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Chuck Gutenson: O engenheiro que estudou com Pannenberg e levou o método de Wesley ao debate público
No fim de 1993, um aluno do mestrado em divindade do Seminário Teológico Asbury, em Wilmore, no Kentucky, trocou por alguns meses as salas do seminário pela Universidade de Munique, na Alemanha. Foi estudar com Wolfhart Pannenberg, um dos grandes teólogos sistemáticos do século XX. Chuck Gutenson era engenheiro eletricista de formação. Na volta, publicou na revista do seminário um longo artigo sobre a doutrina da Trindade de Pannenberg. O texto começa com a história de um pastor que disse à igreja que desconfiava de qualquer pessoa que afirmasse entender a Trindade. Gutenson passou a carreira tentando provar o contrário: que a doutrina cristã pode ser pensada com clareza e que ela muda a vida da igreja e o modo como os cristãos tratam o próximo na vida pública.
Vida
Da engenharia ao seminário
Charles E. Gutenson, conhecido como Chuck, formou-se em engenharia elétrica pela Universidade de Kentucky. Cresceu numa tradição cristã que ele mesmo chama, entre aspas, de “fundamentalista” e que, como conta na abertura de Christians and the Common Good (2011), o impediu por muito tempo de enxergar as implicações políticas da vida de Jesus. Ao longo da vida trabalhou como executivo no setor privado, onde foi diretor de operações, e também como pastor.
No Seminário Teológico Asbury, escola de tradição wesleyana, concluiu o mestrado em divindade em 1995. No meio do curso fez a temporada com Pannenberg em Munique, e o artigo que saiu dela, “Father, Son and Holy Spirit: The One God”, apareceu no Asbury Theological Journal na primavera de 1994 como parte de um trabalho maior sobre a doutrina de Deus do teólogo alemão.
Em 2000 concluiu o Ph.D. em teologia filosófica na Southern Methodist University (SMU), em Dallas, onde lecionava William J. Abraham, filósofo e teólogo metodista com quem Gutenson continuou em diálogo nas décadas seguintes. Gutenson é também um John Wesley Fellow, um dos bolsistas da A Foundation for Theological Education, criada em 1977 por Albert Outler e Edmund Robb Jr. para financiar o doutorado de metodistas comprometidos com a fé cristã clássica e com a herança de John Wesley.
Dez anos em Asbury
Gutenson ficou cerca de dez anos no corpo docente de Asbury. Em 2004 era professor assistente de teologia filosófica; depois foi professor associado e, por fim, professor de teologia e filosofia. Em outubro de 2003, num congresso sobre o legado de Wesley para o século XXI, apresentou a palestra “Theological Method for a Man of One Book”, publicada no ano seguinte na revista de Asbury. O título retoma a expressão de Wesley, que se dizia homo unius libri, homem de um só livro. Em 2005 a T&T Clark publicou Reconsidering the Doctrine of God, o estudo sobre Pannenberg anunciado desde 1994, resenhado pela Heythrop Journal em 2007 e elogiado por Abraham pela clareza.
Na Sojourners
Em 2007 Gutenson era diretor de operações da Sojourners, a organização e revista cristã de Washington fundada por Jim Wallis, que trata de fé, justiça social e paz. Em junho daquele ano conduziu uma oficina teológica numa conferência da entidade e defendeu que os cristãos rejeitem a ideia de justiça como “cada um recebe o que merece”, que ele ligou a Platão. Com Wallis e a equipe da revista escreveu Living God’s Politics (2006), um guia para pôr em prática as ideias de God’s Politics. Desses anos saíram também Christians and the Common Good (Brazos, 2011), com prefácio de Wallis e recomendação de Ronald J. Sider e de Abraham, e artigos para o Red Letter Christians, a Sojourners e o Huffington Post.
Consultor de igrejas
No começo de 2012 Gutenson já tinha deixado a Sojourners e fundado a CrossWyse, dedicada a escrever, ensinar e assessorar igrejas. Em fevereiro saiu Hijacked: Responding to the Partisan Church Divide (Abingdon), escrito com Mike Slaughter, pastor de uma grande igreja metodista em Ohio, e com o pesquisador Robert P. Jones. Gutenson e Slaughter eram metodistas unidos, e Gutenson escreveu os capítulos centrais, do terceiro ao quinto. No lançamento, disse esperar que o livro contribuísse para “um pensamento teológico mais afiado”. No mesmo ano publicou The Right Church: Live Like the First Christians e, em 2013, Church Worth Getting Up For, ambos pela Abingdon. O último traça o perfil de líderes tão diferentes quanto Mike Slaughter, Greg Boyd, Nadia Bolz-Weber e Alan Hirsch, em torno da humildade, da hospitalidade radical e da autenticidade.
Em 2013 gravou para a Seedbed, editora wesleyana, duas séries curtas da Seven Minute Seminary: uma sobre a ordem da salvação em Wesley e outra, terminada em 2014, sobre os credos dos Apóstolos, de Niceia, de Constantinopla e de Calcedônia. Entre 2016 e 2017 escreveu ensaios para os John Wesley Fellows. Também lecionou como professor afiliado de teologia no Fuller Theological Seminary.
