
HistóriaTeólogos arminianos15 de 149
Christopher Potter: O diretor do Queen's College que não conseguia odiar Armínio
Neste texto
- Vida
- De Kendal a Oxford
- Diretor do Queen’s College
- O sermão de 1629 e a fama de arminiano
- A resposta aos jesuítas
- Vice-reitor em tempo de revolução
- Morte
- Pensamento
- Onde Potter fica no arminianismo
- Primeiro a graça
- Fundamentais e opiniões
- O dever de examinar
- Igreja e bispos
- Influência
- Obras principais
- Para aprofundar
Em 7 de julho de 1629, o diretor do Queen’s College, em Oxford, sentou-se para responder a uma carta que tinha chegado na véspera. O remetente era um velho amigo, o senhor Vicars, e a carta era dura: Christopher Potter tinha virado arminiano, e só podia ter sido por ambição, enfeitiçado por “alguma aspersão de água benta da corte”. Potter respondeu com calma e com franqueza. Contou que na juventude atacava os arminianos do púlpito sem nunca ter lido o que eles escreviam, explicou o que encontrou quando foi ler, e escreveu a frase que resume a sua posição pelo resto da vida: “Amo muito Calvino e, devo dizer-lhe, não consigo odiar Armínio”.
Vida
De Kendal a Oxford
Christopher Potter nasceu em 1591 na região de Kendal, no condado de Westmorland, no norte da Inglaterra. Era sobrinho de Barnaby Potter, também do Queen’s College, que mais tarde seria o diretor do colégio e bispo de Carlisle. Christopher entrou no colégio em 1606, aos 15 anos, como estudante pobre, e em 1609 ganhou uma das bolsas destinadas aos rapazes pobres da casa. Formou-se bacharel em 1610 e mestre em 1613, foi capelão do colégio e, em 1615, tornou-se membro efetivo (fellow).
Nesses anos ele era um puritano convicto. Admirava Henry Airay, diretor do Queen’s, calvinista declarado e adversário de William Laud na universidade, e foi Potter quem publicou, depois da morte de Airay, as preleções dele sobre a Epístola aos Filipenses (1618). Tinha um cargo de conferencista em Abingdon, onde a sua pregação atraía muita gente.
Diretor do Queen’s College
Em 17 de junho de 1626, Barnaby Potter, já velho e cansado, renunciou à direção do colégio, com a condição de que os membros escolhessem o sucessor entre eles. Escolheram o sobrinho, com um só voto contra. Christopher recebeu o doutorado em teologia em fevereiro de 1627. Logo se aproximou de Laud e foi feito capelão ordinário do rei Carlos I.
Como diretor, Potter cuidou do estudo da teologia. No primeiro ano decretou que os rapazes pobres, aos domingos, deixassem o texto de Aristóteles e explicassem os artigos da confissão de fé da Igreja da Inglaterra, provando cada um com a Escritura, e que os mestres do colégio pregassem às quintas-feiras sobre um trecho bíblico. Para si recebeu as paróquias de Stratfield Saye e de Bletchingdon, o cargo de chantre da catedral de Chichester e, em 1635, o decanato de Worcester. Casou-se com Elizabeth Sonnibanke, filha de um cônego de Windsor, e o filho Charles nasceu no próprio colégio em 1634.
O sermão de 1629 e a fama de arminiano
Em 15 de março de 1629 (1628 no calendário inglês da época), Barnaby Potter foi sagrado bispo de Carlisle na Ely House, em Londres, e o sobrinho pregou o sermão, sobre João 21:17. Defendeu a validade das ordenações inglesas pela sucessão apostólica, respondeu à pretensão de supremacia do papa e falou das controvérsias sobre a predestinação com uma moderação que os calvinistas estritos não aceitaram. O sermão saiu impresso em 1629, com uma tradução inglesa que ele fez de um escrito de Paolo Sarpi sobre a disputa entre o papa Paulo V e Veneza, e foi ele que provocou a carta de Vicars.
Daí em diante os puritanos passaram a contá-lo entre os arminianos. Um sermão violento foi escrito contra ele, provavelmente sob a influência de John Prideaux, o professor régio de teologia. Em setembro de 1632, uns versos satíricos espalhados pela cidade, The Academicall Army of Epidemicall Arminians (“o exército acadêmico dos arminianos epidêmicos”), citavam o diretor do Queen’s pelo nome.
A resposta aos jesuítas
Em 1630, o jesuíta Edward Knott (pseudônimo de Matthew Wilson) publicou Charity Mistaken, para provar que a fé protestante, sem arrependimento, destrói a salvação. Por ordem expressa do rei, Potter respondeu em 1633 com Want of Charity Justly Charged. A segunda edição, de 1634, foi revista por Laud, e as mudanças que ele sugeriu pesaram depois no processo contra o arcebispo. Knott replicou com Mercy and Truth, e a tréplica veio de William Chillingworth, The Religion of Protestants (1638), obra que Laud pediu a Potter que revisasse.
