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Claudionor de Andrade: O consultor teológico da CPAD que chamou a fé assembleiana de arminiana

Diego Gonçalves16 min de leitura3.229 palavras

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Neste texto

No domingo 13 de dezembro de 2015, as classes de Escola Dominical das Assembleias de Deus em todo o Brasil estudaram a lição “Melquisedeque abençoa Abraão”. O comentário da revista dizia que Abrão tinha dado ao sacerdote de Salém o dízimo dos seus bens pessoais. Nos dias seguintes, o próprio comentarista escreveu nas redes sociais: “Na lição do último domingo, cometi um grave erro histórico”. O dízimo, explicou, saíra dos despojos da guerra contra os reis (Gênesis 14:20; Hebreus 7:4), como ele mesmo tinha escrito no livro que acompanhava a revista. Quem se corrigia em público era Claudionor Corrêa de Andrade, consultor teológico da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), autor do Dicionário Teológico e, por trinta e seis anos, uma das vozes que ensinavam doutrina aos assembleianos do Brasil.

Vida

Do ABC paulista ao Rio de Janeiro

Claudionor Corrêa de Andrade nasceu em 18 de novembro de 1955, no bairro do Belém, na cidade de São Paulo. Era o primeiro dos cinco filhos de Claudionor Pinheiro de Andrade e Vitória Corrêa de Andrade, e cresceu em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Foi criado na Assembleia de Deus de São Bernardo, e ali foi batizado nas águas em 1º de janeiro de 1974. Aos 15 anos começou a estudar a Bíblia com dedicação, e na igreja local foi professor da Escola Dominical e trabalhou com os jovens.

Antes de viver da teologia, teve outros ofícios. Formou-se professor primário, trabalhou como gráfico na Imprensa Metodista e como bancário, e durante cerca de oito anos foi locutor de rádio, sobretudo na Rádio Diário do Grande ABC. Também se formou em Teologia. Casou-se com a escritora Marta Doreto de Andrade, e o casal teve dois filhos, Gunar Berg, hoje pastor, e Karen.

Num texto de 2025, ele lembrou que na infância dependia das orações da mãe, na adolescência buscava a intercessão do pastor e na juventude pedia as lágrimas dos irmãos: “Sem oração, jamais estaria eu aqui, hoje, a escrever estas palavras”.

Trinta e seis anos na CPAD

Em 1984, o pastor Abraão de Almeida o convidou para trabalhar como redator na CPAD, no Rio de Janeiro. No mesmo ano publicou o primeiro livro, Paulo em Atenas. Foi redator e chefe de redação do Mensageiro da Paz, o jornal oficial das Assembleias de Deus, e das revistas A Seara e O Obreiro, e chefiou os setores de Escola Dominical e de livros. Foi o primeiro funcionário da Editorial Patmos, o braço da CPAD para o mercado de língua espanhola, e a chefiou na sua primeira fase. Em 1998 tornou-se gerente do Departamento de Publicações, e mais tarde consultor doutrinário e teológico da editora. Esteve também entre os editores da Bíblia de Estudo Pentecostal, a edição brasileira da Bíblia anotada pelo missionário Donald Stamps.

No Rio, foi consagrado ao ministério pastoral em 1º de maio de 1986. Pertenceu aos ministérios da Assembleia de Deus de Cordovil e da Assembleia de Deus de Bento Ribeiro, onde foi superintendente da Escola Dominical.

Dos seus livros, o Dicionário Teológico (CPAD, 1996) reúne verbetes curtos sobre termos, doutrinas, movimentos e personagens da história da teologia. Na abertura do livro ele escreveu que “a verdadeira teologia reivindica um amor incondicional ao Ser Supremo”. O dicionário saiu também em espanhol, e a ele se somaram a Geografia Bíblica, comentários de Jó e de Judas, manuais para diáconos e superintendentes da Escola Dominical e outros títulos, quase trinta ao todo.

