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HistóriaTeólogos arminianos15 de 125

Benjamin Field: o missionário enfermo que escreveu o manual de teologia dos metodistas

Diego Gonçalves12 min de leitura2.380 palavras

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Neste texto

Na noite de 23 de setembro de 1868, em Hawthorn, nos arredores de Melbourne, um pastor metodista inglês pregou sobre Gálatas 2:20, “já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim”. A voz falhou, e ele percebeu que os ouvintes já não acompanhavam o texto: tinham pena dele. No dia seguinte escreveu no diário que saíra da igreja convencido de que o seu trabalho público tinha acabado. Naquele mesmo ano saíra em Melbourne o livro que ele escrevera entre a doença e o luto, um manual de teologia em perguntas e respostas para pregadores leigos e candidatos ao ministério. O pastor era Benjamin Field, e o livro seria lido por metodistas na Inglaterra, na Austrália e nos Estados Unidos durante décadas.

Vida

Sevenoaks e Richmond

Benjamin Field nasceu em 1823 em Sevenoaks, no condado de Kent, primeiro filho homem de um casal metodista; a primogênita, Catharine Elizabeth, nascera em 1820. O pai foi pregador local, o leigo autorizado a pregar no circuito, durante cinquenta anos, e consagrou o menino a Deus no dia do nascimento. Quando o pai se retirava ao meio-dia para orar, o filho entrava no quarto sem barulho e se ajoelhava ao lado dele.

Aos doze anos, sob o ministério do pregador wesleyano Thomas Collins, converteu-se. Desde menino achava que seria pregador e, quando ouvia falar dos povos que não conheciam o evangelho, o coração “ardia” para estar entre eles. Aos dezesseis anos e meio começou a pregar nas aldeias em volta de Sevenoaks e foi reconhecido como pregador local. Em março de 1843 a reunião trimestral o recomendou para o ministério, e a Conferência o aceitou. Depois de alguns meses no circuito de Guildford, entrou na Instituição Teológica de Richmond, o seminário metodista aberto naquele ano perto de Londres, onde ensinavam Thomas Jackson e John Farrar. Saiu de lá, escreveu, mais convicto da verdade infalível da Bíblia e vendo melhor a coerência da doutrina e da disciplina que teria de ensinar.

A Índia

Ao fim do curso foi designado missionário na Índia, embora esperasse servir na Inglaterra. Foi ordenado em Richmond em 2 de julho de 1846 e, em 31 de julho, embarcou no Macedon para Madras. Na viagem de dezessete semanas estudava o canarês, a língua do Mysore, de manhã e o Novo Testamento grego à tarde, e reunia os marinheiros para o culto.

O primeiro posto foi Goobbee, no Mysore. Em poucos meses já dirigia cultos curtos em canarês. Então veio a febre. As crises se repetiram, uma temporada nas montanhas Nilgiri trouxe alívio passageiro, e os amigos de Madras o mandaram ao Cabo da Boa Esperança; a viagem acabou se estendendo até a Inglaterra. A saúde dele nunca se recuperou.

Paris e os circuitos ingleses

Restabelecido em parte, trabalhou em Paris até a Conferência seguinte, sob a direção de Charles Cook, o pioneiro do metodismo na França. Depois serviu nos circuitos de Chatteris (1850), Luton (1853) e Bradford (1856). Em Bradford, em 1857, adoeceu tanto que por meses se pensou que a sua vida ativa tinha acabado; nos domingos de repouso forçado, chorava ao ver outro subir ao púlpito, embora soubesse que Deus tinha ordenado aquilo “para o meu bem”. Os médicos o mandaram para o sul, e ele passou seis anos em Londres, em Hackney (1858) e em City Road (1861), a capela de Wesley. A ata da Conferência registraria que ele juntava à eficiência no púlpito “o cumprimento assíduo e sábio do dever pastoral” e uma simpatia especial pelos jovens.

Nesses anos perdeu a irmã. Ele mesmo tinha celebrado o casamento de Catharine com o sr. Martin; dez anos depois, ela morreu após o sétimo parto, e Benjamin pregou o sermão fúnebre em Sevenoaks. Em outubro de 1861 assinou o prefácio de Sincere Devotion, a biografia dela, publicada em 1862. Escreveu também um folheto evangelístico, The Penitent’s Enquiry, que circulou muito na Inglaterra e na Austrália.

Em 1864 foi para Penzance, na Cornualha, à procura de clima mais brando, e logo registrou com alegria uma conversão em Mousehole, vila de pescadores onde não havia conversão havia três anos. Quinze meses depois, os médicos o mandaram para mais longe. Na despedida, disse que, se Deus o mandasse “até a borda mais distante da terra verde”, iria e levaria a cruz da separação dos filhos.