Pensamento
Um wesleyano
Gutenson é wesleyano. Metodista unido, foi formado por instituições que existem para manter viva a herança de Wesley e ensinou teologia nessa tradição. A evidência mais direta está na série de 2013, que apresenta a ordem da salvação de Wesley como a obra de Deus “que começa com a graça preveniente e termina com a graça glorificadora”. A Society of Evangelical Arminians divulgou a série em 2014.
Os vídeos seguem o caminho que Wesley descreveu nos sermões. A graça preveniente é a graça que vem antes: Deus age primeiro, em todas as pessoas, e só por essa ação alguém pode desejar voltar para ele. A graça convencedora é a obra do Espírito que mostra ao pecador a sua culpa e a sua necessidade de Cristo. A graça justificadora perdoa, pela fé, por causa de Cristo. A graça santificadora transforma o coração e a vida, até a glória. Para Wesley é uma só graça de Deus, em etapas.
No ensaio de 2004, Gutenson compara o sistema de Wesley ao de um calvinista e conclui que os dois podem estar justificados à primeira vista, porque cada um é coerente por dentro. A decisão sobre quem está certo terá de esperar o fim dos tempos, e até lá resta continuar o diálogo. É a postura de quem está do lado wesleyano do debate e trata o outro lado com respeito (veja por que Wesley rejeitou o calvinismo).
O método de um homem de um só livro
O mesmo ensaio é a melhor janela para o modo de pensar de Gutenson. Ele confessa que, “em dias de maior ingenuidade teológica”, achava o quadrilátero wesleyano original e engenhoso. Depois descobriu que Wesley nunca falou nesses termos, que a expressão foi criada por Outler e que todo método teológico usa Escritura, tradição, experiência e razão. Fundamentalistas e liberais usam os quatro; a pergunta certa é como eles se relacionam.
A primeira proposta é sobre a razão, que “não é, estritamente falando, uma fonte” da teologia. Ela não fornece matéria-prima, mas serve de ferramenta que pesa os dados, mostra as contradições e testa os argumentos. Quando alguém chega a uma conclusão errada, a culpa é das premissas ou do raciocínio malfeito. Por isso Wesley queria pregadores treinados em lógica.
A segunda é sobre a tradição. Os gnósticos também citavam a Bíblia, e com habilidade. Os credos, como o Niceno-Constantinopolitano, serviram para dizer quais leituras da Escritura eram aceitáveis: quem lê a Bíblia e conclui que Deus não é trino não leu direito. Gutenson insiste que isso não põe os credos acima da Escritura; reconhece o direito da igreja, guiada pelo Espírito, de dizer o que os seus textos significam.
A terceira é sobre a Escritura, a norma de todas as normas. Wesley falava do “teor geral da Escritura”: a Bíblia se lê como um todo, e nenhuma interpretação que contrarie esse conjunto se sustenta. Gutenson mostra um parágrafo de um sermão de Wesley que costura pedaços de Romanos 5:19, 1 Coríntios 15:22, Gênesis 5:3, Jó 14:4, Efésios 2:1-3, Salmos 51:5 e Romanos 3:22-23. Na aparência, é o pior tipo de citação de versículos soltos. Wesley consegue fazê-lo, explica, porque leu a Bíblia inteira a vida toda, pôs a encarnação no centro, como os pais da igreja, e buscou a vida santa. Quem é mais conformado à imagem de Cristo, pergunta, não estaria mais preparado para ouvir o Espírito na Escritura?
Aqui está uma diferença com a declaração de fé do site, que trata a Bíblia como a autoridade final em matéria de fé e prática e não dá à tradição papel de norma. Gutenson também põe a Escritura acima de tudo, mas, na linha do “teísmo canônico” de Abraham, dá aos credos, à liturgia e até à iconografia e ao cânon dos santos um papel de fronteira para a interpretação. Em Canonical Theism (2008) escreveu o capítulo sobre a herança canônica da igreja como meio de graça (veja Bíblia e tradição).
A Trindade lida com Pannenberg
Gutenson acompanha Pannenberg na tese de que a Trindade não pode ser deduzida de uma ideia abstrata de um Deus único. As tentativas de fazer isso acabam em modalismo (um só Deus que aparece de três modos) ou em subordinacionismo (o Filho e o Espírito como divindade de segunda ordem). O ponto de partida é a revelação de Deus em Jesus Cristo e a relação concreta de Jesus com o Pai.
A contribuição própria de Gutenson aparece quando ele defende Pannenberg da acusação de subordinacionismo, já que o Filho se submete ao Pai. Os credos afirmam a igualdade de essência, “Deus de Deus, Luz de Luz”, e a tradição reconhece papéis diferentes na história da salvação. Diferença de posição não é desigualdade de natureza, assim como o presidente de uma empresa não é mais humano que os funcionários. A conclusão combina com a declaração de fé do site, que fala de três pessoas coiguais que se distinguem pelas relações entre si (veja o capítulo sobre a Trindade).
