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Esequias Soares: O hebraísta de Jundiaí que presidiu a Declaração de Fé das Assembleias de Deus
Neste texto
- Vida
- De Pernambuco a Jundiaí
- O estudante de hebraico
- O apologista
- O comentarista das Lições Bíblicas
- A Declaração de Fé
- A Sociedade Bíblica
- Pensamento
- Um pentecostal arminiano
- O pecado e a incapacidade humana
- A graça vem primeiro
- Eleição, perseverança e as diferenças com este site
- O verdadeiro pentecostalismo
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
No dia 24 de janeiro de 2017, no Rio de Janeiro, a liderança nacional das Assembleias de Deus ouviu a leitura, em voz alta, dos vinte e quatro capítulos da primeira confissão de fé completa da denominação. O texto saíra de uma comissão especial de dezoito teólogos, que passara mais de um ano estudando os credos antigos e as confissões da Reforma. A introdução do livro leva a data daquele dia e a assinatura de quem presidiu o trabalho: Esequias Soares da Silva, pastor da Assembleia de Deus em Jundiaí (SP), formado em hebraico pela Universidade de São Paulo. Três meses depois a Declaração de Fé das Assembleias de Deus foi homologada, e com ela a leitura arminiana da eleição, da graça e da perseverança que a igreja pregava ganhou texto oficial.
Vida
De Pernambuco a Jundiaí
Esequias Soares da Silva nasceu em 11 de junho de 1955, em Paulista, na região metropolitana do Recife. Os pais, Manoel Soares da Silva e Inês Pereira da Silva, tinham se convertido em 1949 na Assembleia de Deus de Paulista; o pai foi professor de Escola Dominical, e a mãe participava do círculo de oração. Esequias cresceu na igreja, afastou-se dela na adolescência e voltou aos 22 anos, já em Jundiaí, no interior de São Paulo. Foi batizado nas águas em 1977, na Assembleia de Deus da cidade.
Pouco antes de se casar, assumiu uma classe de adultos da Escola Dominical e depois a dos jovens no templo central de Jundiaí. Foi consagrado diácono em 1980, presbítero em 1981 e ordenado pastor em 1987. Serviu como copastor e vice-presidente da igreja até 23 de março de 1996, quando sucedeu o pastor Elyseu Queiroz de Souza na presidência da Assembleia de Deus em Jundiaí, cargo que ocupa desde então.
O estudante de hebraico
Ao lado do ministério, Esequias estudou Letras Orientais na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, com habilitação em língua e literatura hebraica, e concluiu o curso em 1991. Fez também o bacharelado em Teologia e, em 2007, o mestrado em Ciências da Religião na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Ensinou hebraico e Antigo Testamento na ESTE, em São Paulo, e hebraico, grego e seitas no seminário e escola de missões Antioquia, no Vale da Bênção. É diretor-geral da ETEQS. Em 10 de junho de 2013, véspera do seu aniversário, recebeu na Assembleia de Deus do Belém, em Jundiaí, o título de doutor honoris causa em Exegese Bíblica, concedido pela Faculdade Teológica Manantial, de Buenos Aires.
O conhecimento das línguas originais marcou toda a sua obra. Em 2008 a Hagnos publicou dois livros dele: Cristologia: a doutrina de Jesus Cristo e um estudo sobre a Tradução do Novo Mundo, a Bíblia das Testemunhas de Jeová, em que mostra como as crenças do grupo foram inseridas no próprio texto traduzido. No ano seguinte saiu Septuaginta: guia histórico e literário, sobre a tradução grega do Antigo Testamento feita pelos judeus de Alexandria, a Bíblia que os autores do Novo Testamento citam com frequência.
