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Charles A. Thigpen: o decano que formou gerações de batistas do livre-arbítrio

Diego Gonçalves12 min de leitura2.477 palavras

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Neste texto

Em 1954, os delegados da National Association of Free Will Baptists, a convenção nacional dos batistas do livre-arbítrio, elegeram como moderador um pastor de 28 anos. Charles Allen Thigpen nunca tinha dirigido nada mais complicado que uma assembleia de igreja local, como ele mesmo contou rindo, anos depois. A solução foi típica dele: matriculou-se logo num curso de regras parlamentares dado por um advogado, para aprender a conduzir a convenção. Presidiu as assembleias nacionais por seis mandatos seguidos, até 1960, e foi o homem mais jovem a ocupar o cargo. Mas quase toda a sua vida adulta ele a passou numa sala de aula e num gabinete de decano em Nashville, na escola bíblica da denominação.

Vida

Da Carolina do Sul a Bob Jones

Charles Allen Thigpen nasceu em 26 de setembro de 1926, em Olanta, no interior da Carolina do Sul, filho de Jesse Allen e Mabel Thigpen. Os avós maternos, John e Stacia Thomas, marcaram a sua infância. A família era metodista, do ramo sulista, e foi num avivamento, aos 13 anos, que ele se converteu.

Aos 16 anos, a pedido dos pais, saiu de casa para estudar no Bob Jones College, onde os colegas começaram a chamá-lo de “Charlie”, apelido que o acompanhou pelo resto da vida. Formou-se em 1947, com bacharelado em Bíblia e preparo pastoral, e em 20 de junho do mesmo ano casou-se com Laura Jane Coker, a “Lolly”, de Turbeville, também na Carolina do Sul. O casamento durou 73 anos.

O metodista que se tornou batista do livre-arbítrio

Depois da formatura, Thigpen pastoreou uma igreja metodista do Sul em Tuscaloosa, no Alabama. Nesse tempo ele e Laura chegaram à conclusão de que eram mais batistas do livre-arbítrio do que metodistas e abraçaram a doutrina da denominação. Em 1948, L. C. Johnson, primeiro presidente do Free Will Baptist Bible College, aberto em Nashville em 1942 pela denominação herdeira dos batistas gerais ingleses do século XVII, convidou o casal para o corpo docente. Thigpen tinha acabado de fazer 22 anos.

Na escola, Thigpen ensinou história da igreja e educação cristã. Foi também decano dos rapazes (1948-1953) e secretário acadêmico (1949-1953). Laura ensinava oratória e teatro aos futuros pastores. Thigpen insistiu com o presidente Johnson para que o curso de dois anos virasse uma faculdade de quatro anos. Os primeiros diplomas de bacharelado saíram em 25 de maio de 1951. Em 1953 ele concluiu um mestrado na Winona Lake School of Theology, em Indiana.

Pastor em Michigan e moderador nacional

De 1953 a 1957, Thigpen pastoreou a Highland Park Free Will Baptist Church, na região de Detroit, em Michigan. Foi desse púlpito que ele escreveu, em fevereiro de 1954, um artigo sobre ética ministerial para a Contact, a revista da denominação, e que a igreja lançou, em julho de 1955, uma série trimestral de programas de televisão de meia hora. No mesmo período veio a eleição para moderador.

Vinte e dois anos de decano

Em 1957 Thigpen voltou para Nashville, agora de vez. Foi decano da escola de 1957 a 1979, a princípio acumulando a direção dos alunos e a direção acadêmica, depois só como decano acadêmico. Nesses anos liderou o processo de credenciamento junto à Accrediting Association of Bible Colleges, obtido em outubro de 1958. Negociou a aceitação dos créditos da escola por outras instituições e criou o programa de formação de professores, que permitia aos formados lecionar nas escolas públicas do Tennessee, sem tirar a Bíblia e a teologia do centro do currículo. Foi também mentor de professores que marcaram a escola, como F. Leroy Forlines, Robert Picirilli, Ralph Hampton e Mary Ruth Wisehart.

A formação acadêmica dele avançou devagar, nas férias e entre uma aula e outra. Fez um mestrado em psicologia na Middle Tennessee State University (1970) e ali mesmo, em 1975, um dos primeiros doutorados profissionais em artes (Doctor of Arts) dos Estados Unidos, em literatura inglesa. Quase trinta anos separaram o primeiro diploma do doutorado, porque a escola precisava dele na sala de aula.

Fora de Nashville, foi membro fundador da comissão de credenciamento da American Association of Bible Colleges (1974), presidiu essa comissão, participou de mais de trinta equipes de avaliação de outras escolas e presidiu a associação de 1984 a 1986.

