tem medo da Teoria dos Universos Paralelos?”, “É correto dizer que é a razão (e não Deus) a fonte primeira da verdade?” e “Você já ouviu falar em complexidade irredutível?”, blog Defesa da Fé (2017).
- Tassos Lycurgo, vídeos “Deus sabe quem vai ser salvo?” (2024), “Com a responsabilidade, vem o livre-arbítrio” (2024), “A traição de Judas foi determinada por Deus?” (2025) e “Obra não salva ninguém!” (2025).
- Defesa da Fé, apresentação do livro Jó: traído por Deus? Entregue ao Diabo?.
- Comunhão, “Pastor Tassos Lycurgo é nomeado diretor do Iphan” (2020); Agenda de Emergência, nota sobre a nomeação; Farofafá, “Governo demite pastor extremista do Patrimônio Histórico” (03/08/2022).
- Guiame, “Em novo livro, Tassos Lycurgo alerta cristãos sobre a manipulação da linguagem” (2026); Pleno.News, “Tassos Lycurgo explica sobre bases espirituais e ideológicas do comunismo” (28/08/2026).
- Portal Tela, “Grupo da UFRN pede saída de professor” (21/01/2026).
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
- Teólogos Arminianos
- Personagens
- Pentecostalismo