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Severino Pedro da Silva: O pastor do Belenzinho que ensinou escatologia às Assembleias de Deus

Diego Gonçalves13 min de leitura2.617 palavras

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Neste texto

Em 1987, em São Paulo, um pastor da Assembleia de Deus do Belenzinho assinou a introdução de um livro de vinte capítulos. O primeiro perguntava “Que geração é esta?”; os do meio tratavam da Grande Tribulação, do Anticristo, da batalha do Armagedom e de uma “invasão russa” a Israel; o último falava da vida eterna. A Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) lançou Escatologia: doutrina das últimas coisas em 1988, com prefácio de José Wellington Bezerra da Costa, e dez anos depois o livro já estava na 11ª edição. O autor era Severino Pedro da Silva, potiguar que se tornou um dos mestres de doutrina mais lidos das Assembleias de Deus no Brasil, e cuja obra, além do fim dos tempos, tratou de predestinação, de Cristo, dos anjos e do pecado.

Vida

Do Rio Grande do Norte a São Paulo

Severino Pedro da Silva nasceu em 19 de junho de 1946, em Itaretama, no Rio Grande do Norte. O nome da cidade durou pouco: entre 1943 e 1953 era assim que se chamava o município de Lajes, no sertão central potiguar, que depois voltou ao nome antigo. Era filho de José Pedro das Neves e de Sebastiana Silva.

Foi batizado nas águas em 19 de agosto de 1964, aos 18 anos. Quatro anos depois, em 18 de abril de 1968, recebeu o batismo no Espírito Santo, a experiência que o pentecostalismo entende como revestimento de poder para o testemunho (Atos 1:8) e que, na sua trajetória, ficou registrada como marco. A vida adulta e o ministério se fizeram em São Paulo, na Assembleia de Deus do Belenzinho, igreja-sede do Ministério do Belém, presidida por José Wellington Bezerra da Costa, que também esteve à frente da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB). Severino formou-se bacharel em Filosofia e Teologia e foi ordenado pastor em 4 de fevereiro de 1982. Na sede do Belenzinho serviu como co-pastor.

O escritor da CPAD

Nos anos 1980 Severino passou a escrever para a CPAD, a editora oficial das Assembleias de Deus. Antes de 1988 já tinham saído dois comentários “versículo por versículo”, um de Daniel e outro de Apocalipse, e um estudo sobre os anjos, Os anjos: sua natureza e ofício, que mais tarde, como A doutrina bíblica dos anjos, chegaria à 13ª edição. Em 1988 veio a Escatologia, e em 1989 A doutrina da predestinação e A vida de Cristo.

O alcance desses livros se mede também pelas Lições Bíblicas, as revistas trimestrais de Escola Dominical que a CPAD distribui a milhares de igrejas. Severino foi o comentarista de dois trimestres: “A Vida de Cristo”, em 1989, e “Josué: livro das vitórias”, em 1992. Durante décadas escreveu também artigos para os periódicos da editora. O reconhecimento veio cedo: em 7 de outubro de 1989 tomou posse de uma cadeira na Academia Evangélica de Letras do Brasil, e em 2005 entrou para a Casa de Letras Emílio Conde, o grupo de escritores das Assembleias de Deus que leva o nome do primeiro grande jornalista e historiador do movimento.

Missão nos Estados Unidos e pastorado em São Mateus

De 15 de janeiro de 1994 a 25 de maio de 1997, Severino serviu como missionário nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, continuou a escrever: A doutrina de Deus: uma abordagem bíblica e teológica acerca da realidade de Deus saiu em 2002, e Armagedom em 2004. Em 2007 assumiu o pastorado do Setor 11 do Ministério do Belém, na região de São Mateus, Zona Leste de São Paulo.

No ano seguinte a CPAD publicou a Teologia Sistemática Pentecostal (2008), obra coletiva organizada por Antonio Gilberto e apresentada como “uma teologia brasileira”, escrita por pastores e comentaristas das Lições Bíblicas. Entre os autores estavam Claudionor de Andrade, Esequias Soares, Elienai Cabral e Ciro Sanches Zibordi. A Severino coube o capítulo 3, “Cristologia: a doutrina de Cristo”, com mais de cinquenta páginas. Escreveu ainda A doutrina do pecado, um tratado de hamartiologia em dezesseis capítulos com prefácio de José Wellington, e o comentário Epístola aos Hebreus: as coisas novas e grandes que Deus preparou para você, sobre os 303 versículos da carta.

