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David H. Stern: O economista de Los Angeles que traduziu a Bíblia Judaica Completa

Diego Gonçalves12 min de leitura2.477 palavras

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Neste texto

Em 20 de outubro de 1972, num quarto de motel em Fresno, na Califórnia, um ex-professor de economia de 36 anos leu Romanos 10:9: “Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (ARA). Percebeu que acreditava no que lia, olhou para o teto rachado e disse em voz alta que cria. Chamava-se David Harold Stern, era judeu, bisneto de pioneiros de Los Angeles, e 26 anos depois publicaria a Complete Jewish Bible, a tradução da Bíblia mais usada pelos judeus messiânicos de língua inglesa.

Vida

Uma família judia de Los Angeles

David Harold Stern nasceu em 31 de outubro de 1935, em Los Angeles, terceiro filho de Harold Stern e Marion Levi Stern. A família estava entre as primeiras vinte famílias judias da cidade, aonde o bisavô Elias Laventhal chegou em 1853. No celeiro da casa dos avós, na esquina de Hollywood Boulevard com Vine Street, Cecil B. DeMille rodou em 1913 o seu primeiro filme em Hollywood. Os Stern ajudaram a fundar o Wilshire Boulevard Temple, sinagoga reformista que frequentavam.

Stern formou-se em economia pela Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) aos 19 anos, fez mestrado e doutorado em economia em Princeton, com uma tese sobre o comportamento nas negociações, e aos 24 anos era o professor mais jovem da Escola de Pós-Graduação em Administração da UCLA. Também surfava, escalava montanhas e publicou com William S. Cleary o Surfing Guide to Southern California (1963).

Vinte e dois anos de busca

Por trás da carreira havia uma inquietação de 22 anos. Aos 15 anos, Stern percebeu que era infeliz e passou por psicanálise durante sete dos dezesseis anos seguintes. Deixou a UCLA, experimentou cerca de duas dezenas de religiões, jejuou 27 dias e administrou as lojas de produtos naturais de uma comunidade alternativa, que fracassaram. A religião que seguiu por dois anos não teve resposta para a culpa que ele sentiu depois de magoar uma pessoa com uma carta de condolências.

Num motel, leu uma revista de testemunhos dos Homens de Negócio do Evangelho Pleno e chorou. Em Marysville, numa loja de produtos naturais mantida por cristãos, leu O homem espiritual, de Watchman Nee, e se hospedou na comunidade cristã de Smartsville, onde ouviu o pastor Jerry Russell pregar sobre Romanos 10:9. Meses depois veio a noite de Fresno, e seis semanas mais tarde, o batismo por imersão no rio Yuba.

Fuller, Israel e Martha

Convencido de que a identidade judaica continuava a ter sentido, Stern quis contribuir para o judaísmo messiânico que nascia nos Estados Unidos. Fez o mestrado em divindade (M.Div.) no Fuller Theological Seminary, onde aprendeu grego, e estudou Talmude por um ano na University of Judaism, em Los Angeles. Trouxe rabinos de lá para o primeiro curso de Fuller sobre judaísmo e cristianismo.

Em 1974, numa viagem de estudo de hebraico em Israel, foi recusado numa yeshivá, escola judaica de estudo da Torá, por crer em Jesus, e mandado conversar com um alemão, ex-luterano convertido ao judaísmo. Esse homem lhe perguntou por que continuava nos Estados Unidos, se nenhum movimento judeu importante ficaria centrado fora de Israel, e citou Isaías 2:3: “de Sião sairá a lei, e a palavra do Senhor, de Jerusalém” (ARA). Stern decidiu ali que iria morar em Israel.

Na conferência Messiah ‘75, da Aliança Judaica Messiânica da América, conheceu Martha Frankel, judia messiânica que também queria viver em Israel, e casou-se com ela em 1976. O casal trabalhou cerca de um ano com a missão Judeus por Jesus. Em 1977, Stern organizou a primeira reunião da corrente judaica messiânica na conferência de Kansas City sobre a renovação carismática. A filha Miriam nasceu em 1979, e quatro meses depois a família fez a aliá, a imigração judaica para Israel. O filho Daniel nasceu em Tel Aviv em 1981.

Pioneiro do judaísmo messiânico em Israel

Quando os Stern chegaram, os poucos judeus que criam em Jesus em Israel se reuniam ao modo das igrejas cristãs. O casal entrou na comunidade de Ari e Shira Sorkoram, em Netanya, e passou a celebrar o shabat com as velas e a chalá da sexta-feira à noite. Já em Jerusalém, entrou na congregação Netivyah, de Joseph Shulam, onde organizou o primeiro culto messiânico de Yom Kippur e convenceu a liderança a ler a Torá aos sábados, primeiro uma vez por mês e por fim toda semana. Stern também ajudou a fundar o Israel College of the Bible.

