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B. W. Johnson: O comentarista que explicou o Novo Testamento ao povo
Neste texto
No outono de 1853, uma multidão esperava havia horas no povoado de Walnut Grove, em Illinois. Alexander Campbell atravessava o estado nas carruagens dos irmãos das igrejas, fazendo um discurso por dia para levantar dinheiro para o Bethany College. Entre os ouvintes estava um estudante da academia local, filho de fazendeiro, que quarenta anos depois ainda lembrava o sermão sobre o mistério da piedade e a voz de Campbell, que “soava como um clarim”. No ano seguinte, Barton Warren Johnson estava em Bethany. Dali sairia um dos editores mais lidos dos Discípulos de Cristo e o autor de The People’s New Testament (1891), um comentário do Novo Testamento inteiro escrito para o leitor comum.
Vida
Do condado de Tazewell a Bethany
Johnson nasceu em 1833, numa cabana de troncos aberta numa clareira do condado de Tazewell, em Illinois, perto da cidade de Washington. A família do pai, de origem inglesa, vivia na Carolina do Sul antes da Revolução Americana; a mãe, de ascendência escocesa, nascera no Tennessee. Os pais pertenceram por mais de quarenta anos à Igreja Cristã, e os quatro avós tinham deixado as igrejas dos seus pais para viver o que chamavam de cristianismo primitivo. Era a herança do Movimento de Restauração, ou movimento Stone-Campbell, que no começo do século XIX quis deixar os credos e as divisões e restaurar a igreja do Novo Testamento.
Até os dezessete anos, a escola de Johnson foi a lavoura no verão e uma escola de troncos no inverno. Nessa idade entrou na Walnut Grove Academy, fundada por famílias dos Discípulos vindas do Kentucky, que poucos anos depois virou o Eureka College. Ali leu grego e latim com John H. Neville. Depois de ensinar numa escola rural, foi para o Bethany College, na Virgínia, no outono de 1854. Admitido no terceiro ano, estudou com Campbell, Robert Milligan e Robert Richardson e se formou em 1856, dividindo as honras de uma turma de 27 alunos.
Eureka e a Guerra Civil
De volta a Illinois, abriu uma escola em Bloomington e pregava aos domingos nas igrejas da região. Em 1857 tornou-se professor de línguas antigas no Eureka College. Quando o presidente C. L. Loos saiu, em 1858, Johnson recusou o cargo, mas aceitou a vice-presidência e, na prática, dirigiu a faculdade até 1862, quando foi eleito presidente. No verão de 1858 casou-se com Sarah S. Allen, irmã do médico e pregador J. M. Allen, seu colega de faculdade. Tiveram três filhas.
Em abril de 1861, Johnson passava o fim de semana em Peoria quando chegou a notícia do ataque ao forte Sumter. No domingo, lembrou ele, os pensamentos de batalha se misturavam aos hinos ao Príncipe da Paz. Na segunda-feira voltou correndo para Eureka e encontrou a bandeira no alto do prédio e os alunos treinando no gramado. Dali saiu a Companhia G do 17º Regimento de Infantaria de Illinois, e dois daqueles rapazes foram atingidos em Shiloh.
Bethany, Lincoln e Oskaloosa
Johnson deixou Eureka em 1863. Foi secretário correspondente e financeiro da sociedade missionária geral dos Discípulos e, em 1864, aceitou a cadeira de matemática em Bethany, onde ficou até depois da morte de Campbell, em 1866. Foi pastor em Lincoln, Illinois, e em 1868 assumiu a presidência do Oskaloosa College, em Iowa, junto com o cuidado da igreja da cidade. Dois anos depois a saúde o obrigou a deixar o ensino, mas ele continuou pregando ali por mais quatro anos.
Em 1872, na abertura da escola bíblica do Oskaloosa College, defendeu a formação de pregadores, que nem todos os Discípulos aceitavam. Os pais do movimento, disse, desconfiavam das escolas de teologia porque nelas os credos de partido tomavam o lugar do ensino simples da Palavra. Mas mandar pregar homens sem preparo contrariava “todos os precedentes da era apostólica” (The Evangelist, 25 de setembro de 1872).
O editor
O Evangelist tinha nascido em Oskaloosa em 1865, como revista mensal. Em 1870 passou a sair toda semana, com Johnson como editor, e em 1875 se fundiu com o Record, de Indiana, o jornal mais antigo do movimento. Johnson dirigia também as publicações da editora para a escola dominical, como o jornal infantil The Little Christian (1876) e as Lesson Leaves, folhas de estudo que chegavam a vinte mil exemplares por mês.
