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HistóriaTeólogos arminianos6 de 125

Bruce A. Little: O pastor batista que enfrentou o problema do mal sem a teodiceia do bem maior

Diego Gonçalves13 min de leitura2.571 palavras

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Neste texto

Durante trinta anos, Bruce Little foi pastor de igrejas na Nova Inglaterra, na Pensilvânia e na Carolina do Norte. Nas conversas de aconselhamento, a pergunta que mais voltava era a do sofrimento: por que Deus permitiu isto, que bem pode sair disto. Anos depois, contou numa entrevista que não tinha certeza de saber responder. Foi essa dúvida de pastor, e não um interesse de gabinete, que o levou à filosofia e fez dele um dos críticos batistas mais conhecidos da ideia de que todo mal existe para produzir um bem maior.

Vida

Conversão e pastorado

Bruce A. Little nasceu em 1945. Converteu-se a Cristo aos vinte anos e entrou logo depois no ministério pastoral. A partir de 1969 pastoreou igrejas em New Hampshire, Vermont, Pensilvânia e Carolina do Norte, e ajudou a fundar três delas. O pastorado durou até 2000.

Aos 34 anos, já pastor havia uma década, decidiu que precisava de formação acadêmica. Fez o bacharelado em educação religiosa no Baptist Bible College, dois mestrados na Liberty University (em apologética e em religião), o doutorado em ministério com ênfase em apologética no Columbia Biblical Seminary e o doutorado (PhD) em filosofia da religião no Southeastern Baptist Theological Seminary, em Wake Forest, na Carolina do Norte. De 1986 a 2000 foi também professor de estudos bíblicos no Piedmont Baptist College, em Winston-Salem.

Além das perguntas do aconselhamento, pesou na escolha do tema um livro, Evil and God (“O mal e Deus”), do filósofo Michael Peterson, que ele mesmo apontou como a leitura que o levou a estudar o problema do mal no doutorado.

Southeastern

No Southeastern, Little foi assistente de ensino do filósofo e apologeta L. Russ Bush entre 1998 e 2000, professor auxiliar de filosofia da religião de 1999 a 2001 e, a partir de 2001, professor de filosofia. Foi deão associado de estudos teológicos de 2005 a 2008. Em 2008, ano da morte de Bush, tornou-se o segundo diretor do L. Russ Bush Center for Faith and Culture, cargo que ocupou até 2013, e organizou com Mark Liederbach uma coletânea em homenagem ao antigo mestre, Defending the Faith, Engaging the Culture (2011). Entre 2008 e 2011 fez parte da diretoria da Evangelical Philosophical Society.

Em 2005 saiu o seu primeiro livro, A Creation-Order Theodicy: God and Gratuitous Evil (“Uma teodiceia da ordem da criação: Deus e o mal gratuito”). Teodiceia é a tentativa de mostrar que Deus é justo e bom apesar do mal que existe no mundo. Em 2010 veio um livro mais curto sobre o mesmo tema, God, Why This Evil? (“Deus, por que este mal?”), que aplica a tese aos textos bíblicos centrais sobre o mal. No mesmo ano escreveu o capítulo “Evil and God’s Sovereignty” (“O mal e a soberania de Deus”) para Whosoever Will, coletânea de batistas do Sul organizada por David L. Allen e Steve Lemke contra os cinco pontos do calvinismo. Em 2013 escreveu “God and Gratuitous Evil” para God and Evil, volume da InterVarsity Press organizado por Chad Meister e James K. Dew Jr., que tem Little como mentor.

Os papéis de Francis Schaeffer

Little tem Francis Schaeffer como um dos melhores modelos de apologética que conheceu e recomenda os livros dele a quem quer aprender a dialogar com a cultura. Em 2008 o Southeastern promoveu uma conferência sobre Schaeffer, e Little reuniu as palestras no livro Francis Schaeffer: A Mind and Heart for God (2010), com textos de Udo Middelmann, genro de Schaeffer, e de Jerram Barrs.

Em 14 de setembro de 2010, na capela do seminário, a Francis A. Schaeffer Foundation, presidida por Middelmann, entregou ao Southeastern uma grande coleção de cartas e textos inéditos de Schaeffer, anotações, materiais de pesquisa e gravações de debates. Little ficou com a guarda da coleção. Na cerimônia, ele disse que, “de tempos em tempos, Deus dá à sua Igreja uma voz singular para o seu povo”, e que Schaeffer tinha sido uma dessas vozes. Desde então dirige a coleção e a Francis A. Schaeffer Society.

Europa

Desde 1995 Little viaja por vários continentes para dar aulas e conferências em universidades. É professor adjunto de filosofia no TCMI, em Viena, desde 2010, e foi professor visitante na Universidade Nacional de Ostroh, na Ucrânia, em 2016. No European Leadership Forum organizou a rede europeia de filósofos de 2012 a 2015 e liderou a rede de apologética em 2022 e 2023.

