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HistóriaTeólogos arminianos17 de 149

Charles M. Cameron: O pastor escocês que pediu para ler Armínio antes de julgá-lo

Diego Gonçalves12 min de leitura2.331 palavras

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Neste texto

Em julho de 1992, a revista britânica The Evangelical Quarterly publicou um artigo com uma pergunta no título: “Arminius: Hero or Heretic?”, isto é, Armínio, herói ou herege? A nota da redação admitia que muitos leitores responderiam “herege” sem pensar duas vezes e apresentava o autor como ministro da igreja de St Ninian, em Dunfermline, na Escócia. Charles M. Cameron, pastor da Igreja da Escócia, de tradição presbiteriana e calvinista, propunha algo simples: antes de responder, ler o que Jacó Armínio realmente escreveu. O artigo passou a ser citado por estudiosos arminianos. Seis anos depois, Robert Picirilli abriu um artigo na mesma revista lembrando a frase de Cameron que resumia tudo: Armínio é “um teólogo em grande parte incompreendido”.

Vida

Formação em Glasgow e em Michigan

Charles Millar Cameron formou-se bacharel em artes e em divindade (B.A. e B.D.) e seguiu depois para o doutorado na Faculdade de Divindade da Universidade de Glasgow, com bolsa da própria faculdade e orientação do professor A. D. Galloway. Foi Galloway quem o empurrou para um problema em vez de um simples resumo de autores. Cameron conta, nos agradecimentos da tese, que o orientador sabia distinguir um levantamento descritivo de uma tese de verdade, construída a partir de um ponto de vista próprio, e que essa exigência pesou na escolha do tema.

O tema foi a polarização na teologia, estudada a partir da obra de G. C. Berkouwer (1903-1996), professor da Universidade Livre de Amsterdã e autor dos Estudos em Dogmática, que em inglês chegaram a treze volumes. Para se aprofundar em Berkouwer, Cameron passou o ano letivo de 1978-1979 no Western Theological Seminary, em Holland, Michigan, nos Estados Unidos, seminário da Igreja Reformada na América, com o apoio da Aliança Reformada Mundial.

O pastorado em Dunfermline

Em 1980, a congregação de St Ninian, em Dunfermline, no condado de Fife, chamou Cameron para ser o seu ministro. A igreja sabia que ele estava comprometido com uma pesquisa de doutorado que lhe tomaria parte do tempo, e o chamou assim mesmo. A tese foi escrita no meio do trabalho da paróquia. Uma professora da congregação datilografou quase duzentas páginas, até que um acidente de carro a impediu de terminar.

A tese, The problem of polarization: An approach based on the writings of G. C. Berkouwer, foi apresentada em outubro de 1983 e lhe deu o doutorado (Ph.D.). Em 1992 saiu em livro de 616 páginas pela Edwin Mellen Press, como segundo volume da série Rutherford Studies in Contemporary Theology. O Scottish Bulletin of Evangelical Theology chamou Cameron de “intérprete justo e criterioso” do grande teólogo holandês.

Em Dunfermline, Cameron também escreveu muito. Entre 1988 e 1997 Cameron publicou uma resenha na Reformed Review, a revista do seminário de Michigan, que por engano saiu em dois números seguidos, artigos na Evangelical Quarterly sobre Armínio (1992) e sobre Karl Barth como pregador (1994), e uma série de textos na Evangel, revista evangélica britânica que o apresentava como colaborador regular: sobre a teodiceia, isto é, a pergunta de como o Deus bom permite o mal (1992), sobre o orgulho e a fé nos Estudos em Dogmática de Berkouwer (1994), sobre o uso da Bíblia na pregação evangélica (1995) e sobre o pluralismo religioso de John Hick (1997). A Evangelical Quarterly o descrevia como um ministro de paróquia com interesse especial pela teologia moderna, e essa combinação marca tudo o que ele escreveu.

Castlemilk e os últimos escritos

Em 1998, Cameron deixou Dunfermline para assumir a paróquia de Castlemilk West, num grande conjunto habitacional da periferia sul de Glasgow, construído no pós-guerra. Em 2005 voltou às páginas da Evangel com “An Introduction to ‘Theological Anthropology’”, uma introdução à antropologia teológica, o estudo do ser humano a partir da revelação de Deus. O texto parte da convicção de que a pessoa humana foi criada à imagem de Deus e defende que, numa época pós-cristã e pós-moderna, a teologia precisa da coragem de dizer o que poucos comentaristas da vida humana estão dizendo.