Terceiro presidente

Em 1º de junho de 1979, quando L. C. Johnson se aposentou, Thigpen tornou-se o terceiro presidente da escola. A posse formal foi em 2 de outubro, diante de cerca de mil pessoas, com Robert Picirilli, então decano, conduzindo a cerimônia. O presidente do conselho de curadores, Randy Cox, deu a ele uma ordem curta: “Mantenha-a fiel”. No discurso de posse, reafirmou o objetivo da escola, a formação de obreiros cristãos.

Numa entrevista publicada pela Contact em 1979, disse que tinha aprendido a “ficar no meu lugar”: em 28 anos, nunca discordou em público do presidente nem do conselho. Prometeu uma pós-graduação da denominação, mas sem baixar o padrão da faculdade para criá-la, e pediu às igrejas três coisas: que orassem pela escola como oravam pelos missionários, que a divulgassem e que a sustentassem, “não por nós, mas pelos nossos filhos e filhas”.

A promessa foi cumprida no primeiro ano: a escola abriu o seu primeiro mestrado para ministros. No ano letivo de 1981-1982 a matrícula chegou a 648 alunos, a maior da história da instituição. Depois vieram os cursos de missões e de educação física, o primeiro time de basquete e os primeiros computadores para os alunos, em anos que estiveram entre os mais difíceis da escola. Em 1990 deixou a presidência e serviu um ano como chanceler. Saiu da escola em 1991, depois de 43 anos ligado a ela, e C. Thomas Malone o sucedeu na presidência.

Os últimos anos

De 1991 a 2006, Thigpen foi diretor de promoção da associação estadual dos batistas do livre-arbítrio do Tennessee. Durante décadas escreveu para a Randall House milhares de páginas de comentário bíblico para professores de escola dominical de adultos. Aos 80 anos ainda era pastor interino de uma igreja em Cedar Hill, no Tennessee. Em 2007 o casal mudou-se para a Geórgia, onde ele continuou pregando. Já com mais de oitenta anos, recebeu da Association for Biblical Higher Education, a antiga associação das faculdades bíblicas, o seu prêmio de liderança, que só oito pessoas receberam na história da entidade. “Meu coração sempre esteve no movimento das faculdades bíblicas”, disse ao recebê-lo.

Os Thigpens tiveram quatro filhos: Laura, Ann, Ruth e Jonathan. Jonathan, que foi presidente da Evangelical Training Association, morreu em 2001. No fim de 2020, Charles e Laura foram internados com covid-19. Laura morreu em 28 de dezembro, e Charles três dias depois, em 31 de dezembro de 2020, em Macon, na Geórgia, aos 94 anos. A escola, hoje chamada Welch College, prepara um centro de belas-artes com o nome do casal.

Pensamento

Um batista arminiano

Thigpen foi um batista arminiano, da tradição dos batistas do livre-arbítrio. Criado no metodismo, arminiano desde John Wesley, passou para os Free Will Baptists por convicção doutrinária e serviu a vida inteira sob a confissão deles, o Treatise of the Faith and Practices of the Free Will Baptists (1935), arminiana nos pontos centrais da salvação.

O Treatise afirma a depravação humana: depois da queda, os descendentes de Adão “não estão dispostos a obedecer a Deus, mas inclinados ao mal”, e ninguém pode tornar-se filho de Deus por bondade natural ou obra própria. Todos dependem da redenção de Cristo e da obra do Espírito, oferecidas a todo descendente de Adão. Cristo deu-se em sacrifício “pelos pecados do mundo”, sofrendo em nosso lugar, e assim tornou a salvação possível para todos (veja expiação para todos). O chamado do evangelho alcança todos, pela Palavra e pela ação do Espírito; é o que os arminianos chamam de graça preveniente, a graça que vem antes da resposta humana e a torna possível. A fé é dom e ato ao mesmo tempo: “o poder de crer é dom de Deus”, mas crer é ato da criatura, condição para o perdão, e não mérito. A eleição é condicional: pela fé em Cristo as pessoas se tornam eleitas de Deus (veja presciência, eleição e predestinação). E a perseverança é condicional: há “fortes motivos para esperar” que os regenerados perseverem até o fim, mas a salvação final deles não é determinada de antemão, e por isso devem vigiar para não naufragar na fé (veja a segurança da salvação).