O jornal mudou-se depois para Chicago e, em 1882, fundiu-se com o Christian, de J. H. Garrison, em St. Louis. Nasceu o Christian-Evangelist, que os dois editaram juntos até 1894. O historiador W. T. Moore escreveu que sob eles o jornal se tornou a voz de uma representação “liberal-conservadora” do movimento. Em 1887 Johnson escreveu que a igreja que tem o espírito de Cristo precisa ser missionária e não pode se dar por satisfeita enquanto o evangelho não for oferecido a toda criatura.
Os livros
The Vision of the Ages (1881), lições sobre o Apocalipse, nasceu da convicção de que a Palavra de Deus não é feita de enigmas que ninguém entende. A partir de 1886 Johnson publicou todo ano o Christian Lesson Commentary e, no mesmo ano, um comentário de João. Em 1891 vieram os dois volumes de The People’s New Testament, com a versão comum e a versão revista lado a lado e notas curtas sobre cada passagem difícil. A obra foi feita, diz o prefácio, “não especialmente para a classe erudita e crítica, mas para o povo”: a nota condensa o que o leitor comum teria de procurar em dicionários bíblicos e concordâncias.
Em 1889, com a saúde abalada, Johnson passou quatro ou cinco meses viajando pela Europa, Ásia Menor, Palestina e Egito, para conhecer os lugares e os costumes da Bíblia. A viagem rendeu Young Folks in Bible Lands (1892), escrito para os jovens da Sociedade de Esforço Cristão. Em 1891 escreveu “Christ and the Future Life” para The Old Faith Restated, livro em que Garrison reuniu nomes representativos dos Discípulos para expor as doutrinas fundamentais.
A morte
Johnson morreu às quatro da manhã de 24 de maio de 1894. Garrison escreveu que o amigo tinha passado “das sombras para a luz”. A viúva contou que ele pedia a Deus mais dez anos de vida, não por si, mas para defender a Palavra com a voz e a pena. Moore atribuiu a doença dos últimos anos ao excesso de estudo e escreveu que os contemporâneos o tinham entre os homens mais eruditos dos Discípulos.
Pensamento
Johnson foi um simpatizante do arminianismo, e não um arminiano clássico. O movimento dele recusava credos e nomes de partido, e ele escrevia como intérprete do Novo Testamento. Nos pontos que separam calvinistas e arminianos, porém, as notas dele ficam do lado arminiano: eleição condicional, morte de Cristo por todos, graça que pode ser recusada e perseverança condicional, com citação de John Wesley. Ao mesmo tempo, negou a depravação herdada e prendeu a obra do Espírito à pregação da Palavra, o que o afasta de Armínio e de Wesley e o aproxima de outro autor do mesmo movimento, Jack Cottrell.
A eleição de um povo
Em Romanos 9, Paulo responde ao judeu que pergunta se Deus quebrou as promessas feitas a Abraão ao rejeitar a nação que rejeitou Cristo. A promessa nunca foi para toda a descendência física de Abraão, e Deus tem o direito de escolher ou deixar de lado um povo; Isaque, Esaú e Jacó representam povos. Sobre “amei Jacó e odiei Esaú”, Johnson concluiu: “Não há o menor indício de eleger algumas pessoas para a salvação eterna e outras para a condenação” (The People’s New Testament, nota a Romanos 9:13). Com Frédéric Godet, notou que Faraó endureceu o próprio coração cinco vezes antes de o texto dizer que Deus o endureceu: Deus “quer endurecer os que endurecem a si mesmos”. E Israel caiu não por um decreto, mas pela incredulidade.
Em Efésios 1:4, Deus escolheu ter um povo para si, a igreja, sem limite de raça; o argumento de Paulo é “geral, e não particular”. Em Romanos 8:29, Johnson separa presciência e predestinação: Deus prevê o futuro “não porque o decretou, mas porque não há limites para o seu conhecimento”. Ele conheceu de antemão os que o amariam e predestinou que fossem conformados à imagem do seu Filho, “o único decreto da passagem”. Em Atos 13:48 citou Wesley: ninguém foi forçado a crer, e os que não creram rejeitaram a salvação que Deus queria também para eles. É uma leitura próxima da de Chad Thornhill; veja também Presciência, eleição e predestinação.
Por todos, e com condição
Cristo se deu em resgate, escreveu Johnson sobre 1 Timóteo 2:6, “não por uma nação eleita, como os judeus, nem por indivíduos eleitos arbitrariamente, mas por todos os homens”. Deus quer a salvação de todos, mas não salva ninguém à parte das condições do evangelho. A segurança também tem condição. Em João 10:28-29, as ovelhas estão seguras enquanto ouvem a voz do Pastor e o seguem; em Romanos 11:20-23, os ramos são cortados pela própria incredulidade; em Hebreus 6:4-6, o apóstata é o cristão professo que se volta contra Cristo, e não o que cai numa falta. Nesses pontos Johnson concorda com a declaração de fé deste site; veja Apostasia na Bíblia.
