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Zacarias de Aguiar Severa: O pastor batista que escreveu o manual de teologia de uma geração de seminaristas
Neste texto
- Vida
- Da editora ao púlpito
- Curitiba e o seminário
- Hebreus, duas vezes
- O professor de teologia sistemática
- Pensamento
- Um batista de livre-arbítrio
- A história da eleição entre os batistas
- Onde ele se afasta do arminianismo clássico
- O mal e a liberdade
- Teologia para a igreja
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Entre 1959 e 1962, um rapaz estudou Teologia no Instituto Bíblico Batista A. B. Deter, em Curitiba, a escola que o missionário norte-americano Arthur Beriah Deter tinha aberto em 1940 com quatro alunos, na casa de outro pastor. Vinte e quatro anos depois de terminar o curso, aquele aluno era o diretor-geral da mesma escola, já com o nome de Seminário Teológico Batista do Paraná, e ficou no cargo por treze anos. Hoje o auditório da instituição, a Faculdades Batista do Paraná (FABAPAR), se chama Auditório Dr. H. C. Zacarias de Aguiar Severa. Entre uma ponta e outra dessa história, Severa pastoreou igrejas por quatro décadas, formou-se também em Direito e escreveu o Manual de Teologia Sistemática, que a A. D. Santos publica desde 1999 e que várias escolas de teologia adotaram como livro básico da disciplina.
Vida
Da editora ao púlpito
Depois do curso no Instituto A. B. Deter, Severa trabalhou de 1963 a 1968 como gerente da Casa Publicadora Batista, a editora da Convenção Batista Brasileira. Em 1968 começou o pastorado e entrou no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, o seminário da Convenção Batista Brasileira no Rio de Janeiro, onde se bacharelou em Teologia em 1971. Enquanto estudava, pastoreou a Igreja Batista de Ramos, de 1968 a 1973, e começou o curso de Direito na Universidade Federal Fluminense, que interrompeu em 1972.
O trabalho com livros continuou. De 1973 a 1979 foi gerente da livraria da Junta de Educação Religiosa e Publicações da CBB (JUERP). Em 1974 assumiu a Igreja Batista de Vila Maria, onde ficou até 1982, e nesse período retomou o Direito: graduou-se em 1981 pela Universidade Braz Cubas, em Mogi das Cruzes, no estado de São Paulo. Advogou eventualmente entre 1984 e 1987. Severa é casado com Marisan Quintanilha Severa, com quem teve três filhos.
Curitiba e o seminário
Em 1982 voltou a Curitiba para pastorear a Igreja Evangélica Batista de Guabirotuba, até 1986. No ano seguinte à chegada começou a lecionar no Seminário Teológico Batista do Paraná, nome que o antigo instituto tinha recebido, e ensinou ali de 1983 a 1998. Foi deão acadêmico em 1984 e 1985 e diretor-geral de 1986 a 1998. Foram os anos em que o seminário teve o curso de Teologia reconhecido pela Associação de Seminários Teológicos Evangélicos (ASTE) e pela Associação Evangélica de Educação Teológica na América Latina, numa época em que o Ministério da Educação ainda não reconhecia a Teologia como curso superior. As disciplinas dele eram Teologia Sistemática e História das Teologias, que ensinou por mais de vinte anos.
Na Convenção Batista Paranaense, presidiu as assembleias de 1985, 1986 e 1987 e foi secretário-geral interino em 1994. No mesmo ano assumiu interinamente a Igreja Batista do Cajuru, em Curitiba, e voltou a ela como pastor efetivo de 1999 a 2007.
