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Elinaldo Renovato: O economista que virou pastor e comentarista da Escola Dominical

Diego Gonçalves14 min de leitura2.859 palavras

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Neste texto

Em 18 de janeiro de 2024, o templo-sede da Assembleia de Deus em Parnamirim, na Grande Natal, recebeu o culto de jubilação do pastor que presidia a igreja havia 25 anos. Elinaldo Renovato de Lima tinha então 81 anos e uma carreira pouco comum: antes de ser pastor, foi economista, secretário de planejamento de Natal e pró-reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Durante mais de três décadas, escreveu também as Lições Bíblicas estudadas na Escola Dominical das Assembleias de Deus em todo o país. Em 2016, num artigo para a revista Obreiro Aprovado, da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), resumiu a sua posição na velha disputa sobre a salvação: o convite de Cristo é para todos, “e não apenas por alguns, eleitos ou predestinados de forma discriminatória”.

Vida

Natal, a economia e a universidade

Elinaldo Renovato de Lima nasceu em Natal, capital do Rio Grande do Norte, em 1942, o primeiro filho de José Martins de Lima e Milza Renovato de Lima, que o criaram na fé evangélica. Numa Escola Dominical conheceu, em 1957, Íris de Castro, com quem se casou em 23 de outubro de 1965 e viveu 55 anos, até a morte dela.

Elinaldo se formou em Economia pela UFRN em 1969 e fez especialização em Economia Internacional pelo CAEN em 1973. No mesmo ano foi secretário de Administração de Natal e, até 1975, de Planejamento e Coordenação Geral. Na UFRN foi diretor de pessoal (1976-1977), pró-reitor (1977-1979) e professor de Economia (1977-1987). Em 1989 concluiu o mestrado em Administração e uma especialização em Administração Universitária, com estágio em universidades do Canadá, e até 1991 ensinou Recursos Humanos no mestrado da UFRN.

A Assembleia de Deus em Natal

A vida na igreja correu em paralelo. De 1965 a 1986 Elinaldo dirigiu a mocidade da Assembleia de Deus em Natal, onde foi separado diácono (1969), presbítero (1973) e evangelista (1982), foi secretário de missões (1974-1985) e dirigiu as congregações de Tirol e Candelária.

De 1983 a 1987 dirigiu a Escola Teológica da Assembleia de Deus no Brasil (ESTEADEB), onde concluiu o curso de Teologia em 1989 e ensinou teologia sistemática, homilética, hermenêutica, história da igreja e escatologia. Na Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), integrou os conselhos de Educação Religiosa, de Ação Social e de Missões.

Foi consagrado pastor em 6 de julho de 1993. Até 1998 foi segundo vice-presidente da Assembleia de Deus no Rio Grande do Norte e, de 1995 a 1997, primeiro-secretário da convenção estadual, a IEADERN. Em 1996 fez o curso para pastores do Haggai Institute, nos Estados Unidos.

Parnamirim (1999-2024)

Em janeiro de 1999 Elinaldo assumiu a presidência da Assembleia de Deus em Parnamirim (ADPAR), no lugar do pastor Raimundo João de Santana, que passou a presidir a IEADERN. A igreja tinha sido fundada em 20 de outubro de 1939, quando Otávio de Castro começou a pregar o Evangelho no seu estabelecimento comercial, na cidade conhecida como “trampolim da vitória”. Em outubro de 2023, quando completou 84 anos, a ADPAR tinha 72 congregações em Parnamirim e mais 122 igrejas e congregações no interior, e recebeu uma moção de aplauso lida na tribuna da Câmara dos Deputados.

Em 2001 Elinaldo concluiu o mestrado em Ciências da Religião pela FAETEL, em São Paulo. Em 2003 foi um dos fundadores da Casa de Letras Emílio Conde, ligada à CPAD, e entre 2004 e 2006 deu aulas num instituto bíblico nos Estados Unidos.

Em 6 de novembro de 2023 o presidente da IEADERN, o pastor Martim Alves da Silva, anunciou a jubilação numa reunião de obreiros em Natal, e a Câmara Municipal de Parnamirim aprovou uma sessão solene pelos 25 anos de pastorado. Jubilado, Elinaldo continuou a escrever.