As Lições Bíblicas

Boa parte da sua influência veio das Lições Bíblicas, as revistas trimestrais que as Assembleias de Deus usam na Escola Dominical. Ele comentou as lições de adultos sobre Jó (2003), sobre as doutrinas centrais da fé (2006), sobre Jeremias (2010), Gênesis (2015) e Levítico (2018) e sobre a doutrina do ser humano (2020), esta acompanhada do livro A Raça Humana: origem, queda e redenção (2019).

Em 2008 escreveu a unidade de Bibliologia, a doutrina das Escrituras, na Teologia Sistemática Pentecostal, a obra coletiva da CPAD editada por Antonio Gilberto, com Ciro Sanches Zibordi, Esequias Soares e outros autores. Foi membro da Academia Evangélica de Letras do Brasil e um dos fundadores da Casa de Letras Emílio Conde.

A Declaração de Fé

Na década de 2010, a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) encarregou uma Comissão Especial de dezoito teólogos de escrever a primeira confissão de fé completa da denominação, que até então tinha apenas o breve “Cremos”. A comissão foi presidida por Esequias Soares, e Claudionor de Andrade foi o sub-relator, ao lado do relator Douglas Baptista. Em 24 de janeiro de 2017, no Rio de Janeiro, os dois leram em voz alta, alternadamente, os vinte e quatro capítulos do texto definitivo diante da liderança nacional. A Declaração de Fé das Assembleias de Deus foi homologada na 43ª Assembleia Geral Ordinária da CGADB, em 26 de abril de 2017.

Os últimos anos

A partir de 2019 serviu como conselheiro bíblico da Escola de Educação Teológica das Assembleias de Deus (EETAD), em Campinas. Pelas Edições Bernhard Johnson, da EETAD, publicou três livros, entre eles Meus Conselhos aos Jovens Teólogos, que abre com o seu testemunho pessoal. Entre 2024 e 2025 escreveu artigos para o portal Raízes Pentecostais, da EETAD.

No início de 2025 foi internado no Rio de Janeiro com uma infecção abdominal grave, localizada sobretudo no fígado. Morreu na madrugada de 29 de maio de 2025, aos 69 anos. Foi sepultado no dia seguinte no Cemitério Jardim da Saudade, em Paciência, no Rio de Janeiro. Deixou três livros inéditos.

Pensamento

Um pentecostal arminiano

Claudionor de Andrade foi um pentecostal arminiano, e a classificação é dele mesmo. No artigo “A excelência da doutrina pentecostal”, escrito para responder à acusação de que o pentecostalismo seria “um movimento à procura de uma doutrina”, ele descreve a fé assembleiana como apostólica, reformada, arminiana, wesleyana, pneumatológica e escatológica. Sobre a salvação, escreve: “Soteriologicamente, estamos de acordo com a doutrina bíblica desenvolvida por Jacó Armínio (1560-1609)”. A mesma linha está no documento que ele ajudou a redigir. A Declaração de Fé de 2017 afirma que a predestinação é “condicionada à fé em Cristo Jesus” e “relacionada à presciência de Deus”, que a graça “não é irresistível” e que o crente pode apostatar da fé.

Ele também não via contradição entre ser arminiano e ser reformado. A Assembleia de Deus, escreveu, é uma igreja reformada porque aceita os princípios da Reforma: somente a Escritura, somente a fé, somente Cristo, somente a graça e a glória somente a Deus. Mas dizer isso “não significa que aceitamos o absurdo da dupla predestinação”, a doutrina segundo a qual Deus decretou desde a eternidade quem será salvo e quem será condenado. Jacó Armínio também foi pastor reformado, como o site mostra em O arminianismo é reformado.

