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Ildo Mello: o primeiro bispo nacional da Igreja Metodista Livre e a defesa do arminianismo wesleyano
Neste texto
- Vida
- Entre duas mães, em Cidade Ademar
- A crise da mocidade e a restauração
- Uma igreja nascida entre imigrantes japoneses
- Primeiro bispo nacional
- Santidade, unidade e debate
- Pensamento
- Eleição em Cristo e condicional
- A graça que vem antes
- Fé, arrependimento e perseverança
- Perfeição cristã e santidade
- Pentecostalismo e escatologia
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Em 1983, um rapaz de 18 anos foi expulso da Igreja Metodista Livre de Cidade Ademar, na zona sul de São Paulo. Ele presidia a mocidade, organizava vigílias de oração pela plenitude do Espírito Santo e pregava nas casas do bairro, e o pastor da época, vindo de uma denominação cessacionista (que ensina que os dons extraordinários do Espírito cessaram com os apóstolos), o mandou embora depois de uma discussão sobre João Wesley e o Espírito Santo. Vinte anos depois, na noite de 29 de novembro de 2003, cerca de três mil pessoas viram o mesmo homem receber a imposição de mãos e a estola vermelha como o primeiro bispo nacional da Igreja Metodista Livre do Brasil. José Ildo Swartele de Mello, o Bispo Ildo Mello, presidiria depois o Concílio Mundial de Bispos Metodistas Livres e seria uma das vozes do renascimento da teologia armínio-wesleyana no Brasil.
Vida
Entre duas mães, em Cidade Ademar
Ildo nasceu em agosto de 1963 e cresceu em Cidade Ademar. Foi criado por duas vizinhas e amigas: Frieda, sua mãe, metodista livre, e Vicência, católica, que ele chama de segunda mãe. O menino passou pelo catecismo e pela Escola Dominical e escolheu ser metodista livre porque achou as doutrinas protestantes mais fiéis à Bíblia.
Aos 13 anos afastou-se da igreja. Voltou em janeiro de 1980, depois de uma discussão com amigos que misturavam o catolicismo com práticas espíritas: para defender o Evangelho, precisou estudá-lo, e o estudo terminou em conversão. Naquele ano, aos 16, escreveu com o amigo Nilson uma apostila sobre os erros das Testemunhas de Jeová. Aos 17 organizou um grupo de estudantes que evangelizava no Colégio Martins Pena, de onde saíram seis pastores.
A crise da mocidade e a restauração
No fim de 1982 toda a diretoria da mocidade deixou os cargos, e Ildo assumiu a presidência. Em 1983 promoveu retiros, vigílias e cultos nas casas. As críticas de antigos líderes chegaram ao pastor, que suspendeu Ildo e Nilson e, pouco depois, expulsou Ildo. No fim daquele ano o pastor voltou à sua denominação de origem, e em janeiro de 1984 os dois rapazes foram recebidos de volta. O Rev. C. Wesley King, líder dos planos de evangelismo e fundação de igrejas da denominação desde 1979, assumiu o pastorado de Cidade Ademar e Jardim Rey e restaurou Ildo ao ministério. Ildo conta que, uma semana antes da expulsão, teve uma visão de Cristo no alto de uma escada íngreme, encorajando-o a subir.
Em agosto de 1984 casou-se com Cristina, filha do pastor José Alves do Carmo. Já tinha lido as apostilas de Wesley King sobre o metodismo, o Diário e os sermões de John Wesley e Para que todos sejam santos, de Samuel Logan Brengle, do Exército de Salvação. Em fevereiro de 1985 entrou na Faculdade de Teologia Metodista Livre, e no fim daquele ano foi aceito como candidato ao ministério e enviado para plantar uma igreja. Depois do bacharelado, fez mestrado em Teologia na Faculdade Teológica Batista de São Paulo e doutorado em Ministério na Faculdade Teológica Sul Americana.