Melbourne

Field e a esposa embarcaram em Gravesend em 11 de dezembro de 1865, deixando os filhos na Inglaterra, e chegaram a Melbourne em 16 de março de 1866. O primeiro culto a que ele assistiu na Austrália foi o luto da igreja por Daniel James Draper, morto no naufrágio do vapor London, e a primeira notícia que recebeu da Inglaterra foi a morte de um dos filhos. Naquele ano a Conferência o passou a supranumerário, o ministro ligado à Conferência sem designação regular.

John C. Symons, editor do Wesleyan Chronicle e responsável pelo depósito de livros metodista de Melbourne, viu o amigo abatido por não poder pregar e sugeriu que ele escrevesse um manual de teologia, comprometendo-se a publicá-lo. Field aceitou. Pregou uma vez por semana em Sandhurst, hoje Bendigo, e depois em Hawthorn, onde também dirigia uma classe. Ali, em 4 de julho de 1867, morreu a segunda esposa, Catherine, 21 dias depois de dar à luz o filho Willie. Viúvo pela segunda vez, com dois bebês e um filho mais velho do primeiro casamento, escreveu que esperava sair daquela provação mais santo. Orientou os estudos de um candidato ao ministério e terminou o manual, que saiu em 1868 pelo Wesleyan Book Depot.

Depois do sermão de setembro de 1868, tentou pregar só mais quatro vezes. Em março de 1869 mudou-se para Carlton e assumiu a redação do Wesleyan Chronicle durante a viagem de Symons à Inglaterra, feliz por fazer com a pena o bem que já não fazia no púlpito. Em abril uma febre com pleurisia o levou perto da morte; contou depois que, numa noite insone, o Espírito lhe mostrou a “plenitude e suficiência” do mérito de Cristo.

Na noite de 1º de setembro de 1869, um dos filhos perguntou se tomariam chá juntos no dia seguinte, e ele respondeu que era preciso viver um dia de cada vez. Pediu que lessem as Escrituras e dois hinos wesleyanos, deitou-se e, meia hora depois, morreu de uma hemorragia. Estava no 47º ano de vida e no 25º de ministério. Foi sepultado no cemitério geral de Melbourne, no túmulo da esposa.

Pensamento

Field é um wesleyano: ministro da Conferência Metodista Wesleyana britânica, escreveu o manual para resumir “a teologia dos metodistas wesleyanos”, e as autoridades que mais cita são John Wesley, John Fletcher, Richard Watson e Adam Clarke, além das aulas manuscritas do seu professor Thomas Jackson.

O livro tem vinte capítulos, da existência de Deus aos sacramentos, organizados em perguntas numeradas. Field não transcreveu os versículos, para que o estudante abrisse a Bíblia e procurasse cada texto. E advertia os candidatos contra decorar respostas para os exames: “é humilhante ver a memória abarrotada enquanto o entendimento dorme”.

Pecado e graça

Field define o pecado original com o artigo anglicano, como a corrupção que deixa todo homem “muito afastado da justiça original” e inclinado ao mal, e pede ao candidato que saiba provar pela Escritura que a depravação humana é universal e total. Numa nota, responde aos calvinistas que chamavam de pelagiano quem defende a redenção universal e a aliança condicional: nada seria mais injusto, porque “ninguém foi mais ortodoxo nesses pontos do que o grande Armínio”. Em seguida aponta os remonstrantes posteriores Étienne de Courcelles, Philipp van Limborch e Jean Le Clerc como homens que se inclinaram para o pelagianismo. A linha que ele traça é a do arminianismo clássico: com Armínio, que afirmou na Declaração de Sentimentos a incapacidade do homem caído, e contra os sucessores que a enfraqueceram.

O arrependimento é dom de Deus e dever do homem: o Espírito convence do pecado e “dá poder para arrepender-se”, sem coação e sem destruir a liberdade da pessoa. A fé também é dom: “a fé, na sua graça e no seu poder, vem de Deus”. Para explicar como ela é ao mesmo tempo dom e ato, Field adota a nota de Adam Clarke sobre Efésios 2:8: sem o poder que Deus dá, ninguém pode crer; com ele, qualquer um pode; e Deus não crê por ninguém. É a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana e torna possível crer, sem forçar ninguém.

