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Beverly Carradine: o pastor de Nova Orleans que virou o escritor da santidade
Neste texto
- Vida
- Yazoo, a guerra e a farmácia
- Conversão e ministério no Mississippi
- Nova Orleans e a loteria
- A segunda bênção
- St. Louis e a vida de evangelista
- Os últimos anos
- Pensamento
- Um wesleyano do movimento de santidade
- O pecado que fica depois da conversão
- A segunda obra da graça
- Santidade e crescimento
- Pontos de diferença
- Legado
- Obras principais
- Para aprofundar
Durante anos, um pastor metodista do Mississippi guardou na folha de rosto da Bíblia uma lista de acusações contra si mesmo. Não eram pecados que ele cometia de propósito, mas coisas que sentia enraizadas no coração: leviandade, palavras sem caridade, uma ambição não santificada, explosões de mau humor que vinham “já crescidas”. Com os anos, a lista chegou a dezesseis itens. Na manhã de 1º de junho de 1889, por volta das nove horas, depois de quase três dias de fé e oração, Beverly Carradine, então pastor de uma das maiores congregações metodistas de Nova Orleans, foi prostrado no seu quarto e clamava sem parar: “Ó meu Deus! Glória a Deus!”. Para ele, aquilo era a inteira santificação, a “segunda bênção” que os metodistas prometiam buscar no dia da ordenação. Nas décadas seguintes escreveu mais de vinte livros sobre ela, e o movimento de santidade passou a chamá-lo de “príncipe dos escritores da santidade”.
Vida
Yazoo, a guerra e a farmácia
Beverly Francis Carradine nasceu em 4 de abril de 1848, na fazenda Altamont, no condado de Yazoo, no Mississippi, sexto dos nove filhos do fazendeiro Henry Francis Carradine e de Mary Caroline Hewitt. O pai morreu em 1854, e o menino cresceu em Yazoo City, que anos depois daria nome a um dos seus livros de contos, Yazoo Stories (1911).
Em 1865, com dezesseis anos, alistou-se num regimento de cavalaria confederado e serviu nos últimos meses da guerra. Formou-se pela Universidade do Mississippi, em Oxford, em 1867. De volta a Yazoo City, foi aprendiz de boticário e depois caixeiro e guarda-livros de um armazém. Em 1869 casou-se com Laura Green Reid.
Conversão e ministério no Mississippi
A fé veio depois de uma longa luta com dúvidas: “Em 12 de julho de 1874, Deus converteu a minha alma” (Sanctification, 1890). No mesmo ano recebeu licença para pregar na Primeira Igreja Metodista de Yazoo City, da Igreja Metodista Episcopal do Sul. Começou em circuitos rurais, como a Missão de Vernon, com duas igrejas e dois pontos de pregação, e a Missão de Madison. Em 1877 recebeu o primeiro pastorado, em Brandon, onde ficou quatro anos, e foi ordenado presbítero em 1878.
A ordenação deixou nele uma inquietação. Seguindo Wesley, o bispo perguntava a cada candidato se estava “avançando para a perfeição” e se esperava “ser aperfeiçoado no amor nesta vida”. Carradine disse que sim, mas confessou depois que respondeu com a voz embargada e com escrúpulos de consciência, porque nunca tinha ouvido um sermão sobre inteira santificação nem convivido com um pregador que dissesse tê-la recebido.
Foram também anos de luto. Laura morreu em 1882, em Vicksburg. O filho Guy morreu em 1885, aos seis anos, e o pai levou o caixão de trem para enterrá-lo ao lado da mãe, viagem que contou em Pastoral Sketches (1896). Em 1883 Carradine casou-se de novo, em Nova Orleans, com Modesta Burke.
Nova Orleans e a loteria
Em Nova Orleans, onde serviu até 1890, pastoreou a igreja da rua Carondelet, uma das maiores do metodismo sulista. Ali entrou na primeira grande briga pública da vida. Em 24 de fevereiro de 1889 pregou contra a Louisiana State Lottery Company, a poderosa loteria estadual, e comparou-a à escravidão. O sermão foi impresso no mesmo ano e, em 1890, saiu ampliado com um segundo discurso, The Louisiana State Lottery Company Examined and Exposed. A companhia perdeu a licença no estado poucos anos depois.