Uma igreja nascida entre imigrantes japoneses
A Igreja Metodista Livre foi organizada em Pekin, Nova York, em 23 de agosto de 1860, sob a liderança de Benjamin Titus Roberts. O “livre” do nome resume as causas de origem: bancos abertos a todos, sem distinção entre ricos e pobres, oposição à escravidão, culto simples, recusa aos juramentos das sociedades secretas e participação dos leigos. No Brasil, a obra começou entre imigrantes japoneses, com um primeiro culto de 21 pessoas em São Paulo, em 1º de novembro de 1936; o trabalho entre brasileiros começou em 7 de setembro de 1946, na Vila Mariana.
Primeiro bispo nacional
Em abril de 2003 o Concílio Geral norte-americano aprovou a autonomia do Concílio Brasileiro. Entre 27 e 29 de novembro daquele ano o Concílio Geral Provisional Brasileiro foi instalado, e Ildo foi consagrado bispo numa cerimônia presidida pelo bispo Roger Haskins no templo da Assembleia de Deus do Bom Retiro. Em novembro de 2007 a igreja foi reconhecida como Concílio Geral pleno, já com um distrito missionário em Angola. Ildo tornou-se bispo do Brasil e de Angola e atuou também como bispo em Cuba.
De 2007 a 2015 presidiu o Concílio Mundial de Bispos da Igreja Metodista Livre. Em 2024, quando as conferências Brasileira e Nikkei se uniram num só Concílio Geral Brasileiro, a igreja passou a ter dois bispos: Daniel Abe, pela conferência nikkei, e Ildo, pela brasileira. Continuou pastor da Igreja Metodista Livre de Mirandópolis, em São Paulo, e professor do Seminário Bíblico Wesleyano e da faculdade da denominação, onde dá cursos de escatologia.
Santidade, unidade e debate
No Brasil, Ildo coordenou a rede do Consórcio Santidade Wesleyana, que reuniu nazarenos, metodistas livres, Exército de Salvação, Igreja de Deus e outras igrejas wesleyanas em torno do Manifesto de Santidade. Um relatório do consórcio, de novembro de 2011, registra que ele dava orientação geral ao trabalho no país, onde a rede se chamou Fraternidade de Santidade Wesleyana e reunia em São Paulo, a cada dois meses, os líderes das denominações. Mais tarde passou a liderar a Conexão Wesleyana de Santidade e entrou no Conselho Coordenador da Aliança Cristã Evangélica Brasileira. Fora da sua igreja, pregou no Concílio Geral Metodista reunido em Brasília, em 14 de julho de 2011, e deu três palestras sobre o Reino de Deus e a missão da igreja na Conferência Ministerial Metodista da Região Sul, em Curitiba, em 2012.
Em julho de 2013 debateu calvinismo e arminianismo no programa Vejam Só com o presbiteriano Davi Charles Gomes, chanceler do Mackenzie. No primeiro dos cinco pontos do calvinismo, a depravação humana, os dois concordaram; o tempo acabou quando entravam na graça preveniente e no alcance da expiação, e Ildo encerrou dizendo que Deus ama todas as pessoas e que Cristo fez expiação pelo mundo inteiro.
Nos dias 21 e 22 de fevereiro de 2014 esteve entre os palestrantes da primeira conferência arminiana de alcance nacional, em Caruaru, Pernambuco, ao lado de Kleber Maia, Rubens Rodrigues, Zwinglio Rodrigues e Wellington Mariano. Mariano, historiador do arminianismo no país, aponta Ildo, Maia e Zwinglio Rodrigues como os primeiros palestrantes de destaque do movimento. Desde 2008 Ildo mantém o blog Escatologia Cristã, com mais de 1.300 textos de estudo bíblico, escatologia, santidade e soteriologia. Publicou também um livro sobre batalha espiritual (2013) e um manual de discipulado para novos membros da igreja (2023).
Pensamento
Ildo é wesleyano, da tradição de santidade: a Igreja Metodista Livre se define como evangélica e arminiana, com ênfase na inteira santificação, e ele defende a teologia armínio-wesleyana, que liga Jacó Armínio a Wesley. Numa entrevista de 2020 resumiu: “Wesley é o maior expoente do arminianismo”.