O tradutor

Ao listar o que o movimento precisava, Stern incluiu um comentário bíblico messiânico. Começou por Atos, mas a cada verso achava que o texto devia ser traduzido de outro modo, e decidiu traduzir o Novo Testamento inteiro. “A Bíblia é o livro mais fácil e o mais difícil de traduzir”, dizia: há comentários sobre quase cada palavra, mas é a Palavra de Deus. Treze editoras cristãs recusaram o trabalho.

Enquanto hesitava em publicar sem um comentário que explicasse as escolhas, escreveu Messianic Jewish Manifesto e Restoring the Jewishness of the Gospel, ambos de 1988. Um amigo dos tempos de Fuller, Phil Goble, lhe disse que a Palavra de Deus “não precisa do comentário de David Stern para se sustentar”. O Jewish New Testament saiu em 1989 pela editora que ele mesmo criou, a Jewish New Testament Publications, e o comentário, em 1992. Em 1998, Stern juntou a sua tradução a uma adaptação do Tanakh, a Bíblia hebraica, na versão publicada em 1917 pela Jewish Publication Society e já em domínio público. Assim nasceu a Complete Jewish Bible, depois traduzida para outras línguas, entre elas o português.

Os últimos anos

Nas duas últimas décadas de vida, o mal de Parkinson o enfraqueceu aos poucos, e nos últimos oito anos ele viveu em cadeira de rodas. Em 2015 doou a sua biblioteca teológica ao Bram Center for Messianic Jewish Learning, da First Fruits of Zion, em Jerusalém. Morreu num sábado, 8 de outubro de 2022, aos 86 anos, e foi sepultado no dia seguinte, véspera de Sucot, no cemitério de Har HaMenuchot. Daniel Juster disse que a influência dele sobre o movimento messiânico não teve igual.

Pensamento

Judeu e messiânico por inteiro

O centro do pensamento de Stern é a relação entre Israel e a Igreja. No Messianic Jewish Manifesto (1988), ele chama a separação entre a Igreja e o povo judeu de “o pior cisma da história” e diz que cabe aos crentes repará-la, num esforço que descreve com a expressão judaica tikun olam, “consertar o mundo”. Chama a sua proposta de “teologia da oliveira”, a partir de Romanos 11:16-26. Os gentios que creem foram enxertados na oliveira de Israel, mas não formam um “novo Israel”, como quer a teologia da substituição, a ideia de que a Igreja tomou o lugar de Israel nas promessas de Deus. Mesmo os ramos cortados continuam a ser Israel, e Deus os preserva para que possam ser enxertados de novo. Por isso o judaísmo messiânico, escreve Stern, deve viver o fato de ser “ao mesmo tempo 100% messiânico e 100% judeu”, recusando o “ou isto ou aquilo” que cristãos e judeus lhe cobram. O tema já apareceu aqui na série sobre judaísmo e cristianismo, que mostra como uma má teologia alimentou séculos de desprezo pelos judeus.

Em Restoring the Jewishness of the Gospel, escrito para cristãos gentios, ele quer apresentar o evangelho “em toda a sua plenitude” no que diz respeito aos judeus. Para Stern, a falta de uma teologia clara da Lei é ao mesmo tempo um obstáculo para os cristãos entenderem a própria fé e a maior barreira para os judeus receberem o evangelho.

A Torá e o legalismo

Essa preocupação marca a tradução. Stern verteu a expressão grega erga nomou, “obras da lei” (Romanos 3:20), por “observância legalista dos mandamentos da Torá”. Explica no Jewish New Testament Commentary (1992) que a forma curta e literal foi quase sempre mal entendida e serviu de base a “uma teologia terrível”, como se Paulo condenasse a própria Torá. Para Stern, o que Paulo combate é a Torá pervertida em legalismo, e não a Lei dada por Deus. A tradução também troca os nomes gregos por formas hebraicas (Yeshua, Sha’ul, Kefa), um recurso que o próprio Stern chamou de “cosmético”, e chama a Carta aos Hebreus de carta “aos judeus messiânicos”.