O apologista
Nos anos 1990 Esequias ficou conhecido no meio evangélico pelo livro Como responder às Testemunhas de Jeová. Participou da diretoria do Instituto Cristão de Pesquisa (ICP), uma organização evangélica de estudo das seitas, e a presidiu por seis meses em 1998, depois da renúncia de Alcino Lopes Toledo. Em 2001 a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) criou a sua Comissão de Apologética e o pôs na presidência; no mesmo ano nasceu a revista Resposta Fiel, editada por Silas Daniel. A CPAD publicou o seu Manual de Apologética Cristã em 2002 e Heresias e Modismos em 2006. Esteve também à frente do Conselho de Doutrina da CGADB, que examina as publicações da denominação.
O comentarista das Lições Bíblicas
Desde 1994 Esequias escreve para as Lições Bíblicas, a revista trimestral das Escolas Dominicais assembleianas, lida em milhares de igrejas do país. Entre 2005 e 2020 foi o autor de sete revistas de adultos, atrás apenas de Elinaldo Renovato, Claudionor de Andrade, Elienai Cabral e José Gonçalves. No terceiro trimestre de 2010 tratou do ministério profético na Bíblia; no quarto de 2022, do livro de Ezequiel, com o tema “A Justiça Divina”; no primeiro de 2025, das heresias antigas que voltam com roupa nova, sob o título Em Defesa da Fé Cristã. Em 2008 foi um dos autores da Teologia Sistemática Pentecostal, obra coletiva da CPAD editada por Antonio Gilberto.
A Declaração de Fé
Até a década de 2010 as Assembleias de Deus no Brasil tinham como documento doutrinário oficial apenas o “Cremos”, uma lista curta de artigos publicada no Mensageiro da Paz desde 1969. A CGADB nomeou então uma Comissão Especial de teólogos para escrever uma confissão completa. Esequias a presidiu, Douglas Baptista foi o relator e Claudionor de Andrade o sub-relator. O texto foi lido diante da liderança em janeiro de 2017 e homologado na 43ª Assembleia Geral Ordinária da CGADB, em 26 de abril de 2017. O subtítulo resume a identidade da igreja: Jesus salva, cura, batiza no Espírito Santo e breve voltará.
Na introdução, Esequias explica o lugar de um credo. A Bíblia é a única autoridade inerrante e “não é um credo, mas, sim, sua fonte primária”; o credo é a resposta da igreja, que interpreta as Escrituras para que todos conheçam a sua mensagem. Ele cita Philip Schaff, faz a história dos credos ecumênicos e enumera as confissões da Reforma, entre elas a Remonstrância de 1610 e a confissão de Simão Episcópio, de 1621, “ratificando as crenças arminianas”. O “Cremos” passou a ser um extrato da declaração maior, que reúne, nas palavras dele, “as interpretações autorizadas das Escrituras e os ensinos oficiais das Assembleias de Deus no Brasil”.
A Sociedade Bíblica
Esequias preside o Conselho Deliberativo da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB). Em 29 de julho de 2026, na sede da SBB em Barueri (SP), recebeu em nome do conselho a escritura do terreno da futura Cidade da Bíblia, no quilômetro 42 da Rodovia Castello Branco, em Santana de Parnaíba. “É uma propriedade para a produção de Bíblia”, disse.
Pensamento
Um pentecostal arminiano
Esequias Soares é um pentecostal arminiano: assembleiano, defende o batismo no Espírito Santo e os dons espirituais, e ensina uma doutrina da salvação arminiana. A evidência está no que ele escreveu e assinou. A Declaração de Fé que ele presidiu afirma que “o Soberano Deus não predestinou incondicionalmente pessoa alguma à condenação eterna”, que a predestinação bíblica “diz respeito apenas à salvação, sendo condicionada à fé em Cristo Jesus” e ligada à presciência de Deus, e que a graça “não é irresistível” (cap. X). Na revista de 2025 ele escreve: “Deus disponibilizou a sua graça para todos os seres humanos e não para uns poucos escolhidos” (Lições Bíblicas, 1º trimestre de 2025, lição 11). Ciro Sanches Zibordi, ao listar os arminianos da Assembleia de Deus em 2016, citou Esequias por último, “como representante dos inúmeros expoentes pentecostais e arminianos” da igreja.