Eleição em Cristo e condicional
Em “O que é eleição do ponto de vista bíblico?” (2011), Ildo parte de 1 Pedro 1:2, que fala dos eleitos “segundo a presciência de Deus Pai”, e separa os dois termos: “Não podemos confundir predestinação com presciência”. Deus conhece de antemão quem vai crer, e conhecer não é causar. Com Wesley, contrapõe a predestinação absoluta do calvinismo à predestinação condicional: a expiação é suficiente para todos e eficaz para os que creem (João 3:16; 1 Timóteo 2:4; 2 Pedro 3:9).
Em 2026, no estudo mais longo que escreveu sobre o tema, “Os principais versículos usados em favor da predestinação incondicional, na leitura armínio-wesleyana”, ele percorre dezenas de passagens, de Gênesis 50:20 a Romanos 9, e resume a posição assim: Cristo é o Eleito, a Igreja é eleita nele, e cada pessoa entra nessa eleição pela fé, “a condição não meritória estabelecida pelo próprio Deus”. A fórmula que fecha o estudo é dele: “A eleição é eterna na decisão, gratuita na causa, condicional na aplicação”. Romanos 9, nessa leitura, trata da escolha de um povo para uma vocação, e não do destino eterno de Jacó e Esaú. A bibliografia mostra de onde ele bebe: Wesley, a Declaração de Sentimentos de Armínio, John Fletcher, Richard Watson, H. Orton Wiley, Thomas Oden, Robert Picirilli, Robert Shank e a eleição corporativa de Brian Abasciano. Ver também Presciência, eleição e predestinação.
A graça que vem antes
Em “O alcance e o propósito da graça” (2011), um estudo de Tito 2:11-15, Ildo afirma que “o ser humano não consegue, por conta própria, obedecer plena e satisfatoriamente a todos os mandamentos de Deus”, e que por isso Deus enviou o Filho para levar a condenação dos pecadores. A graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana, é a iluminação do Espírito que convence o mundo do pecado (João 16:8) e abriu o coração de Lídia (Atos 16:14), e ele a distingue da regeneração, o novo nascimento que acompanha a fé. Essa graça alcança todos e pode ser recusada: “A salvação não é compulsória e a graça não é irresistível”.
Em 2011 ele hesitava quanto à extensão da queda: escreveu que saber se a depravação humana era total ou parcial “é algo difícil de definir biblicamente”, porque via sinais de bondade em pessoas não regeneradas. A nossa declaração de fé afirma a depravação total sem reservas, e o arminianismo clássico atribui esses sinais de bondade à própria graça preveniente. No estudo de 2026 a posição está mais firme: Ildo afirma a depravação total ao lado da graça preveniente e se separa dos provisionistas, os batistas que atribuem ao pecador uma capacidade natural de crer. Sobre os calvinistas, escreve: “Concordamos com o diagnóstico da ruína e discordamos do remédio”. Sobre os provisionistas: onde eles dizem “o pecador pode”, “nós dizemos ‘a graça torna o pecador capaz’”. É a linha de Armínio, para quem o livre-arbítrio caído nada pode sem a graça, como mostra A graça preveniente em Armínio.
Fé, arrependimento e perseverança
Contra Zane Hodges, que separava a fé salvadora do arrependimento, Ildo escreveu em “Os termos da salvação” (2011) que “arrependimento e fé são a resposta do homem em relação ao dom gratuito da salvação de Deus”, e que a fé que justifica age pelo amor (Gálatas 5:6). Ninguém pode “aceitar Jesus como Salvador e olvidá-lo como Senhor”. Em 2020 voltou ao ponto: a salvação em Cristo não é “uma proposição a ser aceita”, e sim uma pessoa a ser amada e obedecida.
A perseverança, para ele, é condicional. Em “O risco da apostasia” (2014) explica que a Igreja, como corpo, tem destino garantido, mas cada membro participa dele enquanto permanece em Cristo pela fé. As advertências de Hebreus 3:12 e Hebreus 6 descrevem um risco real, e a perseverança é sustentada pela graça, sem virar mérito: “Nossa segurança está em Cristo”. O site trata o tema em Arminianismo: a segurança da salvação e em Apostasia na Bíblia.