Expiação e eleição

A morte de Cristo foi “vicária e propiciatória”, uma satisfação oferecida à justiça divina pelos pecados. Quanto ao alcance, Field expõe três posições calvinistas e responde com a arminiana e wesleyana: Cristo morreu por todos “de modo a tornar a salvação alcançável por todo homem que vem ao mundo”. Alguns se perdem, mas porque recusam a salvação oferecida, e não por um decreto de Deus. Entre os seus argumentos estão dois que mostram o seu modo de pensar. Se há ouvintes por quem Cristo não morreu, o evangelho não pode ser boa notícia “a toda criatura” (Marcos 16:15). E mandar alguém confiar num Salvador que não morreu por ele seria mandá-lo crer numa coisa falsa. É a expiação para todos.

Field transcreve a Confissão de Westminster com exatidão e reconhece que muitos calvinistas do seu tempo já tinham abandonado a reprovação incondicional. Depois distingue três eleições: de pessoas para um serviço, como profetas e apóstolos; de povos para privilégios, como Israel e, depois, a igreja de judeus e gentios, que é o assunto de Efésios 1; e a eleição pessoal para a salvação, que é condicional. Os crentes são eleitos “em santificação do Espírito” (1 Pedro 1:2) e escolhidos “pela santificação do Espírito e fé na verdade” (2 Tessalonicenses 2:13); se a fé é o meio da eleição, não pode ser o fim dela. A eleição pessoal, conclui, é “uma escolha, para a família de Deus, de pessoas que já creem e obedecem”.

Santidade e perseverança

Depois de citar Wesley, Fletcher e Clarke, Field define a perfeição cristã como a maturidade da graça a que chegam os crentes firmados, sobretudo “uma maturidade de amor santo”, que expulsa o que se opõe a ela e molda a alma à imagem de Deus. A inteira santificação consiste em separação inteira do pecado, exterior e interior, e em dedicação inteira a Deus. Ela não traz infalibilidade nem livra de erros de juízo e de tentação. Field a distingue da perfeição pelagiana, alcançada pela capacidade natural, e da de Charles Finney e da escola de Oberlin, que mede a perfeição pela lei moral original. Na biografia da irmã, escreve que a graça não apenas enfraquece as inclinações da mente carnal, mas as destrói por inteiro, e conta como Catharine, aos dezessete anos, recebeu pela fé a bênção do amor perfeito.

Sobre a perseverança, Field opõe à visão calvinista a “arminiana ou wesleyana”: os justificados e regenerados podem, entristecendo o Espírito, cair e perecer para sempre, porque continuam em prova, como mostram as advertências de Hebreus 6 e 10. É a perseverança condicional.

Com a declaração de fé do Diego, o acordo na doutrina da salvação é quase completo. Há duas diferenças. Field defende o batismo de crianças, com as casas batizadas de Atos 16 e a bênção de Jesus às crianças em Marcos 10; o Diego entende que o batismo deve seguir a conversão. E Field é pós-milenista: espera um milênio de expansão do evangelho antes da volta de Cristo e refuta os pré-milenistas; o Diego é amilenista.

O livro depois do autor

Symons levou o manual a Londres, onde a Hodder and Stoughton o lançou em 1870 com um capítulo adicional, as últimas correções do autor e um esboço biográfico; a renda devia ajudar os filhos órfãos. Em 1884 a edição londrina chegava ao vigésimo milheiro. Na edição de Nova York e Cincinnati de 1887, Luke Tyerman, biógrafo de Wesley, contou 23 mil exemplares vendidos e escreveu que não havia “melhor compêndio das verdades divinas, como expostas por John Wesley”. Os historiadores do metodismo de Victoria o chamaram de melhor vade mecum para pregadores locais, candidatos e ministros. Em 1985, Richard S. Taylor o incluiu em Leading Wesleyan Thinkers, ao lado de Richard Watson, Daniel Steele e H. Orton Wiley. É da mesma família do compêndio de Amos Binney: teologia wesleyana em frases curtas, escrita por um pastor para quem prega.

Obras principais

  • Sincere Devotion: Exemplified in the Life of Mrs. C. E. Martin, of Sevenoaks (Londres, John Mason, 1862), biografia da irmã.
  • The Penitent’s Enquiry, folheto evangelístico.
  • The Student’s Handbook of Christian Theology (Melbourne, Wesleyan Book Depot, 1868; Londres, Hodder and Stoughton, 1870, com capítulo adicional e esboço biográfico por John C. Symons).
  • The Student’s Handbook of Christian Theology, nova edição com acréscimos de John C. Symons e introdução de Luke Tyerman (Nova York, Hunt & Eaton; Cincinnati, Cranston & Curts, 1887).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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