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HistóriaTeólogos arminianos5 de 125

Bruce L. Shelley: O historiador batista que contou a história da igreja em linguagem simples

Diego Gonçalves12 min de leitura2.490 palavras

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Neste texto

Na porta do escritório de Bruce Shelley, no Seminário de Denver, havia uma tira de Peanuts. Sally, a irmã de Charlie Brown, escreve uma redação escolar sobre história da igreja e decide começar “do começo de tudo”: o pastor dela, conta a menina, nasceu em 1930. Shelley abriu com essa tira o prólogo do seu livro mais conhecido, Church History in Plain Language (1982), lançado no Brasil como História do Cristianismo. Para ele, a piada descrevia bem a igreja do seu tempo: muitos cristãos sabiam alguma coisa dos apóstolos e alguma coisa do próprio pastor, e entre uma ponta e outra havia um grande vazio.

Vida

Kentucky, Indiana e o Japão

Bruce Leon Shelley nasceu em 20 de dezembro de 1927, em Owensboro, no Kentucky (Estados Unidos), e cresceu em Evansville, no estado vizinho de Indiana, durante a Grande Depressão. Pouco depois da Segunda Guerra Mundial serviu no Exército americano no Japão ocupado.

Formação

De volta aos Estados Unidos, estudou no Columbia Bible College, na Carolina do Sul, escola de formação missionária hoje chamada Columbia International University. Ali conheceu Mary Harrington, com quem se casou em 1952. O casal teve três filhos: Marshall, David e Karen. Shelley fez depois o mestrado em divindade (M.Div.) no Fuller Theological Seminary, em Pasadena, na Califórnia, então uma escola nova, fundada em 1947 pelo radioevangelista Charles E. Fuller.

O doutorado em história veio da Universidade de Iowa, em 1957, com a tese Some Aspects of the Problem of Authority in the Church of the Second Century (“Alguns aspectos do problema da autoridade na igreja do século II”). A pergunta da tese o acompanhou por anos: quando os apóstolos morreram, a quem a igreja passou a ouvir? A versão em livro saiu em 1965 com o título By What Authority? (“Com que autoridade?”).

O Seminário de Denver

Em 1957 a família se mudou para o Colorado, e Shelley entrou para o corpo docente do Conservative Baptist Theological Seminary, fundado em 1950 pela Conservative Baptist Association e hoje conhecido como Denver Seminary. Ali ensinou história da igreja e teologia histórica até morrer, mais de cinquenta anos depois, e terminou a carreira como professor sênior.

A escola nasceu de uma ruptura que Shelley conhecia por dentro e que foi o tema do seu primeiro livro, Conservative Baptists: A Story of Twentieth-Century Dissent (1960). A Convenção Batista do Norte, nos Estados Unidos, havia adotado na sua junta de missões uma “política inclusiva”, que aceitava missionários de teologia liberal ao lado dos conservadores. Os batistas que se opuseram a ela criaram uma sociedade missionária própria e, em 1947, a Conservative Baptist Association.

Em Denver, Shelley trabalhou ao lado de Vernon Grounds, que presidiu o seminário e se tornou uma das vozes do evangelicalismo americano. Grounds abriu a coletânea Grace Unlimited (1975), organizada por Clark Pinnock, com o ensaio “God’s Universal Salvific Grace”, a defesa de que a graça salvadora de Deus alcança todas as pessoas. Shelley escreveria anos depois a biografia do colega, Transformed by Love: The Vernon Grounds Story (2002).

O professor

O colega Scott Wenig, que foi seu aluno e depois seu par no seminário por cerca de três décadas, lembrou que Shelley tinha a clareza como “a primeira lei do aprendizado”. Antes do PowerPoint, dava aula com transparências, quadros, imagens e perguntas. Ensinava no seminário, em igrejas, em escolas dominicais e em estudos bíblicos nos lares, e se descrevia como “um amigo conversando com amigos” sobre a igreja e a sua fé. Repetia aos alunos que era preciso perguntar sempre como a matéria se relacionava com o ministério. Gostava de histórias e misturava as da Bíblia, as da igreja, as da família e as de Peanuts: Lutero aparecia ao lado de Snoopy, e John Wesley ao lado de Linus.

Fora da sala de aula, foi editor colaborador de Christianity Today e de United Evangelical Action, a revista da Associação Nacional de Evangélicos, e participou por muitos anos do conselho consultivo da revista Christian History, para a qual escreveu muitos artigos. Com Daniel G. Reid, Robert D. Linder e Harry S. Stout, editou o Dictionary of Christianity in America (1990). Em 1987, o Columbia Bible College o escolheu como ex-aluno do ano.

