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Paulo Romeiro: O ex-seminarista católico que se tornou apologista pentecostal

Diego Gonçalves13 min de leitura2.642 palavras

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Neste texto

Em 1983, durante um seminário de apologética no Teatro das Nações, em São Paulo, um jovem brasileiro que estudava teologia nos Estados Unidos foi levar um recado ao hotel do conferencista, o norte-americano Walter Martin, fundador do Christian Research Institute. Martin abriu a porta e foi direto ao assunto: sentia que Deus o dirigia a começar um ministério no Brasil, e o rapaz poderia ajudar? A resposta foi não, porque o seu chamado era para o evangelismo. Martin insistiu: e se fosse só por seis meses? Quarenta anos depois, Paulo Romeiro contava que os seis meses ainda não tinham acabado. Daquele encontro saíram o Instituto Cristão de Pesquisas, o livro Supercrentes e uma das vozes mais conhecidas da crítica evangélica à teologia da prosperidade no Brasil.

Vida

Do seminário católico à fábrica de aviões

Paulo Rodrigues Romeiro cresceu católico. Foi coroinha e passou cinco anos num seminário, preparando-se para o sacerdócio. No seu testemunho, lembra as penitências com que tentava se santificar: grãos de milho dentro dos sapatos, noites dormindo debaixo da cama, dias sem beber água. Saiu do seminário dois anos antes de receber a batina.

O pai, deprimido, passou a frequentar centros espíritas, hábito que durou trinta anos, e as noites da casa se encheram de medo. Romeiro conta que começou a sentir as mesmas presenças que atormentavam o pai, a ponto de levar a cama para o quarto dos pais. Os dois se desentenderam, e um dia o pai o “convidou” a sair de casa.

Romeiro foi trabalhar numa fábrica de aviões em outra cidade, onde ficou quase oito anos. Um colega crente lhe falou do evangelho, e ele o mandou calar a boca: tinha estudado em seminário e não aceitava lição de teologia de um operário. O colega levou o nome dele à igreja para oração. Pouco depois, assistindo a Ben-Hur no cinema, Romeiro sentiu no coração que o Jesus da tela era o Deus que ele devia seguir. A leitura de uma Bíblia católica, sobretudo de João 13 a 17, pesou na decisão, e ele diria mais tarde que fez o caminho inverso do apóstolo Paulo: foi da Palavra para a experiência. Na quinta-feira seguinte chegou meia hora antes do culto, caiu de joelhos e chorou. A única oração de que se lembra foi a de um recruta: “General, o seu soldado está aqui”. A conversão aconteceu nos anos 1970, numa Assembleia de Deus.

Formação nos Estados Unidos

Entre 1975 e 1978, Romeiro cursou Jornalismo nas Faculdades Braz Cubas, em Mogi das Cruzes. Depois foi estudar teologia nos Estados Unidos. O primeiro mestrado foi na Melodyland School of Theology, na região de Los Angeles, onde Walter Martin dava aula às sextas-feiras; foi com ele que Romeiro aprendeu a apologética diante das seitas. Em 11 de abril de 1984, foi ordenado pastor pelo Concílio Distrital do Sul da Califórnia das Assembleias de Deus. Entre 1985 e 1987, fez o Master of Divinity no Gordon-Conwell Theological Seminary, perto de Boston, com uma dissertação sobre o humor de Charles Spurgeon, o pregador batista que ele cita nos sermões até hoje, embora discorde do seu calvinismo.

O Instituto Cristão de Pesquisas e Supercrentes

Depois da conversa no hotel, Romeiro e Paul Carden, auxiliar de Martin, começaram o Instituto Cristão de Pesquisas (ICP), que passou a funcionar em São Paulo em novembro de 1984, como representação do instituto norte-americano. Natanael Rinaldi, um dos preletores brasileiros do seminário de 1983, assumiu a presidência. Romeiro voltou de vez ao Brasil em 1988. Uma das marcas daqueles anos, na lembrança dele, foi o trabalho com a imprensa: para os jornalistas, assembleianos, presbiterianos, mórmons e espíritas pareciam a mesma coisa, e o ICP passou a mostrar as diferenças com documentos na mão.

