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C. Gordon Olson: O missionário e professor que buscou um caminho entre o calvinismo e o arminianismo
Num programa de rádio em que os ouvintes telefonavam com perguntas sobre a Bíblia, alguém quis saber de C. Gordon Olson como se relacionam a presciência de Deus e a eleição. O professor, que ensinava havia anos o calvinismo moderado aprendido no seminário, levou a pergunta para casa. Semanas depois, meditando nela, percebeu que só duas passagens bíblicas tratam diretamente do assunto e que as duas põem as coisas na mesma ordem: primeiro Deus conhece de antemão, depois elege e predestina (Romanos 8:29-30; 1 Pedro 1:1-2). Olson contou mais tarde que esse episódio o levou à posição que defenderia pelo resto da vida, uma teologia da salvação “intermediária” entre o calvinismo e o arminianismo. Quando a pergunta chegou, ele já tinha passado oito anos como missionário no Paquistão e formava missionários numa faculdade bíblica de Nova Jersey.
Vida
Engenharia, conversão e Dallas
Carl Gordon Olson nasceu em 24 de janeiro de 1930, em Orange, Nova Jersey, filho de George Nathaniel Olson e Iris Thoren Olson. Terminou o ensino médio numa grande escola de subúrbio e entrou numa faculdade de engenharia, onde foi aluno de honra. Foi como estudante de engenharia que se converteu e sentiu o chamado para o ministério. Nesse tempo frequentava uma igreja arminiana, mas cedo se convenceu, pelo estudo indutivo da Bíblia, da doutrina da segurança eterna do crente. Nunca se arrependeu de trocar a engenharia pelo ministério.
Estudou teologia no Dallas Theological Seminary, onde aceitou o calvinismo “moderado” de Lewis Sperry Chafer, o fundador da escola. Foi aluno de Merrill Unger, de S. Lewis Johnson e de Charles C. Ryrie. Pertencia a uma geração marcada pelo método indutivo de estudo bíblico de Robert Traina, que ele resumia na ordem de observar, observar e observar de novo o que a Escritura de fato diz.
Paquistão
Interessado havia muito no trabalho entre muçulmanos, em Dallas fez amizade com um estudante paquistanês, que lhe falou da falta de um trabalho evangélico entre universitários no seu país. Olson chamou esse amigo de seu “homem da Macedônia”, lembrando a visão que levou Paulo à Europa (Atos 16:9). Em 1956 chegou ao Paquistão com a esposa, como missionário independente, e começou a trabalhar entre os universitários de Lahore. O amigo lhe falara de uns quatrocentos universitários cristãos, mas Olson logo descobriu que pouquíssimos tinham uma relação pessoal com Cristo. Aproveitando os contatos do amigo, reuniu os primeiros estudantes num acampamento no sopé do Himalaia. Desse trabalho nasceu a Pakistan Fellowship of Evangelical Students, o movimento evangélico de universitários do país.
Além dos estudantes, Olson trabalhou com a Evangelical Fellowship of West Pakistan, fez trabalho editorial para a Pakistan Bible Correspondence School, uma escola bíblica por correspondência, e ensinou a Bíblia em urdu nas assembleias dos Irmãos, igrejas paquistanesas independentes. Numa licença nos Estados Unidos, o casal entrou para a equipe da International Fellowship of Evangelical Students. Depois de oito anos de ministério em inglês e em urdu, problemas de saúde obrigaram a família a voltar, em 1964. Por indicação dele, Maqbool Gill tornou-se o primeiro obreiro paquistanês de tempo integral do movimento, que recebeu o nome definitivo em Murree, em 1969.
Professor em Nova Jersey
Em 1967 Olson começou a ensinar no Northeastern Bible College, em Essex Fells, Nova Jersey, uma escola bíblica fundada em 1950. Foi professor de teologia e missões até 1990, ano em que a faculdade fechou as portas por falta de recursos e de alunos. Ensinava, entre outras matérias, Doutrina Bíblica e Teologia Bíblica. Durante anos ensinou ali o calvinismo moderado que tinha aprendido em Dallas. Duas coisas o obrigaram a rever essa posição: o diálogo com um colega de calvinismo extremo e as aulas sobre a vida de Cristo e sobre o livro de Atos. A pergunta no rádio completou o caminho.
Fora da sala de aula, foi pastor de igrejas batistas em Nova Jersey e na cidade de Nova York, quatro igrejas ao todo, e por uma década respondeu às perguntas dos ouvintes como “Bible answerman” na rádio WFME, da Family Radio, em Nova York. De 1968 a 2004 integrou o conselho da missão Christar e ao longo de 36 anos foi membro do conselho de quatro agências missionárias. Doutorou-se em missiologia pela Trinity International University, em Deerfield, Illinois.