A graça, a vontade e a Palavra
Aqui aparece a distância. Em João 6:44, duas coisas levam a Cristo: a vontade humana de vir e a atração divina, e Deus atrai “pelo evangelho”. Johnson aceita, com Philip Schaff, que a disposição do coração para ouvir Jesus vem só de Deus, mas descreve os meios dessa preparação como as providências, as influências cristãs e a Palavra. Em João 16:8, o Espírito convence o mundo pelas palavras dos apóstolos no Pentecostes. Em Efésios 2:3, recusa ler “por natureza filhos da ira” como depravação inata: judeus e gentios chegaram à condenação andando no pecado, e as crianças não nascem sob a ira de Deus.
Jacó Armínio ensinou outra coisa. Depois da queda, a vontade humana para o verdadeiro bem está presa e perdida, e só a graça preveniente, obra sobrenatural do Espírito em todas as pessoas, a liberta para crer, antes da pregação e além dela (ver a Declaração de Sentimentos). John Wesley afirmou o pecado original com a mesma força, e a declaração de fé deste site também: todos nascemos pecadores e incapazes de nos salvar (ver A doutrina da depravação total). Johnson, por sua vez, defendia a liberdade com um argumento da consciência: pesamos motivos e escolhemos, e “sabemos que somos agentes morais livres” (“Christ and the Future Life”, 1891).
A fé que justifica e o batismo
Num sermão de 1877 sobre Romanos 5:1, “The Faith That Justifies”, Johnson disse que Lutero estava certo ao ensinar a justificação pela fé, e Roma errada ao ensiná-la pela penitência e pela justiça própria. A fé que salva é a confiança pessoal em Jesus como o Cristo, o Filho de Deus: “Deixe os dogmas para os doutores. A salvação é para os simples.” Essa fé é do coração e, por isso, obedece, como a esposa que confia no marido e vai para a casa que ele preparou numa terra nova. Daí a leitura de Atos 2:38, típica do movimento: os termos do perdão são a fé, o arrependimento e o batismo, que expressa por fora a fé e o arrependimento. O site entende o batismo como testemunho público que segue a conversão (ver O que o batismo significa).
A profecia e a esperança
No Apocalipse, Johnson foi historicista: leu o livro como um panorama da história da igreja até a volta de Cristo e identificou a Babilônia e a besta com o papado e os seus aliados. Foi também pós-milenista: a corrente que prende Satanás em Apocalipse 20 é a Palavra de Deus, os mil anos são o tempo em que o evangelho dominará os corações, e a vinda pessoal de Cristo vem depois deles. O site é amilenista. A esperança de Johnson, porém, tinha centro em Cristo. Ele negou que os mortos durmam inconscientes até a ressurreição e escreveu que, se tivesse de dizer numa só palavra a base da esperança cristã, “essa palavra seria Cristo” (1891).
Obras principais
- “The Faith That Justifies”, em The Polymathist; or, Christian Pulpit, org. N. E. Cory (Central Book Concern, 1877).
- The Vision of the Ages; or Lectures on the Apocalypse (Christian Publishing Company, 1881).
- The New Testament Commentary, vol. III: John (1886).
- Christian Lesson Commentary (anual, a partir de 1886).
- “Christ and the Future Life”, em The Old Faith Restated, org. J. H. Garrison (Christian Publishing Company, 1891).
- The People’s New Testament, with Explanatory Notes, 2 vols. (1891).
- Young Folks in Bible Lands (Christian Publishing Company, 1892).
- “Old Academy Days in Walnut Grove”, em A History of Eureka College (Christian Publishing Company, 1894).
Para aprofundar
- J. H. Garrison, “Biographical Sketch of B. W. Johnson”, em The Old Faith Restated (1891), p. 398: Internet Archive. O mesmo livro traz “Christ and the Future Life”.
- Elmira J. Dickinson (org.), A History of Eureka College with Biographical Sketches and Reminiscences (1894), pp. 55-56, 62-64, 159-160 e 226-231: Internet Archive.
- The History of Mahaska County, Iowa (1878), sobre o Evangelist e o Oskaloosa College: Internet Archive.
- W. T. Moore, A Comprehensive History of the Disciples of Christ (1909), pp. 699-700 e 739-740: Internet Archive.
- Winfred E. Garrison, An American Religious Movement: A Brief History of the Disciples of Christ (1945), cap. “Journalism and Missions”: CCEL.
- Joe Weaks (org.), “Gleanings of quotes from a reading of Barton W. Johnson in The Evangelist and The Christian-Evangelist”, Restoration Movement Pages: ACU.
- Obras de B. W. Johnson na Restoration Movement Pages (The Vision of the Ages, Young Folks in Bible Lands, “The Faith That Justifies”): ACU.
- B. W. Johnson, The People’s New Testament (1891): CCEL.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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