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Valmir Nascimento: O jurista assembleiano que escreveu sobre a graça preveniente
No começo da sua caminhada cristã, um amigo deu a Valmir Nascimento o livro Pode o homem viver sem Deus?, de Ravi Zacharias. Leu esse e muitos outros livros do apologista indiano e passou a acompanhar os seus debates. Em 2021, quando o relatório encomendado pelo próprio ministério de Zacharias confirmou os abusos que ele cometera em vida, Valmir, já pastor, jurista e autor da CPAD, escreveu um texto com um título que resume boa parte do seu trabalho: “A apologética não é uma vacina contra o nosso pecado”. A erudição, dizia ali, não santifica ninguém, e a verdadeira defesa da fé “é mais testemunhal do que argumentativa”. Esse cuidado de juntar a razão e a vida, a doutrina e o testemunho, aparece em tudo o que ele escreveu, da graça preveniente à presença dos evangélicos na política brasileira.
Vida
Direito em Cuiabá
Valmir Nascimento Milomem Santos fez a sua carreira em Mato Grosso. Formou-se em Direito pela Universidade de Cuiabá, onde estudou de 1998 a 2003, e em 2004 concluiu uma especialização em Direito Agroambiental na Universidade Federal de Mato Grosso. Entrou depois para o Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso (TRE-MT) como analista judiciário. Em 2020 contava mais de quinze anos no Judiciário e ocupava, no mesmo tribunal, o cargo de secretário de Gestão de Pessoas. Entre 2012 e 2014 fez outra especialização, em Poder Judiciário com ênfase em Direito Eleitoral, área que se tornaria o centro da sua pesquisa acadêmica.
A vida na igreja correu junto com a carreira jurídica. Valmir é pastor auxiliar na Assembleia de Deus em Cuiabá e leciona Direito Religioso, Ética e Teologia nas Faculdades Evangélicas Integradas Cantares de Salomão (FEICS), também em Cuiabá, e em outras instituições. É casado com Carla Marcele e pai de Vinícius e Beatriz.
Teologia em São Leopoldo
A formação teológica formal veio na Faculdades EST, a escola de teologia luterana de São Leopoldo (RS), onde Valmir se graduou em Teologia entre 2010 e 2012. Na mesma instituição fez o mestrado profissional em Teologia, na linha de pesquisa Ética e Gestão, orientado por Oneide Bobsin. A dissertação, defendida em julho de 2015, tem o título Análise dos limites ético-jurídicos da influência da religião evangélica no processo político-eleitoral brasileiro e examina as eleições presidenciais de 2010 e 2014.
Entre 2015 e 2017 cursou a especialização em Estado Constitucional e Neutralidade Religiosa da Universidade Presbiteriana Mackenzie, com períodos de estudo na Universidade de Coimbra, em Portugal, e na Universidade de Oxford, na Inglaterra. Em 2025 concluiu o doutorado em Filosofia Política e Social na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), com a tese “Razão pública democrática”, aprovada com grau de excelência.
No meio jurídico evangélico, é diretor de assuntos acadêmicos da Associação Nacional de Juristas Evangélicos (ANAJURE) e, em 2019, integrava a diretoria do Instituto Brasileiro de Direito e Religião (IBDR). Pela editora Lex saiu Justiça e religião (2023), que reúne os textos da 3ª Jornada Virtual de Estudos em Direito e Religião do IBDR, realizada em 2021, sobre as medidas das autoridades durante a pandemia.
Escritor e comentarista da CPAD
A escrita teológica de Valmir começou na internet. Em 2014 ele mantinha o blog Cosmovisão, e ali publicou, em março daquele ano, uma síntese em três partes de Teologia arminiana: mitos e realidades, de Roger Olson, lançado no Brasil pela editora Reflexão em 2013. Mais tarde escreveu no Medium, na coluna “Cultura e Teologia”, e editou a revista Enfoque Teológico.