Em 1981 apresentou um primeiro esboço da sua posição intermediária num encontro anual da Evangelical Theological Society, em Toronto, e a partir de 1992 levou a essas reuniões pesquisas sobre vários pontos da doutrina da salvação. O resultado foi Beyond Calvinism and Arminianism (“Além do calvinismo e do arminianismo”), de 2002, com 538 páginas, publicado pela editora do próprio autor, a Global Gospel Publishers, de Cedar Knolls, Nova Jersey. Em 2005 saiu a versão resumida, Getting the Gospel Right (“Acertando o evangelho”), com prefácio de Tim LaHaye.
Últimos anos
Olson também foi professor adjunto na Columbia International University, na Cairn University e na Liberty University, em Lynchburg, Virgínia, e no fim da vida ainda falava em conferências bíblicas e missionárias. Em 2007 casou-se com Dorothy Wagner Olson, professora de inglês na Liberty, que se tornou a editora dos seus livros. Morreu em 30 de janeiro de 2020, aos 90 anos, numa casa de repouso da cidade. A família pediu que as ofertas em memória dele fossem para a Christar e para a Faith Comes by Hearing, que grava a Bíblia em áudio.
Pensamento
Missões em primeiro lugar
Olson foi antes de tudo missiólogo. What in the World Is God Doing? (“O que Deus está fazendo no mundo?”), lançado em 1989, tornou-se um dos manuais mais usados nos cursos de introdução às missões de faculdades bíblicas e seminários americanos, com sete edições. O livro olha a obra missionária por cinco ângulos: o bíblico, o histórico, o contextual (as religiões e a secularização), o regional e o funcional (agências, preparo do missionário e papel da igreja local). Uma distinção atravessa a obra: “todos os cristãos devem ter mentalidade missionária, em obediência à Grande Comissão, mas nem todos podem ser missionários no sentido bíblico próprio”. Para ele, o missionário é alguém chamado por Deus de modo especial para um ministério distinto, e nem todo cristão pode deixar a sua terra e ir.
Essa preocupação explica também a sua teologia. Em Beyond Calvinism and Arminianism ele escreve que a teologia “deveria ser serva da execução da missão mundial”, e em 2005 resumiu a vida dizendo que, por meio século, missões e teologia tinham sido o seu foco. Para ele, uma visão intermediária da salvação está em harmonia com a Grande Comissão (Mateus 28:19), e o livro de 2002 abre com uma lista de descobertas exegéticas seguida de outra de descobertas missiológicas.
A “teologia mediata”
Classe: simpatizante. Olson rejeitou o calvinismo nos pontos centrais, mas nunca se disse arminiano. Chamou a sua posição de “teologia mediata da salvação”, por duas razões que ele mesmo dá: ela é intermediária entre o calvinismo e o arminianismo, e enfatiza o modo “mediato” com que Deus realiza boa parte do seu plano no mundo, isto é, por meio de agentes, da Palavra pregada e das circunstâncias. A tese do livro de 2002 é que existe “uma posição intermediária viável, que foi muito negligenciada e até reprimida”. Ele buscou as raízes dela no Sínodo de Orange (529), que aprovou a doutrina agostiniana da graça mas não a predestinação de Agostinho, e numa série de movimentos posteriores à Reforma que rejeitaram o determinismo dos reformadores, como Moisés Amyraut, da academia protestante de Saumur, e o puritano Richard Baxter. Não deve ser confundido com Gordon C. Olson, professor bíblico arminiano de Chicago, com quem não tinha parentesco.
O método é a marca do livro. Para Olson, boa parte da teologia tinha sido construída por dedução, a partir de um princípio geral, e não pela indução, que parte do estudo de cada texto e de cada palavra no grego e no hebraico. Por isso o livro não segue os cinco pontos do calvinismo: são dezenove capítulos sobre a imagem de Deus no homem, a expiação, a presciência, a eleição, a convicção do Espírito, a fé, a justificação, a segurança eterna, o discipulado e a evangelização. Considerava pura especulação toda a discussão sobre a ordem dos decretos de Deus na eternidade. Defendia também que o próprio Calvino não ensinou a expiação limitada nem a regeneração antes da fé, e que Teodoro Beza desviou o movimento calvinista, assim como os remonstrantes posteriores se afastaram de Armínio.
Onde ele concorda com os arminianos
Olson resume a sua posição em doze proposições. Em várias delas fica com o arminianismo. A expiação é substitutiva e, embora seja eficaz de modo particular para os que creem, está disponível para toda a humanidade: ele falava de um preço de resgate universal e de uma libertação aplicada só aos que creem (ver a expiação na teologia arminiana). O chamado de Deus para a salvação não é irresistível. A eleição e a predestinação se baseiam na presciência, como no arminianismo clássico. A fé arrependida é a única condição para a justificação e o novo nascimento, e a regeneração vem depois dela, não antes. Contra a ideia de que Deus dá a fé de modo direto e irresistível a alguns, escreveu que “a fé é sempre atribuída ao homem, não a Deus”, e que crer não é obra: é apenas reconhecer a própria falência e receber a Cristo. Olson reconhecia ainda que Jacó Armínio e John Wesley tinham uma visão plenamente bíblica da depravação humana, e que muitos remonstrantes posteriores a enfraqueceram.
