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HistóriaTeólogos arminianos13 de 149

Clarence L. Bence: o historiador da Igreja Wesleyana que leu Wesley como um caminho

Diego Gonçalves13 min de leitura2.505 palavras

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Neste texto

Clarence Bence entrou no Houghton College, no oeste do estado de Nova York, em 1962, decidido a ser médico. Fez dois anos de pré-medicina. Numa pequena capela de oração do campus, sentiu o chamado para o pastorado e, em 48 horas, trocou de curso. Daí em diante viveu entre o púlpito e a sala de aula, a ponto de brincar que ainda não tinha decidido se era “um professor que devia estar pregando ou um pregador que devia estar ensinando”. Na Igreja Wesleyana, ele é conhecido pelo apelido: Bud Bence.

Vida

Filho de pastor wesleyano

Clarence Luther Bence cresceu no norte do estado de Nova York, onde o pai foi pastor e superintendente distrital wesleyano. A família pertencia à Igreja Metodista Wesleyana, que em 1968 se uniu à Igreja da Santidade Peregrina para formar a Igreja Wesleyana, e o Houghton College era uma escola dessa tradição. Ele se formou em filosofia em 1966, com estudos complementares de história, e sempre aconselhou o futuro pastor a estudar, na graduação, alguma área além das matérias de ministério.

Asbury, Rochester e Emory

Do Houghton ele foi para o Asbury Theological Seminary, em Wilmore, Kentucky, que naquele tempo era o seminário oficial da denominação. Concluiu em 1969 o mestrado em divindade, com concentração em história da igreja. Depois pastoreou durante cinco anos uma igreja wesleyana em Rochester, Nova York. Os membros diziam que ele “ensinava” a Palavra mais do que a “pregava”, comentário que ele mesmo repetia décadas depois.

Do pastorado ele passou ao doutorado em teologia histórica na Emory University, em Atlanta, concluído em 1981. A tese, John Wesley’s Teleological Hermeneutic (“A hermenêutica teleológica de John Wesley”), estudava a teologia de John Wesley pelo seu alvo. “Teleológico” vem do grego telos, “fim”, “alvo”: Bence queria mostrar que Wesley lê a Bíblia e a vida cristã sempre olhando para onde Deus quer levar o crente. Em 1979, ainda no doutorado, publicou no Wesleyan Theological Journal um artigo sobre escatologia, no número em que também escreveram Melvin Dieter e Mildred Bangs Wynkoop.

Professor e administrador

A carreira de professor começou no United Wesleyan College, em Allentown, na Pensilvânia. Em 1982 ele foi para o Marion College, em Marion, Indiana, escola que em 1988 passou a se chamar Indiana Wesleyan University. Ali foi professor, chefe do departamento de Ministério e vice-presidente de assuntos acadêmicos. No meio desse período passou cinco anos como deão acadêmico do Houghton College, cargo que, em 2016, era ocupado pelo sobrinho dele, Jack Connell. Em 1993 estava de volta a Marion, como chefe da Divisão de Religião e Filosofia.

Jeff Bakos, aluno dele em História da Igreja I, lembra que Bence abriu o curso com a lenda de são Dionísio, o bispo de Paris que, decapitado, teria pregado com a cabeça nas mãos. Quando a turma mostrou que não acreditava, ele perguntou o que era mais difícil: uma cabeça pregar depois de cortada ou Jesus ressuscitar dos mortos. Bakos conta que a pergunta nunca mais o deixou e despertou nele o gosto pela história da igreja.

Em 1996 saiu o comentário de Bence sobre Romanos, que abriu a série de comentários bíblicos “na tradição wesleyana” da Wesleyan Publishing House. Ele recebeu prêmios de excelência no ensino e de professor do ano, foi o primeiro a receber o prêmio World Changing Faculty da Indiana Wesleyan e foi escolhido ex-aluno do ano pelo Asbury Seminary. Aposentou-se do ensino em tempo integral em 2013, com o título de professor emérito de religião. Continuou dando aulas no Wesley Seminary da mesma universidade, onde recebeu o título de historiador da igreja residente.

O historiador da denominação

Bence fez duas vezes o discurso principal da Conferência Geral da Igreja Wesleyana, a assembleia que governa a denominação. Foi um dos estudiosos ouvidos pelo grupo de trabalho que, entre 2016 e 2022, revisou o compromisso de membresia da denominação sobre o falar em línguas. Em 2022, diante da decisão de reduzir a superintendência geral a uma só pessoa, ele observou como historiador que a criação de grandes distritos teria “muito mais impacto” do que o número de superintendentes, e pediu que a igreja continuasse unida na missão, com espaço para várias maneiras de entender o que é ser wesleyano. Em 2023 gravou um vídeo sobre a história wesleyana em Indiana para as igrejas do distrito. Depois da aposentadoria, também participou de ministérios na África, na Ásia e no Caribe.