Em janeiro de 2016 foi um dos 36 signatários da “Nota pública sobre debates teológicos entre calvinistas e arminianos”, ao lado de nomes como Augustus Nicodemus Lopes, Paulo Romeiro e Kleber Maia. A nota condenava os ataques pessoais nas redes e afirmava que a divergência sobre a salvação não rompe a comunhão cristã. No mês seguinte, Valmir e Thiago Titillo discutiram a nota no episódio 139 do podcast BTCast, do Bibotalk, sobre como manter a própria posição sem hostilidade.
O primeiro livro pela CPAD saiu em 2016: O cristão e a universidade, um guia para a defesa e o anúncio da cosmovisão cristã no ambiente universitário. No mesmo ano a Reflexão publicou Graça preveniente: um estudo sobre o gracioso agir de Deus para a salvação humana, a sua obra arminiana, reeditada em 2020 pela Palavra Fiel com o título Ele nos amou primeiro.
A partir de 2017 Valmir passou a comentar as Lições Bíblicas Jovens da CPAD, as revistas da Escola Dominical das Assembleias de Deus, cada uma acompanhada de um livro de apoio. No quarto trimestre de 2017, em Seguidores de Cristo: testemunhando numa sociedade em ruínas, tratou da cosmovisão cristã diante das ideologias, da pobreza, dos refugiados, da corrupção, da violência e das redes sociais. Em 2019 comentou as cartas de Pedro (A razão da nossa esperança); em 2024, o livro de Daniel (Na cova dos leões); e no terceiro trimestre de 2026, o livro de Juízes, em Fidelidade às Escrituras em oposição à apostasia.
O livro Entre a fé e a política (CPAD, 2018) levou ao público da igreja o tema da dissertação, que voltou em forma jurídica em Abuso de poder religioso no processo político-eleitoral (Lex, 2022) e em forma filosófica em Democracia e razão pública na sociedade pós-secular (Lumen Juris, 2026). Em 2024 a Thomas Nelson Brasil lançou A mente carismática, e em 2025 a CPAD publicou Cosmovisão pentecostal. Em julho de 2024, no 1º Encontro Teológico CPAD, realizado na FAESP, em São Paulo, Valmir falou sobre a introdução à cosmovisão pentecostal, num programa que tinha também Craig Keener, Esequias Soares e Douglas Baptista.
Pensamento
Um pentecostal arminiano
Valmir Nascimento é pentecostal arminiano. Pastor da Assembleia de Deus, defendeu por escrito a doutrina central do arminianismo clássico, a graça preveniente, num livro inteiro dedicado a ela, que percorre o tema nos Pais da Igreja e se detém em Jacó Armínio e em John Wesley. Antes disso, na síntese do livro de Olson, apresentou o arminianismo como herdeiro da tradição reformada, e pôs num dos intertítulos que “o fundamento essencial do pensamento do arminianismo clássico é a graça preveniente” (Cosmovisão, 2014).
A graça que vem antes
Em Graça preveniente, Valmir define a doutrina como “o meio pelo qual Deus, antes de qualquer ação humana, atrai graciosamente o pecador” e o capacita espiritualmente a se arrepender e a se converter a Cristo (2016, p. 32). A palavra “preveniente” quer dizer exatamente isso: a graça que vem antes de qualquer resposta do pecador. O ponto de partida do livro é a queda. Depois dela, o ser humano depende da benevolência contínua de Deus até para fazer o bem, e por isso a salvação começa sempre do lado de Deus. Os capítulos finais analisam as passagens bíblicas sobre o tema, e a edição de 2020 traz como apêndice a nota pública sobre os debates entre calvinistas e arminianos.
A síntese de 2014 já trazia os mesmos acentos, tirados de Olson. O arminianismo clássico afirma o pecado original como corrupção herdada, que afeta todos os aspectos da natureza humana, e a escravidão da vontade; a graça preveniente é o remédio para essa incapacidade. Ela atrai com poder, mas pode ser resistida, e a fé e o arrependimento são obras do Espírito, e não méritos humanos. Por isso o arminianismo não é pelagiano nem semipelagiano: a salvação inteira é atribuída à graça. O centro do sistema, segundo essa leitura, não está no livre-arbítrio, mas no caráter amoroso e justo de Deus, e a soberania divina não faz de Deus o autor do pecado e do mal.