Onde ele se afasta do arminianismo clássico
A distância aparece em três pontos.
O primeiro é a capacidade humana. Olson afirmava a depravação, mas escreveu: “rejeito a extrapolação da depravação para a incapacidade total”. Para ele, a queda não apagou a imagem de Deus, e por isso o pecador não está totalmente incapaz de responder à iniciativa de Deus. Ao mesmo tempo, insistia que o homem “não pode contribuir com um iota para a própria salvação” e que Deus tem a iniciativa. Essa iniciativa é a convicção do Espírito Santo (João 16:8-11), que prepara o pecador para a fé de modo mediato, pela Palavra, e que, segundo ele, “não é universal nem limitada aos eleitos”. No caso de Romanos 3:10-11, argumentava que Paulo usa um verbo intensivo e que o sentido é que ninguém busca a Deus com diligência, e não que ninguém o busca de forma alguma. O arminianismo clássico diz outra coisa. Na Declaração de Sentimentos (1608), Armínio ensina que o homem caído não pode, por si mesmo, pensar, querer ou fazer o bem, e que só a graça preveniente, uma obra sobrenatural do Espírito dada a todos, liberta a vontade para crer. A nossa declaração de fé segue Armínio: todos nascemos “incapazes de fazer qualquer coisa para nos salvar”, e a graça preveniente age em todas as pessoas, e não só onde a Palavra chega.
O segundo é a perseverança. Olson defendia que os verdadeiros crentes estão eternamente seguros em Cristo, e esse é o ponto que mais o separa dos arminianos. Definia a segurança eterna como a obra de Deus de preservar os verdadeiros cristãos, inteiramente pela graça imerecida, e dedicou um capítulo a mostrar que as advertências de Hebreus 6 não ensinam a perda da salvação. Os arminianos, desde a Remonstrância, ensinam a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé. Olson observava que o próprio Armínio só teve dúvidas sobre esse ponto, e a observação é correta, mas a posição dele é a do “uma vez salvo, salvo para sempre”. Entre os batistas, Robert Shank e Robert Picirilli seguiram o caminho contrário.
O terceiro é o discipulado. Olson criticava a chamada “salvação pelo senhorio”, que preferia chamar de “salvação pelo discipulado”, e via os ensinos de Jesus sobre negar-se a si mesmo e tomar a cruz como um desafio aos que já creem, e não como condição para ser salvo. A Grace Evangelical Society, ligada à teologia da “graça livre”, publicou uma resenha favorável do livro de 2002, escrita por Laurence Vance, que pôs Olson ao lado de Norman Geisler e Dave Hunt entre os críticos recentes do calvinismo. Do lado reformado, James White e James Swan contestaram a sua exegese de Romanos 3 e de Filipenses 1:29.
A posição de Olson fica perto do que hoje se chama provisionismo, a família de Adrian Rogers e de Adam Harwood: concorda com os arminianos sobre a expiação por todos, a graça resistível e a eleição condicional, e se afasta deles na incapacidade humana e na perseverança.
Obras principais
- What in the World Is God Doing? The Essentials of Global Missions: An Introductory Guide (Global Gospel Publishers, 1989; 5.ª edição revista em 2003). Edição revista com Don Fanning: What in the World Is God Doing? An Introduction to World Missions (Branches Publications, 2011).
- Beyond Calvinism and Arminianism: An Inductive, Mediate Theology of Salvation (Global Gospel Publishers, 2002; 3.ª edição em 2018).
- Getting the Gospel Right: A Balanced View of Salvation Truth (Global Gospel Publishers, 2005), versão resumida do livro de 2002, com prefácio de Tim LaHaye.
Para aprofundar
- C. Gordon Olson, Beyond Calvinism and Arminianism (2002), no Internet Archive; o apêndice “My Theological Pilgrimage” traz a autobiografia teológica dele.
- C. Gordon Olson, Getting the Gospel Right (2005), no Internet Archive.
- C. Gordon Olson, What in the World Is God Doing? (5.ª ed., 2003), no Internet Archive.
- C. Gordon Olson, “Mediate Theology: A Balanced View of Salvation Truth”, resumo com as doze proposições.
- Missio Nexus, “Notable Missionary Deaths in 2020” (2021).
- Dignity Memorial, obituário de Dr. C. Gordon Olson (2020).
- Pakistan Fellowship of Evangelical Students, história do movimento.
- Laurence M. Vance, resenha de Beyond Calvinism and Arminianism, Grace Evangelical Society.
- James White, “C. Gordon Olson and the Many ‘Mistranslated’ Texts on Calvinism”, Alpha and Omega Ministries (2007).
- James Swan, “C. Gordon Olson on John Calvin and the Gift of Faith”, Alpha and Omega Ministries (2007).
- The King’s College, “Northeastern Bible College: Christ for Everyone” (2016).
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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