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Paulo Lockmann: o bispo metodista brasileiro que presidiu o Conselho Metodista Mundial

Diego Gonçalves13 min de leitura2.667 palavras

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Neste texto

Em agosto de 2011, em Durban, na África do Sul, o plenário do Conselho Metodista Mundial (World Methodist Council), que reúne igrejas de tradição wesleyana de mais de 130 países, elegeu para a presidência um bispo brasileiro de 63 anos, havia 24 anos à frente da Igreja Metodista no Rio de Janeiro. Paulo Tarso de Oliveira Lockmann era o primeiro latino-americano no cargo. Ao jornal da sua igreja, contou que pensou nos antepassados que trabalharam duro e não tiveram a mesma oportunidade, e citou um único nome: o bispo César Dacorso Filho, o primeiro brasileiro eleito para o episcopado metodista, em 1934.

Vida

Um metodista de terceira geração

Paulo Lockmann nasceu em 29 de janeiro de 1948, em Porto Alegre, e cresceu na Igreja Metodista Paulo de Tarso, na capital gaúcha. A família estava na igreja havia mais de cem anos quando ele chegou ao episcopado, e ele mesmo se apresentava como fruto dela: “todas as experiências espirituais e formação que eu tive foram dentro da Igreja Metodista”. Casou-se com Glaucia Moraes Lockmann, que o acompanhou por todo o ministério e a quem ele chamou, ao se aposentar, de “uma paixão que tenho até morrer”.

Entre 1968 e 1973 estudou Teologia no Seminário Metodista César Dacorso Filho, no Rio de Janeiro. A primeira nomeação pastoral foi para a Igreja Metodista do Jardim Botânico, no Rio, e em 1978 ingressou na Ordem Presbiteral da Igreja Metodista do Brasil.

O biblista

Desde cedo Lockmann se dedicou ao Novo Testamento. Em 1979 e 1980 fez cursos no Instituto Superior Evangélico de Estudos Teológicos (ISEDET), em Buenos Aires, e em 1982 passou um semestre de verão no seminário da catedral de São Jorge, em Jerusalém. Entre 1984 e 1986 estudou hebraico, aramaico, Evangelhos, Profetas e História na Universidade de Marburg, na Alemanha. Em 1994 fez uma especialização em teologia paulina na Wesley House, em Cambridge.

O primeiro artigo saiu em 1980 na revista Estudos Bíblicos, da editora Vozes, com o título “Lucas: um exercício de leitura política”. Escreveu para essa revista por mais de trinta anos e também para a Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana (RIBLA). Deu aulas de Novo Testamento nas faculdades de teologia de Rudge Ramos, em São Bernardo do Campo, e do Rio de Janeiro.

O Evangelho de Lucas acompanhou toda a carreira. Entre 2005 e 2009, já bispo, fez o doutorado em Teologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com bolsa do CNPq e orientação do biblista Isidoro Mazzarolo. A tese, O interlucano: a narrativa da viagem a Jerusalém em Lc 9.51-19.48, estuda a longa seção em que Lucas conduz Jesus da Galileia até Jerusalém, a mesma caminhada que começa em Lucas 9:51. Saiu em livro em 2011, pela editora da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, com o título Jesus, o Messias Profeta.

Bispo no Rio de Janeiro

Em julho de 1987, o 14º Concílio Geral da Igreja Metodista, reunido em São Bernardo do Campo, elegeu Lockmann bispo e o designou para a 1ª Região Eclesiástica, que abrange o estado do Rio de Janeiro. Foi reeleito em todos os concílios gerais seguintes até 2011 e presidiu o Colégio Episcopal, o conselho dos bispos metodistas brasileiros, de 1988 a 2001. Também presidiu o Conselho de Igrejas Evangélicas Metodistas da América Latina e do Caribe (CIEMAL).

A marca do seu episcopado foi a evangelização pelo discipulado. Quando assumiu, a região tinha cerca de 20 mil membros. Em 2007, já passava de 85 mil e reunia perto de metade dos metodistas do país; em 2011, as estatísticas regionais contavam 93.216 membros. A região adotou como lema “O Evangelho para cada pessoa, um grupo de discipulado em cada rua, uma igreja em cada bairro” e fixou o alvo de um milhão de discípulos. Para os grupos pequenos, base do trabalho, o bispo escreveu Seguir a Cristo: manual do discipulado, que chegou à quinta edição em 2011, e os dois volumes de Pão da Vida. Em 2013, quando visitou o Asbury Theological Seminary, no Kentucky, e foi recebido pelo presidente Timothy Tennent, a região abria uma igreja nova a cada quinze dias, aproximadamente.