Aposentadoria e homenagem

Little se aposentou do Southeastern em 2018 como professor emérito. Mora no Maine com a esposa, Nancy. Em 31 de março de 2026, o Southeastern e o Judson College criaram a cátedra Bruce Little de Filosofia Cristã, cujo primeiro titular é o professor Ben Holloway. Na cerimônia, o reitor acadêmico Scott Pace descreveu a vida de Little como “marcada por humildade, integridade intelectual e sensibilidade pastoral”. Jamie Dew, hoje presidente do New Orleans Baptist Theological Seminary, disse a ele: “O senhor me ensinou a ser pastor”.

Pensamento

Onde ele fica

Little é um simpatizante do arminianismo, na classificação desta série. É batista do Sul, não se apresenta como arminiano e escreve como filósofo da religião. Mas rejeita o determinismo calvinista no ponto central: o estado de salvação de uma pessoa não é determinado por Deus, e quem se perde se perde pela própria escolha (A Creation-Order Theodicy, 2005, p. 155). Escreveu em Whosoever Will, livro que Roger Olson chamou de a melhor crítica ao calvinismo disponível e cuja teologia, segundo ele, é em grande parte coerente com o arminianismo clássico, embora os autores evitem o nome. Sobre o modo como Deus conhece as escolhas livres, Little adota o molinismo, como William Lane Craig. Está no mesmo campo de batistas como Adam Harwood: não calvinista, próximo do arminianismo, mas fora da tradição que vem de Jacó Armínio e de Wesley.

A ordem da criação

A teodiceia de Little começa em Gênesis 1 a 3. Ao criar, Deus estabeleceu uma ordem: leis físicas, que dão ao mundo regularidade (Gênesis 8:22; Colossenses 1:17), e uma ordem moral, com mandamentos e consequências (Deuteronômio 28 a 30; Romanos 2:1-16). Ele a define como aquilo que “estabelece os parâmetros morais e físicos” pelos quais Deus pode ter uma relação pessoal e real com o ser humano (God, Why This Evil?, 2010, p. 85).

Dentro dessa ordem, Deus limitou por vontade própria a manifestação de alguns dos seus atributos, e Little compara essa limitação à da encarnação. Os pactos fazem parte disso: quando promete a Noé não destruir mais a terra com um dilúvio (Gênesis 9), Deus se compromete livremente, sem perder poder. A oração também está nessa ordem, porque Deus quis que as petições do seu povo tivessem efeito real na história (Tiago 5:16).

A primeira consequência é a origem do mal. Como Agostinho, Little vê o mal como privação, a falta de um bem que deveria estar ali. Tudo o que Deus cria depende dele e não pode ter a perfeição do Criador; essa distância torna o mal possível, mas não necessário. O mal entrou pela desobediência do homem no Éden, e Little insiste que o sofrimento que vem dele não foi “planejado nem causado” por Deus (entrevista a Matthew Capps, 2008).

Contra a teodiceia do bem maior

O alvo principal de Little é a explicação mais comum entre os cristãos desde Agostinho: Deus só permite um mal quando dele tira um bem maior ou com ele evita um mal pior. Ele reúne seis objeções. Se cada mal serve a um bem maior, lutar contra a injustiça, como o aborto ou a escravidão, seria atrapalhar o plano de Deus. Se o bem só pode vir por meio de um mal, esse mal é necessário e Deus passa a ser seu autor, o que contradiz 1 João 1:5. Não existe balança para medir quanto bem compensa cada mal. A ideia faz o fim justificar os meios. Ela exige uma providência que decreta cada detalhe e apaga a liberdade humana. E, se males maiores trazem bens maiores, a lógica se parece com a que Paulo rejeita em Romanos 6:1-2.

Daí a tese que dá nome aos livros: existe mal gratuito, mal que tem uma razão, a escolha livre de alguém, mas não tem um propósito, porque Deus não o quis como meio para um fim. Esse mal “não pesa contra as perfeições morais de Deus” (entrevista à Evangelical Philosophical Society, 2010), nem limita o seu poder ou a sua soberania. Para Little, a teodiceia do bem maior entrega um trunfo ao ateu: quem afirma que todo mal tem propósito precisa mostrar o propósito de cada um, e diante dos milhões de mortos sob Stálin ou de uma criança abusada ninguém consegue.

Little lê Romanos 8:28 de forma restrita: o versículo fala dos que amam a Deus e não autoriza dizer que cada desgraça foi enviada para um bem. Também rejeita a ideia de que Deus permite o mal para ser glorificado no juízo: “Deus não precisa do mal para trazer glória a si mesmo” (entrevista a Matthew Capps, 2008).