Hebreus, duas vezes
Severa fez dois mestrados sobre o mesmo assunto. O primeiro, na Faculdade Teológica Batista de São Paulo, de 1992 a 1998, sob a orientação de Landon Jones, resultou na dissertação Tensão entre a experiência presente e futura da salvação em Hebreus, aprovada em 1999. Antes disso já tinha publicado o artigo “Entre o presente e o futuro: a escatologia em Hebreus”, na revista Vox Scripturae, em 1996. O segundo, na Pontifícia Universidade Católica do Paraná, de 2009 a 2010, sob a orientação de Vicente Artuso, voltou ao tema com a dissertação Relação entre a experiência presente e futura da salvação no livro de Hebreus (151 folhas).
O tema não é neutro. Hebreus junta a salvação já recebida pelo sacrifício de Cristo e a herança que ainda se espera, e traz as advertências mais duras do Novo Testamento contra quem se afasta da fé (Hebreus 6:4-6; Hebreus 10:26-29), as passagens em que calvinistas e arminianos mais discordam sobre a perseverança.
O professor de teologia sistemática
Em 2009, quando a escola já era a Faculdade Teológica Batista do Paraná, credenciada pelo MEC em 2002, Severa voltou a lecionar ali e ficou até 2015. Para o curso a distância da faculdade escreveu a apostila Sistemas em Teologia I (2012). Em 2019 passou a ensinar Teologia pelo Conselho Educacional da Convenção Batista Paranaense, a mantenedora da FABAPAR. Um sermão dele, “Os efeitos da Palavra de Deus na vida cristã”, está no acervo de áudio da Igreja Batista do Bacacheri, em Curitiba.
O Manual de Teologia Sistemática ganhou uma edição revista e ampliada em 2014, organizada em treze grandes temas: teologia, revelação, Deus, Trindade, obras de Deus, anjos, ser humano, pecado, Cristo, salvação, Espírito Santo, igreja e últimas coisas. Em dezembro de 2018 saiu Conhecendo a Teologia Cristã: uma forma simples de entender a fé, também pela A. D. Santos, um resumo do manual para leitores de igreja. Na bibliografia básica do bacharelado em Teologia da FABAPAR, o livro dele, com o título Teologia sistemática (segunda edição, Núcleo de Publicações Fabapar, 2021), aparece ao lado das sistemáticas de Louis Berkhof e Wayne Grudem.
Pensamento
Um batista de livre-arbítrio
Severa pertence à classe dos simpatizantes do arminianismo: é um batista de livre-arbítrio, de “quatro pontos”. Ensina a eleição condicional e a iniciativa da graça, mas mantém a segurança eterna do crente, a doutrina batista de que quem foi salvo não perde a salvação. Leitores arminianos reconheceram nele um aliado: Jamierson Oliveira pôs o Manual na sua “Bibliografia arminiana recomendada” (2014), e Flávyo Henrique Costa Santos, no Manual de Teologia Arminiana (2021), cita Severa como o primeiro dos autores brasileiros que “já esboçava uma teologia arminiana” antes dos livros arminianos dos anos 2010.
O ponto de partida dele é a incapacidade humana. No Manual, Severa escreve que “o homem é incapaz de operar a sua própria salvação”, embora tenha de participar pessoalmente, “movido por Deus”, respondendo à ação redentora de Deus, e conclui que, “antes que o pecador possa responder ao chamado para salvação, Deus já tomou a iniciativa de salvá-lo”. É a ordem do arminianismo clássico: Deus começa, a graça move e a pessoa responde movida por ela. Jacó Armínio diz o mesmo na Declaração de Sentimentos, quando afirma que o homem caído não é capaz, por si mesmo, de querer ou fazer o que é verdadeiramente bom.
Para explicar a eleição, Severa recorre ao teólogo norte-americano Henry Thiessen. Como a humanidade está morta em delitos e pecados, Deus restaura graciosamente a todas as pessoas a capacidade suficiente para escolher submeter-se a ele, e essa é a graça que se manifestou a todos (Tito 2:11). Em sua presciência, Deus sabe o que cada um fará com essa capacidade restaurada e elege para a salvação de acordo com esse conhecimento. É a eleição condicional, a escolha dos que Deus já sabe que vão crer, e a capacidade restaurada a todos corresponde ao que os arminianos chamam de graça preveniente: a graça que vem antes da fé e liberta a vontade, sem forçá-la. É a eleição segundo a presciência da Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira e do primeiro artigo da Remonstrância de 1610. Ver também Presciência, eleição e predestinação.