A morte

Dias antes de completar 67 anos, Severino passou por uma cirurgia de vesícula. Houve complicações, e ele morreu na manhã de 4 de julho de 2013, em São Paulo. O corpo foi velado no templo central do Belenzinho, na Rua Conselheiro Cotegipe, e o culto fúnebre se fez ali mesmo na manhã de 5 de julho, antes do sepultamento no Cemitério São Pedro, na Vila Alpina. Deixou a esposa, Maria Aparecida, e duas filhas. A nota da igreja o chamou de “reconhecido teólogo e conferencista”. Os livros continuaram em catálogo: a Doutrina da predestinação chegou à 8ª edição em 2013, e a CPAD publicou vários deles também em formato digital.

Pensamento

Um pentecostal arminiano

Severino Pedro da Silva pertence à corrente que chamamos de pentecostal arminiana: ensina que a eleição para a salvação é condicional, que a graça de Deus pode ser rejeitada e que o crente pode abandonar a fé. A evidência mais direta é A doutrina da predestinação (1989). A apresentação do livro o descreve como uma refutação da predestinação incondicional de Calvino e também do que chama de predestinação “restrita” de Armínio, em favor da predestinação condicional, “aceita pela maioria dos cristãos”. O livro trata ainda da graça, da regeneração, do arrependimento, da santificação e da adoção.

Severino marca distância do nome de Armínio, mas a eleição condicional, a escolha de Deus em Cristo daqueles que creem, é justamente o centro da doutrina de Jacó Armínio. No quarto decreto da sua Declaração de Sentimentos (1608), Armínio afirma que Deus decretou salvar ou condenar pessoas determinadas segundo a sua presciência de quem creria e perseveraria. Na substância, portanto, Severino está dentro da família arminiana, mesmo quando recusa o rótulo. A Declaração de Fé das Assembleias de Deus, de 2017, cuja comissão foi presidida por Esequias Soares, fixaria a mesma posição: a predestinação bíblica diz respeito à salvação e é condicionada à fé em Cristo.

A graça que bate à porta

Ao explicar Apocalipse 3:20 (“Eis que estou à porta e bato”), Severino lembra o quadro em que Cristo bate a uma porta sem maçaneta do lado de fora, porque ela só se abre por dentro. E diz que o bater de Cristo chega à vida de muitas maneiras: na oração, no sermão do pregador, na lição da Escola Dominical, na leitura da Bíblia. A iniciativa é de Cristo; a pessoa pode ouvir e abrir, ou continuar ocupada “no quartinho dos fundos”, como diz o menino da história que ele conta.

No comentário a Apocalipse 12:11, sobre os que venceram “pelo sangue do Cordeiro”, Severino escreve que “a graça de Deus deve ser correspondida pela vontade humana positiva” e que, sem essa resposta, a graça fica anulada nas suas operações (Apocalipse versículo por versículo). É a doutrina da graça resistível: Deus age primeiro e de verdade, mas não arrasta ninguém contra a vontade. O restante da obra é firme sobre a ruína humana. Em A doutrina do pecado, ele define o pecado como “qualquer transgressão contra a vontade revelada de Deus” e afirma que a humanidade se encontra num estado de inclinação para fazer o mal; os capítulos tratam do pecado herdado, da imputação da culpa e do “poder escravocrata” do pecado. Nesse quadro, a resposta humana vem depois da graça e por causa dela. No mesmo comentário de Apocalipse, Severino diz que o nome de alguém está registrado no Livro da Vida “devido à expiação de Cristo”.

A perseverança também é condicional. Entre os pecados que A doutrina do pecado trata como imperdoáveis está “o pecado de apostasia”, o abandono deliberado da fé (Hebreus 6:4-6; 10:26). Na Escatologia, ao discutir o Tribunal de Cristo, ele rejeita a ideia, defendida por alguns teólogos que creem em “uma vez salvo, salvo para sempre”, de que o tribunal seria uma espécie de purgatório onde os crentes carnais se purificariam antes de ver o Senhor; ali, diz ele, são reprovadas as obras, e não o obreiro (1 Coríntios 3:13-15). A perseverança condicional é também a posição da declaração de fé deste site: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo (João 15:4-6).

O fim dos tempos

O campo em que Severino mais escreveu foi a escatologia, e aqui ele segue o dispensacionalismo pré-tribulacionista, com citações frequentes das notas da Bíblia de Scofield. A volta de Cristo tem duas fases. Na primeira, o arrebatamento, Cristo vem “apenas à sua Igreja” e a encontra nos ares (1 Tessalonicenses 4:17). Na segunda, a manifestação em poder e glória, Cristo vem para Israel e as nações, sete anos depois, ao fim da Grande Tribulação. Segue-se um reino literal de mil anos sobre a terra, que Severino descreve como “um governo absoluto de paz e justiça”, e depois o juízo final.

