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HistóriaTeólogos arminianos13 de 125

Bert Dominy: o professor de Southwestern que ensinava a viver com a tensão da doutrina

Diego Gonçalves12 min de leitura2.471 palavras

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Neste texto

No outono de 1980, um calouro chamado Jim Denison entrou na primeira aula da sua vida de seminarista, em Fort Worth, no Texas. A disciplina era teologia sistemática, e o professor, Bert Dominy, abriu o curso com uma tese que o aluno nunca esqueceu: toda doutrina importante da fé cristã exige “viver com tensão teológica”. Deus é três ou é um? Jesus é plenamente divino ou plenamente humano? A Bíblia foi inspirada por Deus ou escrita por homens? Deus é soberano ou nós somos livres? Para cada pergunta, a resposta bíblica é “sim”. Dominy ensinou essa disciplina no Southwestern Baptist Theological Seminary por mais de três décadas, e a última das quatro perguntas atravessa o livro que deixou sobre a salvação.

Vida

Houston, Baylor e Forestburg

Bert Buckner Dominy nasceu em Houston, no Texas, em 9 de janeiro de 1938, filho de Bert F. e Jewell Dominy. Estudou na Universidade Baylor, em Waco, onde se formou em 1960 em religião e alemão. Dali seguiu para o Southwestern Baptist Theological Seminary, em Fort Worth, um dos seminários da Convenção Batista do Sul. Em 10 de agosto de 1962 casou-se em Lubbock com Anna Jo, formada pela Universidade Texas Tech, com quem viveu 58 anos. Concluiu o bacharelado em teologia em 1963 e foi escolhido o aluno de destaque da Escola de Teologia naquele ano.

Nos três anos seguintes, de 1963 a 1966, foi pastor da Igreja Batista de Forestburg, uma pequena comunidade rural no norte do Texas. Em 1966 começou a ensinar religião e filosofia no Wayland Baptist College, em Plainview, onde ficou dois anos.

Três décadas em Southwestern

No outono de 1968 Dominy voltou a Southwestern como professor de teologia sistemática. No ano seguinte recebeu o doutorado em teologia (Th.D.) pelo seminário, e em 1973 também o mestrado em divindade. Estudou ainda na Universidade de Edimburgo, na Escócia, em 1975 e 1976, e na Universidade de Cambridge, em 1983.

Dominy presidiu três vezes o departamento de teologia e serviu por mais de quinze anos na comissão de estudos de doutorado. No Southwestern Journal of Theology, a revista acadêmica do seminário, foi editor de resenhas de 1975 a 1978 e depois editor-gerente. Nunca se afastou do púlpito: foi pastor interino de mais de vinte igrejas batistas do Texas. Com a família, era membro da University Baptist Church, em Fort Worth.

Em 1983 publicou no Southwestern Journal of Theology um estudo sobre 1 Coríntios 12 a 14, “Paul and Spiritual Gifts”. Em 1986 saiu pela Broadman Press, a editora da convenção, o livro pelo qual é lembrado, God’s Work of Salvation (“A obra salvadora de Deus”), oitavo volume da coleção Layman’s Library of Christian Doctrine, série escrita por professores batistas para os membros das igrejas. O livro foi traduzido para o espanhol como La salvación: obra de Dios, pela Casa Bautista de Publicaciones, na tradução de Rubén Zorzoli. Dominy escreveu também os verbetes “Atonement” (expiação) e “Hope” (esperança) do Holman Bible Dictionary (1991), mantidos nas edições posteriores do dicionário.

Os colegas o procuravam como leitor. James Leo Garrett Jr., o principal teólogo de Southwestern na segunda metade do século XX, agradeceu no segundo volume da sua Systematic Theology (1995) a Dominy, que leu cada capítulo e ofereceu críticas e sugestões. Boyd Hunt, discípulo de W. T. Conner, lembrou em Redeemed! (1993) o colega que o encorajou “com tenacidade”. David S. Dockery o inclui entre os que moldaram a tradição teológica de Southwestern, de Conner a Garrett.

Os alunos guardaram outra imagem. Robert B. Stewart, hoje professor em Nova Orleans, escreveu que Garrett, John Newport e Dominy o levaram a ver que a hermenêutica, a arte de interpretar o texto, é fundamental para a teologia. Steve Gaines, que mais tarde presidiu a Convenção Batista do Sul, resumiu o antigo professor em duas palavras: “grande professor”.