A graça antes da fé

No verbete “Arminianismo” do Dicionário Teológico, ele resume a doutrina em cinco pontos: a eleição baseada na presciência, a morte de Cristo por todos, a necessidade da graça para crer, a graça que pode ser resistida e a possibilidade de que nem todos os que aceitaram a Cristo perseverem. O terceiro ponto é o que separa o arminianismo clássico do semipelagianismo, a ideia de que o ser humano dá sozinho o primeiro passo em direção a Deus, e ele o formula assim: “Como o ser humano não tem a capacidade de crer, precisa da assistência da graça divina”. É a mesma convicção de Armínio na Declaração de Sentimentos: o pecador caído não pode, por si, nem querer o bem.

Na lição sobre a salvação de 2006, ele abre a seção sobre a graça com uma frase de Agostinho: “A graça de Deus não encontra homens aptos para a salvação, mas torna-os aptos a recebê-la”. Define a graça como o favor imerecido que Deus concede à raça humana e que a capacita a aceitar o plano da salvação (Efésios 2:8-9). É o que a tradição arminiana chama de graça preveniente, a graça que vem antes da fé e torna a resposta possível, tema estudado no site em A graça preveniente em Armínio. A Declaração de Fé acrescenta que “a fé antecede a regeneração”: Deus age antes, a pessoa crê pela graça, e o novo nascimento acompanha a fé.

Eleição, livre-arbítrio e perseverança

Para Claudionor, a predestinação bíblica “é sempre positiva e compreende sempre a salvação”. Deus ama a todos “profunda, terna e eficazmente” (João 3:16), e não quer que ninguém se perca (1 Timóteo 2:3-4). Na lição de 2006 ele lê Efésios 1:4-5 dizendo que a eleição vem antes da predestinação e que Deus não amou apenas uma parte da humanidade; para gozar dos benefícios da eleição basta receber a Cristo. É a eleição condicional: Deus escolhe, em Cristo, os que creem. Os que se perdem não foram rejeitados por um decreto: “Quanto aos que resistem à graça divina, a si mesmos condenam-se à perdição eterna”. O site desenvolve o ponto em Arminianismo: expiação para todos.

O livre-arbítrio aparece sobretudo na sua doutrina da criação e da queda. Na lição de 2020 sobre a queda, ele o define como o dom pelo qual Adão e Eva podiam escolher entre o bem e o mal, e afirma que soberania divina e liberdade humana não se anulam: “Entre o livre-arbítrio e a soberania divina encontra-se a nossa responsabilidade”. A queda de Adão alcançou todos os seus descendentes, e o pecado original só se vence em Cristo. A declaração de fé do site é mais enfática: todos nascemos “incapazes de fazer qualquer coisa para nos salvar”. Mas a frase do dicionário sobre o ser humano que “não tem a capacidade de crer” mostra que Claudionor também não via no homem caído um poder natural de escolher Deus.

Na perseverança, ele segue a posição arminiana e wesleyana da perseverança condicional. No dicionário, define a apostasia como o abandono premeditado e completo da fé, distinto da heresia, que nega parte dela. A Declaração de Fé rejeita o “uma vez salvo, salvo para sempre” e ensina que o crente pode apostatar e perder a salvação. O site segue a mesma linha em Apostasia na Bíblia.

Wesley e o Espírito Santo

“Nós pentecostais consideramo-nos, também, herdeiros de John Wesley”, escreveu Claudionor. De Wesley ele destacava a pregação do novo nascimento, da santificação interior e do aperfeiçoamento contínuo do caráter cristão. Chegou a ler a experiência de Aldersgate, quando Wesley sentiu o coração “estranhamente aquecido” em 1738, como um batismo com o Espírito Santo. A tradição wesleyana lê o episódio como a certeza da justificação pela fé; o parentesco e as diferenças entre as duas tradições estão em Metodistas e pentecostais.

Na santificação, porém, ele fica com a doutrina pentecostal clássica. Na lição de 2020 sobre o novo homem, descreve uma santificação posicional, recebida na conversão, e uma santificação progressiva, que dura a vida inteira. A declaração de fé do site, mais próxima de Wesley, afirma também a inteira santificação, uma obra da graça posterior à regeneração e recebida pela fé, que purifica o coração e o enche de amor perfeito.

