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David W. Baker: O hebraísta dos Irmãos que achou a graça no Pentateuco

Diego Gonçalves13 min de leitura2.672 palavras

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Neste texto

Os alunos do Seminário Teológico de Ashland, no Ohio, faziam com frequência a David W. Baker a mesma pergunta: por que estudar o Antigo Testamento, se ele é “Lei”, e a Lei foi abolida pelo evangelho da graça de Cristo? Muitos citavam as notas da Bíblia de Scofield. Em 1997, Baker respondeu com um artigo no Ashland Theological Journal e começou por uma confissão: a criação dispensacionalista que recebeu, com a divisão rígida entre Antigo Testamento igual a Lei e Novo Testamento igual a graça, também tinha alimentado o dilema dele. O artigo termina com uma tese que resume o seu trabalho com o texto hebraico: além da graça no fim da história, que até os dispensacionalistas afirmam, há “graça no princípio”.

Vida

Toronto, Filadélfia, Vancouver e Londres

David Weston Christian Baker nasceu em Toronto, no Canadá, em 1950, e tem dupla cidadania, canadense e americana. Bacharelou-se na Temple University, em Filadélfia, em 1970.

Depois foi para o Regent College, em Vancouver, escola evangélica de pós-graduação em teologia aberta em 1970. Ali recebeu o diploma de estudos cristãos em 1972 e o mestrado em estudos cristãos em 1973. Seguiu para a Universidade de Londres, onde concluiu o mestrado em filosofia em 1976 e o doutorado em 1982. Nesse período foi bolsista de doutorado do Canada Council (1977-1978) e pesquisador de Antigo Testamento da Tyndale Fellowship (1977-1979), a associação britânica de estudiosos evangélicos da Bíblia.

Os primeiros trabalhos mostram o interesse que o acompanharia: as leis do Pentateuco comparadas com os textos do antigo Oriente Próximo. Em 1978 publicou um estudo sobre a estrutura de Levítico 1 a 7 e, em 1987, na Zeitschrift für die alttestamentliche Wissenschaft, uma comparação entre esses capítulos e as tarifas de sacrifício dos cartagineses.

Pastor dos Irmãos, professor na África do Sul

Baker vem dos Irmãos de Plymouth, o movimento nascido na Irlanda e na Inglaterra no século XIX, sem clero ordenado e de forte ênfase dispensacionalista. Foi pastor da Westminster Gospel Chapel, em Burnaby, na Colúmbia Britânica, de 1981 a 1983.

Em seguida foi ensinar Antigo Testamento na África do Sul, na Universidade do Witwatersrand, em Joanesburgo, e na Universidade de Durban-Westville. Em Joanesburgo serviu como presbítero da Bedford Chapel; em Durban, passou a frequentar uma igreja anglicana evangélica. Desse período é o artigo “O Antigo Testamento e a crítica”, publicado em 1984 no Journal of Theology for Southern Africa. Antes de Ashland, lecionou também no Bethel College, em Saint Paul, no Minnesota.

Ashland, desde 1986

Em 1986 o presidente Joseph R. Shultz anunciou a nomeação de Baker como professor associado de Antigo Testamento e hebraico do Seminário Teológico de Ashland, a escola fundada em 1906 pela Igreja dos Irmãos (Brethren Church). A denominação descende dos Irmãos de Schwarzenau, fundados na Alemanha em 1708 por Alexander Mack sob a influência do pietismo e do anabatismo. É a mesma família espiritual de Menno Simons e dos anabatistas de 1525, com o batismo de crentes, a obediência ao Sermão do Monte e a vida em comunidade.

Em 1990, Baker e o colega Douglas Little, ambos vindos de outras denominações, tornaram-se membros da Park Street Brethren Church, em Ashland. Na conferência geral de 1990, dedicada ao discipulado, falou com os exemplos de Moisés e Josué, Elias e Eliseu: os pastores devem equipar os santos, e não entretê-los, e formar os leigos, e não só informá-los. No mesmo encontro falou Ben Witherington III, então professor em Ashland.

Em 1992 Baker foi escolhido para o conselho editorial do Believers Church Bible Commentary, a coleção de comentários da editora menonita Herald Press feita por seis denominações da tradição das igrejas de crentes: três grupos menonitas, a Church of the Brethren, a Brethren in Christ e a Igreja dos Irmãos. Ficou encarregado do volume de 1 e 2 Samuel.

Chegou a professor titular de Antigo Testamento e línguas semíticas, cadeira que o catálogo do seminário ainda lhe atribui em 2023-2024, quase quarenta anos depois da nomeação. Trabalham ou trabalharam com ele em Ashland Brenda Colijn, também membro da Igreja dos Irmãos, e o metodista David A. deSilva. Lecionou ou fez conferências em quatro continentes, e em 4 de julho de 2000 foi o conferencista convidado de Antigo Testamento da Tyndale Fellowship, a mesma associação que o havia apoiado no doutorado. Interessado em pedagogia e em novos meios de ensino, gravou cursos em vídeo, entre eles um estudo de Amós, Joel, Obadias e Malaquias para a plataforma Logos.

