
O Chamado que Dá Sentido à Vida
Antes da queda, já havia o trabalho. Nós esquecemos disso.
Em Gênesis 2:15, antes de o pecado entrar, Deus coloca o homem no jardim para lavrar e guardar: “Então o SENHOR Deus tomou o homem, e o pôs no jardim de Éden, para que o lavrasse e o guardasse” (Gênesis 2:15, Bíblia Livre). O trabalho não é punição; a punição é o suor, a resistência, o espinho que nasce onde deveria nascer trigo (Gênesis 3:17-19). O trabalho em si é anterior ao pecado. É parte do projeto.
Gênesis 1:27-28 explica o porquê: fomos feitos à imagem de um Deus que cria. Deus trabalhou durante seis dias e descansou. Carregamos esse DNA criador. Cultivar, cuidar, construir, inventar: nada disso é meramente secular, pois é o que significa ser imagem de Deus no mundo.
Martinho Lutero percebeu isso no século XVI e sacudiu a cristandade com a conclusão: “A ideia de que o serviço a Deus deveria ser limitado a um altar de igreja é, indubitavelmente, o pior truque do diabo. O mundo inteiro poderia estar repleto de serviços ao Senhor — não apenas nas igrejas, mas também em casa, na cozinha, na oficina e no campo.”
Calvino chegou na mesma direção: o serviço de Deus não consiste em estar na igreja e ocupar-se de cerimônias, mas em fazer tudo o que Ele nos ordena, no lugar onde Ele nos colocou. A tradição reformada chamou isso de vocação, que quer dizer “chamado”.
Isso muda a equação toda.
Costumamos separar o sagrado do secular. O que acontece no culto é espiritual; o que acontece no escritório é mundano. Mas Paulo não faz essa divisão em Colossenses 3:23-24:
“Tudo quanto fizerdes, fazei de coração, como para o Senhor, e não para as pessoas. Pois sabeis que recebereis do Senhor a recompensa da herança; servi ao Senhor Cristo.”
(Colossenses 3:23-24, Bíblia Livre)
O seu trabalho tem um chefe que não está atrás da mesa do gestor. Quando ninguém está olhando, quando a tarefa é chata, quando o esforço não vai render reconhecimento, Deus vê. E o texto diz que a recompensa vem dEle.
Isso não significa que o trabalho vai ser sempre satisfatório. A maldição do Gênesis é real: o espinho cresce, a terra resiste, o suor escorre. Mas o significado do trabalho não depende de o chefe ser bom, de o ambiente ser justo ou de a função ser glamorosa. Depende de para quem trabalhamos.
Bach assinava suas composições com “Soli Deo Gloria”, só a Deus a glória. Podemos assinar o relatório contábil, a planilha, o código, a refeição servida, a sala limpa com a mesma intenção, não como performance religiosa, mas como postura do coração.
Dorothy Sayers disse uma vez que “todo trabalho bem-feito e para a glória de Deus é trabalho cristão.” Não há distinção de função. Pode ser ministro de contabilidade, de programação, de faxina. O que qualifica não é o cargo, mas o coração que serve ao Senhor em cada um deles.
Senhor, que nós não nos cansemos de trabalhar como para Ti. Que o dia ordinário vire oferta, não pelas grandes realizações, mas pelo coração que Te serve nas pequenas. Amém.
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