Thigpen passou a vida como decano, administrador e pregador, e não como teólogo sistemático. A sua importância para o arminianismo está na escola que ele construiu: foi na faculdade que ele ajudou a credenciar e a transformar em curso de quatro anos que Forlines e Picirilli ensinaram por décadas e deram forma ao que hoje se chama arminianismo reformado (veja o arminianismo é reformado?). Em 1979, ao assumir a presidência, ele resumiu a missão da escola numa frase: “a nossa denominação é, em grande parte, produto desta escola”.

O ministério como chamado

O artigo de 1954, “Preaching and Practicing” (Pregar e praticar), parte do chamado: Deus chama ao ministério, e esse chamado é sagrado, “o mais alto chamado” que um ser humano pode receber, porque o pregador é embaixador de Cristo. A Bíblia é a regra “não só da fé, mas também da prática”, e por isso a ética entre ministros começa na regra de ouro de Mateus 7:12. O pastor novo deve continuar os planos do antecessor, sem falar mal dele, porque colherá o que o outro semeou, e é Deus quem dá o crescimento (1 Coríntios 3:6-8). E os ministros de outras denominações merecem respeito, porque os pastores não devem competir entre si, mas contra o mal que combatem. Thigpen chama de abomináveis a rivalidade e o ciúme profissional e condena o proselitismo com uma frase que cita de outro autor: o campo é o mundo, e não outra igreja.

A separação para Deus

Em “The Separation Principle” (O princípio da separação, 1979), Thigpen começa perguntando se separação significa coque para as mulheres, barba e chapéu preto para os homens, ou só uma lista de proibições. A resposta tem dois lados. Primeiro, o crente é separado “para” Deus, e isso acontece na conversão: Deus o reveste da sua justiça e lhe dá o Espírito Santo, numa união tão completa que quem se une ao Senhor é um só espírito com ele (1 Coríntios 6:17). Só então vem o segundo lado, a separação “do” mundo e do mal, como resposta ao que Deus fez. Por isso ele lê 2 Coríntios 6:14-18 como mandamento, e não como opção: quem foi transformado por Deus não pode se pôr sob o mesmo jugo dos que o fariam perder a identidade cristã.

A separação, para ele, também vale dentro da comunhão. Os crentes devem separar-se de quem abandona as verdades essenciais da Escritura, mas só depois de um esforço paciente para restaurá-lo, “com espírito de mansidão” (Gálatas 6:1). E o critério é um só: “tudo e todos devem ser medidos pela Palavra de Deus”, e nesse ponto não há lugar para manias e preferências pessoais. O artigo termina com a promessa do Pai em 2 Coríntios 6:17-18: “e eu vos receberei; e eu serei para vós Pai”.

A Escritura e a oração

Numa resenha de 2008 para Integrity, revista teológica da denominação, Thigpen escreveu que o maior valor dos manuscritos do mar Morto era confirmar que a Bíblia que temos é a Palavra de Deus: os rolos trouxeram textos do Antigo Testamento mil anos mais antigos que o texto massorético e mostraram que o hebraico foi transmitido com fidelidade. Já idoso, propôs aos pastores que usassem o anuário da denominação como roteiro de oração, como ele fazia toda semana, pedindo para cada pastor um novo enchimento do Espírito Santo, a salvação de almas e avivamento verdadeiro.

Onde nos encontramos e onde divergimos

Nos pontos centrais da salvação, a confissão que Thigpen serviu coincide com a declaração de fé deste site: depravação total, Cristo morto por todos e em nosso lugar, graça que vem antes da fé e pode ser resistida, fé que recebe sem merecer e perseverança condicional. O Treatise trata a santificação como crescimento contínuo na graça e não ensina a inteira santificação, a obra da graça posterior à regeneração, recebida pela fé, em que cremos como wesleyanos. E os batistas do livre-arbítrio só aceitam o batismo de crentes por imersão, enquanto a nossa declaração aceita também a aspersão. Sobre isso, veja batistas e metodistas: diferenças doutrinárias.

Obras principais

  • “Preaching and Practicing”, Contact (fevereiro de 1954).
  • English Programs in Church-Related Senior, Liberal Arts Colleges in Tennessee (tese de doutorado, Middle Tennessee State University, 1975).
  • “The Separation Principle”, Contact (junho de 1979).
  • Comentários para professores de escola dominical de adultos, nos livros Bible Teacher da Randall House (várias décadas).
  • Resenha de What Are the Dead Sea Scrolls and Why Do They Matter?, de David Noel Freedman e Pam Fox Kuhlken, Integrity: A Journal of Christian Thought 4 (2008).
  • “Praying Through the Yearbook”, ONE Magazine (c. 2011).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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