O comentarista das Lições Bíblicas

A obra pela qual Elinaldo é conhecido em todo o país são as Lições Bíblicas, as revistas trimestrais de Escola Dominical da CPAD. Ele comentou o trimestre de adultos mais de vinte vezes, de “Estudos em Êxodo” (4º trimestre de 1991) a “Homens dos quais o mundo não era digno”, sobre Abraão, Isaque e Jacó (2º trimestre de 2026). Entre um e outro vieram, por exemplo, as parábolas de Jesus (1994), Hebreus (2001), a ética cristã (2002), Colossenses (2004), Neemias (2011), a família cristã (2013), a escatologia (2016), o caráter do cristão (2017), a mordomia (2019), os dons espirituais (2021), o avivamento (2023) e as promessas de Deus (2024).

Muitos desses trimestres viraram livros. O comentário de Colossenses recebeu o Prêmio Areté em 2005. Elinaldo escreveu ainda Células-tronco: uma visão ética e cristã (CPAD, 2005), Os Perigos da Pós-Modernidade e o capítulo de antropologia da Teologia Sistemática Pentecostal (CPAD, 2008), obra coletiva organizada por Antonio Gilberto com Claudionor de Andrade, Elienai Cabral, Ciro Sanches Zibordi e outros.

A ética o levou também à vida pública. No segundo turno da eleição presidencial de 2010, publicou uma carta aberta aos cristãos brasileiros em que tratava o aborto como “crime hediondo”, criticava a proposta de união civil entre pessoas do mesmo sexo e declarava voto em José Serra, em nome do que chamou de “interesses do Reino de Deus”.

Pensamento

Um pentecostal arminiano

Elinaldo Renovato é um pentecostal arminiano, e ele mesmo o deixou por escrito. No 4º trimestre de 2016 publicou na Obreiro Aprovado, a revista da CPAD para pastores e obreiros, o artigo “Os cinco pontos do arminianismo”. O texto começa pela Bíblia e não pela história: o convite de Mateus 11:28 é para “todos” os cansados e sobrecarregados, e João 3:18 mostra que a condenação vem da incredulidade. Daí a conclusão de Elinaldo: a condenação “não decorre de alguma pessoa ser eleita ou não eleita”, mas de não crer no Filho de Deus e amar mais as trevas do que a luz (João 3:16-19).

Depois conta a história. Apresenta João Calvino com respeito, como “eminente professor e teólogo”, resume a tese da eleição de alguns e da condenação de outros por decreto de Deus e opõe a ela Jacó Armínio, pastor em Amsterdã e professor em Leiden, e transcreve por inteiro os cinco artigos da Remonstrância de 1610, que chama de “síntese do Arminianismo”. Ao reproduzi-los, Elinaldo assume o que eles dizem: o homem caído “não pode pensar nada que seja bom” por si mesmo, nem ter a fé que salva, e precisa ser renovado por Deus em Cristo pelo Espírito; a graça é “o começo, a continuação e o fim de todo o bem”; Cristo morreu “por todos e cada um dos homens”; e essa graça pode ser resistida, porque muitos resistiram ao Espírito Santo (Atos 7:51). Nas notas, cita arminianos brasileiros como Wellington Mariano e Carlos Kleber Maia.

São as teses do arminianismo clássico: a iniciativa da salvação é de Deus, pela graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana e liberta a vontade para crer; a expiação é para todos; e a eleição é em Cristo, dos que creem. Os temas estão em A graça preveniente em Armínio, Arminianismo: expiação para todos e Presciência, eleição e predestinação.

O caráter de Deus contra o decreto

O argumento mais pessoal do artigo vem dos atributos morais de Deus. Antes de discutir qualquer sistema sobre a salvação, diz Elinaldo, é preciso saber quem Deus é, e ele percorre, com Bancroft, Chafer e Strong, a santidade (Deus não diz uma coisa na Palavra e faz outra no trato com o homem), o amor (1 João 4:16; Efésios 2:4-5), a bondade e a justiça.

“Admitir a predestinação, desde o ventre, não condiz com seu amor e sua justiça”, escreve. Seria uma contradição, diz ele, que Deus declarasse não ter prazer na morte do ímpio (Ezequiel 33:11) e, ao mesmo tempo, decretasse de antemão a condenação inevitável desse mesmo ímpio. É a mesma linha de Armínio, que na Declaração de Sentimentos (1608) argumentava que a predestinação incondicional à condenação contraria a sabedoria, a justiça e a bondade de Deus.