O pecado e a incapacidade humana
A soteriologia de Esequias começa pela queda. Na lição sobre o pecado, ele afirma que o pecado atinge a pessoa inteira, corpo, alma, espírito, intelecto, vontade e consciência: “O pecado se estende a todas as pessoas e corrompeu na sua totalidade”. Explica que a corrupção é total na extensão, e não na intensidade: nenhuma parte do ser humano ficou de fora, embora nem todos pratiquem todo o mal possível. A imagem de Deus no homem caído “não foi erradicada, está desfigurada, mas não aniquilada”. E tira a conclusão que separa o arminianismo do pelagianismo: “O ser humano está incapacitado de conhecer a Deus por seus próprios esforços” (Lições Bíblicas, 1º trimestre de 2025, lição 10). É a depravação total que Armínio afirma na Declaração de Sentimentos, de 1608.
Por isso ele trata o pelagianismo como heresia. Pelágio, monge britânico contemporâneo de Agostinho, negava o pecado original. Para Esequias, essa doutrina “é uma deturpação da hamartiologia bíblica”, isto é, da doutrina bíblica do pecado, e continua viva em formas novas: nas religiões reencarnacionistas, que esperam a perfeição por evolução, na Ciência Cristã e no mormonismo. O maior perigo para a igreja, diz ele, é o analfabetismo bíblico, que deixa o crente sem defesa diante desses ensinos. O remédio que propõe é conhecer bem a própria fé e apresentar o Evangelho com amor aos que pensam diferente.
A graça vem primeiro
Na lição sobre Efésios 2, Esequias escreve que ninguém pode sequer “desejar a salvação ou sentir a necessidade de Deus, senão por intervenção divina direta, por meio do Espírito Santo”. A Declaração de Fé diz o mesmo com outras palavras: Deus “tomou a iniciativa na salvação”; é pela graça que ele “capacita o ser humano para que ele responda com fé ao chamado do evangelho”; e os seres humanos, “influenciados pela graça que habilita a livre escolha”, são livres para crer ou recusar (cap. X, 5). É o que a tradição arminiana chama de graça preveniente: a graça que vem antes da fé, alcança todas as pessoas, convence do pecado e liberta a vontade para responder, sem forçar ninguém (o site explica a doutrina em a graça preveniente em Armínio).
Essa resposta não acrescenta mérito. Graça, ensina Esequias, “significa literalmente ‘favor imerecido’”; a salvação “não vem das obras, pois não se trata de uma recompensa”. A fé é o meio e a salvação o fim, e, como a graça não é mérito, nem o ato de receber o presente é mérito pessoal. As boas obras não contribuem para a salvação, mas resultam dela, e assim ele concilia Paulo e Tiago. É a imagem de Armínio do mendigo que estende a mão para receber a esmola sem com isso merecê-la.
Eleição, perseverança e as diferenças com este site
Na Declaração de Fé, a eleição é da Igreja, “segundo a sua presciência”: Deus conhece de antemão os que, diante do chamado do Evangelho, recebem a Cristo e perseveram até o fim, e os predestina a serem conformes à imagem do Filho (Romanos 8:29; 1 Pedro 1:2). A mesma declaração rejeita a fórmula “uma vez salvo, salvo para sempre”. Pelo mau uso do livre-arbítrio, o crente pode apostatar da fé, e a advertência de Paulo vale para todos: “Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe não caia” (1 Coríntios 10:12).
A declaração de fé do site concorda nos pontos centrais: depravação total, expiação universal, graça resistível que precede a fé, perseverança condicional. Há diferenças de ênfase. A declaração assembleiana fala em “perder a salvação, seja temporariamente ou eternamente” e na responsabilidade de “zelar pela manutenção da salvação”; a do site fala de perseverança condicional, descreve a apostasia como abandono da fé e põe a segurança do crente na união com Cristo (ver apostasia na Bíblia e arminianismo e a segurança da salvação). A outra diferença está na santificação: as Assembleias de Deus ensinam a santificação como processo e o batismo no Espírito Santo como a experiência posterior à conversão, enquanto a tradição wesleyana do site afirma também a inteira santificação, uma obra da graça recebida pela fé que enche o coração de amor perfeito.