A segunda bênção
No verão de 1888, no Sea-shore Camp Ground, no litoral do Mississippi, Carradine pregou às onze da manhã e, convencido pelo próprio sermão, desceu ao altar como penitente. Meses depois abriu cultos de avivamento na Carondelet Street com o evangelista W. W. Hopper. Nas reuniões da manhã o tema era a inteira santificação, recebida de uma vez pela consagração e pela fé. Quando um visitante se levantou para dizer que não havia segunda obra da graça, apenas crescimento, Carradine sentiu um “frio” cair sobre a reunião. Naquela semana começou a buscar a bênção para si.
O relato que publicou é minucioso. Pôs “tudo no altar”: corpo, alma, reputação, salário. Não pediu perdão, porque já tinha paz com Deus; pediu que Deus consumisse “aquele algo”, o pecado que continuava no coração do convertido. No terceiro dia veio a experiência que descreveu como fogo e como a certeza, dada pelo Espírito Santo, de que a obra estava feita. Cerca de trinta membros da Carondelet Street entraram na mesma experiência naquele período.
Carradine contou tudo nos jornais da igreja. Os artigos viraram Sanctification, registrado em 1890 pelo evangelista L. L. Pickett e impresso em 1891 também pela editora da igreja, em Nashville. O efeito foi imediato: Ambrose B. Crumpler, jovem pregador metodista da Carolina do Norte, inspirou-se em Carradine ainda em 1889, buscou a inteira santificação e fundaria depois a Igreja de Santidade de Goldsboro, uma das raízes da Igreja Pentecostal de Santidade.
St. Louis e a vida de evangelista
Em 23 de junho de 1890 partiu para quatro meses de viagem pela Europa, pelo Egito e pela Terra Santa, que renderam A Journey to Palestine (1891). Na volta assumiu a Igreja Metodista Centenary, em St. Louis. Ali publicou Church Entertainments: Twenty Objections (1891), contra as quermesses, rifas e espetáculos que as igrejas usavam para levantar dinheiro. A primeira objeção resume o livro: Deus mandou a igreja visitar os doentes, socorrer os pobres e pregar o evangelho, mas nunca a mandou “fazer dinheiro” para ele.
Em 1893 deixou o pastorado fixo para viver como evangelista. Pregou em acampamentos e convenções de santidade por todo o país e escreveu sem parar para as editoras do movimento, como a Christian Witness, de Chicago e Boston, e a de Martin Wells Knapp, em Cincinnati. Henry Clay Morrison, mais tarde presidente do Asbury College, prefaciou The Second Blessing in Symbol (1893). Hinários de santidade guardam também letras de hinos assinadas por ele.
Quando, nos anos 1890, muitos crentes da santidade deixaram o metodismo para formar igrejas novas, Carradine defendeu que permanecessem na igreja e criassem faculdades independentes de santidade, caminho que deu frutos como o Asbury College e a Taylor University. De 1901 a 1912 atuou com a Associação Nacional de Santidade; saiu por carta, descontente com o rumo dela, e no mesmo ano foi aceito pela Conferência de St. Louis como evangelista metodista.
Os últimos anos
Em 1918 foi para Seattle fazer avivamentos na costa oeste. No fim de abril de 1919 perdeu a consciência e ficou cerca de seis semanas em coma. Saiu confuso e só a partir de 1922, tratado em Fort Scott por iniciativa do amigo e editor E. L. Kletzing, recuperou aos poucos a lucidez. Voltou a escrever: os manuscritos da última década, guardados no Seminário Teológico de Asbury, reúnem estudos bíblicos, esboços de sermões, poemas e memórias. O último livro, o segundo volume de Life’s Chromos, ficou pronto em 1930.
Morreu em 22 de abril de 1931, em Western Springs, Illinois, aos 83 anos, e foi sepultado em Vicksburg. O filho William Reed Carradine, correspondente da Associated Press, foi pai do ator John Carradine, e por isso o pregador da santidade é o patriarca da família de atores que leva o seu nome.