A história da eleição entre os batistas
O capítulo do Manual sobre a eleição é também uma pequena história do debate. A primeira controvérsia, escreve Severa, surgiu entre Agostinho e Pelágio no fim do século IV: Pelágio sustentava que cada pessoa tem o livre-arbítrio para aceitar ou rejeitar a salvação; Agostinho, que depois da queda o ser humano não pode vir a Deus sem a intervenção divina, porque a vontade é escrava do pecado. A Igreja condenou Pelágio e, mais tarde, segundo Severa, passou a uma posição semipelagiana. A distinção importa: o arminianismo clássico fica com Agostinho na incapacidade humana e só se afasta dele quando a graça se torna irresistível e restrita aos eleitos.
Entre os batistas, Severa lembra os grupos de John Smyth e Thomas Helwys, que na Holanda da controvérsia arminiana sofreram a influência de Armínio, e a divisão que veio por volta de 1640 entre os batistas gerais, que pregavam a expiação por todos, e os batistas particulares, de linha calvinista. No Brasil, aponta a “ênfase arminiana” de A. B. Langston, o missionário norte-americano cujo Esboço de teologia sistemática foi por muito tempo o livro-texto dos seminários batistas. Reconhece que houve batistas calvinistas influentes, como A. H. Strong e C. H. Spurgeon no passado e Millard Erickson no presente, e que um movimento calvinista crescia entre os batistas, mas conclui que “geralmente os batistas não entendem a eleição nos termos calvinistas”.
Onde ele se afasta do arminianismo clássico
A distância aparece em dois pontos. O primeiro é a perseverança. No capítulo sobre o Espírito Santo, Severa ensina que o Espírito sela o regenerado no momento em que ele se une a Cristo (Efésios 1:13; Efésios 4:30) e que o selo indica que a pessoa pertence a Deus, tem a promessa da vida eterna garantida e “está seguro eternamente”. É por causa dessa segurança, diz ele, que o crente é exortado a desenvolver a vida de santidade. A declaração de fé deste site ensina a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e o abandono da fé é possível (João 15:4-6; Hebreus 3:12-14). É a mesma posição batista de quatro pontos de Lourenço Stelio Rega e de Jorge Pinheiro; outros batistas, como Robert Shank, chegaram à perseverança condicional. Ver Arminianismo: a segurança da salvação.
O segundo é a linguagem dos decretos. No Manual, o propósito de Deus é definido como “preordenação divina abrangente, eterna, imutável, incondicional e eficaz de eventos que ocorrem no mundo”, e em Conhecendo a Teologia Cristã (2018) Severa descreve o plano de Deus como eterno, fundado na livre vontade de Deus, abrangente e eficaz. A fórmula está mais perto da doutrina reformada dos decretos do que da linguagem de Armínio, que funda o decreto de salvar pessoas determinadas na presciência de quem vai crer e perseverar. Severa equilibra a fórmula com a liberdade humana: “Cremos, portanto, que a liberdade humana é limitada e condicionada”, escreve em Conhecendo a Teologia Cristã; acima dela está a soberania de Deus, que abrange “inclusive as ações livres dos indivíduos”, mas nesse plano “há também liberdade de escolha por parte do ser humano, mas não de modo absoluto”. Ver A soberania de Deus e o livre-arbítrio humano.
O mal e a liberdade
A liberdade das criaturas é também a chave com que Severa trata o problema do mal. Ele distingue o mal moral, o pecado, sempre causado por agentes capazes de escolher entre o certo e o errado, do mal natural, como terremotos e doenças. A tese é direta: “Deus não criou o mal”. O mal começou no exercício da vontade livre de seres morais criados por Deus, primeiro Satanás e seus anjos (2 Pedro 2:4; Judas 6) e depois o ser humano, que caiu do estado original pela tentação (Gênesis 3:1-6). Deus governa o mundo, mas não é o autor do pecado.
