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Bradford P. Raymond: o soldado da Guerra Civil que presidiu a Universidade Wesleyan

Diego Gonçalves12 min de leitura2.395 palavras

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Neste texto

No domingo 27 de fevereiro de 1916, Bradford Paul Raymond foi ao culto da manhã na Primeira Igreja Metodista Episcopal de Middletown, em Connecticut, e cantou com a congregação o hino final, que terminava com a promessa de pastos verdes ainda não vistos e de um Salvador que caminharia com ele. Uma hora depois, em casa, conversando com um amigo, morreu quase sem aviso. Tinha 69 anos. Fora soldado aos dezoito, pastor metodista por uma década, presidente de duas faculdades e, durante dezenove anos, o homem à frente da Universidade Wesleyan, fundada por metodistas em 1831. Os últimos dez anos ele passou doente, afastado dos livros que amava, e os colegas lembraram que nunca o ouviram reclamar.

Retrato de Bradford P. Raymond, com a assinatura dele
Retrato e assinatura de Bradford P. Raymond, fotógrafo desconhecido, em Men of Mark in Connecticut (1906). Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Infância em High Ridge e a guerra

Bradford Paul Raymond nasceu em 22 de abril de 1846, na pequena vila de High Ridge, no município de Stamford, Connecticut. O pai, Lewis Raymond, era agricultor, homem de pouca escola e intelecto vigoroso, que dirigia a sociedade de debates dos lavradores e acreditava com firmeza na “fraternidade dos homens”; no fim da vida era membro da Igreja Metodista. A mãe, Sallie A. Jones, era mulher de muita oração, que orava pelos filhos e com os filhos, e foi dela, segundo os que o conheceram, que veio a piedade do filho.

Bradford estudou na escola do distrito e, para pagar os estudos, trabalhou na lavoura, deu aulas desde os quinze anos, ensinou canto e trançou cestos. Quando a Guerra Civil começou, em 1861, dois irmãos mais velhos se alistaram logo. Bradford esperou até completar dezoito anos e, em setembro de 1864, entrou no 48º Regimento de Nova York. Serviu na campanha do Forte Fisher, na Carolina do Norte, mas pegou malária e passou boa parte do alistamento no hospital. Voltou em julho de 1865, com a saúde abalada. Pelo resto da vida manteve laços com os veteranos da Grand Army of the Republic.

Conversão e estudos

Pouco depois da guerra foi para Red Wing, em Minnesota, onde já moravam um tio e um irmão. Ali passou por um despertar religioso intenso: desde cedo sentia que devia ser pregador e resistia, e então se entregou sem reservas a Deus, com o mesmo ânimo com que se alistara no exército.

Em 1866 entrou na Universidade Hamline, faculdade metodista de Red Wing, que vivia em crise e fechou as portas em julho de 1869, para reabrir só em 1880, em Saint Paul. No último ano em Red Wing, Raymond e outro aluno convenceram professores e colegas a ficar até o fim do período e saíram pedindo dinheiro para as despesas. Foi o primeiro estágio dele em administração de faculdade. Em Red Wing também conheceu Lulu A. Rich, com quem se casou em 1873 e viveu mais de quarenta anos.

Com o fechamento de Hamline, terminou o curso na Universidade Lawrence, em Appleton, Wisconsin, em 1870. Passou os três anos seguintes na Escola de Teologia da Universidade de Boston, onde se formou em 1873 e se apaixonou pela filosofia, sobretudo pela relação entre filosofia e religião.

Pastor metodista

Ordenado na Igreja Metodista Episcopal, foi pastor da igreja da Allen Street, em New Bedford, Massachusetts, de 1874 a 1877, e depois de uma igreja em Providence, Rhode Island, até 1880. Em 1880 e 1881 estudou na Alemanha, nas universidades de Leipzig e de Göttingen, e na volta recebeu o doutorado em filosofia (Ph.D.) da Universidade de Boston, em 1881. De 1881 a 1883 pastoreou em Nashua, New Hampshire. Os colegas lembravam sermões eruditos e espirituais.

Presidente de Lawrence

Em 1883, aos 37 anos, foi chamado para presidir a própria faculdade em que se formara. Os seis anos em Lawrence foram de aperto financeiro, mas ele conseguiu aumentar o patrimônio da escola e ampliou o currículo: aos cursos tradicionais, o clássico e o científico, acrescentou disciplinas eletivas.