Pensamento
Um wesleyano do movimento de santidade
Carradine pertence à classe wesleyana, no ramo do movimento de santidade do século XIX. Foi presbítero da Igreja Metodista Episcopal do Sul a vida inteira, chamou a inteira santificação de “a doutrina cardeal da Igreja Metodista” e dedicou o último capítulo de Sanctification a mostrar, com as atas das conferências e as cartas de Wesley, que ela pertence ao metodismo desde o começo. A soteriologia que pressupõe é a dos Artigos de Religião da sua igreja: graça para todos, salvação pela fé e possibilidade de o crente se afastar da graça. Enquanto o homem for “agente moral livre” e estiver “em provação”, escreve, pode pecar; se os anjos caíram no céu e Adão no Éden, também o santificado pode cair da santidade.
O pecado que fica depois da conversão
O ponto de partida é o pecado original. Carradine distingue os pecados cometidos, que a justificação perdoa, da natureza corrompida herdada, que continua no convertido. Num trecho que Aaron Merritt Hills citou em Holiness and Power (1897), ele pergunta como poderia ser perdoado pelo que não cometeu: a justificação não alcança o pecado original.
Em The Old Man (1896), o “velho homem” de Romanos 6:6, ele dedica um livro inteiro a esse resto de pecado. Ele não obriga o regenerado a pecar, porque pode ser mantido sob controle, mas produz luta constante: palavras precipitadas, temperamento rápido, suspeitas, amor ao elogio, oração feita por obrigação. Carradine toma de Daniel Whedon a palavra sinwardness, a inclinação para o pecado. Não diminui a regeneração, que chama de “obra perfeita em si”; ela dá vida nova, mas não remove a raiz.
A segunda obra da graça
A resposta de Deus é a inteira santificação: obra distinta da regeneração e posterior a ela, instantânea, recebida pela fé depois da consagração completa e testemunhada pelo Espírito Santo, como o Espírito testemunha ao crente que é filho de Deus (Romanos 8:16).
Ela vem só da graça. “Nenhum homem pode criar, por energia ou poder próprio, um coração puro”, escreve em Sanctification; se pudesse, faria obra maior que a de Cristo e cantaria no céu: “Ele me perdoou, mas eu me fiz santo”. Por isso rejeita os “métodos humanos” que The Old Man examina, do mosteiro ao açoite e à autoacusação. O método de Deus é a extirpação, e as imagens bíblicas são de destruição: o fogo nos lábios de Isaías (Isaías 6:6-7), o velho homem crucificado (Romanos 6:6), a roupa que se tira e não apenas se segura no lugar (Efésios 4:22).
O caminho prático vem da “teologia do altar” do movimento de santidade. “O altar santifica a oferta” (Mateus 23:19), e o altar, como comentou Adam Clarke sobre Hebreus 13:10-12, é Cristo, que para Carradine foi ao mesmo tempo sacerdote, cordeiro e altar: “Ele fez tudo; não havia ninguém para ajudar”. Quem se põe inteiro sobre esse altar e crê que o sangue purifica “de todo pecado” (1 João 1:7) recebe a bênção.
Santidade e crescimento
Carradine separava a santificação do crescimento na graça, porque ninguém “cresce” até um coração puro: “a santificação é pureza, mas o crescimento na graça é o amadurecimento da pureza”. Uma remove, o outro acrescenta, e o santificado continua “ficando mais santo todos os dias”. A única perfeição que reivindicava era a do amor que não azeda, da pureza de coração e do descanso da fé em Cristo, e não a impossibilidade de pecar. Dava grande peso à experiência: “Uma experiência na vida convertida ou santificada vale dez mil teorias” (Sanctification, cap. 1).
Em The Second Blessing in Symbol (1893) e Beulah Land (1904) leu o Antigo Testamento como um livro de figuras da segunda bênção: as duas salas do tabernáculo, as duas travessias de Israel, pelo mar Vermelho e pelo Jordão, as duas unções do leproso, Canaã como o descanso depois da saída do Egito.