A perseverança aparece pela mesma porta. O artigo cita Mateus 24:13, “aquele, porém, que ficar firme até o fim, esse será salvo”, e, no capítulo de 2008, Elinaldo escreve que a promessa da ressurreição gloriosa é para os salvos “se permanecermos fiéis”. É a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo.

O homem: imagem, queda e redenção

No capítulo da Teologia Sistemática Pentecostal, o mundo foi criado do nada, em dias literais, e o ser humano foi formado do pó da terra por um ato especial da Trindade (“Façamos o homem”, Gênesis 1:26). A evolução é rejeitada como hipótese sem base nos fatos. A imagem de Deus no homem não é física, porque Deus é espírito: o homem é um ser espiritual, moral e intelectual. Na constituição humana Elinaldo é tricotomista, ou seja, entende que o homem tem três partes, espírito, alma e corpo (1 Tessalonicenses 5:23), e que o “homem interior” é formado pela alma e pelo espírito.

A queda transtornou tudo. Pelo pecado de Adão, que “passou a todos os homens” (Romanos 5:12), o homem perdeu a vida eterna e conheceu a morte física e a espiritual, “que significa separação de Deus”. “Por causa do pecado original, todo o ser do homem ficou imperfeito”, e o coração se tornou enganoso (Jeremias 17:9). A resposta de Deus estava prevista antes da fundação do mundo (1 Pedro 1:19-20): Cristo, o Cordeiro de Deus, derramou o seu sangue “em propiciação pelos pecados do mundo inteiro”, e a redenção se aplica a “todos aqueles que nEle crêem”. Ver também A doutrina do pecado e A doutrina da depravação total.

Ética, dons e as últimas coisas

A ética de Elinaldo parte de um princípio que ele repete desde a revista de 2002: “Para nós, crentes em Jesus, o certo e o errado devem ter como base a Bíblia Sagrada”, e “a Palavra de Deus não muda de acordo com as circunstâncias, os meios ou os resultados”. Por isso rejeita o antinomismo, que faz de cada pessoa a própria lei, e aplica o princípio ao aborto, à eutanásia e à pesquisa com embriões: o embrião “é um novo ser humano”, e destruí-lo é crime grave, enquanto as células-tronco adultas podem ser pesquisadas sem destruir uma vida. O tema também está em O que a Bíblia diz sobre o aborto.

Como pentecostal, Elinaldo defende a atualidade dos dons do Espírito. Na revista de 2021 ele responde aos cessacionistas, para quem os dons acabaram com os apóstolos: “Os dons não cessaram”, e “não há na Bíblia nenhum versículo” que diga o contrário. Os dons são dados pela graça, “não por méritos nossos”, para a edificação da Igreja até a volta de Cristo. Na de 2023, sobre avivamento, insiste que o avivamento é “uma intervenção de Deus” e que “sem oração, não há avivamento” (2 Crônicas 7:14).

Na escatologia ele é futurista e pré-milenista. Na revista de 2016 diz: “Defendemos a interpretação futurista”, e ensina que “são duas as etapas que constituem a Segunda Vinda do Senhor”, a primeira visível só para a Igreja, no arrebatamento, e a segunda visível a todos; a ressurreição dos ímpios vem “após o milênio”. Aqui há uma diferença clara com a declaração de fé deste site, que é amilenista: lê os mil anos de Apocalipse 20 como o tempo presente e espera uma só segunda vinda, seguida da ressurreição de todos e do juízo final. Na doutrina da salvação, porém, a graça que precede a fé, a expiação por todos, a graça resistível e a perseverança condicional, Elinaldo e a declaração dizem o mesmo.

Obras principais

  • Lições Bíblicas de Adultos (CPAD), mais de vinte trimestres, de 1991 a 2026.
  • Ética Cristã (CPAD, 2002).
  • Comentário Bíblico: Colossenses (CPAD), Prêmio Areté de 2005.
  • Células-tronco: uma visão ética e cristã (CPAD, 2005).
  • “Antropologia: a doutrina do homem”, em Teologia Sistemática Pentecostal (CPAD, 2008).
  • O Final de Todas as Coisas (CPAD, 2015).
  • “Os cinco pontos do arminianismo”, Obreiro Aprovado, ano 38, nº 75 (CPAD, 2016).
  • O Caráter do Cristão (CPAD, 2017).
  • Tempo, Bens e Talentos (CPAD, 2019).
  • As Promessas de Deus (CPAD, 2024).

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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