Truett e os últimos anos

Na primavera de 2001 Dominy encerrou a carreira em Southwestern e, em agosto, foi para o George W. Truett Theological Seminary, da Universidade Baylor, em Waco, como professor de teologia. O deão associado David Garland o apresentou como “um amado e distinto professor de teologia”. O filho, Steve, que já tinha estudado teologia sistemática com o pai no mestrado, cursava ali o doutorado em ministério; para ele, o pai era a primeira pessoa a quem recorrer em teologia, filosofia e Novo Testamento. Dominy se aposentou de Truett em 2007, e ainda aparece entre os colaboradores do Holman Illustrated Bible Dictionary (2015) como professor do B. H. Carroll Theological Institute, escola fundada por antigos líderes de Southwestern.

Morreu em Fort Worth em maio de 2021, aos 83 anos. O colega Joel Gregory chamou-o de “uma combinação graciosa de amigo, encorajador, acadêmico e homem de igreja”. Deixou a esposa, Jo, os filhos Steve, representante dos Batistas do Texas na região de Dallas, e Susan, e dois netos. Um deles, Clay, estudava em Truett em 2025, a terceira geração da família no seminário.

Pensamento

Um batista do Sul fora do calvinismo

Classe: simpatizante. Dominy pertence à linha batista de Fort Worth que vem de W. T. Conner e passa por Garrett: evangélica, confessional e distante do calvinismo nos pontos que o separam do arminianismo. Leighton Flowers incluiu Dominy em 2019 entre os estudiosos não calvinistas que recomenda, ao lado de Conner, Frank Stagg, Herschel Hobbs e Fisher Humphreys. O livro de 1986 confirma o lugar: explica a eleição como chamado ao serviço fundado no amor de Deus, defende uma liberdade humana real e descreve a fé como resposta despertada pela graça. Dominy escreve como batista do Sul, e não como discípulo declarado de Armínio ou de Wesley.

O pecado e a liberdade

God’s Work of Salvation começa pelo problema humano. Dominy afirma a liberdade com força: Deus “não criou robôs” que respondem automaticamente a sinais combinados, e o ser humano não é um fantoche manipulado à revelia da sua vontade. A decisão de amar a Deus ou de se rebelar contra ele é uma escolha real, mas dentro de limites fixados no Éden. Sobre a árvore do conhecimento do bem e do mal, Dominy cita com aprovação o comentário de Calvino a Gênesis: o homem não devia se fazer juiz do bem e do mal. Querer conhecê-los à parte de Deus é estabelecer a própria justiça em vez de receber a que vem de Deus (Romanos 10:2-4).

Sobre a queda, ele aceita a expressão depravação total, “desde que não seja mal usada”. Ela não quer dizer que a pessoa seja incapaz de qualquer bem, porque há diferença real entre Adolf Hitler e Albert Schweitzer. Quer dizer que o pecado atingiu a pessoa inteira, razão, emoções, vontade e corpo, e daí tira duas consequências: até o bem que fazemos vem manchado pelo interesse próprio, e a condição pecaminosa é “uma armadilha da qual não podemos nos libertar, por mais heroico que seja o esforço”. Dominy também afasta Deus da origem do mal: em parte alguma a Bíblia sugere que Deus seja autor do pecado, ideia que ele chama de blasfema, porque contradiz a santidade divina. Nos dois pontos ele está com o arminianismo clássico.

A eleição como vocação

O capítulo sobre a promessa da salvação pergunta: por que Abraão? Dominy reconhece que a eleição incomoda, porque parece tornar Deus arbitrário e alimentar o orgulho. A resposta dele: “Bem entendida, a eleição nasce do amor soberano de Deus” e não do mérito humano, de modo que a escolha de Abraão não foi prêmio por bom comportamento. E, na Bíblia, “a eleição é antes de tudo um chamado ao serviço”: Deus escolheu pessoas e nações para cumprir por meio delas o seu propósito, e chamou Abraão para que nele fossem abençoadas todas as famílias da terra (Gênesis 12:3). O mesmo vale para Israel, eleito para uma responsabilidade que envolveria sofrimento e chamado a ser luz para os gentios.

A leitura põe a eleição a serviço do amor de Deus pelo mundo inteiro e se aproxima da eleição corporativa e vocacional que muitos arminianos defendem, em que Deus elege um povo para uma missão e a pessoa participa dessa eleição pela fé.

Graça, fé e obras

A graça, para Dominy, é “o amor livre, espontâneo e imerecido de Deus pelos pecadores”. Graça divina e mérito humano são opostos que não convivem; por isso a salvação “nunca pode ser conquistada”, só aceita.