Na Bear Valley Baptist Church, em Denver, Shelley tinha uma classe bíblica regular, chamada Emmaus. Foi essa classe que aceitou estudar com ele as doutrinas que viraram o livro Christian Theology in Plain Language (1985).

O livro da sua vida

Church History in Plain Language foi dedicado aos alunos das suas aulas de história da igreja, que lhe cobravam o tempo todo o significado dos fatos. O livro conta dois mil anos de cristianismo em histórias de pessoas, de Jesus e dos apóstolos até o século XX. Ganhou novas edições, a terceira em 2008; a quarta, de 2013, saiu revista por R. L. Hatchett. Na época da morte do autor já tinha vendido mais de cem mil exemplares. No Brasil, a Shedd Publicações o lançou em 2004 e a Thomas Nelson Brasil, em 2018.

Dois livros dos últimos anos foram escritos com o filho Marshall Shelley, editor da revista Leadership e mais tarde professor do próprio Seminário de Denver: The Gospel and the American Dream (1989) e The Consumer Church (1992), este com uma pergunta no subtítulo, se os evangélicos podem ganhar o mundo sem perder a alma.

Morte

Bruce Shelley sofreu um derrame em fevereiro de 2010 e morreu dias depois, em 20 de fevereiro, aos 82 anos. O culto fúnebre foi na capela do seminário, três dias depois. Os donativos em sua memória foram para o fundo de bolsas de estudo que leva o seu nome no seminário.

Pensamento

Um historiador para o povo

Wenig chamou Shelley de “historiador para o povo”. Escreveu pouco para especialistas e muito para leigos, pastores e curiosos. O diagnóstico vinha no prólogo de Church History in Plain Language: “Muitos cristãos hoje sofrem de amnésia histórica” (1982). O tempo entre os apóstolos e o presente, continuava, é para eles um grande vazio. Quem não conhece o passado, argumentava, não tem base para julgar o que vale a pena no presente. Por isso, a história servia para separar o permanente do passageiro e a moda teológica do momento da fé ortodoxa de sempre. Escolheu contar essa história por meio de biografias, e explicou a escolha: sem deixar de lado as ideias, tentou “embrulhar pensamentos em personalidades”. É o mesmo argumento do nosso texto sobre a amnésia evangélica e de por que estudar história da Igreja fortalece a nossa fé.

A mesma preocupação com o leitor comum aparece em The Cross and Flame (1967), o estudo sobre o martírio na igreja antiga que Wenig citou como exemplo da sua boa erudição. Shelley lembra ali que a palavra “mártir” quer dizer testemunha: “o mártir é, antes e acima de tudo, uma testemunha”, alguém que fala não da própria bondade, mas da graça de Deus. No artigo “How Could Christians Do This?” (Christian History, 1993), sobre as Cruzadas, recusou tanto a condenação fácil quanto a desculpa. Explicou as causas e os ideais dos cruzados, a defesa dos cristãos do Oriente, a honra dos cavaleiros e a busca do perdão, e mostrou como esses ideais se corromperam no caminho, quando “o fim nobre justificou os meios ignóbeis”. O episódio está contado também no nosso texto sobre a Primeira Cruzada.

Autoridade apostólica e evangelicalismo

Em By What Authority? (1965), Shelley mostrou que a igreja do século II não tinha um só padrão de verdade, mas três, todos ligados aos apóstolos: a regra de fé, isto é, o resumo da doutrina recebida; o cânon das Escrituras; e o ofício dos mestres e bispos que guardavam essa doutrina.

Evangelicalism in America (1967) começa a história do movimento com John Wesley, jovem missionário anglicano, no seu primeiro domingo na Geórgia, em 1735. Desde Wesley e Whitefield, escreveu Shelley, existe um evangelicalismo arminiano e outro calvinista, unidos por convicções mais profundas: os pregadores dos avivamentos, de um lado e de outro, anunciavam que o ser humano é uma criatura caída.

Onde ele fica no arminianismo

Shelley era um evangélico batista que não se apresentava como arminiano nem como calvinista. Ele mesmo se definiu no prefácio de Christian Theology in Plain Language (1985): “Sou protestante, evangélico e batista”, e acrescentou que era também um estudioso da história cristã. Por querer uma teologia “católica”, no sentido de fé para todos os tempos e todos os povos, procurou evitar ali as ênfases que dividem as grandes denominações. Os mestres que reconhecia eram de várias tradições: Agostinho, Lutero, Pascal, Edward John Carnell, C. S. Lewis, P. T. Forsyth e John Stott, entre outros.