Perfeição cristã e santidade
A inteira santificação, a obra da graça que purifica o coração e o enche de amor a Deus e ao próximo, é a marca da sua igreja. “A perfeição cristã não é absoluta”, disse Ildo em 2020: só Deus é perfeito, o crente mais santo continua dependendo do sangue de Cristo e do perdão, e nenhum grau de santidade dispensa o crescimento. Ainda assim, com Filipenses 3:12-14 e 1 João 4:17, e com a leitura de Wesley feita por Theodore Runyon, ele sustenta que o amor perfeito é um alvo que se alcança nesta vida pelo poder do Espírito.
Com o Manifesto de Santidade, aponta dois desvios do século XX: a santidade reduzida a regras de comportamento, que gerou legalismo, e a busca de crescimento numérico, que encheu as igrejas de cristãos nominais. A teologia wesleyana, para ele, é otimista quanto à graça: Deus não só perdoa, mas regenera e santifica, e isso alcança a pessoa, a comunidade e a sociedade. A mesma preocupação aparece no artigo que escreveu para a Aliança Evangélica em 2021, sobre o sacerdote Eli, que perdeu a visão espiritual e tolerou o pecado dos filhos: “Não é o barulho na terra que produz barulho no céu”.
Pentecostalismo e escatologia
Ildo vê o pentecostalismo como filho do movimento de santidade, valoriza nele o fervor evangelístico e a oração e critica a valorização dos dons acima do fruto do Espírito. Na escatologia, tema que dá nome ao blog, é amilenista, como a nossa declaração de fé: Cristo inaugurou o Reino na primeira vinda, reina agora e vencerá a morte na segunda. Em 2026 argumentou que Isaías 65 descreve os novos céus e a nova terra da consumação, e não um milênio intermediário, porque Pedro e João usam a mesma expressão para o fim (2 Pedro 3:13; Apocalipse 21:1).
Obras principais
- “O que é eleição do ponto de vista bíblico?” (2011)
- “O alcance e o propósito da graça” (2011)
- “Os termos da salvação” (2011)
- Principados e poderes: reflexões pastorais sobre batalha espiritual (2013; nova edição em 2023)
- “O risco da apostasia” (2014)
- Manual de Discipulado Metodista Livre (2023)
- “Os principais versículos usados em favor da predestinação incondicional, na leitura armínio-wesleyana” (2026)
Livros em português
- Principados e poderes: reflexões pastorais sobre batalha espiritual (Filhos da Graça, 2013; nova edição em 2023). Ver na Amazon
- Manual de Discipulado Metodista Livre (2023). Ver na Amazon
Para aprofundar
- Entrevista: Bispo Ildo Mello, O Cristão Pentecostal, 17 de abril de 2020.
- Igreja Metodista Livre, História da Igreja Metodista Livre no Brasil e Nossa história.
- Lansing Central Free Methodist Church, Brazil (história da Igreja Metodista Livre no Brasil e do primeiro bispo).
- Wesleyan Holiness Consortium, Keeping in Touch, novembro de 2011 (redes regionais no Brasil).
- Wellington Mariano, Arminianismo no Brasil: uma introdução histórica, CACP.
- José Ildo Swartele de Mello, A decadência da visão espiritual e os reflexos no ministério, Aliança Cristã Evangélica Brasileira, 16 de julho de 2021.
- José Ildo Swartele de Mello, O que é eleição do ponto de vista bíblico?, O alcance e o propósito da graça, Os termos da salvação, Debate entre calvinismo e arminianismo e O risco da apostasia, blog Escatologia Cristã.
- José Ildo Swartele de Mello, Os principais versículos usados em favor da predestinação incondicional, na leitura armínio-wesleyana e Isaías 65 ensina um milênio futuro?, Escatologia Cristã, 2026.
- Principados e poderes, ficha no Skoob (Filhos da Graça, 2013).
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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