O editor

Boa parte da obra de Baker está no trabalho de editor, que ele considera um dos mais gratificantes da carreira, porque ajuda outros a publicar. Editou o Ashland Theological Journal, as séries de teses e de estudos da Evangelical Theological Society e a coleção Sources for Biblical and Theological Studies, da editora Eisenbrauns. Com Bill T. Arnold organizou The Face of Old Testament Studies (1999) e com T. Desmond Alexander, o Dictionary of the Old Testament: Pentateuch (2003). Foi coeditor da série de comentários Apollos, traduziu Levítico para a New Living Translation (1996) e participou da equipe de revisores da English Standard Version. Ao todo, escreveu, organizou ou colaborou em mais de quarenta livros.

Pensamento

Um anabatista dos Irmãos, ao lado dos arminianos

Classe: anabatista (tradição dos Irmãos), simpatizante do arminianismo. Baker é membro, desde 1990, da Igreja dos Irmãos, um ramo da família anabatista e pietista que nunca adotou a eleição incondicional nem a segurança eterna incondicional. Quando parte da denominação passou a defender esses dois pontos, nos anos 1930, sob a influência de Alva McClain e do Grace Theological Seminary, a Igreja dos Irmãos se dividiu em 1939, e o grupo de Ashland ficou com a posição tradicional. Nos escritos de Baker, a graça de Deus vem antes de qualquer resposta humana, a aliança oferece o perdão a quem se volta para Deus e o Novo Testamento estende esse perdão a todos os que recebem o sangue de Cristo. Ele escreve com o vocabulário da aliança, e não com o da dogmática arminiana, e fica, como Colijn e Balthasar Hubmaier, ao lado do arminianismo, e não dentro do debate dos remonstrantes holandeses.

Graça no princípio

O artigo de 1997, “Aspects of Grace in the Pentateuch” (“Aspectos da graça no Pentateuco”), ataca a ideia de um Deus dividido, de lei no Antigo Testamento e de graça no Novo. Baker lembra que a separação já aparecia em Marcião, combatido por Tertuliano, e propõe ir aos textos antes de aplicar a eles as categorias da teologia sistemática.

O primeiro passo é o vocabulário. O Antigo Testamento não tem uma palavra única para “graça”, mas tem o hesed, o amor leal da aliança, que inclui graça e misericórdia e vai além delas. Deuteronômio 7:7-13 mostra que Deus escolheu Israel sem que o povo trouxesse nada de seu: não era grande nem forte, e foi amado. O segundo passo é a aliança. Os egípcios se preparavam para o julgamento depois da morte com listas de virtudes (“não cometi mal contra os homens”). Em Israel, diz Baker, a ação humana não é condição para o relacionamento: o Decálogo começa lembrando que Deus já tirou o povo do Egito antes de qualquer resposta (Êxodo 20:2). Com Gordon Wenham, ele vê nas alianças com Abraão, Moisés e Davi atos da graça, nascidos da misericórdia de Deus e não do mérito humano.

O terceiro passo é a disciplina. Os deuses da Mesopotâmia, segundo os próprios mitos, reagiam com capricho e excesso: Enlil quis destruir a humanidade porque o barulho dela atrapalhava o seu sono. O Deus de Israel publica a sua lei, que vale para o rei e para o camponês, e mede o castigo pela falta. Baker mostra a correspondência entre pecado e pena em Gênesis 3 a 11: a serpente, “astuta” (‘arum), fica “maldita” (‘arur); o casal que buscou autonomia recebe a autonomia longe da presença de Deus; Caim, que se afastou dos outros para matar, é afastado de todos. Até a pena, conclui, revela a justiça e a graça do Deus que não muda.

A aliança que prevê o perdão

No artigo “The Mosaic Covenant Against its Environment” (“A aliança mosaica diante do seu ambiente”), publicado em 1989, Baker compara a aliança do Sinai com os tratados dos hititas. As semelhanças de forma são muitas. A diferença decisiva está em Deuteronômio 30. Nenhum tratado do antigo Oriente Próximo promete no próprio texto restaurar o vassalo que rompeu o acordo. Deuteronômio promete: quando as maldições tiverem caído e o povo se voltar para Deus, Deus terá compaixão dele (Deuteronômio 30:1-3).

