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Dave Hunt: O contador de Los Angeles que escreveu contra os cinco pontos do calvinismo

Diego Gonçalves13 min de leitura2.680 palavras

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Neste texto

Em 1985, dois leigos sem formação teológica publicaram pela Harvest House The Seduction of Christianity (“A sedução do cristianismo”). Um era Dave Hunt, contador formado em matemática que havia dirigido empresas em Los Angeles; o outro, o amigo T. A. McMahon. O livro acusava pregadores famosos de levar para as igrejas técnicas de visualização, a confissão positiva e uma psicologia centrada no eu. Vendeu mais de um milhão de exemplares e chegou a ser o livro cristão mais vendido dos Estados Unidos. A reação foi do mesmo tamanho: o pastor e apresentador Robert Schuller disse no rádio que o livro era “demoníaco, satânico, uma obra do diabo”. Hunt passaria os 28 anos seguintes no meio de controvérsias, e uma das últimas, já perto dos 80 anos, foi contra o calvinismo.

Retrato de Dave Hunt
Dave Hunt durante uma visita ao Canadá, em 24 de fevereiro de 2008. Foto de Dranrebedrali, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

Vida

Uma casa dos Irmãos de Plymouth

David Charles Haddon Hunt nasceu em 30 de setembro de 1926, em Riverside, na Califórnia, filho de Albert e Lillian Hunt, e cresceu com dois irmãos numa família devota dos Irmãos de Plymouth, movimento do século XIX ligado a John Nelson Darby, sem clero ordenado e dirigido por anciãos leigos. Os pais guardavam o domingo, e o pai não o deixava ler as tirinhas do jornal de domingo. No começo da adolescência, Hunt pôs a sua confiança em Jesus Cristo como Salvador e Senhor, e dizia que recebeu logo a certeza da salvação.

No fim da Segunda Guerra Mundial, serviu no Exército. Depois se formou em matemática na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), onde conheceu Ruth Klassen. Os dois se casaram em 1950, fizeram a lua de mel numa caminhada pela Sierra Nevada e tiveram quatro filhos: David, Janna, Karen e Jon. Hunt nunca estudou teologia em seminário; como era comum entre os Irmãos, aprendeu a Bíblia na assembleia e sozinho.

Contador, empresário e “herege”

Hunt trabalhou como contador público certificado e consultor de gestão e dirigiu várias empresas. Em casa, mantinha estudos bíblicos que alcançaram centenas de pessoas, e evangelizava nas universidades, sobretudo jovens judeus e estudantes estrangeiros.

Queria ser promotor de justiça, mas o plano acabou quando, como gerente-geral de uma madeireira e imobiliária em crise, ficou legalmente responsável pelas dívidas dela. Seguiram-se anos de quase falência e de livramentos que ele atribuiu à oração. Uma cura física, também em resposta à oração, o levou a abandonar o cessacionismo dos Irmãos, a doutrina de que dons como línguas e curas terminaram com os apóstolos. Passou a frequentar um grupo carismático que se reunia numa casa e a falar em línguas na oração particular. Os anciãos da sua assembleia o acusaram de heresia e o excluíram da comunhão. Ele contou a história no primeiro livro, Confessions of a Heretic (“Confissões de um herege”, 1972). Com os anos, concluiu que tinha interpretado mal aquelas experiências, deixou o livro sair de catálogo e, nos anos 1980, já via no movimento carismático mais perigos que proveito. Continuou ligado aos Irmãos pelo resto da vida.

Depois da exclusão, a família se mudou para a Europa e viveu alguns anos lá, inclusive na Suíça, e também no Egito. Nessa época Hunt levou Bíblias para dentro da União Soviética, quando isso era proibido.

O escritor

Em 1973, Hunt deixou os negócios para se dedicar só à escrita. Naquele ano escreveu o roteiro de Time to Run, filme da Associação Evangelística Billy Graham, cujo ecumenismo ele criticaria depois. Com o ex-brâmane Rabi Maharaj, de Trinidad, escreveu Death of a Guru (1977), a história da conversão de Maharaj do hinduísmo a Cristo. Vieram depois The Cult Explosion (1980) e, com o ex-mórmon Ed Decker, The God Makers (1984), tirado de um filme de 1982 sobre o mormonismo. Mórmons e também críticos não mórmons acusaram o livro e o filme de retratar o mormonismo de forma injusta.