No início dos anos 1990, a teologia da prosperidade ganhou força no Brasil, e a pregadora Valnice Milhomens, ex-missionária batista em Moçambique, chegou à televisão. Desafiado por Mark Carpenter, da Editora Mundo Cristão, Romeiro escreveu Supercrentes: o evangelho segundo Kenneth Hagin, Valnice Milhomens e os profetas da prosperidade (1993), recomendado por Russell Shedd. Era um livro de pouco mais de oitenta páginas, mas o primeiro a pôr o nome dos pregadores na capa, e caiu, nas palavras dele, como uma bomba. Romeiro passou a viajar do Rio Grande do Sul a Manaus. Vieram depois Evangélicos em crise (1995) e Desmascarando as seitas (CPAD, 1996), escrito com Rinaldi.

A AGIR, a Igreja Cristã da Trindade e o Mackenzie

Em 1997, Romeiro deixou o ICP e fundou a Agência de Informações Religiosas (AGIR), hoje Projeto CRER (Crenças, Religiões e Estudos Relacionados), filiada aos Centers for Apologetics Research. Para ter uma base ministerial, fundou também a Igreja Cristã da Trindade (ICT), ao lado da estação São Judas do metrô, em São Paulo, que depois abriu uma unidade em Cosmópolis. Às quartas-feiras, a igreja abre as portas ao meio-dia e convida quem passa para receber oração; entram espíritas, umbandistas e até ateus. Em 2010 nasceu ali a Academia Bíblica da ICT, que em 2014 virou a Faculdade Teológica da Trindade. Romeiro é casado com Simone e tem dois filhos, Alyne e Adryel.

De 2000 a 2004 fez o doutorado em Ciências da Religião na Universidade Metodista de São Paulo, orientado por Geoval Jacinto da Silva, com uma tese sobre a prática pastoral da Igreja Internacional da Graça de Deus, que virou o livro Decepcionados com a graça (2005). No mesmo ano foi convidado para o curso de Teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde ficou quinze anos. Lecionou Protestantismo e Cultura Brasileira e Filosofia da Religião, deu Temas sobre o Pentecostalismo no mestrado e orientou pesquisas sobre a Igreja Mundial do Poder de Deus, a Bola de Neve e os usos e costumes das Assembleias de Deus. Escreveu os capítulos sobre o Brasil em manuais internacionais de educação cristã da Springer (2012) e da Wiley Blackwell (2018).

Manteve por anos o programa de rádio Um toque de Deus e hoje apresenta, aos sábados, A Bíblia para Hoje, pela internet. Em 2015 assinou, com calvinistas e arminianos, a “Nota pública sobre debates teológicos entre calvinistas e arminianos”, contra os ataques pessoais nas redes. Em 25 de agosto de 2018, a ICT sediou, com a Editora Reflexão, o IV Congresso de Teologia Arminiana, com palestras de Rustin Brian sobre a vida pastoral de Jacó Armínio e do próprio Romeiro sobre o Espírito, a Palavra e a experiência.

Pensamento

A Palavra acima da experiência

Romeiro se define sem rodeio como pentecostal, e a declaração de fé da ICT afirma o batismo no Espírito Santo e a atualidade dos dons. A crítica que ele faz ao pentecostalismo vem de dentro. Foi o que os presbiterianos Alan Pieratt e Augustus Nicodemus Lopes destacaram ao resenhar Evangélicos em crise na Fides Reformata, em 1996: o autor é da Assembleia de Deus, e a sua palavra pesa mais entre os neopentecostais do que a de quem nunca viveu a experiência carismática.

O princípio dessa crítica é a autoridade da Escritura sobre a experiência. Na palestra de 2018, Romeiro lembrou a noite de Pascal em 1654 e o coração aquecido de John Wesley em 1738 para dizer que as experiências são bem-vindas, mas nunca dão o quadro completo da vontade de Deus; quem dirige o caminho é a Palavra. Disse que, pentecostal desde a conversão, nunca tomou uma decisão na igreja com base em sonho. Pelo mesmo motivo, distingue os apóstolos e profetas que lançaram o fundamento da igreja uma vez por todas (Efésios 2.20; 3.5) do dom de profecia que continua na congregação e deve ser julgado (1 Coríntios 14.29), e rejeita o título de “apóstolo” como cargo nas igrejas de hoje.

Em Supercrentes, Romeiro admite que denunciar desvios no próprio meio evangélico é mais duro que denunciar as seitas, porque os promotores são irmãos em Cristo. Mesmo assim, “nenhum sentimento de afeição pode estar acima da integridade da Palavra de Deus” (Supercrentes, 1993). O livro segue a confissão positiva até E. W. Kenyon, aluno em Boston da faculdade de oratória de Charles Emerson, que passou do congregacionalismo ao Novo Pensamento e à Ciência Cristã; ali Romeiro vê a chave da hermenêutica que Kenneth Hagin popularizou. O ponto mais grave é a cristologia: a confissão positiva ensinava que Jesus recebeu natureza satânica na cruz e completou a expiação sofrendo no inferno, como se o seu sangue não bastasse. Quem crê num Jesus errado, conclui Romeiro, acaba numa salvação errada.