A fé ocupa o centro do capítulo “Perspectivas sobre a salvação”. Ela é “uma resposta humana genuína”, mas “despertada, ou atraída, pela atividade graciosa de Deus”, e por isso não pode ser vista como obra que merece recompensa: “Na graça, Deus em Cristo se dá a nós; na fé, nós nos damos a ele.” A fé inclui conhecimento, mas é sobretudo confiança, uma entrega pessoal nas mãos de Deus. Quanto às obras, a fórmula é paulina: elas nunca são a raiz da salvação, que é sempre e somente pela graça mediante a fé, mas são o seu fruto. “Se não somos salvos pelas obras, somos salvos para elas” (Efésios 2:8-10; Tito 2:14).

É aqui que um leitor arminiano reconhece mais terreno comum. Armínio comparava a fé à mão do mendigo que recebe o presente, e a descrição de Dominy, de uma fé sem mérito e despertada pela graça, cabe nessa imagem. Dominy não usa a expressão graça preveniente, mas descreve a mesma ordem: a ação graciosa de Deus vem antes e torna possível a resposta. Também se distancia do provisionismo de batistas posteriores como Adam Harwood, que negam que a queda tenha incapacitado a vontade.

Os três tempos da salvação

Dominy organiza a doutrina em três tempos. No passado, a salvação é a obra de Cristo e o momento em que a pessoa a aceitou pela fé, a conversão, ligada ao arrependimento. As conversões, adverte, são tão diversas quanto as pessoas, e ninguém deve fazer da própria experiência norma para os outros.

No presente, a salvação se descreve por várias imagens: justificação, novo nascimento, santificação. O novo nascimento é necessário porque a reforma moral não basta: “quando a água do poço está envenenada, não basta caiar a bomba”. A santificação é ao mesmo tempo fato consumado, porque o crente já pertence a Deus, e processo de crescimento na graça e no conhecimento de Cristo (2 Pedro 3:18). No futuro, a salvação se completa no juízo e na nova criação. O Espírito é o selo de propriedade de Deus sobre o crente e a garantia da herança (2 Coríntios 1:21-22; Efésios 1:13-14), e a segurança diante do juízo não está em nós mesmos, mas “no próprio Juiz”, o Deus que amou o mundo e deu o seu Filho.

A cruz e a ira de Deus

No capítulo sobre a cruz, Dominy reúne as imagens bíblicas da expiação: o resgate, tirado do mercado de escravos, em que alguém paga com a própria vida o preço da nossa liberdade, e a substituição de Isaías 53, o castigo que nos trouxe a paz. Ele também recusa a tese, defendida por alguns teólogos, de que a ira de Deus seria só a lei impessoal de causa e efeito num universo moral. Colhemos o que semeamos (Gálatas 6:7), mas a ira de Deus é “a sua oposição pessoal e persistente ao pecado” e, longe de contradizer o amor, pode ser expressão dele. O inferno é o uso da liberdade para rejeitar o Deus que a deu, e o seu horror está em a separação se tornar definitiva.

Diferenças com o arminianismo clássico

A diferença mais clara está na perseverança. A Fé e Mensagem Batista, a confissão da Convenção Batista do Sul, ensina que os verdadeiros crentes perseveram até o fim, e a segurança que Dominy descreve, ancorada no Juiz e no selo do Espírito, é a da tradição batista. A nossa declaração de fé ensina a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e a apostasia é possível. Entre os batistas, quem defendeu esse ponto foram Robert Shank e Dale Moody. A outra diferença é de ênfase: em Dominy a eleição aparece sobretudo como vocação de Abraão e de Israel, e não como o decreto de Armínio de salvar os que creem e perseveram.

Os dons do Espírito

No estudo de 1983, Dominy defendeu que o verbo de 1 Coríntios 12:31, “buscai com zelo os melhores dons”, pode ser lido como indicativo, uma descrição do que os coríntios já faziam, e não como ordem de Paulo. Garrett usou o artigo ao tratar da palavra grega pneumatika, que pode significar “dons espirituais” ou “pessoas espirituais”.

Obras principais

  • “Paul and Spiritual Gifts: Reflections on 1 Corinthians 12-14”, Southwestern Journal of Theology 26, n. 1 (1983), p. 49-68.
  • God’s Work of Salvation, Layman’s Library of Christian Doctrine, vol. 8 (Broadman Press, 1986). Em espanhol: La salvación: obra de Dios (Casa Bautista de Publicaciones).
  • Verbetes “Atonement” e “Hope”, em Trent C. Butler (org.), Holman Bible Dictionary (Holman, 1991), mantidos no Holman Concise Bible Dictionary (2001) e nas edições do Holman Illustrated Bible Dictionary.
  • Resenhas e artigos no Southwestern Journal of Theology, do qual foi editor de resenhas (1975-1978) e editor-gerente.

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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