Sobre a predestinação, a síntese explica que Armínio não a negava, mas a entendia de outro modo que os calvinistas: ela é condicional quanto ao indivíduo, pela presciência da fé, e incondicional quanto à eleição de um povo em Cristo, segundo os quatro decretos que Armínio expôs na Declaração de Sentimentos. Na justificação, o arminianismo é reformado: ela é dom da graça, recebido somente pela fé, que é instrumento, e não causa meritória, porque a causa meritória é a justiça de Cristo. Sobre a expiação, o texto registra que há arminianos das duas teorias, a da substituição penal e a governamental, e lembra que, para Armínio, Cristo morreu por todos, mas a salvação se torna efetiva em quem crê.
A fé na praça pública
A outra metade da obra de Valmir trata da presença dos cristãos na vida pública. Na dissertação de 2015, ele apoia-se no jurista português Jónatas Machado e no filósofo americano Michael Sandel para defender que o discurso religioso, mesmo conservador, é tão legítimo no debate cívico quanto o discurso secular, e que descartá-lo de antemão é preconceito disfarçado de tolerância. Mas a mesma ética protestante que autoriza a participação lhe impõe limites. O primeiro é institucional: igreja e Estado são esferas distintas, e o apoio oficial de igrejas a partidos e candidatos viola essa fronteira. O segundo é ideológico: quando a igreja assume o programa do partido que apoia, nasce o que ele chama de “idolatria ideológica”. O terceiro é a doutrinação, que trata o fiel como um autômato e produz o “voto do cajado”, o voto imposto pela igreja ao fiel.
No campo jurídico, Valmir se opõe à criação de um ilícito eleitoral específico de “abuso de poder religioso”, que considera discriminatório e contrário à liberdade de religião e de expressão. Numa entrevista ao Gospel Prime, em 2020, resumiu a posição: o cristão tem o direito de participar do debate político, mas a participação deve ser “respeitosa, sábia e, sobretudo, ética”, e “o Evangelho não está cativo a nenhum tipo de ideologia”. Em “Contra a religião política” (2021), apontou o perigo oposto: tratar a política como fim e como salvação da cultura. Em vez disso, propôs a “presença fiel” de James Davison Hunter: viver como os exilados de Jeremias 29.5-8, buscando a paz da cidade, “sem a pretensão de transformar Babilônia em Jerusalém”.
Uma espiritualidade que pensa
A mente carismática (2024) trata da formação da espiritualidade pentecostal e do seu testemunho na praça pública, e toma o apóstolo Paulo como modelo de alguém que juntou o fervor do Espírito com uma vida racional e ética. Cosmovisão pentecostal (2025) parte da ideia de cosmovisão como o modo como ordenamos o mundo em busca de sentido, propósito e verdade, e mostra como a fé pentecostal pode moldar o pensar, o viver e o agir.
Na entrevista à revista Azusa, em 2025, Valmir aplicou essa visão às mídias digitais. Pela doutrina da criação, elas são fruto da inteligência que Deus deu ao ser humano; pela doutrina da queda, podem ser pervertidas. Os riscos que aponta são a idolatria tecnológica, a lógica do consumo e a “subcelebridade gospel”, e o remédio é o que chama, nos seus livros, de “retorno constante ao cenáculo”, a volta à comunidade de fé onde se cultivam a intimidade com Deus e a comunhão com os irmãos. Para ele, o discipulado “continua sendo essencialmente relacional”. É a mesma conclusão do texto sobre Ravi Zacharias, em que ele lê 1 Pedro 3.15 com a ajuda de Stanley Horton: a resposta sobre a esperança cristã nasce, antes de tudo, de uma vida que chama a atenção dos descrentes.