Com A Sedução do Cristianismo, Hunt se tornou um nome nacional, e os ataques vieram de púlpitos, rádios e revistas. A Christianity Today publicou contra os autores um editorial e um artigo intitulado “Bem-vindos à Inquisição”. Pastores mandavam as igrejas não ler o livro, e reuniões em que Hunt falaria foram canceladas. Ele pediu por escrito que lhe mostrassem as citações tiradas de contexto, prometendo corrigi-las. “Tudo o que pedimos”, escreveu, “foi um reexame do ensino e das práticas atuais à luz da Escritura”. Voltou ao tema em Beyond Seduction (1987).

Depois escreveu sobre profecia bíblica, Israel e o fim dos tempos, em livros como Global Peace and the Rise of Antichrist (1990), How Close Are We? (1993) e A Cup of Trembling (1995), sobre Jerusalém. Em A Woman Rides the Beast (1994), identificou a Igreja Católica Romana com a mulher de Apocalipse 17 e 18. Ao todo foram mais de 40 livros, com pelo menos 4 milhões de exemplares vendidos em cerca de 50 línguas.

The Berean Call

Em 1992, Hunt fundou o ministério The Berean Call (“o chamado bereano”), nome tirado dos judeus de Bereia, que examinavam as Escrituras todos os dias para ver se o que Paulo dizia era verdade (Atos 17:11). O ministério, sediado em Bend, no Oregon, onde Hunt e Ruth foram morar, publica um boletim mensal gratuito, livros e vídeos. No mesmo ano, Hunt foi um dos fundadores do Pre-Trib Research Center, criado por Thomas Ice e Tim LaHaye para defender o arrebatamento da igreja antes da Grande Tribulação. De 1999 a 2010, apresentou com McMahon o programa de rádio Search the Scriptures Daily, transmitido por mais de cem emissoras.

Hunt gostava de pescar e evangelizava os vizinhos de poltrona nos aviões. Thomas Ice, que discordava dele sobre o calvinismo sem deixar de ser seu amigo, guardava uma foto de Hunt diante de um hotel do mar Morto chamado Golden Tulip, “Tulipa Dourada”. A piada era fácil: TULIP é a sigla em inglês dos cinco pontos do calvinismo.

Depois de uma série de doenças, Dave Hunt morreu em Bend, em 5 de abril de 2013, aos 86 anos, com Ruth ao lado. Ruth morreu no mesmo ano, e McMahon continuou à frente do ministério.

Pensamento

Onde ele fica

Classe: simpatizante. Hunt rejeitou o calvinismo em quatro dos cinco pontos, mas recusou o nome de arminiano. Numa resposta aos leitores do boletim, em agosto de 2000, escreveu: “quem rejeita o calvinismo não é necessariamente arminiano. Muitos não calvinistas creem na segurança eterna, mas se opõem ao calvinismo por outras razões”. Ele era um desses: vinha dos Irmãos de Plymouth, era dispensacionalista (lia a história bíblica como uma sucessão de etapas, com promessas próprias para Israel e para a igreja) e defendia a segurança eterna do crente. A sua posição fica perto da de C. Gordon Olson, que buscou um caminho entre o calvinismo e o arminianismo, e da dos batistas do Sul que rejeitaram os cinco pontos, como Adrian Rogers e Jerry Vines. Mesmo assim, não considerava o calvinismo de cinco pontos um “falso evangelho”, embora o julgasse antibíblico.

What Love Is This?

A crítica dele está em What Love Is This? Calvinism’s Misrepresentation of God (“Que amor é este? A distorção de Deus pelo calvinismo”), de 2002, revisto em 2004 e 2006. Os capítulos históricos tratam de Calvino, Agostinho e Armínio, e o argumento é que Calvino herdou de Agostinho a doutrina da predestinação, herança que corrompeu a teologia do reformador (p. 51).

O centro do livro é o caráter de Deus. Para Hunt, a questão “é se Deus ama a todos sem parcialidade e deseja que todos sejam salvos” (p. 301-302). Se o Senhor não quer “que alguns se percam” (2 Pedro 3:9) e preparou o fogo eterno “para o diabo e seus anjos” (Mateus 25:41), que amor seria esse que pode salvar todos e escolhe deixar muitos se perderem? Por isso Hunt lia “todos”, “o mundo” e “quem quiser” no sentido comum das palavras. A expiação limitada, dizia, cai diante de 1 João 2:2, onde Cristo é a propiciação “pelos pecados do mundo inteiro”, e a morte de Cristo não pode ter pago só pelos eleitos, porque pagou a pena do próprio pecado (p. 251).