Dezenove anos em Wesleyan

Em 19 de novembro de 1888, os curadores da Universidade Wesleyan, em Middletown, elegeram Raymond presidente e professor de filosofia moral. Ele assumiu no ano letivo de 1889 e ficou até 1908, a presidência mais longa da história da escola até então. Wesleyan fora fundada em 1831 por metodistas, e uma carta de 1870 exigia que o presidente, a maioria dos curadores e a maioria dos professores fossem membros da Igreja Metodista Episcopal.

Na gestão dele, o corpo docente passou de 19 para 35 professores, os alunos de 218 para 316, e o fundo patrimonial mais que dobrou, de 698 mil para mais de 1,46 milhão de dólares. Subiram o Ginásio Fayerweather, o Laboratório de Física Scott e o Fisk Hall. Nas provas, o sistema de honra substituiu a vigilância dos professores, e no fim da gestão quase todo o currículo se tornou eletivo, com um sistema de grupos que obrigava o aluno a passar pelas grandes áreas do saber. Em 1907, uma nova carta tirou a exigência denominacional e determinou que nenhum teste de confissão religiosa fosse aplicado na escolha de curadores, professores e alunos.

Raymond defendeu o professor de química Wilbur Olin Atwater, cujas pesquisas sobre o valor nutritivo do álcool irritaram o movimento pela temperança, embora ele mesmo falasse em público a favor da temperança. Em 1894 a Universidade Northwestern lhe deu o título de doutor em divindade, e Yale fez o mesmo em 1901. Em 1896 passou mais um ano de estudos em universidades alemãs.

Em 1901 Raymond levou aos curadores a proposta de celebrar em Wesleyan o bicentenário do nascimento de John Wesley. A festa aconteceu em junho de 1903, e coube a ele o sermão de formatura, no domingo 28 de junho, sobre Gálatas 1:15-17.

Doença e últimos anos

Por volta de 1904 ele soube que tinha uma doença incurável, que o obrigava a largar o estudo intenso, o púlpito e a cátedra. Em 1907 Raymond pediu demissão da presidência, para valer um ano depois, com a esperança de continuar como professor e enfim dedicar-se à pesquisa. A saúde piorou. Foi professor de Bíblia inglesa em 1908 e 1909, mas logo recebeu licença e, em 1909, tornou-se professor emérito de ética e literatura bíblica. Nos anos seguintes andava a cavalo, viajava e apoiava sem ciúme os sucessores. “Não consigo mais ler muito”, disse certa vez ao colega Caleb Winchester, olhando as estantes da biblioteca. Na igreja metodista de Middletown raramente faltava a um culto, e nas reuniões de oração orava, dava testemunho e cantava.

Morreu naquele domingo de 1916. No culto em memória dele, em 5 de março, o pastor Frank Mason North contou que escrevera as iniciais “B. P. R.” na margem da própria Bíblia, ao lado de Gálatas 5:22-23, a lista do fruto do Espírito.

Pensamento

Raymond é wesleyano. Foi ministro da Igreja Metodista Episcopal a vida inteira e presidiu duas faculdades metodistas. No sermão do bicentenário chamou a experiência de Wesley em 24 de maio de 1738, quando ele sentiu o coração “estranhamente aquecido” e confiou só em Cristo para a salvação, de “a nota mais característica do metodismo”. Para a formulação doutrinária do movimento remetia a Richard Watson, a Adam Clarke e a John Fletcher. Não escreveu sobre predestinação e, ao falar da experiência cristã, dizia que ela marcou a vida de todos os grandes crentes, “calvinistas ou arminianos”.

Uma fé razoável centrada em Cristo

O único livro de Raymond, Christianity and the Christ: A Study of Christian Evidences (Cristianismo e o Cristo: um estudo das evidências cristãs, 1894), é um tratado de apologética. O prefácio diz o propósito em uma linha: mostrar “que a fé cristã é razoável”. O método é fazer tudo girar em torno de Cristo: os profetas, os milagres, a ressurreição, a conversão de Paulo, a história e a esperança da imortalidade. Para Raymond nenhuma prova isolada decide a questão: é a convergência de todas as linhas em Cristo que torna a fé razoável.

O primeiro capítulo define a fé a partir da palavra bíblica “coração”, que para os hebreus era o centro da pessoa inteira. A fé envolve o intelecto, porque o cristão crê em algo e por razões; envolve os afetos, porque o coração precisa ser tocado; e envolve a vontade, porque, como Pedro e André, que largaram as redes e seguiram Jesus (Mateus 4:20), quem crê precisa começar a andar. Sem esse passo, escreve, a pessoa “fica aquém da fé cristã”, por mais que chore pelos pecados ou cante hinos.