O livro de 2005 organiza o pensamento de Pannenberg em cinco temas: o Infinito como categoria central; Deus como campo de força, conceito tomado das ciências físicas; a Trindade; Deus como poder do futuro; e os atributos divinos. São ideias de Pannenberg, que Gutenson expõe e examina.
Fé e vida pública
A ponte entre o professor de teologia filosófica e o executivo da Sojourners é a doutrina de Deus. Quase dois terços de Christians and the Common Good tratam da leitura da Bíblia: Gutenson pede que os cristãos deixem de citar versículos soltos e aprendam a “ler a Bíblia inteira de forma holística”. O terceiro capítulo, “O Deus de Abraão, Isaque, Jacó e Jesus”, defende que a Escritura fala primeiro de Deus: quem conhece o caráter dele entende o que ele espera da vida em comum.
Daí a pergunta que deve vir antes do debate sobre o tamanho do governo: como Deus nos criou para viver juntos? Gutenson percorre o jubileu, o perdão das dívidas, as sobras da colheita deixadas para os pobres, o rico insensato e o rico e Lázaro. Com Romanos 13 e Colossenses 1, argumenta que seria estranho dizer que Deus ordenou as autoridades para servir aos seus propósitos e as dispensou do cuidado com os mais pobres. Ele se descreve como alguém “à direita do centro na teologia e à esquerda do centro na política” e apresenta as propostas do último capítulo como começo de conversa.
Em Hijacked o alvo é a igreja dividida por partidos. Gutenson recorre à máxima “nas coisas essenciais, unidade; nas não essenciais, liberdade; em todas, caridade” e argumenta que a ideologia política não está entre as essenciais. Em “Politics and Alternative Soteriologies” (2016), observa que muitos cristãos passaram a esperar da política a salvação que pertence a Cristo; o governo tem papel legítimo, mas não salva. Em “On Letting the Bible Get Too Close” (2017), conclui que a Escritura não é tão difícil de entender: muitas vezes não queremos pagar o preço de imitar Cristo. Ele se inclui no diagnóstico.
The Right Church faz o mesmo movimento com a igreja antiga. Mostra que, até por volta do ano 200, os cristãos eram em grande maioria pacifistas, que liam a liberdade como libertação do pecado e que João Crisóstomo cobrava dos ricos o dever para com os pobres. Gutenson deixa as conclusões ao leitor: ler a Bíblia com a tradição da igreja para que ela forme a vida, e não apenas confirme o que já pensamos.
Obras principais
- “Father, Son and Holy Spirit: The One God”, The Asbury Theological Journal 49, n. 1 (1994)
- “Theological Method for a Man of One Book”, The Asbury Theological Journal 59, n. 1-2 (2004)
- Reconsidering the Doctrine of God (T&T Clark, 2005)
- Living God’s Politics: A Guide to Putting Your Faith into Action, com Jim Wallis (HarperOne, 2006)
- “The Canonical Heritage of the Church as a Means of Grace”, em William J. Abraham, Jason E. Vickers e Natalie B. Van Kirk (org.), Canonical Theism: A Proposal for Theology and the Church (Eerdmans, 2008)
- Christians and the Common Good: How Faith Intersects with Public Life (Brazos, 2011)
- Hijacked: Responding to the Partisan Church Divide, com Mike Slaughter e Robert P. Jones (Abingdon, 2012)
- The Right Church: Live Like the First Christians (Abingdon, 2012)
- Church Worth Getting Up For (Abingdon, 2013)
Para aprofundar
- Chuck Gutenson, “Father, Son and Holy Spirit: The One God”, The Asbury Theological Journal 49, n. 1 (1994), p. 5-22.
- Chuck Gutenson, “Theological Method for a Man of One Book”, The Asbury Theological Journal 59, n. 1 (2004), p. 49-61.
- Michael Buttrey, resenha de Christians and the Common Good, The Conrad Grebel Review 30, n. 2 (2012).
- Robert Cornwall, “Hijacked (Slaughter and Gutenson): A Review”, 2012.
- Greg Carey, “Partisanship in the Hijacked Church: A Book Review”, Day1, 2011.
- PR Newswire, “Mike Slaughter and Dr. Charles Gutenson Release Hijacked”, 25 de janeiro de 2012.
- Entrevista sobre The Right Church, “What Can We Learn From The Early Church?”, Patheos, 2012.
- Brazos Press, página de Christians and the Common Good, com sumário e nota biográfica.
- Abingdon Press, página do autor.
- Fuller Theological Seminary, Charles Gutenson.
- John Wesley Fellows, ensaios de Charles E. Gutenson, 2016-2017, entre eles “Politics and Alternative Soteriologies” e “On Letting the Bible Get Too Close”.
- Red Letter Christians, “Christians and the Common Good” (2011) e “Who Hijacked My Church?” (2012).
- Seedbed, vídeos de Charles Gutenson, 2013-2014, e a série The Order of Salvation.
- Society of Evangelical Arminians, “Charles Gutenson, John Wesley’s Order of Salvation”, 2014.
- Juicy Ecumenism, “Jim Wallis’ Sojourners Rally Prepares Activists for 2008 Elections”, 2007.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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