Em 2004, Hunt e o apologista reformado James White publicaram Debating Calvinism: Five Points, Two Views (Multnomah), em que se alternam em capítulos de afirmação e réplica. Contra a fé como dom dado só aos eleitos, Hunt respondeu que, “mesmo que a fé fosse um dom, um dom precisa ser recebido e usado” (p. 212).

Depravação, graça e escolha

Hunt nunca negou a necessidade da graça. Em What Love Is This? escreveu: “Sim, o homem é totalmente incapaz de contribuir com um iota para a sua salvação” (p. 121). Recusava, porém, a conclusão calvinista de que a depravação equivale a incapacidade de crer: “daí não se segue que ele não possa receber a salvação gratuitamente oferecida em Cristo”. Na resposta de 2000, foi mais preciso: “É bíblico que não podemos vir a Deus ou a Cristo a menos que ele nos atraia pelo seu Espírito”. A pergunta, para ele, era se, quando Deus atrai, a pessoa responde de verdade ou se a resposta lhe é imposta por uma “graça irresistível”. E perguntava: quem diria que alguém vem a Deus “sem a assistência” do Espírito Santo? “Nem o mais extremado arminiano!” (p. 369).

Para mostrar o que via de errado na graça irresistível, Hunt usou uma imagem. Se eu seguro uma corda nove metros acima de um homem no fundo de um poço, imploro que ele a agarre e depois o repreendo por não agarrá-la, ele vai pensar que estou zombando dele. Assim ficariam as súplicas de Deus pelos profetas, o choro de Jesus sobre Jerusalém (“quantas vezes eu quis ajuntar os teus filhos […] e vós não quisestes”, Mateus 23:37) e o “escolhei hoje a quem sirvais” de Josué 24:15, se o pecador só pudesse recusar e Deus retivesse a graça de que ele precisa. Crer, insistia, não é obra nem mérito (p. 190-191).

Aqui está a principal distância entre Hunt e o arminianismo clássico. Jacó Armínio e John Wesley afirmavam a depravação total com a mesma força que Calvino: depois da queda, a vontade está morta para o bem e só é libertada pela graça preveniente, a graça que vem antes da fé, alcança todas as pessoas e as torna capazes de crer. Hunt chegava perto disso quando falava do Espírito que convence e atrai todos, mas tratava a capacidade de escolher mais como um dado da criação do que como fruto da graça que liberta. A declaração de fé deste site fica com Armínio: incapacidade real e uma graça resistível que capacita a todos.

Segurança eterna

A outra diferença é a perseverança. Hunt dizia que pensava ser “pelo menos um calvinista de um ponto” (p. 377), até concluir que a perseverança dos santos, no calvinismo, apoia a certeza nas boas obras. Para ele, “a segurança bíblica da salvação não depende do desempenho de cada um, mas da declaração do evangelho” (p. 377), e o próprio Armínio teria crido na segurança eterna. Na Declaração de Sentimentos, de 1608, Armínio afirmou que nunca ensinou que o verdadeiro crente pode cair da fé, mas reconheceu passagens da Escritura que parecem apontar nessa direção e deixou a questão em aberto; a Remonstrância de 1610 pediu que ela fosse examinada. Os remonstrantes posteriores e Wesley ensinaram a perseverança condicional, posição da declaração de fé deste site: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e a fé pode ser abandonada (João 15:4-6; Hebreus 3:12-14).

Há ainda a escatologia. Hunt foi um dos maiores divulgadores do arrebatamento a qualquer momento, que chamava de “bendita esperança” (Tito 2:13), e a declaração de fé deste site é amilenista. As razões de Armínio e de Wesley contra o calvinismo estão em Por que Armínio rejeitou o calvinismo? e Por que John Wesley rejeitou o calvinismo?.

Obras principais

  • Confessions of a Heretic (Logos International, 1972)
  • Death of a Guru, com Rabi Maharaj (Holman, 1977)
  • The Cult Explosion (Harvest House, 1980)
  • The God Makers, com Ed Decker (Harvest House, 1984)
  • The Seduction of Christianity: Spiritual Discernment in the Last Days, com T. A. McMahon (Harvest House, 1985)
  • How Close Are We? (Harvest House, 1993)
  • A Woman Rides the Beast: The Roman Catholic Church and the Last Days (Harvest House, 1994)
  • In Defense of the Faith (Harvest House, 1996)
  • What Love Is This? Calvinism’s Misrepresentation of God (Loyal, 2002; The Berean Call, 2004 e 2006)
  • Debating Calvinism: Five Points, Two Views, com James White (Multnomah, 2004)
  • Cosmos, Creator and Human Destiny (The Berean Call, 2010)

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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