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Brian Zahnd: o pastor que trocou a fé de vitória pelos Pais da Igreja
Neste texto
Na noite de 16 de janeiro de 1991, quando os Estados Unidos começaram a bombardear Bagdá na Operação Tempestade no Deserto, um pastor de 31 anos do Missouri pediu uma pizza e assistiu à guerra pela televisão como quem assiste a um jogo, certo de que Deus torcia pelo seu país. Quinze anos depois, numa oração, a cena voltou com uma frase que ele registrou no livro Water to Wine (2016): “Esse foi o seu pior pecado”. O pastor chorou. Chamava-se Brian Zahnd, e a mudança que essa lembrança resume levou-o de uma megaigreja da fé e da vitória para os Pais da Igreja, para a não violência e para o lugar de uma das vozes evangélicas mais lidas, e mais discutidas, dos Estados Unidos.
Vida
Do rock ao Movimento de Jesus
Brian Zahnd nasceu em 1959, em Savannah, cidadezinha vizinha de St. Joseph, no noroeste do Missouri. Cresceu numa igreja batista do Sul, mas quem o formou foi o Movimento de Jesus, o avivamento que alcançou os jovens da contracultura americana nos anos 1970. Ele conta que, no ensino médio, passou de fanático do Led Zeppelin a fanático de Jesus. Converteu-se aos 15 anos. Pouco depois ele já dirigia estudos bíblicos e um café cristão em St. Joseph, casa de música e evangelização para jovens.
A Word of Life Church
Em 1981, aos 22 anos e pouco depois de casar com Peri, Zahnd transformou o grupo do café na Word of Life Church, uma igreja sem denominação em St. Joseph. No fim dos anos 1980 ela se aproximou da Renovação Carismática, cresceu e mudou para um espaço maior. Nos anos 1990 entrou no ramo da Palavra da Fé (Word of Faith), que prega fé, vitória e prosperidade, e se tornou uma megaigreja, com alguns milhares de membros e programa de televisão. Zahnd diz que evitou os excessos mais grosseiros da teologia da prosperidade, mas pregava, nas palavras dele, um evangelho de “fé e vitória”.
Nesses anos ele também se aproximou da direita religiosa. Em Water to Wine lembra que dividiu palcos com Pat Robertson, John Ashcroft e Dick Cheney e que, olhando para trás, se via como um fantoche num jogo de poder. Depois de 11 de setembro de 2001, pregou o que ele chama de “sermões de guerra”.
A ruptura de 2004
Por volta de 2003, com a igreja no auge, Zahnd começou a achar a sua fé rasa. Numa entrevista a Trevin Wax, em 2012, explicou que a Palavra da Fé lhe parecia “fina demais”: usava a Bíblia de forma tão seletiva que ela cabia num folheto. Como um órfão à procura da família, foi atrás da herança cristã que não conhecia. Começou pelas Confissões e pela Cidade de Deus, de Agostinho; o livro de Robert Louis Wilken sobre o espírito do pensamento cristão primitivo foi um divisor de águas; depois vieram os 38 volumes dos Pais da Igreja, com Atanásio, Gregório de Nissa e Máximo, o Confessor. Ao mesmo tempo leu sobre o Reino de Deus em George Ladd, N. T. Wright, Dallas Willard, Stanley Hauerwas e John Howard Yoder.
Em agosto de 2004, anunciou à igreja que ela deixava o movimento carismático. Manteve a convicção de que os milagres fazem parte da vida normal da igreja, mas rejeitou o sensacionalismo e o culto às celebridades. Em 2006, depois de meses de estudo, chegou à frase que reorganizou a sua teologia: “A salvação é o Reino de Deus”.
A igreja mudou aos poucos. A Ceia passou ao centro do culto, servida à frente com as palavras “o corpo de Cristo, partido por você”. Entraram o calendário litúrgico, orações do Livro de Oração Comum, a confissão coletiva e a Oração de Jesus, sem que a música alta e as mãos levantadas da herança carismática sumissem. Zahnd conta que, nesses anos, sonhou que Abraão lhe dizia para orar com livros de oração, e foi assim que adotou a oração litúrgica, que depois ensinou numa “escola de oração”. O preço foi alto: saíram primeiro os que não acompanharam a mudança teológica, depois os que não aceitaram o afastamento da direita religiosa. Pelas contas dele, a igreja perdeu mais de mil pessoas.