Em 14 de dezembro de 2013, a direção nacional da igreja criou a 7ª Região Eclesiástica, desmembrada da 1ª, com o Norte Fluminense, a Região dos Lagos e a Região Serrana. Era a primeira região criada desde 1965, e Lockmann chamou a decisão de “um momento histórico”. Presidiu as duas regiões durante a transição, até 2016. No 19º Concílio Geral, em 2011, tinha sido o bispo mais votado, com 126 votos já no primeiro escrutínio.

No metodismo mundial

A atuação internacional começou no início da década de 1990, quando passou a integrar o Comitê Mundial de Evangelismo do Conselho Metodista Mundial. Como membro do comitê, deu estudos bíblicos durante vinte anos em seminários de várias partes do mundo. Em agosto de 1996, quando o Conselho se reuniu no Rio de Janeiro, foi eleito para o seu presidium, a mesa diretora, e serviu nele até 2001. Foi vice-presidente de 2006 a 2011 e, em Durban, assumiu a presidência, que exerceu até 2016, com a bispa jamaicana Sarah Davis na vice-presidência.

Na posse, disse que a Igreja Metodista do Brasil tinha “muito a contribuir com o Metodismo em nível mundial”. Para o mandato, apontou a campanha contra a fome, a luta contra a guerra e a violência, o diálogo entre as igrejas em favor dos pobres e a missão nos países ainda sem igreja metodista, como o Nepal e a Guiana Francesa.

Aposentadoria

Em 9 de junho de 2016, Lockmann comunicou ao bispo presidente Adonias Pereira do Lago que retirava o nome da eleição episcopal do 20º Concílio Geral, marcado para julho, em Teresópolis. Explicou a decisão num comunicado de 25 de junho: depois de 28 anos de episcopado e 46 de ministério pastoral, devia isso à família. E acrescentou: “Encerro um momento ministerial e começarei outro dedicado a pregação e ensino da Bíblia”. No concílio, fez a conferência doutrinária sobre a natureza da igreja e, em 6 de julho, presidiu a sessão da eleição episcopal; na mesma sessão, o plenário lhe concedeu por aclamação o título de bispo emérito. Aposentou-se no fim de 2016. Resumiu o ministério numa frase: “Trabalhei para uma geração melhor do que a minha”. É membro da Academia Evangélica de Letras do Brasil.

Pensamento

Um bispo wesleyano

Lockmann é um teólogo wesleyano. Nasceu, foi formado e serviu a vida inteira na Igreja Metodista, e em 2011 disse, “sem arrogância”, que a considerava “a melhor denominação cristã do mundo”. Em julho de 2007, falando a um encontro de renovação carismática metodista em Rogers, no Arkansas, comentou que a Reforma acertou ao pôr no centro a salvação pela graça, mas que a perseverança dos membros é questão mais delicada para os metodistas do que para quem crê na segurança eterna incondicional, porque os metodistas mantêm a visão arminiana de que é possível cair da graça. É a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e as advertências contra a apostasia são reais. No mesmo encontro, citou o estudo diário da Bíblia de John Wesley como exemplo para os leigos.

A soteriologia do seu tempo de bispo está na carta pastoral Testemunhar a graça e fazer discípulos (2008), assinada pelo Colégio Episcopal de que ele fazia parte. A carta segue Wesley pelo caminho da salvação: a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana, desperta no pecador a fé na mensagem do Evangelho; a graça justificadora perdoa a culpa por causa da morte vicária de Cristo; e a graça santificadora continua agindo até a perfeição cristã. O discipulado vem dessa dependência da graça e é descrito como um estilo de vida, antes de ser um método.

Ler o Evangelho a partir da comunidade

Como biblista, Lockmann segue a leitura latino-americana da Bíblia das revistas Estudos Bíblicos e RIBLA, que lê o texto com as comunidades e atenta às condições econômicas e políticas em que ele foi escrito. O artigo “A vida e a missão no Evangelho de Mateus”, publicado na RIBLA, mostra o método. Lockmann diz que o artigo nasceu do trabalho com comunidades e das aulas nas faculdades de Rudge Ramos e do Rio, e que pretende superar uma leitura “tranquila, acomodada e domesticadora” do Evangelho (tradução nossa). Lê a pregação de João Batista, por exemplo, como ruptura com o sistema do Templo, que dava cobertura religiosa à exploração.