Israel tem lugar à parte nesse esquema. Na Escatologia (1988), Severino descreve Israel como uma geração distinta dos demais povos, escolhida como alvo de promessas que ainda vão se cumprir até a consumação. Ele lê a figueira de Mateus 24:32 como figura de Israel e vê em 14 de maio de 1948, a fundação do Estado judeu, o começo do seu “brotar”. Na mesma linha, identifica o Gogue de Ezequiel 38 com o poder do Norte, a Rússia. Em Apocalipse versículo por versículo, adota a leitura futurista: os capítulos 1 a 3 falam das igrejas históricas da Ásia, com aplicação a todos os tempos, e “a partir do capítulo 4 o livro é completamente futurista”. As cartas também ganham leitura profética: Esmirna representa a igreja perseguida nos países da Cortina de Ferro, e a “porta aberta” de Filadélfia, a era missionária que começou no fim do século XVIII. O resumo dele cabe numa frase: “Encontramos a Igreja no princípio do livro; Israel no meio; e as nações gentílicas no fim”.

Aqui a diferença com a declaração de fé deste site é clara: ela é amilenista e espera uma só segunda vinda, seguida da ressurreição de todos e do juízo final. A divergência é sobre o calendário das últimas coisas e não toca a soteriologia que os dois partilham.

Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem

No capítulo de Cristologia da Teologia Sistemática Pentecostal (2008), Severino expõe a fé de Calcedônia (451): duas naturezas, divina e humana, unidas numa só pessoa. Ele corrige a imagem popular de um Cristo meio a meio: “O conceito de que Ele era 50% homem e 50% Deus não tem fundamento bíblico”. Percorre as heresias antigas, do docetismo ao eutiquismo, e mostra que a Bíblia sempre fala do que a pessoa de Cristo fez, e não do que uma natureza fez sem a outra.

Para explicar Marcos 13:32, em que Jesus diz que nem o Filho sabe o dia e a hora, Severino recorre ao esvaziamento de Filipenses 2:6-8, a kénosis: ao se fazer homem, o Filho abriu mão voluntariamente do uso de certos atributos, sem deixar de possuí-los. Jesus falou “como Homem, não se valendo do seu atributo divino da onisciência”. No mesmo capítulo, rejeita a virgindade perpétua de Maria, que segundo ele “não tem apoio nas Escrituras”, e lembra os irmãos de Jesus citados em Marcos 6:3. A conclusão volta ao centro de tudo: outras religiões sobrevivem sem os seus fundadores, mas é impossível haver cristianismo bíblico sem a pessoa de Cristo.

O mestre da Escola Dominical

Severino escrevia para o obreiro e para o professor de Escola Dominical: listas numeradas, referências bíblicas em cada parágrafo, comentaristas clássicos citados, ilustrações da história e da geografia bíblica. Deus, os anjos, o pecado, a predestinação e o fim dos tempos ganharam livros próprios, e a Doutrina da predestinação continua indicada em obras brasileiras que respondem ao calvinismo.

Obras principais

  • Daniel versículo por versículo: as visões para estes últimos dias (CPAD)
  • Apocalipse versículo por versículo (CPAD)
  • Os anjos: sua natureza e ofício (CPAD), depois A doutrina bíblica dos anjos (13ª ed., 2004)
  • Escatologia: doutrina das últimas coisas (CPAD, 1988)
  • A doutrina da predestinação (CPAD, 1989)
  • A vida de Cristo (CPAD, 1989)
  • Lições Bíblicas: “A Vida de Cristo” (1989) e “Josué: livro das vitórias” (1992)
  • A doutrina de Deus: uma abordagem bíblica e teológica acerca da realidade de Deus (CPAD, 2002)
  • Armagedom (CPAD, 2004)
  • “Cristologia: a doutrina de Cristo”, em Teologia Sistemática Pentecostal (CPAD, 2008)
  • A doutrina do pecado (CPAD)
  • Epístola aos Hebreus: as coisas novas e grandes que Deus preparou para você (CPAD)
  • Outros títulos: …E Samaria, A existência e a pessoa do Espírito Santo, Homilética: o pregador e o sermão, O crente e a prosperidade, O homem: corpo, alma e espírito

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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