Escritor, debatedor e peregrino
A partir de 2009 os livros passaram a contar essa mudança. Unconditional? (2010), com prefácio de Miroslav Volf, põe o perdão no centro da vida cristã, com exemplos como o de Nelson Mandela e o da comunidade amish depois do massacre de 2006. Beauty Will Save the World (2012) e A Farewell to Mars (2014) firmaram o nome dele fora do mundo carismático.
Em 27 de agosto de 2014, na Missio Dei Church, em Chicago, Zahnd e Austin Fischer defenderam o lado arminiano num debate sobre o calvinismo contra Daniel Montgomery e Timothy Paul Jones, com moderação de Mark Galli, editor da Christianity Today. Semanas depois, debateu com Michael L. Brown sobre a expiação substitutiva.
Em 2016, Brian e Peri fizeram a pé o Caminho de Santiago, cerca de 800 quilômetros em quarenta dias. Peri, que também é pastora da Word of Life Church, escreveu um livro de memórias sobre a caminhada. Vieram depois Sinners in the Hands of a Loving God (2017), Postcards from Babylon (2019), que inspirou um documentário em 2021, When Everything’s on Fire (2021), The Wood Between the Worlds (2024), finalista do Christian Book Award de 2025, e Unseen Existences (2026). O casal lidera a Word of Life Church há mais de quarenta anos.
Pensamento
Onde ele fica no arminianismo
Zahnd é um simpatizante do arminianismo, e não um arminiano clássico. Ele rejeita o calvinismo nos pontos centrais: em 2015 escreveu que nunca partilhou o calvinismo de Jonathan Edwards, e em 2014 defendeu em público que a predestinação incondicional é incompatível com o Deus revelado em Jesus Cristo, num debate que a Society of Evangelical Arminians divulgou como confronto entre dois arminianos e dois calvinistas. Mas a teologia dele vem dos Pais gregos, da Ortodoxia oriental, de René Girard e de George MacDonald. Ele não constrói a soteriologia sobre a graça preveniente de Armínio e de John Wesley, rejeita a substituição penal e se aproxima da esperança universalista. Fica perto do arminianismo no que nega e longe dele em várias coisas que afirma.
Deus é como Jesus
Perguntado em 2017 sobre a ideia que mais gostaria de ensinar, Zahnd respondeu: “Deus é como Jesus. Deus sempre foi como Jesus”. Se Jesus é a revelação perfeita de Deus, as imagens de um Deus violento no Antigo Testamento são etapas de uma revelação que chega ao ponto mais alto em Cristo. Ele diz que essa leitura não vem de uma visão baixa da Escritura, mas de uma visão alta de Cristo. Na declaração de fé deste site, o Diego afirma que a Bíblia é a Palavra de Deus, inspirada e sem erro nos originais, e lê os textos difíceis do Antigo Testamento sem pôr Cristo contra eles.
Eleição e resposta
Num texto de 2009, Zahnd afirma que “o calvinismo comete o erro de confundir a eleição de Israel para uma vocação” com a eleição de indivíduos para a salvação. Deus escolheu Israel para abençoar as nações, e Jesus tomou sobre os ombros essa vocação e a levou até a vitória: na cruz foi o reprovado, na ressurreição foi o eleito, e quem está nele participa do juízo e da justificação. “O ‘não’ de Deus sempre serve ao ‘sim’ de Deus”, resume. A salvação continua ligada à fé e ao batismo (Marcos 16:16). A leitura tem parentesco com a eleição corporativa, que vê o povo eleito em Cristo e o indivíduo entrando nessa eleição pela fé.
