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Dallas Willard: o filósofo de Los Angeles que chamou os cristãos de volta ao discipulado
Neste texto
Numa reunião no câmpus do Tennessee Temple College, em Chattanooga, na metade da década de 1950, dois estudantes que tinham se conhecido na biblioteca da escola oraram para se entregar inteiramente a Cristo. Eram Dallas Willard e Jane Lakes. Terminada a oração, o pregador R. R. Brown impôs as mãos sobre Dallas e orou por ele, e o rapaz perdeu os sentidos. Anos depois, Willard descreveu aquilo como ser envolvido por uma nuvem. O estudante pobre do interior do Missouri viraria professor de filosofia numa grande universidade americana e um dos autores cristãos mais lidos do seu tempo, para quem a vida eterna começa agora.
Vida
Infância no Missouri
Dallas Albert Willard nasceu em 4 de setembro de 1935 em Buffalo, no Missouri, filho de Albert Alexander Willard e de Maymie Lindesmith. A mãe morreu quando ele tinha dois anos. Cresceu na pobreza da Grande Depressão, foi separado dos irmãos e, quando o pai se casou de novo, ficou fora da casa da madrasta. Aos quatro anos seguiu os irmãos mais velhos até uma escola rural de uma sala só e passou a ler tudo o que encontrava.
A igreja da infância era batista, e o adolescente deu trabalho aos professores da escola dominical: não lhe parecia fazer sentido que quem “foi salvo” ficasse “preso a isso” para sempre. A avó, metodista, também deixou marca nele. Depois do ensino médio trabalhou na lavoura e lia Platão nas horas vagas.
Tennessee Temple, Baylor e o pastorado
Passou pelo William Jewell College, no Missouri, e se formou em psicologia em 1956 no Tennessee Temple College, escola batista de Chattanooga. Na biblioteca conheceu Jane Lakes, estudante de música de Macon, na Geórgia, com quem se casou em 25 de agosto de 1955, aos 19 anos. Tiveram dois filhos, John e Becky. Em 1957 Willard concluiu um segundo bacharelado, em filosofia e religião, na Universidade Baylor, em Waco, no Texas.
Foi ordenado ministro da Convenção Batista do Sul e trabalhou como pastor auxiliar. Saiu dessa experiência com a sensação de fracasso, convencido de que era “abismalmente ignorante” a respeito de Deus e da alma. Foi então que começou a ler John Wesley e Charles Finney, com o desejo de imitá-los. Meio século depois ainda dizia que o movimento wesleyano tinha sido a última grande irrupção do Reino de Deus no mundo ocidental.
A filosofia
No começo dos anos 1960 deixou o ministério pastoral para estudar filosofia. Contou mais tarde que sentiu Deus lhe dizer que, se ficasse nas igrejas, a universidade se fecharia para ele, mas que, se ficasse na universidade, as igrejas se abririam. Partia da convicção de que Jesus e os filósofos “tratavam das mesmas questões” e de que Jesus nunca pediria a ninguém que cresse em algo falso.
Doutorou-se em filosofia pela Universidade de Wisconsin-Madison em 1964, com uma tese sobre significado e universais nas Investigações lógicas de Edmund Husserl. Lecionou em Madison de 1960 a 1965 e nesse ano foi para a Universidade do Sul da Califórnia (USC), em Los Angeles, onde ficou 47 anos. Foi professor titular a partir de 1984 e dirigiu a Escola de Filosofia de 1982 a 1985. Defensor do realismo, levou cerca de quinze anos para escrever o livro sobre Husserl, Logic and the Objectivity of Knowledge (1984), que Jane chamava, brincando, de “a outra mulher”, e traduziu para o inglês escritos de juventude do filósofo alemão.
