
A história de Jó
Jó perdeu tudo em um dia. Os bois, as ovelhas, os camelos, os servos e os filhos. Dez filhos. Uma ventania derrubou a casa onde estavam reunidos, e ninguém sobreviveu.
Nós lemos esse texto e ficamos em choque. O que me faz parar é o versículo seguinte: “O Senhor deu, o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor.” (Jó 1:21). Jó diz isso antes de qualquer resposta, antes de qualquer explicação, na hora do impacto.
Seria um erro, porém, parar aqui e fazer de Jó um modelo de estoicismo religioso. Jó não estava bem. Ele questionou, lamentou e exigiu ser ouvido. Mais de trinta capítulos do livro mostram o homem discutindo com Deus, com uma intensidade que raramente vemos na Bíblia, e que assusta quando lemos de verdade, sem parafrasear.
Os amigos de Jó chegaram e ficaram sete dias em silêncio ao lado dele (Jó 2:13). Isso foi bom. O problema começou quando abriram a boca. Eles tinham uma teoria: sofrimento é sempre consequência de pecado. Logo, Jó devia ter feito algo errado. E insistiram nisso por capítulos e capítulos. Bildade, Elifaz, Zofar, cada um com uma variação da mesma acusação. Jó respondia, rebatia, e a conversa não chegava a lugar nenhum.
Até a esposa de Jó disse: “Ainda conservas a tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre.” (Jó 2:9). Às vezes quem está mais perto é quem menos ajuda.
Quando Deus finalmente fala, no capítulo 38, esperamos uma explicação, e ela não vem. Vem uma série de perguntas: “Onde estavas quando eu lançava os fundamentos da terra? Quem fechou o mar com portas? Já chegaste às nascentes do mar?” (Jó 38:4,8,16). Deus não explica o sofrimento de Jó. Ele mostra quem Ele é.
E algo muda em Jó. Ele diz: “Antes eu te conhecia só de ouvir falar, mas agora os meus olhos te veem.” (Jó 42:5). O sofrimento não resolveu as perguntas, mas o encontro com Deus mudou a maneira de carregá-las.
Nós queremos do livro de Jó uma fórmula: se sofrer assim, Deus vai restaurar assado. Mas o livro não trata disso. Ele conta a história de um homem que foi à presença de Deus com todas as suas perguntas e saiu transformado, não porque elas foram respondidas, mas porque o conhecimento de Deus virou outra coisa. Deixou de ser coisa ouvida e virou coisa vista.
Deus repreendeu os amigos de Jó. Disse que eles não falaram a Seu respeito o que era reto (Jó 42:7). A teologia que encaixa tudo em causa e consequência não serve quando alguém está sentado nas cinzas. Jó, que questionou, que exigiu audiência e que não aceitou a versão dos amigos, foi a quem Deus chamou de servo e de quem disse que falou o que era reto.
Senhor, que aprendamos com Jó que a fé que aguenta o peso não é a que não questiona, mas a que não larga de Ti mesmo sem resposta. E quando estivermos sentados nas cinzas, que não precisemos de amigos que expliquem, mas da Tua presença que transforma. Amém.
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