Sobre os milagres, Raymond responde a Strauss e a Renan com a imanência de Deus, que encontra em Paulo: “nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (Atos 17:28). Se Deus sustenta a natureza a cada momento, o milagre é um ato singular desse Deus presente, sem violência às leis naturais, assim como o ser humano, pela vontade livre, leva a natureza a resultados que ela sozinha nunca alcançaria: a natureza nunca inventou um telefone.

Pecado, arrependimento e graça

O capítulo “Cristo e o pecador” mostra onde Raymond se afasta da formulação clássica. Ele escreve que “o pecado não é uma herança de antepassados maus”: herdamos paixões turbulentas e apetites desordenados, mas pecado, no sentido de culpa e condenação, é sempre “um ato da vontade”, porque ninguém responde moralmente pelo que não podia evitar. Ao mesmo tempo, não suaviza a condição humana. A natureza humana está “pervertida e depravada”, a própria fonte da vida parece contaminada, a vontade é obstinada, e “só o toque criador” de Deus remove essa mancha. Por isso a regeneração é necessária, e o Espírito precisa vir habitar no interior da pessoa, onde o mal está entrincheirado. O pecador, diz ele, pede ao evangelho o conhecimento do amor de Deus e “poder para se arrepender e crer”, e o evangelho atende. Resta saber se ele tornará real o que Deus Pai, “pela sua graça em Jesus Cristo”, tornou possível.

É a posição de outros metodistas americanos da época, como Daniel Whedon e John Miley: depravação herdada, culpa só pessoal. Ela difere de Wesley, que afirmava o pecado original também como culpa da raça, e da declaração de fé deste site, segundo a qual todos nascemos pecadores e sob a justa condenação de Deus. O que Raymond mantém é a dependência da graça: o arrependimento e a fé que ele descreve vêm como resposta ao amor revelado em Cristo, e a mudança da natureza vem do Espírito. O arrependimento, para ele, nada tem de penitência. Usar um cilício, escreve, vale tanto quanto andar sobre pregos diante de sacerdotes pagãos: “fazer penitência não é arrepender-se; deixar de pecar é arrepender-se”.

Sobre a expiação, Raymond preferiu não escolher entre as teorias. Diz que não precisamos formular uma, “moral, governamental ou expiatória”, para vir a Cristo como estamos e ser reconciliados com Deus. Também aqui a declaração de fé do site vai além, ao afirmar o sacrifício de Cristo como satisfação pelos pecados.

O amor do Pai

O centro do evangelho, para Raymond, é “Deus amou o mundo de tal maneira” (João 3:16). Um Deus chamado Pai que nada fizesse para salvar os filhos, escreve com ironia, poderia ser soletrado “Amor”, mas teria de ser pronunciado “mal”. Amar é aceitar o custo pelo amado, e por isso Cristo está diante de toda a raça humana “de mãos estendidas”.

Certeza, hinos e santidade social

No capítulo sobre o crente, Raymond diz que o melhor retrato da experiência cristã está nos hinos da igreja, e que todo avivamento espiritual vem com um avivamento do canto. Wesley organizou o avivamento metodista, Watson sistematizou a doutrina, Fletcher a defendeu e Clarke a comentou, mas talvez Charles Wesley, com os hinos, tenha feito mais que os quatro para preservar a nova vida.

O sermão de 1903 desenvolve a mesma ideia. Raymond conta que, numa livraria de Leipzig, achou as cartas de Peter Böhler ao conde Zinzendorf sobre os irmãos Wesley antes da conversão de 1738, e tira delas uma pergunta: a certeza da fé depende de cada crente provar sozinho os milagres e a ressurreição, ou a vida de fé tem um poder que se verifica a si mesma? Ali, diz ele, estão as profundezas do movimento wesleyano: a certeza do crente, o Espírito que clama em nós “Aba, Pai” (Gálatas 4:6), e o cântico como lugar onde essa certeza se aprende: “a nossa fé é uma fé que pode ser cantada, e, de fato, precisa ser cantada”.

O mesmo sermão liga a fé pessoal à vida pública: “a religião é uma força social”, que tira as pessoas das relações que existem e as leva às que deveriam existir. Lembra que o avivamento metodista levou à reforma das prisões e ao combate ao tráfico de escravos, e critica a ganância que a ciência moderna alimentou, porque ela põe o lucro contra o ser humano, e o ser humano nunca pode ser usado como meio.

Obras principais

  • Christianity and the Christ: A Study of Christian Evidences (Nova York: Hunt & Eaton, 1894).
  • Sermão de formatura no bicentenário de John Wesley, sobre Gálatas 1:15-17 (pregado em 28 de junho de 1903; publicado em Wesley Bicentennial, Wesleyan University, 1904).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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