O verdadeiro pentecostalismo
Em O Verdadeiro Pentecostalismo (CPAD, 2020), Esequias expõe a doutrina que dá nome ao movimento a partir do sermão de Pedro em Atos 2. O traço distintivo do pentecostalismo é o batismo no Espírito Santo, com os dons que o acompanham, como as línguas, a profecia e as curas. O fundamento da fé, porém, é a Escritura, e não a experiência nem a emoção; as experiências não são descartadas, mas ficam submetidas à Bíblia. O livro parte da convicção de que Deus continua falando a pessoas de todas as épocas, lugares e classes sociais. Na apologética e na defesa dos dons, a preocupação dele é a mesma: manter a experiência da igreja presa à Palavra.
Obras principais
- Como responder às Testemunhas de Jeová (década de 1990).
- Manual de Apologética Cristã: defendendo os fundamentos da autêntica fé bíblica (CPAD, 2002).
- Heresias e Modismos (CPAD, 2006).
- Cristologia: a doutrina de Jesus Cristo (Hagnos, 2008).
- Testemunhas de Jeová: a inserção de suas crenças e práticas no texto da Tradução do Novo Mundo (Hagnos, 2008).
- Teologia Sistemática Pentecostal, com Antonio Gilberto e outros autores (CPAD, 2008).
- Septuaginta: guia histórico e literário (Hagnos, 2009).
- Declaração de Fé das Assembleias de Deus: Jesus salva, cura, batiza no Espírito Santo e breve voltará (organizador; CPAD, 2017).
- O Verdadeiro Pentecostalismo: a atualidade da doutrina bíblica sobre a atuação do Espírito Santo (CPAD, 2020).
- A Justiça Divina, com Daniele Soares (CPAD, 2022).
- Em Defesa da Fé Cristã: combatendo as antigas heresias que se apresentam com nova aparência (CPAD, 2024).
Livros em português
- Declaração de Fé das Assembleias de Deus (organizador; CPAD, 2017). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- O Verdadeiro Pentecostalismo (CPAD, 2020). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Em Defesa da Fé Cristã (CPAD, 2024). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Manual de Apologética Cristã (CPAD, 2002). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Septuaginta: guia histórico e literário (Hagnos, 2009). Ver na Amazon
- Cristologia: a doutrina de Jesus Cristo (Hagnos, 2008). Ver na Amazon
Para aprofundar
- Esequias Soares da Silva (org.), Declaração de Fé das Assembleias de Deus (CPAD, 2017), introdução e capítulo X, “Sobre a salvação”.
- Esequias Soares, Lições Bíblicas, 1º trimestre de 2025: lição 10, “O pecado corrompeu a natureza humana”, e lição 11, “A salvação não é obra humana”.
- Jonas José de Oliveira Maria, “Os teóricos das Assembleias de Deus do Brasil: o perfil dos comentaristas das Lições Bíblicas entre 2005 a 2020”, REPAS.
- “Pastor Esequias Soares da Silva”, Página Dominical, junho de 2010 (perfil do comentarista).
- “Pastor Esequias Soares recebe o título de Doutor Honoris Causa”, blog do pastor Juarez Lima, junho de 2013.
- Ciro Sanches Zibordi, “Para um pentecostal, o que é o arminianismo?”, 11 de fevereiro de 2016.
- “Entrevista exclusiva com o comentarista das revistas Lições Bíblicas de Adultos para o 1º Trimestre de 2025”, Escola Dominical, 19 de dezembro de 2024.
- “SBB dá novo passo pela Cidade da Bíblia”, Jornal do Brás, julho de 2026.
- Página do autor na CPAD e ficha de O Verdadeiro Pentecostalismo no Google Livros.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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