Em 14 de maio de 2016, na festa dos cinquenta anos da turma de 1966, o Houghton College lhe deu o prêmio de Serviço Cristão. Jack Connell o descreveu como “um dos nossos comunicadores mais talentosos”, capaz de dar durante a semana uma palestra acadêmica para doutores e, no fim de semana, tornar o evangelho vivo numa reunião campal ou numa igreja do interior.

Em julho de 2024, numa série do site da denominação sobre os Artigos de Religião, ele tratou do juízo final: todos estarão diante do Cristo crucificado e ressuscitado, os crentes também prestarão contas das suas obras, e Deus juntará justiça e amor nas decisões finais, de modo que “ninguém estará no inferno por acidente”. Em novembro do mesmo ano, contou o martírio de Policarpo, bispo de Esmirna, a partir de Romanos 14:8: quem vive para o Senhor no dia comum se prepara para morrer como Policarpo morreu, recusando amaldiçoar o Rei que o salvou.

Pensamento

Onde ele fica no arminianismo

Bence é wesleyano. É ministro ordenado da Igreja Wesleyana, cujos Artigos de Religião seguem a linha de Wesley na graça preveniente, na expiação por todos e na inteira santificação, e toda a sua obra acadêmica gira em torno de Wesley. No artigo de 1979, ele aceita a gravidade do pecado ensinada pela Reforma e afirma que uma escatologia wesleyana deve “compartilhar a verdade da Reforma” de que não existe capacidade salvadora no esforço humano sozinho. A fórmula que ele toma emprestada de Gordon Rupp resume a posição: Wesley tem um “pessimismo da natureza” e um “otimismo da graça”. O ser humano caído não tem força nenhuma para se salvar; a graça de Deus pode mudar tudo.

A salvação como caminho

A tese de 1981 parte de uma pergunta sobre o método de Wesley. Harald Lindström tinha mostrado que a teologia de Wesley é voltada para um alvo e que a perfeição cristã molda as outras doutrinas. Bence foi um passo além: a orientação para o alvo é mais básica do que qualquer doutrina isolada, até do que a santificação. Para ele, a orientação predominante de Wesley é “linear e cronológica”. A salvação é um processo com graus, e cada momento dela é ao mesmo tempo um grau de salvação já recebido e um alicerce para uma nova manifestação da graça. Kenneth J. Collins, num artigo de 1984, reconheceu que Bence refinou a tese de Lindström e partiu dela para o seu próprio modelo da ordem da salvação, embora achasse que a leitura teleológica de Bence não explicava a relação entre a justificação e a inteira santificação.

O artigo de 1979 mostra a mesma ideia de modo prático. Bence lembra que, no sermão “A circuncisão do coração”, Wesley apresenta humildade, fé, esperança e amor como etapas sucessivas, e que lê as bem-aventuranças como “gradações” que levam da pobreza de espírito à pureza de coração. Por isso, escreve, a expressão “ir adiante” talvez seja a que melhor descreve a maneira wesleyana de ler a Bíblia.

Salvação plena

O centro dessa teologia é o que Wesley chamava de salvação plena. Bence explica que, para Wesley, o pecado está em toda parte, mas não faz parte da definição de ser humano: é uma doença que o sangue de Cristo pode curar. A salvação liberta também do poder e da raiz do pecado e restaura a imagem de Deus perdida na queda. Se o que se perdeu em Adão não pudesse ser recuperado na cruz, a doença seria maior que o remédio.

Daí vem a inteira santificação, que Bence apresenta como Wesley a apresentou: uma obra da graça que pode ser recebida nesta vida, pela fé, e que o crente deve esperar agora, sem adiar tudo para depois da morte. Inteira santificação, em palavra comum, é Deus purificar o coração do crente e enchê-lo de amor a Deus e ao próximo. Bence lembra que Wesley era realista sobre essa experiência e que, para ele, o perfeito ainda cresce na graça, e por toda a eternidade. Bence cita a comparação de John Fletcher entre Wesley e a calvinista lady Huntingdon: ela olhava mais para a profundidade da queda, ele mais para o poder da recuperação. Para Bence, a diferença era maior do que Fletcher imaginava.