Vice-reitor em tempo de revolução
Potter foi pró-vice-reitor da universidade em julho de 1639 e vice-reitor em 28 de julho de 1640. Foi a ele que Laud, já sob ataque do Parlamento, dirigiu a carta em que renunciava ao cargo de chanceler da universidade. Em 1640 Potter chamou a prestar contas John Johnson, de Magdalen, por um sermão que defendia a redenção universal e a graça universal “não sem alguma amargura contra as opiniões contrárias”; Johnson se retratou. Em 27 de dezembro de 1640, o próprio vice-reitor foi levado a Londres por um oficial da Câmara dos Comuns, e em janeiro uma comissão do Parlamento o interrogou sobre os sermões que tinha censurado e sobre o governo da universidade.
Quando a guerra civil começou, Potter ficou com o rei. Em julho de 1642 emprestou a Carlos I 400 libras do próprio bolso, além das 800 do colégio, e o Parlamento mandou prendê-lo com outros chefes de colégio por tentar levar o tesouro da universidade ao rei. Fugiu de Oxford e voltou antes do Natal de 1642. Em janeiro de 1643 o colégio entregou ao rei toda a sua prataria, menos a da mesa da comunhão. Conta-se que ele disse preferir beber com a mão, como Diógenes, a deixar o rei sem socorro. Em 1645 pregou em Uxbridge diante dos comissários que tentavam um acordo de paz entre o rei e o Parlamento.
Morte
Em janeiro de 1646 o rei o nomeou deão de Durham, mas Potter morreu no colégio em 3 de março de 1646, antes de tomar posse. Foi sepultado no meio da capela. A viúva, que depois se casou com Gerard Langbaine, o diretor seguinte, mandou fazer um monumento de mármore na parede norte, com um epitáfio que o chama de “cultor sério da piedade”, “defensor sóbrio da verdade” e “guardião obstinado da paz”.
Entre os manuscritos que deixou estava A Survey of the New Platform of Predestination, que William Twisse, o calvinista que presidiu a Assembleia de Westminster, refutou junto com três cartas de Potter sobre o assunto. A carta de 1629 foi publicada em 1651, no fim do Appello Evangelium de John Plaifere, e de novo em 1719, numa coletânea de tratados sobre a predestinação cujos editores a apresentaram como o relato da conversão de Potter de “opositor violento” a “favorecedor das teses arminianas”.
Pensamento
Onde Potter fica no arminianismo
Potter pertence ao grupo dos simpatizantes. Era um anglicano anti-calvinista do círculo de Laud, contemporâneo dos remonstrantes, e recusou o rótulo de arminiano por escrito: na carta de 1629 prometeu “nunca ser arminiano e sempre ser moderado”. Ao mesmo tempo, declarou que as razões dos remonstrantes o tinham convencido a não condená-los, que muitos bispos piedosos da Igreja antiga ensinaram a predestinação a partir da fé prevista, e que a predestinação absoluta não era artigo de fé. A distância em relação ao arminianismo clássico de Jacó Armínio é que Potter nunca expôs em público uma doutrina própria de eleição condicional: a posição dele é a de quem tira da predestinação absoluta o peso de dogma e pede liberdade de opinião sobre ela.
Primeiro a graça
O trecho do sermão de 1629 que escandalizou Vicars começa por uma confissão sobre o pecado e a graça que qualquer reformador assinaria. Potter rejeita toda doutrina que “favoreça ou lisonjeie” a natureza e a vontade depravadas do homem, que ele crê “livre somente para o mal” e sem poder algum, “absolutamente nenhum”, para um ato espiritualmente bom. Abraça a doutrina que mais engrandece a graça livre de Deus, “a causa inteira e única” da predestinação, da conversão e da salvação, e diz abominar as doutrinas dos pelagianos, dos semipelagianos, dos jesuítas e dos socinianos. Fecha com Cipriano e Agostinho: em nada devemos nos gloriar, porque nada é nosso.
É o ponto em que o arminianismo clássico concorda com os reformadores: Armínio afirmava a mesma incapacidade humana e a mesma primazia da graça, e a declaração de fé do Diego começa a doutrina da salvação pela depravação total. Firmada a graça como causa de tudo, Potter sustenta que as perguntas sobre a ordem dos decretos de Deus podem ser debatidas sem condenação mútua.
Fundamentais e opiniões
A ideia central de Potter é a distinção entre verdades fundamentais e questões de opinião, que ele usou contra os jesuítas e contra os calvinistas. Em Want of Charity, os fundamentais são os artigos do Credo dos Apóstolos, explicados pelos credos posteriores da Igreja; a Igreja universal não erra nesses artigos, mas pode errar em pontos menores, e o desacordo nesses pontos menores não rompe a unidade da fé. Os protestantes não se dividem em nada fundamental; Roma é que falta com a caridade ao fazer artigo de fé do que inventou.
