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HistóriaTeólogos arminianos18 de 149

Charles John Ellicott: O bispo de Gloucester que presidiu a revisão do Novo Testamento

Diego Gonçalves12 min de leitura2.400 palavras

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Neste texto

Numa segunda-feira de fevereiro de 1860, o trem rápido que saíra de Cambridge às sete da manhã se aproximava da estação de Tottenham, perto de Londres, quando o aro de uma roda da locomotiva se partiu. A máquina bateu na plataforma e tombou, e os dois vagões seguintes se despedaçaram. Entre os feridos estava um professor de 40 anos, a caminho das aulas no King’s College: uma perna quebrada, o tornozelo da outra deslocado, ferimentos na cabeça e queimaduras de vapor no braço direito. Tirado dos destroços, ele segurava numa das mãos os manuscritos que levava. Com a outra, tirou do bolso o livro de orações e leu, sobre os passageiros que morriam ao redor, a oração de encomendação dos moribundos. Chamava-se Charles John Ellicott. Mancou pelo resto da vida, foi bispo de Gloucester por 42 anos e presidiu durante uma década a comissão que revisou o Novo Testamento da Bíblia inglesa de 1611.

Retrato de Charles John Ellicott
Charles John Ellicott, bispo de Gloucester e Bristol, fotografado por Herbert Rose Barraud antes de 1888. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Rutland e Cambridge

Ellicott nasceu em 25 de abril de 1819 em Whitwell, aldeia do condado de Rutland, perto de Stamford. Era o único filho homem do reverendo Charles Spencer Ellicott, pároco do lugar, e de Ellen, galesa, filha de John Jones.

Estudou nas escolas de Oakham e de Stamford e entrou no St John’s College, em Cambridge, em 1837. Ganhou a bolsa Bell, da universidade, e presidiu a Union, o clube de debates, em 1839. Nos exames finais de 1841 ficou na segunda classe, em matemática e em letras clássicas, mas ganhou o prêmio Hulse de 1843 com um estudo sobre a história e a obrigação do sábado. Em 1845 foi eleito fellow do colégio, foi ordenado diácono em 1846 e presbítero em 1847.

Pilton e os comentários de Paulo

Em 1848 casou-se com Constantia Annie Becher, filha do almirante Alexander Becher. O casamento encerrou o vínculo de fellow, e Ellicott aceitou a pequena paróquia de Pilton, em Rutland. Ali nasceram os filhos: Arthur, que seria juiz, e duas filhas, entre elas a compositora Rosalind Ellicott. Em 1854 saiu o comentário a Gálatas, o primeiro de uma série sobre as cartas de Paulo: Efésios (1855), as Pastorais (1856), Filipenses, Colossenses e Filemom (1857) e Tessalonicenses (1858). O de 1 Coríntios só sairia em 1887, e os de Romanos e 2 Coríntios nunca foram concluídos.

Os comentários traziam no título a expressão “crítico e gramatical”, e a palavra descrevia o método. Ellicott tomava como base a gramática do grego do Novo Testamento de Georg Benedict Winer e se ocupava da força exata de cada tempo verbal, de cada preposição e da ligação lógica das frases. Até os livros de Joseph Barber Lightfoot começarem a aparecer, esses comentários foram considerados os melhores em língua inglesa sobre Paulo.

Em 1851 Ellicott resenhou com dureza o Novo Testamento grego de Henry Alford. Depois se arrependeu do tom, mandou a Alford o seu Gálatas, e o presente abriu uma amizade que durou até a morte de Alford, em 1871.

Londres, Cambridge e o acidente

Em 1858 Ellicott deixou Pilton para suceder Richard Chenevix Trench como professor de exegese do Novo Testamento no King’s College de Londres. Em 1859 pregou em Cambridge as palestras Hulse sobre a vida de Cristo, publicadas em 1860 como Historical Lectures on the Life of Our Lord Jesus Christ, um dos seus livros mais lidos. Narrar a Paixão no tom da história comum lhe parecia “pouco menos que profanação”. Em 1860 assumiu a cadeira Hulse de teologia em Cambridge, sem largar o King’s College.

O acidente de Tottenham aconteceu nesse ano. Alford, ao saber da notícia, deu o amigo por morto. Ellicott telegrafou à companhia ferroviária dizendo que passava bem, e ela lhe deu um passe vitalício entre Londres e Cambridge. A perna nunca se recuperou de todo, o que não o impediu de patinar no gelo e de subir os Alpes: em 1890, fez uma excursão amarrado à mesma corda que o arcebispo Edward White Benson e o físico John Tyndall.