Mesmo assim, quando explica a salvação, Shelley rejeita o ponto central do calvinismo, a graça irresistível, isto é, a ideia de que Deus vence de forma infalível a resistência dos eleitos. Por isso o classificamos como simpatizante do arminianismo. A fé verdadeira, escreve, precisa ser pessoal, e todo aquele que entra no reino entra livremente, porque essa é a condição de qualquer relação pessoal. Deus “não está interessado em escravos dentro do reino; ele quer filhos”. Não quer nos controlar nem nos esmagar: “Ele não vai forçar a nossa lealdade”. Quer que confiemos nele e o amemos livremente.

A eleição, em Shelley, aparece pelo lado da igreja: comentando 1 Pedro 1:2, ele diz que o Pai escolhe a igreja, o Espírito a santifica e o Filho faz a expiação por ela. É uma leitura próxima da eleição corporativa, segundo a qual Deus elege um povo em Cristo e cada pessoa participa dessa eleição pela fé. Sobre o inferno, Shelley segue O grande abismo, de C. S. Lewis: os condenados são aqueles a quem Deus finalmente diz “seja feita a tua vontade”.

Nada disso faz do ser humano o autor da própria salvação. O capítulo sobre a graça diz que a atitude e a obra de Deus na salvação cabem numa só palavra, graça, e que sem ela nunca teria havido um povo escolhido. A pessoa precisa aceitar a oferta de salvação, mas essa decisão “nunca é motivo de vanglória”, e o mérito e o orgulho humanos ficam para sempre excluídos da salvação. Na regeneração, o Espírito dá aos que confiam em Cristo o que eles não têm por natureza. Shelley também tratou do testemunho do Espírito e da santificação como obra do Espírito que transforma a vida, temas caros à tradição wesleyana.

Quando escreveu sobre o próprio arminianismo, foi preciso. Em Church History in Plain Language, explica que o nome vem de Jacó Armínio, professor holandês que tentou modificar o calvinismo da sua época, e que John Wesley não sentia uma dívida especial para com Armínio, mas se opunha com firmeza à doutrina calvinista da predestinação, porque ela fazia de Deus um “diabo arbitrário”. Wesley, resume Shelley, insistia que Deus quer a salvação de todos e que o ser humano tem liberdade bastante para aceitar ou recusar a graça divina. Ele registra ainda que a controvérsia dividiu os metodistas em sociedades arminianas, que seguiram Wesley, e calvinistas, que seguiram Whitefield.

Diferenças com o arminianismo clássico

A distância em relação ao arminianismo de Armínio e de Wesley está no que Shelley deixa de desenvolver. A sua teologia não formula uma doutrina da graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta, liberta a vontade presa pelo pecado e torna a fé possível para todos. A declaração de fé deste site afirma essa graça de modo explícito: ninguém aceita a oferta do evangelho por força natural, e quem crê responde porque o Espírito já o alcançou e capacitou. Na linguagem de Shelley, a “decisão” de aceitar a oferta aparece sem essa explicação, embora ele exclua dela todo mérito. Como batista, defendia o batismo de crentes, assunto do seu livro Why Baptism? (1987); a declaração de fé do site também batiza os que creem, mas aceita tanto a imersão quanto a aspersão.

Shelley pertence, portanto, ao evangelicalismo batista que recusa a graça irresistível sem se filiar à linha confessional de Armínio e de Wesley. A contribuição dele para os arminianos está em outro lugar: contou a história da igreja, a de Armínio e a de Wesley incluídas, sem caricatura, e ensinou gerações de pastores a ler o passado com justiça.

Obras principais

  • Conservative Baptists: A Story of Twentieth-Century Dissent (1960)
  • By What Authority? (1965)
  • Evangelicalism in America (1967)
  • The Cross and Flame (1967)
  • A History of Conservative Baptists (1971)
  • What Is the Church? (1978)
  • Church History in Plain Language (1982; 3ª ed. 2008; 4ª ed., revista por R. L. Hatchett, 2013)
  • What Baptists Believe (1983)
  • Christian Theology in Plain Language (1985)
  • Why Baptism? (1987)
  • The Gospel and the American Dream (com Marshall Shelley, 1989)
  • Dictionary of Christianity in America (coeditor, 1990)
  • The Consumer Church: Can Evangelicals Win the World Without Losing Their Souls? (com Marshall Shelley, 1992)
  • Theology for Ordinary People (1993)
  • Transformed by Love: The Vernon Grounds Story (2002)

Livros em português

  • História do Cristianismo: uma obra completa e atual sobre a trajetória da Igreja Cristã desde as origens até o século XXI (Thomas Nelson Brasil, 2018; tradução de Giuliana Niedhardt). Ver na Amazon · Ver na Shopee
  • História do Cristianismo ao alcance de todos (Shedd Publicações, 2004). Ver na Amazon

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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