Na carta a Vicars o argumento se volta para dentro de casa. Os arminianos divergem das igrejas reformadas em quatro questões: predestinação, redenção, graça e perseverança. Os luteranos divergem nessas mesmas quatro e em outras piores, e mesmo assim Calvino, Bucer, Beza e Ursino sempre ofereceram a eles a comunhão. “Resolva-me este enigma”, escreve Potter: se o luterano não erra no fundamento, como pode o arminiano errar? Para ele, essas questões são “problemáticas”, de menor peso, e um homem pode errar nelas sem perigo para a alma, contanto que não atribua nenhum bem à vontade corrompida do homem nem nenhum mal ao decreto de Deus.
O argumento tinha também um lado histórico. Desafiado pelo apelo dos remonstrantes à antiguidade, Potter foi conferir as próprias anotações de anos de leitura dos Pais e achou fiéis as citações que eles faziam, até de Agostinho e de Próspero. E afirmou que os próprios doutores do Sínodo de Dort não tinham os pontos em debate por fundamentais. Contra quem dizia que os arminianos estavam de acordo com Roma, respondeu que a escola dominicana e Tomás de Aquino sustentavam o decreto absoluto, de modo que, contados os votos em Roma, havia “dez contra um” a favor da posição calvinista.
O dever de examinar
O que mais chama a atenção na carta é o método. Potter descreve a si mesmo, na juventude, como alguém que resolvia todas as questões antes de conhecer os fundamentos delas, e que repetia contra os arminianos o que ouvia dos inimigos deles. Decidiu ler os dois lados e pesar as Escrituras que cada um citava, e não abria os livros sem antes pedir a Deus que o guardasse de todo erro e de toda vaidade. Concluiu que é indigno de um cristão, e mais ainda de um ministro, “escravizar o entendimento” a qualquer homem, por maior que seja o nome dele. “Um bom argumento me move mais do que vinte declamações”, escreveu. Em Want of Charity o mesmo princípio aparece numa frase: pensa indignamente da verdade quem acha que ela precisa das nossas paixões.
Esse espírito, porém, tinha limite. Potter prometeu que as dúvidas que o perturbassem “morreriam em silêncio” com ele, para não perturbar a Igreja, e como vice-reitor chamou a prestar contas quem pregou com amargura sobre a graça universal.
Igreja e bispos
O sermão de 1629 e Want of Charity mostram um anglicano da alta igreja, defensor da sucessão apostólica dos bispos e da autoridade dos concílios gerais, embora não infalíveis. Nisso ele se afasta da declaração de fé do Diego, que reconhece a igreja visível onde a Palavra é pregada com pureza e os sacramentos são bem ministrados (artigo 13 dos Artigos de Religião de John Wesley) e deixa o governo da igreja local às Escrituras. A declaração também afirma com clareza o que Potter deixou em aberto: a expiação por todos, a graça resistível e a perseverança condicional.
Influência
Potter foi um dos puritanos que passaram para o lado de Laud por convicção, e a carta a Vicars é o retrato mais pessoal dessa mudança. A controvérsia com Knott deu ocasião ao livro de Chillingworth, um clássico do protestantismo inglês. A linha de Potter, graça como causa única, liberdade nas questões disputadas e caridade entre os que divergem, reaparece em anglicanos da geração seguinte, como Jeremy Taylor, também capelão de Laud, que mais tarde seria uma das leituras decisivas de John Wesley.
Obras principais
- A Sermon Preached at the Consecration of the Right Reverend Father in God Barnaby Potter, com a tradução de um escrito de Paolo Sarpi sobre o papa Paulo V e Veneza (1629).
- Want of Charity Justly Charged, on All Such Romanists as Dare Affirm that Protestancy Destroyeth Salvation (1633; segunda edição revista, 1634).
- Carta a Vicars, de 7 de julho de 1629, publicada em Appello Evangelium, de John Plaifere (1651), e em A Collection of Tracts Concerning Predestination and Providence (1719).
- A Survey of the New Platform of Predestination, manuscrito deixado na morte e refutado por William Twisse.
Para aprofundar
- William Holden Hutton, Potter, Christopher (1591-1646), Dictionary of National Biography, vol. 46 (1896), via Wikisource.
- Anthony Wood, Christopher Potter, Athenae Oxonienses, ed. Bliss, vol. 3, via From Old Books.
- John Richard Magrath, The Queen’s College, vol. 1 (Oxford, 1921), capítulo sobre o 27º diretor, Internet Archive.
- Potter, Christopher, D.D., Cyclopaedia of Biblical, Theological and Ecclesiastical Literature, de McClintock e Strong.
- A Collection of Tracts Concerning Predestination and Providence (1719), com o prefácio dos editores e a carta de Potter a Vicars, Internet Archive.
- Christopher Potter, Want of Charity Justly Charged (Oxford, 1633), texto da Text Creation Partnership, via EarlyPrint e Distant Reader.
- Publicações de Christopher Potter, Grub Street Project, University of Saskatchewan.
- Essays on Predestination by John Plaifere, Christopher Potter, Laurence Womock, Thomas Goad, and Louis Chéron, Society of Evangelical Arminians.
- Christopher Potter (provost), Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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