Para Baker, esse capítulo é peça-chave de toda a teologia bíblica. Ele dá a Israel uma segunda chance e, na história contada em Juízes 2:10-19, uma terceira, uma quarta e uma quinta: o povo se desvia, sofre a opressão estrangeira, volta para Deus e é restaurado. Esse ciclo é “a espinha dorsal da Bíblia” (“The Mosaic Covenant”, 1989), e explica a mensagem dos profetas, que anunciavam o juízo e chamavam ao arrependimento ao mesmo tempo: “Voltem! Obedeçam a Deus! Escolham a vida!”. No Novo Testamento, a nova aliança no sangue de Cristo alcança, além dos filhos de Abraão, todos os que se apropriam desse sangue para a cura.

Deus ama antes de exigir

“Keeping My Brother” (“Guardar meu irmão”), artigo escrito em 1988 para o periódico dos Irmãos a pedido da comissão de preocupações sociais da conferência geral, parte do valor da pessoa humana, criada à imagem de Deus (Gênesis 1:27). A lei, diz Baker, vem depois da graça: em Êxodo 20:2 Deus estabelece a aliança de redenção antes que o povo obedeça. “Deus ama antes de exigir” (“Keeping My Brother”, 1988). Quem entra livremente nessa relação, como Israel no Sinai e o cristão na cruz, responde com um serviço que nasce da gratidão. As obras não são exigidas para receber a salvação; são esperadas como resposta a ela. É a mesma ordem dos Dez Mandamentos em Êxodo 20: primeiro o que Deus fez, depois o que ele pede.

A resposta certa à pergunta de Caim (Gênesis 4:9) é “sim, você é o guarda do seu irmão”. Baker lê os mandamentos da segunda tábua pelo lado positivo: não matar inclui sustentar a vida do pobre (Levítico 25:35), não furtar inclui socorrer quem nós mesmos possamos ter prejudicado, não cobiçar é o contrário de amar o próximo (Levítico 19:18). Depois da cruz essa responsabilidade cresce, porque cada pessoa vale, aos olhos de Deus, a vida e a morte do seu Filho. A ênfase combina com a tradição dos Irmãos, para quem a fé aparece na obediência concreta e no cuidado com o próximo.

Hebraico sem lenço

Baker defende o estudo das línguas originais. Num artigo de 1990 sobre tradução e estilo literário, ele mostra o que se perde nas traduções: o galope dos cavalos em Juízes 5:22, os jogos de palavras de Isaías 5:7, em que Deus esperava juízo (mishpat) e achou derramamento de sangue (mishpah), esperava justiça (tsedaqah) e ouviu um grito de aflição (tse’aqah), e a troca de letras entre “primogenitura” (bekorah) e “bênção” (berakah) na queixa de Esaú. O paralelismo e as imagens da poesia hebraica atravessam a tradução, mas o som e a forma não. Ler a Bíblia só em tradução, compara Baker, é como “beijar a pessoa amada através de um lenço”: é bom, mas falta alguma coisa.

Diferenças com a declaração de fé do site

A declaração de fé do Diário do Diego afirma a perseverança condicional: o crente pode abandonar a fé, e por isso as Escrituras o exortam a permanecer em Cristo (ver a perseverança dos santos). A Igreja dos Irmãos, desde a divisão de 1939, deixa a questão em aberto e acolhe as duas posições, embora a maioria dos seus membros acredite que é possível renunciar à herança espiritual. A declaração também usa o vocabulário da graça preveniente e da eleição condicional em Cristo, enquanto Baker trata a eleição pelo lado da aliança: Deus escolhe Israel por amor e não por mérito, e chama o povo a responder.

Obras principais

  • Nahum, Habakkuk and Zephaniah, Tyndale Old Testament Commentaries (Inter-Varsity, 1988).
  • “Obadiah”, em Obadiah, Jonah and Micah, com T. Desmond Alexander e Bruce K. Waltke, Tyndale Old Testament Commentaries (Inter-Varsity, 1988).
  • More Light on the Path, leituras diárias da Bíblia em hebraico e grego, com Elaine A. Heath e Morven Baker, prefácio de Eugene Peterson (Baker, 1998).
  • The Face of Old Testament Studies: A Survey of Contemporary Approaches, organizado com Bill T. Arnold (Baker; Apollos, 1999).
  • Looking into the Future: Evangelical Studies in Eschatology, organizador (Baker, 2001).
  • Dictionary of the Old Testament: Pentateuch, organizado com T. Desmond Alexander (InterVarsity, 2003).
  • Biblical Faith and Other Religions: An Evangelical Assessment, organizador (Kregel, 2004).
  • Joel, Obadiah, Malachi, NIV Application Commentary (Zondervan, 2006).
  • Genesis 37-50: A Handbook on the Hebrew Text (Baylor University Press, 2014).

Livros em português

  • Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque e Sofonias: introdução e comentário, com T. Desmond Alexander e Richard J. Sturz, Série Cultura Bíblica (Vida Nova, 2001). Baker escreveu os comentários a Obadias, Naum, Habacuque e Sofonias. Ver na Amazon · Ver na Shopee

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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