Exeter, Gloucester e Bristol

Em 1861 Ellicott foi nomeado deão da catedral de Exeter. No mesmo ano escreveu para Aids to Faith, resposta a Essays and Reviews, livro de teólogos liberais que tinha abalado a Igreja da Inglaterra; o ensaio dele rebatia o de Benjamin Jowett sobre a interpretação da Escritura. Em 25 de março de 1863 Ellicott foi sagrado na catedral de Cantuária bispo das dioceses unidas de Gloucester e Bristol.

O episcopado durou 42 anos. Em 1864 havia na diocese vinte igrejas com um só culto aos domingos e mais de sessenta párocos que celebravam a Ceia só quatro vezes por ano; em 1874 Ellicott pôde informar que o trabalho das igrejas tinha dobrado e que as igrejas de um culto só tinham desaparecido. Em Bristol levantou 85 mil libras para restaurar a catedral, que estava sem nave, e em Gloucester ajudou a fundar um colégio teológico.

Fora da diocese, a influência foi grande. Em 1868, quando morreu o arcebispo Longley, Disraeli o queria em Cantuária, mas a rainha Vitória preferiu Archibald Campbell Tait. Ellicott foi secretário das conferências de Lambeth de 1867, 1878 e 1888, e registrador da de 1897, o único bispo inglês presente nas quatro.

Em 1897, com o acordo dele, as duas dioceses foram separadas. Ellicott ficou com Gloucester e abriu mão de 900 libras da sua renda. Renunciou em 25 de março de 1905, quando completava 42 anos de sagração, e morreu em 15 de outubro do mesmo ano em Birchington-on-Sea, no condado de Kent, onde foi sepultado. A catedral de Gloucester lhe dedicou uma estátua jacente.

A revisão da Bíblia inglesa

De tudo o que fez, Ellicott se orgulhava mais da revisão da Bíblia. Em 1856, no prefácio às Pastorais, defendia uma revisão da versão de 1611, e não uma tradução nova, e em 1857 foi um dos “cinco clérigos” que revisaram o Evangelho de João. Em 10 de fevereiro de 1870 apoiou na Convocação de Cantuária a proposta de Samuel Wilberforce que deu início à revisão oficial.

A comissão do Novo Testamento começou o trabalho em 22 de junho de 1870, depois de uma Ceia na abadia de Westminster que reuniu revisores de várias denominações, entre eles um unitarista, George Vance Smith. A presença de alguém que negava a divindade de Cristo provocou uma tempestade, e Ellicott defendeu aquela comunhão. A comissão se reunia na Câmara de Jerusalém, na abadia: foram 407 dias de sessão em dez anos, e o presidente faltou a dois. Ellicott apresentou o Novo Testamento revisado à Convocação em 17 de maio de 1881 e, em 1896, os livros apócrifos.

A revisão foi atacada com dureza, sobretudo pelo deão John William Burgon, que acusou os revisores de terem feito mudanças demais e de terem adotado o texto grego de Brooke Foss Westcott e Fenton John Anthony Hort. Ellicott respondeu em abril de 1882 com um panfleto em defesa dos revisores, e Burgon replicou com 150 páginas em The Revision Revised (1883). Em 1901 ainda chamava a revisão de “o maior movimento espiritual desde a Reforma”.

O comentário para leitores ingleses

Em 1878 Ellicott começou a dirigir The Old and New Testaments for English Readers, com colaboradores como Edward Plumptre e William Sanday. O Novo Testamento saiu em três volumes (1878-1879), o Antigo em cinco (1882-1884). A obra levava a erudição dos comentários técnicos ao leitor sem grego nem hebraico, foi reimpressa ao longo do século XX como Ellicott’s Commentary on the Whole Bible e ainda é citada, por exemplo, nos estudos sobre a pedra do Templo que barrava o estrangeiro.

Nos anos finais, Ellicott reagiu à alta crítica do Antigo Testamento. Em Christus Comprobator (1891), escrito depois do volume Lux Mundi, argumentou que o modo como Jesus usou o Antigo Testamento garante a sua história e autoria, e que a leitura que dividia os livros em fontes posteriores, se aceita por inteiro, mudaria também a doutrina. Em Are We to Modify Fundamental Doctrine? (1885) argumentou que uma teoria da evolução aplicada à origem moral do homem apagaria a Queda, e com ela a razão da Encarnação e da expiação: se o homem progride sem limite, por que o Filho de Deus desceria do céu?

Pensamento

Onde Ellicott fica no arminianismo

Ellicott se via como anglicano do “partido do centro”, apegado à Reforma e à igreja antiga. Nos comentários, recusou de modo explícito três pontos centrais do calvinismo de Dort: a expiação limitada, a eleição irrevogável e a graça irresistível. Apoiou-se nos anglicanos do século XVII que tinham seguido o caminho de Armínio, como Henry Hammond, Isaac Barrow e Thomas Jackson, e chegou a citar as Instituições teológicas de Simão Episcópio. Por isso fica entre os simpatizantes do arminianismo, na linha anglicana a que também pertenceu Jeremy Taylor.