Liberdade, conhecimento médio e o melhor mundo possível

Little prefere falar em “liberdade libertária” a falar em “livre-arbítrio”. Liberdade libertária é a capacidade real de escolher entre pelo menos duas possibilidades, sem que a escolha esteja determinada de antemão, ainda que as opções sejam limitadas por escolhas anteriores, pela providência e pela ordem da criação. A razão é o amor: “Se o homem há de amar a Deus, precisa ser livre para responder à pessoa de Deus” (A Creation-Order Theodicy, 2005, p. 139).

Para conciliar essa liberdade com a soberania, ele adota o conhecimento médio, conceito do jesuíta Luis de Molina (1535-1600): Deus conhece não só o que é possível e o que acontecerá, mas também o que cada pessoa escolheria livremente em qualquer circunstância. Little o define como o conhecimento “de todos os atos não determinados dos seus agentes morais em todas as circunstâncias possíveis” (2005, p. 146). Com ele, Deus escolheu criar este mundo sem determinar as escolhas que acontecem nele. Little rejeita o teísmo aberto, que nega que Deus conheça as decisões futuras.

Seguindo Leibniz, sustenta que este é o melhor dos mundos possíveis: Deus, bom, sábio e poderoso, fez o melhor que se podia fazer com criaturas livres e chamou o resultado de “muito bom” (Gênesis 1:31). Um mundo em que todos amassem a Deus livremente seria melhor, mas, se fosse possível, Deus o teria criado. O mundo real tem o melhor equilíbrio possível entre salvos e perdidos. Little considera promissora, sem adotá-la, a tese de Craig de que os perdidos rejeitariam a Deus em qualquer mundo em que existissem.

Para explicar a soberania, usa a imagem do pai e do motorista. O motorista controla cada movimento do carro; o pai governa a família por regras que todos vivem, sem fazer cada escolha pelos filhos. A soberania bíblica, para ele, é a do pai.

O pastor por trás do filósofo

O que move a obra de Little é a pergunta de quem sofre. Ele distingue um testemunho, o que Deus fez em mim durante a dor, de uma teodiceia, a afirmação de que Deus mandou a dor para fazer isso. Deus pode abençoar no sofrimento, mas, quando abençoa, faz isso apesar do sofrimento, e não por causa dele. O conselho que dá a quem sofre é “não procurar o bem, mas olhar para Deus” (entrevista à Apologetics 315, 2013).

Críticas

Em 2008 o calvinista Andy Naselli perguntou se a separação entre o mal e o bem que Deus tira dele se sustenta diante da cruz de Jesus, e se Little não relativizava a soberania para aliviar uma tensão lógica. Connie Johnson e Robert Falconer, do South African Theological Seminary, concluíram em 2019 que a teodiceia da ordem da criação é um argumento válido e coerente com a Bíblia. Na tese de doutorado de 2023, Johnson argumentou que a soteriologia é o ponto fraco da teoria: se Deus sabe em que circunstâncias cada pessoa creria, o equilíbrio ótimo entre salvos e perdidos não explica por que alguém foi criado num mundo em que se perde.

Diferenças com o arminianismo clássico

Os livros de Little sobre o mal tratam a liberdade como dom da criação, dado antes da queda, e não desenvolvem a doutrina da graça preveniente. O arminianismo clássico, e a declaração de fé deste site, põe o centro em outro lugar: depois da queda, a vontade está presa ao pecado e só pode crer porque a graça de Deus vai antes, liberta a vontade e capacita a pessoa a responder. Armínio diz que o homem caído não é capaz, por si mesmo, de querer o verdadeiro bem (Declaração de Sentimentos, 1608). O arminiano concorda com Little na recusa do determinismo e na defesa de que Deus não é autor do mal, e acrescenta que a própria liberdade de crer é obra da graça. Outra teodiceia arminiana contra o determinismo é a de Albert Taylor Bledsoe, no século XIX; sobre o tema em geral, ver O problema do mal.

Obras principais

  • A Creation-Order Theodicy: God and Gratuitous Evil (University Press of America, 2005).
  • God, Why This Evil? (Hamilton Books, 2010).
  • Francis Schaeffer: A Mind and Heart for God (P&R, 2010), organizador.
  • “Evil and God’s Sovereignty”, em David L. Allen e Steve W. Lemke (orgs.), Whosoever Will: A Biblical-Theological Critique of Five-Point Calvinism (B&H Academic, 2010).
  • Defending the Faith, Engaging the Culture: Essays Honoring L. Russ Bush (B&H Academic, 2011), organizado com Mark D. Liederbach.
  • “God and Gratuitous Evil”, em Chad Meister e James K. Dew Jr. (orgs.), God and Evil: The Case for God in a World Filled with Pain (InterVarsity Press, 2013).
  • “Evil and God’s Sovereignty”, em David L. Allen e Steve W. Lemke (orgs.), Calvinism: A Biblical and Theological Critique (B&H Academic, 2022).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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