Graça, livre escolha e perseverança

Stern não se apresentava como arminiano nem como calvinista. No comentário a Hebreus 6, chega a dizer que o autor da carta não queria “alimentar a controvérsia entre calvinistas e arminianos” de 1.500 anos depois, mas desviar os leitores dos sacrifícios de animais para o sacrifício de Yeshua. Mesmo assim, nos pontos em que as duas tradições se separam, ele ficou do lado arminiano, e por isso entra nesta série como simpatizante.

Quanto à predestinação, trata o assunto como uma antinomia, duas verdades que a Escritura afirma juntas sem que possamos conciliá-las por completo. Cita o rabino Akiva: “Tudo é previsto, e a liberdade de escolha é dada” (Pirkei Avot 3:15). Em João 6:37, vê a forma mais direta do paradoxo: o Pai deu certas pessoas a Yeshua, e “como descubro se sou uma delas? Vindo a Yeshua”. A pessoa tem liberdade de vir e a promessa de que não será rejeitada. Em Romanos 9:19-21, diz que Paulo não solta nenhum dos lados do paradoxo e leva o leitor à solução prática, chegar humildemente a Deus por meio de Yeshua, caminho que “não está fechado a ninguém”. Sobre o faraó, lembra com Rashi que ele teve cinco chances de se arrepender e endureceu o próprio coração antes que Deus confirmasse a sua decisão, e conclui que Deus “não endurece o coração de ninguém, a não ser o de um rebelde já decidido”, porque quer que todos se voltem para ele (Romanos 2:4; 2 Pedro 3:9).

Na perseverança, Stern é claro. Ao comentar Hebreus 6:4-6, faz um midrash, uma aplicação do texto, sobre a controvérsia e rejeita a segurança eterna incondicional. Diz que é possível definir “crente” de modo que nenhum crente jamais se desvie, mas então ninguém teria certeza de ser crente antes do fim da vida. Para ele, uma pessoa pode confiar no Messias tanto quanto sabe, experimentar todos os benefícios da fé “e ainda assim, mais tarde, cair”. Enquanto permanecer nesse estado, não pode ser renovada para o arrependimento, porque recusa tudo o que Deus já lhe deu. A segurança do crente, no Novo Testamento, vem por outro caminho, que Stern tira de 1 João 2:3: sabemos que conhecemos a Deus se guardamos os seus mandamentos. É a perseverança condicional, a doutrina de que o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, que os arminianos ensinam desde os remonstrantes e John Wesley.

Pecado original

No comentário a Romanos 5, Stern afirma o pecado original com força. A corrupção de Adão passa a todos os descendentes, e ele a compara a um raio cósmico que atinge os genes de um homem e produz uma mutação fatal e dominante, de modo que todos herdam a “doença congênita” da natureza pecaminosa. Essa corrupção atinge o ser humano inteiro: o homem caído pode fazer coisas úteis aos outros, mas nada que tenha valor espiritual diante de Deus. No mesmo comentário, ele rejeita como “posição arminiana” a ideia de que a corrupção não chegou à vontade e de que o homem pode vencer sozinho as suas inclinações pecaminosas. Essa descrição corresponde ao semipelagianismo, e não a Jacó Armínio, que na Declaração de Sentimentos disse que o homem caído não pode, por si mesmo, pensar, querer nem fazer o bem verdadeiro. Nesse ponto, o que Stern afirma coincide com o arminianismo clássico, como mostra o capítulo sobre o pecado original e a depravação total. No Manifesto, ele chega a desejar que as teorias de Armínio, de Cocceius e de Wesley sobre o pecado original fossem mais conhecidas nos meios judaicos, porque criam menos problemas intelectuais que as versões agostinianas.

Em relação à declaração de fé deste site, a diferença principal está na eleição. O site a explica como eleição condicional em Cristo, segundo a presciência de Deus de quem creria; Stern preferiu deixar a tensão entre predestinação e livre escolha sem resolver, como antinomia. Na perseverança condicional e no desejo de Deus de salvar a todos, os dois estão de acordo.

Obras principais

  • Messianic Jewish Manifesto (Jewish New Testament Publications, 1988)
  • Restoring the Jewishness of the Gospel (Jewish New Testament Publications, 1988)
  • Jewish New Testament: A Translation of the New Testament That Expresses Its Jewishness (Jewish New Testament Publications, 1989)
  • Jewish New Testament Commentary (Jewish New Testament Publications, 1992)
  • Complete Jewish Bible: An English Version of the Tanakh and B’rit Hadashah (Jewish New Testament Publications, 1998)
  • Colaboração em How Jewish Is Christianity?, organizado por Louis Goldberg (Zondervan, 2003)
  • Messianic Judaism: A Modern Movement with an Ancient Past, revisão do Manifesto (2007)

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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