Uma escatologia processiva

Escatologia é a doutrina das últimas coisas. Em 1979, Bence notava que os teólogos do movimento de santidade assistiam aos debates sobre o fim dos tempos sem participar deles, entre Moltmann e a teologia da libertação de um lado e o dispensacionalismo popular de Hal Lindsey do outro. Ele propôs uma terceira via a partir de Wesley.

Primeiro, ele afasta o atalho de copiar as notas de Wesley sobre o Apocalipse, que seguiam os cálculos de Johann Bengel para 1836. Quando George Bell, um convertido metodista, anunciou o fim do mundo para fevereiro de 1763, Wesley o desmentiu em público e, na noite marcada, foi dormir na hora de sempre. O ponto de partida tinha de ser outro: “Para Wesley, teologia é soteriologia”, isto é, tudo na teologia dele sai da doutrina da salvação.

A partir daí, Bence monta a escatologia em quatro passos. A salvação é plena, e não há parte da criação fora do alcance da cruz. A salvação acontece dentro da história, na vida pessoal e na sociedade, e por isso a fome, o racismo e a corrupção são campos de missão, e não apenas “sinais dos tempos”. A salvação já é escatologia: o céu começa no coração de quem crê, e o reino de Deus começou com a ressurreição de Cristo. E a salvação é um processo que vai de grau em grau até o reino da glória. Ele recusa a “teologia do bote salva-vidas” que via em Dwight L. Moody, a ideia de só tirar almas do mar e deixar o mundo afundar, e quer juntar evangelização pessoal e reforma social. Mas o reino que Wesley esperava nasce da obra salvadora de Cristo, e não do ativismo político, e a história caminha para um alvo definido: o senhorio de Jesus Cristo.

A igreja a caminho do reino

Bence aplicou a mesma leitura à igreja. No capítulo “Salvation and the Church” (1984), sustentou que, para Wesley, a igreja existe para levar adiante a missão da salvação e que, na estrutura da igreja, a forma segue a função: sociedades, classes e bandas nasceram para servir a essa missão. No mesmo ano, respondendo a Luke Keefer, que via em Wesley um restaurador da igreja primitiva, Bence lembrou que Wesley descobria as semelhanças com a igreja apostólica depois de criar as suas práticas, num cristianismo primitivo “em retrospecto, não por plano consciente”. A missão da igreja, para Wesley, se esclarece olhando para o reino que vem.

Romanos

No comentário de 1996, escrito para leigos e pastores, Bence organiza a carta em seis partes em torno da justiça de Deus: rejeitada (1:1 a 3:20), revelada (3:21 a 4:25), restaurada (5 a 7), renovada (8), Israel redimido (9 a 11) e refletida na ética do amor (12 a 16). Ele lê a justiça de Deus antes de tudo como um traço do caráter de Deus que ele partilha com os que são acertados com ele pela fé, e evita forçar Romanos a um esquema simples de duas etapas da vida de santidade. David L. Thompson, do Asbury Seminary, elogiou o coração pastoral do livro e pediu que uma nova edição considerasse mais os estudos recentes sobre o judaísmo do primeiro século.

Em relação à declaração de fé deste site

Na inteira santificação, Bence e a declaração de fé do site concordam: obra da graça recebida pela fé nesta vida, que enche o coração de amor e não encerra o crescimento. Na escatologia, o site é amilenista e afirma que Cristo já reina entre as duas vindas; Bence também vê o reino começar na ressurreição de Cristo e não toma partido entre pré e pós-milenismo. A esperança dele de que o evangelho transforme a sociedade dentro da história se aproxima do otimismo pós-milenista, que a declaração do site não adota.

Obras principais

  • “Processive Eschatology: A Wesleyan Alternative”, Wesleyan Theological Journal 14, n. 1 (1979), p. 45-59.
  • John Wesley’s Teleological Hermeneutic (tese de doutorado, Emory University, 1981).
  • “Salvation and the Church: The Ecclesiology of John Wesley”, em The Church: An Inquiry into Ecclesiology from a Biblical Theological Perspective (Warner Press, 1984).
  • “A Response to Luke L. Keefer”, Wesleyan Theological Journal 19, n. 1 (1984), p. 36-38.
  • Romans: A Bible Commentary in the Wesleyan Tradition (Wesleyan Publishing House, 1996; também publicado como Romans: A Commentary for Bible Students).
  • Seen to Unseen: Perceiving God’s Kingdom in Every Moment (Wesleyan Publishing House, 2011).
  • “Every Knee Will Bow” (The Wesleyan Church, 2024).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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