Sobre o batismo no Espírito Santo, Claudionor ensinava a doutrina assembleiana, com o falar em línguas como evidência inicial, e queria que todo obreiro fosse batizado no Espírito antes de ser ordenado. Em 2018 apontou dois perigos para o pentecostalismo brasileiro. O primeiro era o misticismo que fabrica “bizarrices”, quando basta buscar o poder do alto, porque “Jesus quando batiza, batiza mesmo!”. O segundo, que ele considerava mais grave, era o academicismo de teólogos pentecostais que deixaram de crer que Jesus ainda batiza e distribui dons.

A Bíblia, o avivamento e a esperança

O centro do seu trabalho era a autoridade da Escritura. Para ele, a Bíblia é “a inspirada, inerrante e completa Palavra de Deus”, e “as Santas Escrituras são a nossa única regra infalível de fé e prática”. Nenhuma profecia ou experiência se sobrepõe aos profetas e apóstolos (1 Coríntios 14:29), e a tradição, que ele valorizava, também não pode ficar “acima da Palavra de Deus”. Rejeitava o método histórico-crítico e chamou de blasfêmia a cristologia de Rudolf Bultmann, que tratou os milagres dos Evangelhos como mito: “O Jesus de Bultmann nenhum poder tem sobre o pecado”.

Dessa convicção vinha a sua ideia de avivamento. Na lição de 2006 sobre o tema, definiu o avivamento como “o retorno aos princípios que caracterizavam a Igreja Primitiva”, e mostrou, com Josias e Esdras (2 Reis 22; Neemias 8), que ele começa pelo ensino da Palavra. Na primeira lição do mesmo trimestre, escreveu: “Sem doutrina, a vida espiritual é impossível”. Em 2025, num artigo sobre a oração, deu à teologia a mesma raiz devocional: “a oração é o labor teológico mais excelente que podemos oferecer a Deus”.

Na escatologia, Claudionor era pré-tribulacionista, como a Declaração de Fé das Assembleias de Deus: esperava o arrebatamento da Igreja antes de uma grande tribulação de sete anos e via no pré-tribulacionismo “uma doutrina basilar”. A declaração de fé do site é amilenista e espera uma só segunda vinda de Cristo, seguida da ressurreição de todos e do juízo final.

Nos últimos artigos, ele pedia o resgate da identidade bíblica e histórica da Assembleia de Deus, contra o liberalismo teológico, o calvinismo e a teologia da prosperidade, e recomendava a leitura dos pioneiros, como Enviado por Deus, de Daniel Berg. Um bom resumo do que ensinou está na conclusão de “A excelência da doutrina pentecostal”: o melhor da doutrina pentecostal não é o esboço nem o sistema, mas “o amor a Deus, acima de todas as coisas, e ao próximo”.

Obras principais

  • Paulo em Atenas (CPAD, 1984).
  • Dicionário Teológico (CPAD, 1996); em espanhol, Diccionario Teológico (Editorial Patmos, 2005).
  • Comentário Bíblico: Jó (CPAD).
  • Geografia Bíblica (CPAD).
  • Dicionário da Profecia Bíblica (CPAD).
  • Fundamentos Bíblicos de um Autêntico Avivamento (CPAD).
  • Teologia da Educação Cristã (CPAD).
  • As Verdades Centrais da Fé Cristã (CPAD, 2006).
  • “Bibliologia”, em Antonio Gilberto (ed.), Teologia Sistemática Pentecostal (CPAD, 2008).
  • O Começo de Todas as Coisas (CPAD, 2015), sobre Gênesis.
  • Os Sete Castiçais de Ouro, O Oitavo Segredo e As Novas Fronteiras da Ética (CPAD).
  • A Raça Humana: origem, queda e redenção (CPAD, 2019).
  • Declaração de Fé das Assembleias de Deus (CPAD, 2017), como sub-relator da Comissão Especial.
  • Meus Conselhos aos Jovens Teólogos (Edições Bernhard Johnson).

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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