Woodlake Avenue e Richard Foster
Em 1970, Richard Foster, recém-saído do seminário, assumiu o seu primeiro pastorado numa pequena igreja quacre do Vale de San Fernando, a Woodlake Avenue Friends Church. Willard era membro dali e conduzia os cânticos, enquanto Jane tocava o órgão. Os dois se encontravam às vezes dia sim, dia não, para orar pela congregação no escritório da casa de Willard, e se revezavam no ensino. Willard deu séries sobre Atos, as disciplinas espirituais e o Sermão do Monte, que foi a semente de A conspiração divina. Foster lembra que, quando Willard falava, as pessoas traziam gravadores. Toda semana ele lia a Bíblia e orava com Tony, um operário da construção que tinha estudado até a terceira série. Foster resumiu aqueles anos dizendo que Willard “pastoreava do banco”.
Foster deixou a igreja em 1974, publicou Celebração da disciplina em 1978 e fundou o movimento Renovaré em 1988, com a participação de Willard.
O escritor
Willard começou a ensinar as disciplinas espirituais no início dos anos 1970, em igrejas que desprezavam a solidão, o silêncio e o jejum, e encontrou interesse em vez de resistência. Os livros vieram devagar: In Search of Guidance (1984), The Spirit of the Disciplines (1988) e A conspiração divina (1998), escrito por insistência de Jane e escolhido livro do ano pela revista Christianity Today. Também lecionou espiritualidade no Seminário Teológico Fuller e serviu nos conselhos da Fundação C. S. Lewis e da Universidade Biola.
Influenciou uma geração de pastores e professores, entre eles John Ortberg, James Bryan Smith, J. P. Moreland e John Mark Comer. Ortberg conta que, num tempo de muita pressão, perguntou a Willard o que fazer para ter saúde espiritual e ouviu, depois de um longo silêncio, que precisava eliminar impiedosamente a pressa da sua vida. Também reconhecia as próprias falhas: “não fui um marido nem um pai sábio, e isso nos custou caro”.
Os últimos dias
Em 2010 o Westmont College, em Santa Bárbara, criou o Centro Dallas Willard de Formação Espiritual, que em fevereiro de 2013 promoveu as conferências dele com Ortberg que viraram o livro Vivendo na presença de Cristo. Naquele ano veio o diagnóstico de câncer em estágio 4. O teólogo Gary Black Jr. passou as quatro últimas noites ao lado dele no hospital. Willard morreu em 8 de maio de 2013, no Hospital Kaiser de Woodland Hills, na Califórnia, aos 77 anos, poucos dias depois de tornar pública a doença. Gary Moon, diretor do centro, contou que as últimas palavras dele foram “obrigado”. Foster disse que “uma grande luz se apagou”.
Pensamento
O Reino ao alcance da mão
O centro do pensamento de Willard é o evangelho que Jesus pregou: a boa notícia de que o Reino de Deus, o “Reino dos céus”, está disponível agora a qualquer pessoa que confie nele. Em A conspiração divina ele define o reino de alguém como o alcance da sua vontade efetiva, o espaço em que o que ele quer de fato acontece. Jesus convida a viver desde já onde a vontade de Deus é feita. A mesma leitura do Reino presente aparece em George Eldon Ladd; veja também Reino de Deus e Igreja.
Contra isso, Willard põe o que chamou de “evangelhos da gestão do pecado”: mensagens que reduzem a fé a garantir o perdão, na direita, ou a corrigir males sociais, na esquerda, sem levar ninguém a viver com Jesus. “O que você apresenta como evangelho determina o que você apresenta como discipulado”, disse ao jornalista Andy Peck em 2002. Se o evangelho é só uma teoria da expiação aceita para ir para o céu, não sobra base para o discipulado. O novo nascimento é a entrada no Reino, e o perdão, que ele chamava de essencial, não é o pacote inteiro.
Graça, esforço e disciplinas
A frase mais citada de Willard é esta: “a graça não se opõe ao esforço, mas ao mérito”. Ele a explicou na mesma entrevista de 2002: mérito é uma atitude, esforço é uma ação, e sem esforço não se chega a lugar nenhum. A Jesus, que disse “sem mim nada podeis fazer” (João 15:5), Willard acrescentava o outro lado: se você não fizer nada, será sem ele.