No debate de Chicago, ele chamou de “segredo sujo” do calvinismo o fato de a predestinação incondicional ser sempre dupla: eleger alguns sem condição é reprovar os outros por decreto. Para a alternativa, usou a imagem da dança: no monergismo, a doutrina de que só Deus age, “somos puramente objeto da ação”; no sinergismo, “dançamos com Deus”. Um resenhista arminiano lamentou que ele tenha usado um argumento filosófico sobre o livre-arbítrio em vez da graça preveniente, e com razão. No arminianismo clássico, a resposta humana só existe porque a graça vem antes e liberta a vontade, e a fé recebe sem acrescentar nada. Sem essa base, a dança pode soar como parceria entre iguais, coisa que Armínio e Wesley nunca ensinaram (veja o estudo sobre a graça preveniente em Armínio).
A cruz e a beleza
Em Beauty Will Save the World (2012), Zahnd lembra que os antigos tinham a verdade, o bem e o belo como virtudes primeiras, e que a igreja investiu em apologética e em ética e tratou a beleza como enfeite. Ele propõe perguntar também se a fé é bela, porque “muitas vezes, onde a verdade não consegue convencer, a beleza consegue atrair”. A forma da beleza cristã é Cristo de braços abertos na cruz.
Em The Wood Between the Worlds (2024), título que retoma uma expressão de C. S. Lewis, ele chama a cruz de eixo da Bíblia, diz que o sentido dela “não é singular, mas caleidoscópico” e que “Deus é o crucificado”. Zahnd rejeita a substituição penal, a doutrina de que Cristo levou sobre si o castigo que o pecado merece: ler a cruz como um Pai que precisa de violência contra o Filho para perdoar seria olhar o Calvário com lentes pagãs. Com René Girard, vê na cruz a denúncia do mecanismo do bode expiatório, pelo qual as sociedades descarregam a violência numa vítima, e fala do sangue do Cordeiro como resgate pago à morte, e não a Deus. Aqui está a maior distância em relação a este site, que segue Armínio e Wesley na satisfação penal com alcance universal: Cristo morreu por todos e levou a pena do pecado em nosso lugar.
A paz de Cristo
A Farewell to Mars (2014) resume a tese numa frase: “A guerra é um repúdio ao senhorio de Cristo”. Jesus é o Príncipe da Paz de Isaías 9:6-7, e a leitura dispensacionalista que adia essa paz para depois da volta de Cristo desfaz a promessa. Para Zahnd, os “últimos dias” começaram na morte e na ressurreição de Cristo, e a igreja pode ser pacificadora agora, guiada pelo Sermão do Monte. Em Postcards from Babylon (2019) ele diz que os Estados Unidos não são uma espécie de Israel bíblico, mas uma espécie de Babilônia, onde a igreja vive como em exílio.
Ira e inferno
Sinners in the Hands of a Loving God (2017) responde ao sermão de Jonathan Edwards de 1741, Pecadores nas mãos de um Deus irado, que Zahnd copiou à mão e decorou quando jovem pregador e depois passou a ver como evangelismo do terror. A ira de Deus, para ele, é real, mas age sobretudo pelas consequências do pecado, como no Salmo 7:15, onde o ímpio cai na cova que cavou: “somos castigados mais pelos nossos pecados do que por causa deles”.
Sobre o inferno, escreveu em 2018: “O inferno é o amor de Deus recusado”. Com Isaque, o Sírio, com Dostoiévski e com C. S. Lewis, descreve o inferno como a experiência de quem resiste ao amor de Deus, com as portas trancadas por dentro, e arrisca que ele dura tanto quanto essa resistência. Recusa tanto a certeza dos universalistas quanto a dos que afirmam um tormento sem fim, e diz simpatizar com o universalismo sem se declarar universalista. A declaração de fé do Diego afirma que só são salvos os que estão unidos a Cristo pela fé, e é nesse ponto que a esperança de Zahnd vai além do arminianismo clássico.
Oração e mística
Nos últimos anos Zahnd se tornou sobretudo um mestre de oração. Cita Karl Rahner, para quem o cristão do futuro será um místico ou não será nada, e ensina a oração litúrgica, a Oração de Jesus, a lectio divina e uma “segunda ingenuidade” na leitura bíblica, a volta à leitura simples depois da crítica. Em When Everything’s on Fire (2021) escreve para quem desmontou a fé recebida e pede que a desconstrução termine em reconstrução.