Redenção universal e condicional

O texto mais claro está na nota a 1 Timóteo 2:4, no comentário às Pastorais. Ellicott condena tanto as tentativas de restringir o “todos” do versículo, como a de Teodoro de Beza, quanto o universalismo, que esquece a perdição eterna. Deus quer a salvação de todos, e todos foram tornados salváveis por Jesus Cristo. Se alguns não se salvam, a causa não está num limite da vontade de Deus, mas na recusa humana dos meios que Deus estabeleceu. E resume: “a redenção é universal, mas condicional; todos podem ser salvos, mas nem todos serão salvos”, porque nem todos aceitam as condições que Deus fixou. É a doutrina arminiana da expiação para todos.

A graça vem primeiro

Ellicott não deu ao livre-arbítrio o papel de começar a salvação. Na nota a Filipenses 2:13 (“Deus é quem opera em vós tanto o querer como o realizar”), atribui o querer à graça preveniente, a graça que vem antes, e diz que só a ela se deve “o primeiro e mais fraco movimento da vontade melhor”. O realizar vem da graça cooperante, “não por forças nativas, mas dadas”. E conclui que o versículo é, de um lado, um protesto contra o pelagianismo e, de outro, pela sua linguagem cuidadosa e pela ligação com o versículo 12, um protesto contra “as doutrinas de Dort da eleição irrevogável” e da graça “quase compulsória”.

O versículo anterior manda operar a salvação “com temor e tremor”. Ellicott explica que o temor nasce “da grandeza da obra e da possibilidade de fracasso”. O crente é chamado a perseverar, e a perseverança não está garantida de antemão. A graça salva, e a recusa humana condena, como se vê em Arminianismo: é tudo sobre a graça.

Eleição em Cristo

Em Efésios 1:4 (“nos escolheu nele antes da fundação do mundo”), Ellicott lê “nele” como “em Cristo, cabeça e representante da humanidade espiritual, como Adão foi o representante da humanidade natural”. A escolha não é necessariamente de indivíduos, e o amor de Deus é o princípio que move a predestinação.

Num ponto ele se afasta de Armínio. Na nota a Tito 1:1, com base em Atos 13:48, escreve que “a eleição não é consequência da fé, mas a fé é consequência da eleição”. Armínio, no quarto decreto da Declaração de Sentimentos, fundou a eleição das pessoas na presciência de Deus de quem creria e perseveraria. Ellicott não ligou essa frase à reprovação nem à graça irresistível, que rejeitou em Filipenses; ela é a marca de um anglicano moderado, mais perto do artigo 17 dos Trinta e Nove Artigos, sobre a predestinação, do que do sistema remonstrante.

Diferenças com a tradição wesleyana

Ellicott coincide com o arminianismo wesleyano na expiação universal, na graça preveniente que precede toda boa vontade, na graça resistível e na recusa do pelagianismo. Não era wesleyano e não ensinou a inteira santificação. Nas últimas coisas, afirmou em 1885 a separação “final e eterna” entre bons e maus; em 1903, na última carta pastoral, admitiu que a ideia da paternidade de Deus tinha mudado o tom da pregação sobre a vida futura.

Obras principais

  • The History and Obligation of the Sabbath (1844).
  • A Treatise on Analytical Statics (1851).
  • Comentários críticos e gramaticais a Gálatas (1854), Efésios (1855), Pastorais (1856), Filipenses, Colossenses e Filemom (1857), Tessalonicenses (1858) e 1 Coríntios (1887).
  • The Destiny of the Creature, and Other Sermons, sermões em Cambridge (1858).
  • Historical Lectures on the Life of Our Lord Jesus Christ, palestras Hulse de 1859 (1860).
  • Ensaio sobre a interpretação da Escritura em Aids to Faith (1861).
  • Considerations on the Revision of the English Version of the New Testament (1870).
  • Modern Unbelief (1877) e Some Present Dangers of the Church of England (1878).
  • A New Testament Commentary for English Readers, como editor (1878-1879), e An Old Testament Commentary for English Readers (1882-1884).
  • The Revisers and the Greek Text of the New Testament (1882).
  • Are We to Modify Fundamental Doctrine? (1885).
  • Christus Comprobator, or the Testimony of Christ to the Old Testament (1891).
  • Our Reformed Church and Its Present Troubles (1897).
  • Addresses on the Revised Version of Holy Scripture (1901).
  • Sermons at Gloucester (1905).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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