Perto da declaração de fé do Diego
Na soteriologia, Valmir está muito perto da declaração de fé do Diego: pecado original e incapacidade humana, graça preveniente resistível, eleição em Cristo, justificação somente pela fé e uma salvação que é toda graça. As diferenças estão em outros pontos. Como pastor assembleiano, ele pertence a uma igreja cuja confissão é pré-milenista, enquanto o Diego é amilenista; e a inteira santificação, que o Diego afirma com a tradição wesleyana, não faz parte da doutrina das Assembleias de Deus. Quanto à expiação, o site fica com a substituição penal, uma das duas leituras que a síntese de 2014 apresenta como arminianas.
Obras principais
- Análise dos limites ético-jurídicos da influência da religião evangélica no processo político-eleitoral brasileiro, dissertação de mestrado (Faculdades EST, 2015).
- O cristão e a universidade (CPAD, 2016).
- Graça preveniente: um estudo sobre o gracioso agir de Deus para a salvação humana (Reflexão, 2016); nova edição como Ele nos amou primeiro (Palavra Fiel, 2020).
- Seguidores de Cristo (CPAD, 2017).
- Entre a fé e a política (CPAD, 2018).
- A razão da nossa esperança (CPAD, 2019).
- Abuso de poder religioso no processo político-eleitoral (Lex, 2022).
- Justiça e religião (Lex, 2023).
- Na cova dos leões (CPAD, 2024).
- A mente carismática (Thomas Nelson Brasil, 2024).
- Cosmovisão pentecostal (CPAD, 2025).
- Democracia e razão pública na sociedade pós-secular (Lumen Juris, 2026).
Livros em português
- Graça preveniente (Reflexão, 2016). Ver na Amazon
- Ele nos amou primeiro: um estudo sobre a graça preveniente (Palavra Fiel, 2020). Ver na Amazon
- Cosmovisão pentecostal (CPAD, 2025). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- A mente carismática (Thomas Nelson Brasil, 2024). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Entre a fé e a política (CPAD, 2018). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- A razão da nossa esperança (CPAD, 2019). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- O cristão e a universidade (CPAD, 2016). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- Biografia e livros no site de Valmir Nascimento.
- Valmir Nascimento Milomem Santos, Análise dos limites ético-jurídicos da influência da religião evangélica no processo político-eleitoral brasileiro, dissertação de mestrado, Faculdades EST, 2015.
- Valmir Nascimento, “Teologia arminiana: mitos e realidades [síntese]”, partes 1 a 3, blog Cosmovisão, março de 2014.
- Valmir Nascimento, textos da coluna “Cultura e Teologia” no Medium, entre eles “O que tem Jerusalém a ver com Brasília?” (2018), “A apologética não é uma vacina contra o nosso pecado” (2021) e “Contra a religião política” (2021).
- Victor Breno Farias Barrozo, “A teologia pentecostal diante dos desafios e oportunidades das mídias digitais: entrevistas com Claiton Pommerening, Eduardo Leandro e Valmir Nascimento”, Azusa: Revista de Estudos Pentecostais, v. 16, n. 1, 2025.
- “O cristão tem um papel profético na política, afirma teólogo”, entrevista ao Gospel Prime, 16 de julho de 2020.
- “Nota pública sobre debates teológicos entre calvinistas e arminianos”, 18 de janeiro de 2016, republicada por Teologia Brasileira, e “BTCast 139: arminianos e calvinistas”, Bibotalk, 16 de fevereiro de 2016.
- Kleber Maia, “A graça divina no arminianismo”, Good Prime, março de 2020, com a citação de Graça preveniente.
- “1º Encontro Teológico CPAD em São Paulo”, portal das Assembleias de Deus, 2024.
- Lições Bíblicas Jovens comentadas por Valmir Nascimento, no Estudantes da Bíblia: 3º trimestre de 2019, 3º trimestre de 2024 e 3º trimestre de 2026; e 4º trimestre de 2017.
- Perfil de Valmir Nascimento Milomem Santos no Jus.com.br.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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