Isso não fazia dele um defensor das obras como caminho para Deus. No artigo “Spiritual Disciplines, Spiritual Formation and the Restoration of the Soul” (1998), a restauração da alma começa pela graça: a verdade do evangelho vem de fora, produz convicção e leva a uma nova escolha de confiar em Deus. Em The Spirit of the Disciplines (1988), ele propõe uma teologia das disciplinas que respeite a verdade da Reforma, a salvação pela graça mediante a fé, e não por obras. Disciplinas são atividades ao nosso alcance que nos capacitam a fazer o que o esforço direto sozinho não alcança. Ele as dividia em disciplinas de abstinência (solidão, silêncio, jejum, frugalidade, castidade, segredo, sacrifício) e de engajamento (estudo, adoração, celebração, serviço, oração, comunhão, confissão, submissão).
Em Renovation of the Heart (2002), formação espiritual é o processo, conduzido pelo Espírito, em que o interior da pessoa vai tomando a forma do interior de Cristo. Ele descrevia o caminho com três passos, nesta ordem: visão, intenção e meios. É uma formulação próxima do que Wesley chamava de meios de graça, canais pelos quais Deus age e nunca méritos de quem os usa. Veja Disciplinas Espirituais e Santificação: a reforma interior que dura a vida inteira.
Entre calvinistas e arminianos
Willard se recusou a entrar num dos dois partidos. Quando o discípulo James Bryan Smith lhe perguntou quem tinha razão, os arminianos ou os calvinistas, respondeu: “Nenhum dos dois”; os dois acertavam e erravam em parte. A Peck disse que, no fundo da sua teologia, se acharia alguém “bastante calvinista”, mas explicou na sequência que o seu ministério mirava o inimigo do seu tempo, que era a passividade de quem acha que Deus fez tudo e só resta consumir a graça. Entre os autores que mais o formaram, citou Wesley, Baxter e Jeremy Taylor.
Por isso a sua classe nesta série é a de simpatizante. O perfil publicado pela Christianity Today em 2006 fala da sua “inclinação arminiana” e a liga à avó metodista e à crise de pastor jovem que o levou a Wesley. Os livros confirmam o rumo. Willard rejeitava a imagem de Deus como um grande “olhar cósmico que não pisca”, que nunca muda de ideia em nada, e em A conspiração divina (1998, p. 244) escreveu que a resposta de Deus às orações não é teatro: “nossos pedidos realmente fazem diferença no que Deus faz ou deixa de fazer”. Em conversas com Gary Black nos últimos dias, dizia que Deus não nos transforma sem a nossa escolha. Mas ele nunca escreveu uma doutrina da eleição nem adotou o nome de arminiano.
Onde ele se afasta
A diferença mais séria com o arminianismo clássico e com a declaração de fé deste site está no conhecimento de Deus. Em 2009, respondendo a Roger Olson, Willard disse aceitar “firmemente” que a onisciência é o poder de Deus de conhecer absolutamente tudo, mas acrescentou que Deus, por escolha própria, não conhece tudo o que poderia conhecer. Olson viu nisso uma versão do teísmo aberto, a ideia de que o futuro ainda não está todo definido nem mesmo para Deus. Willard recusou o rótulo, mas o teólogo brasileiro Franklin Ferreira também o chama de aderente do teísmo aberto. O arminianismo clássico, de Jacó Armínio a Wesley, afirma que Deus conhece de forma exaustiva todo o futuro, incluindo as decisões livres, e o site rejeita o teísmo aberto. Quem defende a liberdade humana sem abrir mão dessa presciência é Bruce Reichenbach; o tema está em Presciência, Eleição e Predestinação.