Teologia para a igreja
Severa define a teologia como “o estudo acerca de Deus e suas relações com o universo, especialmente com o ser humano”. Contra quem diz que basta a fé ou a experiência, responde que o crescimento espiritual depende do conhecimento das verdades cristãs e que a teologia é uma forma de amar a Deus com o entendimento (Mateus 22:37). Escreveu Conhecendo a Teologia Cristã para que os cristãos não fossem “levados por todo vento de doutrina” (Efésios 4:14) e estivessem preparados para dar a razão da sua esperança (1 Pedro 3:15).
Na doutrina da Escritura, segue a linha evangélica clássica. A revelação geral, pela natureza, pela história e pela consciência, torna o ser humano indesculpável (Romanos 1:20), mas não trata da redenção. A Bíblia é inspirada de modo verbal e plenário: o Espírito guiou os autores até a escolha das palavras, cada um com o seu vocabulário, o que “não significa que Deus tenha ditado as palavras”. A certeza dessa autoridade vem, por fim, do testemunho do Espírito Santo no coração de quem lê.
Sobre os dons do Espírito, observa que “nem todas as listas juntas abrangem todos os dons que o Espírito pode conferir aos crentes”.
Obras principais
- “Entre o presente e o futuro: a escatologia em Hebreus”, Vox Scripturae, v. 6 (1996)
- Tensão entre a experiência presente e futura da salvação em Hebreus (dissertação de mestrado, Faculdade Teológica Batista de São Paulo, 1999)
- Manual de Teologia Sistemática (A. D. Santos, 1999; edição revista e ampliada, 2014)
- Relação entre a experiência presente e futura da salvação no livro de Hebreus (dissertação de mestrado, PUCPR, 2010)
- Sistemas em Teologia I (apostila do curso a distância da Faculdade Teológica Batista do Paraná, 2012)
- Conhecendo a Teologia Cristã: uma forma simples de entender a fé (A. D. Santos, 2018)
- Teologia sistemática (2. ed., Núcleo de Publicações Fabapar, 2021)
Livros em português
- Manual de Teologia Sistemática: edição revista e ampliada (A. D. Santos, 2014). Ver na Amazon
- Conhecendo a Teologia Cristã: uma forma simples de entender a fé (A. D. Santos, 2018). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- Currículo de Zacarias de Aguiar Severa (dados do Lattes), Escavador.
- Zacarias de Aguiar Severa, Manual de Teologia Sistemática: edição revista e ampliada, Google Livros, com a nota sobre o autor.
- Zacarias de Aguiar Severa, Conhecendo a Teologia Cristã, prévia no Google Livros (prefácio e capítulos 1 a 6).
- Pontifícia Universidade Católica do Paraná, registro da dissertação Relação entre a experiência presente e futura da salvação no livro de Hebreus, Biblioteca da PUCPR.
- Faculdades Batista do Paraná, Conheça a FABAPAR, e Projeto Pedagógico do Bacharelado em Teologia, com o histórico da instituição.
- Flávyo Henrique Costa Santos, Manual de Teologia Arminiana (Caxias, 2021), Internet Archive.
- Josadak Lima, Teologia sistemática I: Deus, soteriologia, pneumatologia (Uniasselvi, 2009), caderno de estudos que cita o Manual sobre eleição, Espírito Santo e união com Cristo.
- Teologia sistemática II, apostila no Academia.edu, com a explicação de Severa sobre a eleição a partir de Henry Thiessen.
- Jamierson Oliveira, Bibliografia arminiana recomendada, 16 fev. 2014.
- Convenção Batista Brasileira, Declaração Doutrinária, art. VI, “Eleição”.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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