Evangélicos em crise alargou a lista para a maldição hereditária, a batalha espiritual, os espíritos territoriais e a teologia do domínio, e refutou longamente a tese de que um crente genuíno pode ficar endemoninhado. Decepcionados com a graça tratou dos que fizeram o voto, a campanha e a fogueira santa e não receberam o que esperavam; muitos deixaram de crer na Bíblia. Para eles Romeiro propôs uma pastoral da esperança, que devolvesse à graça o seu sentido de favor imerecido.

Arminiano por convicção bíblica

Paulo Romeiro é um pentecostal arminiano. Num trecho de palestra que circulou em vídeo em 2026, resumiu: “Eu não sou calvinista”, “eu tenho tendência até para o arminianismo”. E explicou ponto por ponto. Rejeita a graça irresistível, que descreve como Deus obrigando a crer quem não quer. Rejeita a ideia de que Deus escolha um grupo para o céu e outro para o inferno, isto é, a eleição e a reprovação incondicionais. Rejeita a expiação limitada, porque textos como João 3.16 fazem o convite a todos. Para ele, o amor de Deus por todas as pessoas é o ponto cego do calvinismo. Em 2019, perguntado se o calvinismo seria a solução para a igreja brasileira, respondeu que nenhum sistema teológico é perfeito, que o evangelho já salvava antes de Calvino e que nenhum teólogo está acima da Escritura.

Isso não faz dele um otimista quanto à natureza humana. Pregando sobre João 15.16, “Não fostes vós que me escolhestes a mim”, Romeiro afirma que ninguém escolhe Cristo de forma espontânea: os olhos e os ouvidos nascem fechados para o evangelho, e o primeiro movimento do pecador é rejeitar. A iniciativa é de Deus, que escolhe por amor, como escolheu Israel (Deuteronômio 7.7-8), e a salvação depende “da misericórdia de Deus”, e não do esforço humano (Romanos 9.16). Ninguém compra Deus com dízimo, jejum ou bom comportamento. É o terreno da graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta e torna possível crer.

Quanto à perseverança, Romeiro afirma as duas coisas que o arminianismo clássico afirma. A apostasia é possível: “a Bíblia fala sobre isso”, disse num sermão de 2020. E o crente pode ter certeza da salvação hoje, pelo testemunho do Espírito (Romanos 8.16) e pela promessa de que nada o separa do amor de Deus em Cristo (Romanos 8.35-39); viver dizendo “hoje estou salvo, amanhã não estou” ele chama de antibíblico. É a perseverança condicional, com a segurança que Wesley ensinava.

Num ponto a linguagem dele se afasta do arminianismo clássico. Ao criticar o calvinismo, disse que a depravação total “não é total”: o ser humano é “extremamente depravado”, mas a imagem de Deus permanece nele, distorcida. A segunda parte é doutrina comum a arminianos e calvinistas. A primeira se distancia de Armínio, para quem a vontade caída está perdida para o verdadeiro bem, e da declaração de fé do site, que afirma a depravação total e a incapacidade humana. Os arminianos clássicos divergem dos calvinistas no modo como a graça age, resistível e oferecida a todos, e não na gravidade da queda. O próprio Romeiro, quando prega sobre a eleição, fala como quem crê nessa incapacidade. Outra diferença é menor: a ICT batiza só por imersão, e a declaração de fé do site aceita também a aspersão.

Obras principais

  • Supercrentes: o evangelho segundo Kenneth Hagin, Valnice Milhomens e os profetas da prosperidade (Mundo Cristão, 1993; 2ª ed., 2007).
  • Evangélicos em crise: decadência doutrinária na igreja brasileira (Mundo Cristão, 1995).
  • Desmascarando as seitas, com Natanael Rinaldi (CPAD, 1996).
  • Esperanças e decepções (tese de doutorado, Universidade Metodista de São Paulo, 2004).
  • Decepcionados com a graça: esperanças e frustrações no Brasil neopentecostal (Mundo Cristão, 2005).
  • Religião e alienação, com Yon Morato (Reflexão, 2009).
  • Suor, carisma e controvérsia: a Igreja Mundial do Poder de Deus, com André Zanini (Candeia, 2009).

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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