Pontos de diferença
A declaração de fé deste site concorda com Carradine no essencial: a inteira santificação é obra da graça, posterior à regeneração e recebida pela fé, que purifica o coração do pecado original e o enche de amor perfeito. Há duas diferenças de ênfase. Ao chamar o crescimento na graça de “obra do homem”, Carradine fala de modo diferente da declaração, que trata a santificação progressiva também como obra do Espírito, alimentada pelos meios de graça, como Wesley ensinava. E Carradine identifica a inteira santificação com o batismo no Espírito Santo e com o fogo de Atos 2, linguagem que o pentecostalismo herdaria e transformaria; a declaração fala da inteira santificação sem essa identificação.
Legado
Carradine escreveu para leigos: livros curtos, cheios de histórias de pastoral, de figuras e de testemunhos, em edições populares. Deu forma acessível à doutrina que Daniel Steele defendia em linguagem mais técnica e alimentou uma geração de pregadores que passou às igrejas de santidade e, depois, ao pentecostalismo. Ele mesmo nunca deixou a igreja de John Wesley e insistiu que a santidade era um patrimônio metodista. Para o quadro mais amplo, veja a tradição arminiana de Armínio a Wesley e a biografia de John Fletcher, o teólogo da perfeição cristã que Carradine invocava.
Obras principais
- The Louisiana State Lottery Company Examined and Exposed (1889; ampliado em 1890)
- Sanctification (1890; edição de Nashville em 1891)
- Church Entertainments: Twenty Objections (1891)
- A Journey to Palestine (1891)
- The Second Blessing in Symbol (1893)
- The Old Man (1896)
- Pastoral Sketches (1896)
- The Better Way (1896)
- The Sanctified Life (1897)
- Revival Sermons (1898)
- Heart Talks (1899)
- Soul Help (1900)
- Golden Sheaves (1901)
- Gideon (1902)
- Beulah Land (1904)
- A Church Yard Story (1904)
- Bible Characters (1907)
- Living Illustrations (1908)
- A Box of Treasure (1910)
- People I Have Met (1910)
- Graphic Scenes (1911)
- Yazoo Stories (1911)
- Revival Incidents (1913)
Para aprofundar
- Beverly Carradine, Sanctification (Nashville: Publishing House of the M. E. Church, South, 1891). Internet Archive.
- Beverly Carradine, The Old Man (Chicago: Christian Witness, 1896). Internet Archive.
- Beverly Carradine, The Second Blessing in Symbol, com prefácio de H. C. Morrison (Chicago: Christian Witness, 3ª ed.). Internet Archive.
- Beverly Carradine, Church Entertainments: Twenty Objections (Syracuse: A. W. Hall, 1891). Internet Archive.
- Beverly Carradine, A Journey to Palestine (St. Louis, 1891). Internet Archive.
- Beverly Carradine, Pastoral Sketches (Chicago: Christian Witness, 1896). Internet Archive.
- Beverly Carradine, Revival Sermons (St. Louis: W. B. Palmore, 1898). Internet Archive.
- Beverly Carradine, The Louisiana State Lottery Company Examined and Exposed (Nova Orleans, 1889). HathiTrust.
- A. M. Hills, Holiness and Power for the Church and the Ministry (1897). Internet Archive.
- “Holiness Family”, em Melton’s Encyclopedia of American Religions (Gale), via Encyclopedia.com.
- “Carradine, Beverly”, verbete biobibliográfico da Gale, via Encyclopedia.com.
- Louis P. Towles, “Holiness Church”, Encyclopedia of North Carolina (2006), NCpedia.
- Randall J. Stephens, “There’s Magic in Print: The Holiness-Pentecostal Press and the Origins of Southern Pentecostalism”, Journal of Southern Religion (2002).
- Asbury Theological Seminary, “Papers of Beverly Carradine, Sub-Collection of the Vennard College Collection”, inventário do acervo.
- Faithlife, biografia de Beverly Carradine na edição digital de The Old Man.
- Gene A. Long, Beverly Carradine: Prince of Holiness Writers (Allegheny Publications, 2003).
- “Beverly Carradine”, Hymnary.org.
- “Beverly Carradine”, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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