Obras principais
- What to Do on the Worst Day of Your Life (Charisma House, 2009).
- Unconditional? The Call of Jesus to Radical Forgiveness (Charisma House, 2010).
- Beauty Will Save the World (Charisma House, 2012).
- A Farewell to Mars (David C. Cook, 2014).
- Water to Wine: Some of My Story (Spello Press, 2016).
- Sinners in the Hands of a Loving God (WaterBrook, 2017).
- Postcards from Babylon: The Church in American Exile (Spello Press, 2019).
- When Everything’s on Fire: Faith Forged from the Ashes (IVP, 2021).
- The Wood Between the Worlds: A Poetic Theology of the Cross (IVP, 2024).
- Unseen Existences (IVP, 2026).
Livros em português
- Quando tudo está em chamas: fé que surge das cinzas (Mundo Cristão, 2022). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- O que fazer no pior dia da sua vida? (Letras d’Ouro, Portugal, 2011). Ver na Amazon
- Incondicional? O apelo de Jesus ao perdão radical (Letras d’Ouro, Portugal, 2012). Ver na Amazon
- A beleza salvará o mundo (Letras d’Ouro, Portugal, 2014). Ver na Amazon
- Diga adeus a Marte (Letras d’Ouro, Portugal, 2017). Ver na Amazon
Para aprofundar
- Brian Zahnd e Trevin Wax, “From Word of Faith to the Church Fathers”, entrevista (junho de 2012).
- Derek Vreeland, “Following Jesus: A Brief Look at the Word of Life Church Story” (agosto de 2014).
- Chris Hubbs, “Thoughts on Brian Zahnd and Word of Life Church” (maio de 2016).
- “Reconstructing burned out faith with Brian Zahnd”, podcast Compass, Igreja Metodista Unida.
- David Martinez, “Old Debate, New Day: Calvinism”, Society of Evangelical Arminians (setembro de 2014).
- John W. Morehead, resenha de A Farewell to Mars, The Englewood Review of Books (outubro de 2014).
- Rob O’Lynn, resenha de When Everything’s on Fire, The Englewood Review of Books (fevereiro de 2022).
- Derek Flood, resenha de Water to Wine, The Rebel God (janeiro de 2016), e Rob Grayson, resenha de Water to Wine, Faith Meets World (janeiro de 2016).
- Justin Clemente, “Almost Atonement & The Wood Between the Worlds”, The North American Anglican (março de 2025).
- Rick Pidcock, “Postcards from Babylon documentary tells a better story”, Baptist News Global (janeiro de 2021).
- “The Power of Pilgrimage with Brian and Peri Zahnd”, Christianity Today, podcast Being Human (setembro de 2024).
- Resenhas de livros de Brian Zahnd, Publishers Weekly.
- Speakers and artists, Christian Retailing (2010).
- “Episode 10: Love, Sin, & Metaphors with Brian Zahnd”, Zootown Podcast.
- Equipe da Word of Life Church, St. Joseph, Missouri.
- Jeremy Myers, “Hack the Theologian: Brian Zahnd”, Redeeming God (agosto de 2017).
- “Monster God Debate”, Michael L. Brown e Brian Zahnd, The Line of Fire (setembro de 2014).
- “IVP’s The Wood Between the Worlds and How Not to Waste a Crisis named finalists for 2025 Christian Book Award program”, InterVarsity Press (2025).
- Registros bibliográficos de Brian Zahnd, Biblioteca Nacional de Portugal.
- Brian Zahnd, “Election” (2009), “Sinners In the Hands of a Loving God” (2015), “Who Belongs In Hell?” (2013), “Hell… and How to Get There” (2018), “A Farewell To Mars” (capítulo 8, 2014) e “The Wood Between the Worlds” (2024).
- Brian Zahnd, trecho de Beauty Will Save the World, Christianity Today (fevereiro de 2012).
- No site: Roger Olson, A graça preveniente: a graça que vem antes e A Remonstrância de 1610.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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