A parte mais desenvolvida do artigo trata do envio dos discípulos em Mateus 10. Lockmann destaca a ordem “de graça recebestes, de graça dai” (Mateus 10:8): os discípulos receberam um dom e deviam ministrá-lo de graça, como sinal do Reino. A gratuidade os distinguia dos magos do mundo greco-romano, como Simão de Atos 8, que cobravam por curas e milagres. Lockmann pergunta como ler essas ordens sem reforçar o modelo neopentecostal espalhado pela América Latina. Para ele, a resposta não está na exegese liberal, que ignora a vivência do povo. As curas, as expulsões de demônios e o anúncio do Reino eram ao mesmo tempo sinais escatológicos e denúncia de um sistema que produzia doença e exclusão.

A recusa do liberalismo aparece também no bispo. Em 2007 disse que um pastor metodista que negasse o nascimento virginal ou a ressurreição não seria nomeado para uma igreja e afirmou, com João 14:6, que Jesus é o único Salvador. Sobre a teologia da libertação, disse que a intenção original era muito saudável e bíblica, mas que o movimento acabou capturado por uma agenda política.

A igreja é de Jesus

A conferência doutrinária de 2016, no 20º Concílio Geral, resume a eclesiologia de Lockmann, isto é, a sua doutrina da igreja. Ele abriu com o sermão de Wesley Da Igreja, para lembrar que a igreja universal compreende todos os cristãos da terra. Jesus é o fundador e o Senhor da igreja: “a igreja é de Deus, ela não é do Bispo Paulo, nem do Bispo Adonias, ela é de Jesus”. A igreja é o corpo de Cristo, e quem a agride fere o próprio Cristo. Se há pecado nela, é porque há pecado em nós.

Daí vem a ligação entre discipulado, dons e missão, que ele formulou numa sequência: “Não existe igreja sem missão, e não existe missão sem dons e ministérios. Não existe dons e ministérios sem um discipulado bem feito”. O programa Dons e Ministérios, adotado pela Igreja Metodista no ano em que ele se tornou bispo, organiza a igreja local pelos dons que o Espírito distribui a cada membro, e não por cargos. Lockmann lembrou que os dons, em 1 Coríntios 12:4-6, têm forma trinitária: vêm do Espírito, reproduzem o serviço do Senhor Jesus e são obra do poder do Pai. E advertiu que dons e ministérios não se resumem a reuniões com manifestações espirituais: o que faz da igreja o corpo de Cristo é o serviço, como o do leigo Marion Way, que em toda reunião metodista estava de vassoura na mão ou servindo água a alguém. Terminou com três marcas do corpo: unidade, diversidade e mutualidade. “No capitalismo a corrida é para que cada um baste-se a si mesmo”, disse; na igreja, precisamos uns dos outros.

Onde ele difere da nossa declaração de fé

Lockmann afirma, como a nossa declaração de fé, a graça que vem antes, a justificação pela fé e a perseverança condicional. A diferença está na leitura de alguns textos. No artigo sobre Mateus, Lockmann entende os “pobres em espírito” das bem-aventuranças essencialmente como os pobres do campo, desprezados pelas elites, e o choro dos que choram como reivindicação de restauração econômica. Nós lemos Mateus 5:3 como o reconhecimento da própria pobreza espiritual diante de Deus, a porta de entrada do Reino, como explicamos em Sermão do Monte: a ética do Reino de cabeça para baixo e em Bem-aventuranças de Jesus: o primeiro elo em Mateus 5. A dimensão social que ele destaca existe no Evangelho, mas para nós ela decorre dessa dependência de Deus e não a substitui.

Obras principais

  • “Lucas: um exercício de leitura política”, Estudos Bíblicos, n. 24 (1980)
  • “‘Perdoa-nos as nossas dívidas’: uma meditação sobre a oração”, RIBLA, n. 5-6 (1990)
  • “A vida e a missão no Evangelho de Mateus”, RIBLA (1998)
  • Testemunhas: vidas que mudam o mundo (MK Editora, 2003)
  • O Prisioneiro do Senhor (Cedro, 2005)
  • Jesus, o Messias Profeta (Lucas 9.51-19.48) (Editeo, 2011)
  • Seguir a Cristo: manual do discipulado (Bennett, 5ª ed., 2011)
  • Pão da Vida: lições para grupo de discipulado, 2 vols. (Metodista Chama, 3ª ed., 2014)
  • Até aos confins da terra: do profeta precursor à Igreja de dons e ministérios (Metodista Chama, 2014)
  • Mensagens de pastor para pastores e pastoras (Metodista Chama, 2016)

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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