Pensamento

A teologia que não se deixa partir ao meio

A palavra-chave de Cameron é polarização. Ele chama assim a tendência de a teologia se dividir em pares de alternativas que se excluem: a Escritura como palavra de Deus ou como palavra humana, a graça ou a fé, a evangelização ou o diálogo entre as igrejas, a apologética ou a pregação, o anúncio do evangelho ou a preocupação social. Com Berkouwer, ele vê na raiz de muitas dessas brigas o que chama de “motivo da competição”: imaginar a soberania de Deus e a liberdade humana como rivais, de modo que tudo o que se dá a uma seria tirado da outra. Para Cameron, a graça de Deus não compete com a resposta humana; ela a cria e a sustenta.

A tese tinha um alvo prático. Cameron queria uma teologia evangelística: “Uma teologia que não leva à evangelização fica distante tanto do evangelho de Deus quanto da necessidade dos homens” (The problem of polarization, 1983). E, ao contrário, uma evangelização sem reflexão teológica tende a ficar superficial e repetitiva. Ele chamava de “evangelização que ensina” o caminho entre os dois extremos.

Predestinação sem decreto escondido

O capítulo da tese sobre a doutrina da graça trata da predestinação. Cameron segue Berkouwer na recusa de um decreto oculto por trás da revelação de Deus em Cristo. Separar a eleição do amor de Deus em Cristo é perigoso, porque depois não se consegue mais juntar as duas coisas. A eleição é “em Cristo” (Efésios 1:4), e é em Cristo, o espelho da eleição, que o pecador fica sabendo o que Deus quer para ele.

O argumento mais próprio de Cameron está na comparação entre dois sistemas opostos. O escolasticismo reformado, que ensina a eleição e a reprovação como destino fixado de antemão, e o universalismo, que ensina que no fim todos serão salvos, têm o mesmo defeito: os dois deixam o passado eterno decidir o futuro e esvaziam o presente, o momento em que o evangelho é pregado e a pessoa é chamada a crer. O particularismo enfraquece o “todo aquele” da promessa (João 3:16; Romanos 10:13). O universalismo enfraquece a advertência do evangelho (Mateus 18:3; João 3:3). Cameron gosta de citar a resposta de Jesus a quem perguntou se seriam poucos os que se salvam: “Esforcem-se para entrar pela porta estreita” (Lucas 13:23-24). Com Berkouwer, ele lê ali a resposta definitiva à pergunta, porque devolve o ouvinte ao chamado que tem diante de si.

Armínio lido por um reformado

O artigo de 1992 percorre os cinco pontos do calvinismo, fixados no Sínodo de Dort (1618-1619), e compara cada um com o que Armínio escreveu, apoiado sobretudo na biografia de Carl Bangs. Cameron insiste que Armínio não foi um teólogo do livre-arbítrio contra a graça. Para Armínio, a vontade humana no pecado está “aprisionada, destruída e perdida” (Disputas públicas XI) e não tem nenhum poder para o bem a não ser o que a graça desperta. A graça é necessária para o começo, a continuação e a consumação da fé, e a fé não é obra que mereça a salvação. Cameron conclui, com Bangs, que poucos dos que depois se chamaram arminianos aceitariam uma posição tão forte sobre o pecado.

Sobre a eleição, Cameron mostra que Armínio afirma a predestinação: Deus decretou, desde a eternidade e em Cristo, justificar e salvar os que creem. Na leitura que Armínio faz de Romanos 9, Esaú representa os que buscam a justiça pelas obras, e Jacó os que a buscam pela fé, e Cameron aproxima essa leitura da de Herman Ridderbos, exegeta reformado do século XX. Aqui ele também discorda de Armínio. Quando Armínio funda a eleição dos indivíduos na fé que Deus viu de antemão, Cameron acha que ele aplica uma ordem de tempo à eternidade. Prefere ler “presciência” (Romanos 8:29; 1 Pedro 1:2) com os textos em que “conhecer” quer dizer “amar”: Deus nos amou muito antes de pensarmos em amá-lo.

No ponto da expiação, Cameron segue Armínio sem reservas. Deus ama todos os pecadores, e Cristo morreu pelos pecados do mundo inteiro (1 João 2:2). Disso ele tira uma regra para a pregação. Ao pecador se diz “você é amado por Deus”. Ao que crê se diz “você foi perdoado”. Numa resenha de 1988 ele já tinha formulado a ordem: antes da cruz, Deus quer perdoar; pela cruz, Deus oferece o perdão; pela fé, o ser humano recebe o perdão.