Há uma segunda diferença, menor. Willard descreve a santificação como um processo gradual, com a cooperação ativa do discípulo, e não ensina a inteira santificação como obra da graça recebida pela fé, que a declaração de fé do site afirma. No resto a convergência é grande: a graça vem primeiro, as disciplinas não compram nada, e Deus trata as pessoas como seres livres que podem responder ou recusar. Willard gostava de repetir que somos seres espirituais que nunca deixarão de existir, com um destino eterno no grande universo de Deus, e que a vida eterna começa agora, na companhia de Jesus.
Obras principais
- Logic and the Objectivity of Knowledge: A Study in Husserl’s Early Philosophy (1984)
- In Search of Guidance (1984), relançado como Hearing God (1999)
- The Spirit of the Disciplines: Understanding How God Changes Lives (1988)
- Edmund Husserl, Early Writings in the Philosophy of Logic and Mathematics (tradução, 1993)
- The Divine Conspiracy: Rediscovering Our Hidden Life in God (1998)
- Renovation of the Heart: Putting on the Character of Christ (2002)
- Edmund Husserl, Philosophy of Arithmetic (tradução, 2003)
- The Great Omission: Reclaiming Jesus’s Essential Teachings on Discipleship (2006)
- Knowing Christ Today: Why We Can Trust Spiritual Knowledge (2009)
- The Divine Conspiracy Continued (com Gary Black Jr., 2014)
- Living in Christ’s Presence (com John Ortberg, 2014)
- The Allure of Gentleness (2015)
- The Disappearance of Moral Knowledge (completado por Steven Porter, Aaron Preston e Gregg Ten Elshof, 2018)
Livros em português
- Ouvindo Deus: desenvolvendo um relacionamento de diálogo com Deus (Ultimato, 1999). Ver na Amazon
- O espírito das disciplinas: entendendo como Deus transforma vidas (Habacuc, 2003). Ver na Amazon
- A renovação do coração: assuma o caráter de Cristo (Mundo Cristão, 2007). Ver na Amazon
- Vivendo na presença de Cristo (com John Ortberg; Vida, 2016). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- A conspiração divina: redescobrindo nossa vida oculta em Deus (Thomas Nelson Brasil, 2021). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- USC Dornsife, “In Memoriam: Dallas Willard, 77” (2013).
- Christine A. Scheller, “A Divine Conspirator”, Christianity Today, setembro de 2006.
- Richard J. Foster, “How Dallas Willard Befriended Rookie Pastor Richard Foster”, Christianity Today, maio de 2013.
- Christianity Today, notícia da morte de Dallas Willard (8 de maio de 2013).
- Tina Fox, “Living a ‘with-God’ life”, Christian History, n. 129 (2019).
- Gary Black Jr., “Getting ready for heaven”, Christian History, n. 112 (2014).
- Dallas Willard, “Life in God’s Kingdom”, trecho de The Spirit of the Disciplines em Christian History, n. 129 (2019).
- Roger E. Olson, “R.I.P. Dallas Willard (and Was He an Open Theist?)”, Patheos, 15 de maio de 2013.
- Andy Peck, “Following Jesus and Living in the Kingdom”, entrevista com Dallas Willard, Renovaré (publicada antes em Christianity + Renewal, 2002).
- Modern Reformation, “Spiritual Disciplines and the Means of Grace”, entrevista com Dallas Willard, vol. 11, n. 4 (2002).
- Dallas Willard, “Spiritual Disciplines, Spiritual Formation and the Restoration of the Soul”, Journal of Psychology and Theology 26, n. 1 (1998).
- Dallas Willard, “Spiritual Formation: What it is, and How it is Done”, palestra.
- Adam Pelser, resenha de The Disappearance of Moral Knowledge, Notre Dame Philosophical Reviews (2019).
- “Willard, Dallas (Albert) 1935-”, Contemporary Authors, via Encyclopedia.com.
- Franklin Ferreira, “Uma avaliação da literatura de espiritualidade publicada no Brasil”, Gazeta do Povo, 2 de março de 2023.
- Gary W. Moon, Becoming Dallas Willard: The Formation of a Philosopher, Teacher, and Christ Follower (InterVarsity Press, 2018).
- “Dallas Willard”, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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