Sobre a graça irresistível, Cameron fala com a sua própria voz. Quem é trazido à fé reconhece que foi a graça que o atraiu e, ao mesmo tempo, sabe que escolheu Cristo de verdade. Para mostrar isso ele cita o hino de Philip Doddridge, “Ó dia feliz, que fixou a minha escolha em ti”. Para quem conhece o amor de Cristo, é como se não pudesse resistir a ele. “Mesmo assim, a possibilidade de resistir à graça divina é real, e a escolha de Cristo é uma escolha real” (“Arminius: Hero or Heretic?”, 1992). Por isso o incrédulo não encontra desculpa numa vontade secreta de Deus diferente da vontade revelada: “Tanto em segredo quanto às claras, Deus quer que todos os homens sejam salvos” (ibidem).

Na perseverança, Cameron mostra as duas faces de Armínio, que descreveu o crente descuidado morrendo aos poucos como membro de Cristo e, em outro lugar, disse nunca ter afirmado que o verdadeiro crente possa cair da fé e perecer. Cameron não decide a questão. Fica com Berkouwer: a perseverança é uma confissão de fé, ligada à certeza que o crente encontra olhando para a cruz. O fecho do artigo resume o seu pensamento. A salvação é “pela graça, por meio da fé” (Efésios 2:8), e os crentes são “guardados pelo poder de Deus, mediante a fé” (1 Pedro 1:5). Armínio, para Cameron, é alguém com quem se pode aprender muito, porque não cabe nas gavetas do debate e nos chama a confiar no evangelho mais do que em qualquer sistema.

O pregador e o orgulho

Os outros artigos mostram o mesmo pastor. No texto sobre Barth, Cameron analisa o sermão “Salvos pela graça”, que o teólogo suíço pregou na prisão de Basileia em 14 de agosto de 1955, e destaca a ligação entre oração e pregação e a convicção de que a mensagem importa mais que o mensageiro. No estudo sobre Berkouwer, mostra que o pecado no coração da queda é o orgulho e que a fé é o oposto dele: em Cristo fica excluído todo mérito humano, e quem se gloria deve gloriar-se no Senhor. O chamado do evangelho pode ser resistido, e a recusa endurece o coração; só a cura que vem de Cristo e o poder do Espírito quebram esse endurecimento. Na antropologia de 2005, a pergunta de Deus a Adão, “Onde está você?” (Gênesis 3:9), é ao mesmo tempo exame e apelo: o chamado divino espera uma resposta, e a Bíblia insiste que somos responsáveis pelas nossas escolhas (Josué 24:15).

Onde ele fica

Cameron é um simpatizante do arminianismo, e não um arminiano. Ele pertence a uma igreja reformada, segue Berkouwer e critica Armínio na eleição. Mas rejeita a graça irresistível, rejeita o decreto oculto, afirma que Deus quer salvar a todos e defende Armínio como teólogo da graça. O artigo de 1992 está no acervo da Society of Evangelical Arminians, que reúne textos em defesa do arminianismo. Pelo critério do arminianismo clássico, ele concorda com o arminianismo clássico no ponto central: a salvação é obra da graça do começo ao fim, e essa graça pode ser recusada. Em relação à declaração de fé deste site, as diferenças estão em dois pontos. O site afirma a eleição condicional em Cristo, segundo a presciência de Deus, que Cameron prefere ler como amor eletivo sem ordem temporal. E o site afirma a perseverança condicional e a possibilidade da apostasia, que Cameron deixa em aberto. No resto, a graça que vem antes, a expiação por todos e a fé que nada merece e apenas recebe, ele fala a mesma língua da graça preveniente em Armínio.

Obras principais

  • The problem of polarization: An approach based on the writings of G. C. Berkouwer (tese de doutorado, Universidade de Glasgow, 1983).
  • The Problem of Polarization: An Approach Based on the Writings of G. C. Berkouwer (Edwin Mellen Press, Rutherford Studies in Contemporary Theology 2, 1992).
  • “Arminius: Hero or Heretic?”, The Evangelical Quarterly 64.3 (1992), p. 213-227.
  • “A Biblical Approach to Theodicy”, Evangel 10.2 (1992), p. 25-29.
  • “Karl Barth: the Preacher”, The Evangelical Quarterly 66.2 (1994), p. 99-106.
  • “‘Pride and Faith’ in Berkouwer’s Studies in Dogmatics”, Evangel 12.2 (1994), p. 50-53.
  • “The Use of the Bible in Evangelical Preaching Today”, Evangel 13.1 (1995), p. 16-21.
  • “John Hick’s Religious World”, Evangel 15.1 (1997), p. 22-27.
  • “An Introduction to ‘Theological Anthropology’”, Evangel 23.2 (2005), p. 53-61.

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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