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Craig L. Adams: o pastor metodista de Michigan que guarda a biblioteca da santidade

Diego Gonçalves12 min de leitura2.486 palavras

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Neste texto

Num acampamento de santidade em Simpson Park, em Romeo, no sudeste de Michigan, um adolescente criado numa igreja congregacional ouviu um evangelista falar de culpa, de decisão e de um Deus que ama todas as pessoas. Craig L. Adams tinha frequentado escola dominical, aula de confirmação e reunião de jovens, e tinha saído de tudo isso convencido de que a igreja era uma instituição estéril, que guardava as formas de uma fé em que já não acreditava. No acampamento, “com temor e tremor”, ele atendeu ao apelo, e o pastor da igreja metodista que a família frequentava foi à frente orar com ele. Daquela decisão saíram trinta e cinco anos de ministério em igrejas pequenas de Michigan e uma biblioteca digital, aberta a qualquer leitor, com os livros do movimento de santidade.

Vida

Da igreja liberal ao acampamento de santidade

Craig L. Adams nasceu em 9 de abril de 1949 e dá Albion, em Michigan, como a sua cidade natal. Foi criado numa congregação da Igreja Congregacional, que depois entrou na Igreja Unida de Cristo, e ali foi confirmado. Ele resume aquela experiência numa frase dura: a igreja “liberal” nunca lhe transmitiu o evangelho do amor, da graça e do perdão de Deus.

O que a igreja da infância não deu, o acampamento de santidade deu. Adams conta que as reuniões de avivamento, os acampamentos e as reuniões de oração foram as experiências formadoras da sua adolescência. Os primeiros anos de fé foram vividos entre pessoas dos movimentos de santidade e pentecostal, e foi ali que nasceu o interesse de toda a vida pela doutrina wesleyana da perfeição cristã.

Esse interesse começou com uma frustração. Ainda rapaz, Adams ouviu a pregação da inteira santificação como a promessa de que o Espírito Santo o tornaria imune por dentro a toda inclinação para o pecado. Atormentado pela culpa com os próprios desejos, foi ao altar à espera de uma experiência emocional que o livrasse deles, e ela não veio. Em vez de abandonar a doutrina, como muitos fizeram, ele passou a ler os livros antigos do movimento de santidade. Ali descobriu que a promessa que ouvira no acampamento não estava nem na Escritura nem nos melhores autores wesleyanos.

Química, Asbury e ordenação

Adams estudou química no Macomb County Community College, em Warren (1967-1969), e na Wayne State University, em Detroit, onde se formou bacharel em 1971. Em 1972 entrou no Asbury Theological Seminary, em Wilmore, no Kentucky, seminário ligado à tradição wesleyana de santidade; foi editor do jornal dos estudantes e concluiu o mestrado em divindade em 1975.

Na Igreja Metodista Unida, foi recebido como diácono em 1973 e como presbítero pleno em 1977, na Conferência do Oeste de Michigan. Em 1º de setembro de 1979 casou-se com Robin, enfermeira, na Igreja Metodista Unida de Hersey. O casal teve dois filhos.

Trinta e cinco anos em igrejas pequenas

A primeira nomeação, em 1975, foi para Wolf Lake, perto de Muskegon, onde Adams foi o primeiro pastor de tempo integral da história da congregação e escreveu um currículo para formar pregadores leigos, trabalho que o acompanharia por toda a carreira. Seguiram-se a paróquia de Saugatuck e Ganges (1979-1984), a igreja de Horton Bay, perto de Boyne City (1984-1994), a Igreja Zion, em Ionia (1994-1999), Weidman (1999-2006), Carlisle, em Byron Center (2006-2009), e, em meio período, o circuito de Mount Pleasant, até a aposentadoria, em 2010. Ao longo desses anos foi coordenador de jovens da Conferência do Oeste de Michigan, membro da junta de discipulado, conselheiro de acampamentos de adolescentes e diretor espiritual de muitos retiros da Caminhada de Emaús e da Crisálida.

Como pastor, Adams participou dos grupos conservadores de renovação do Oeste de Michigan. Mesmo assim, nunca apoiou a Wesleyan Covenant Association e chamou de “trágica e vergonhosa” a formação da Igreja Metodista Global, que saiu da Igreja Metodista Unida na disputa sobre sexualidade, embora deseje bem aos que foram para ela.

A aposentadoria e a biblioteca da santidade

A aposentadoria não o tirou do púlpito. Pastoreou em meio período a Igreja Metodista Unida de Northlawn, em Grand Rapids (2018-2019), e a Lakewood Community Church, em Lake Odessa (2022-2023), e continua pregando onde o chamam.

O trabalho mais conhecido dele está na internet. Ainda no pastorado criou o site Commonplace Holiness (“santidade comum”), que em 2008 já estava no ar. O nome resume o programa: a santidade precisa estar entretecida na vida de todo dia, vir da graça de Deus e ser “profundamente comum”. O site reúne um blog e uma biblioteca de livros digitalizados do movimento de santidade: a compilação que J. A. Wood fez dos textos de John Wesley sobre a perfeição cristã, o estudo de Harald Lindström Wesley and Sanctification, obras de Phoebe Palmer, Thomas C. Upham, Jesse T. Peck e W. F. Mallalieu, vários livros de Daniel Steele e What is Arminianism?, de Daniel Whedon. Ele mantém ainda os blogs Steele’s Answers e The Hidden Life, com trechos de Steele e de Upham.

Em 2015 artigos dele saíram no United Methodist Insight, e a Society of Evangelical Arminians recomendou textos dele no resumo “This Week in Arminianism”. Em janeiro de 2024, Allan R. Bevere o entrevistou no programa The Wesleyan Way sobre as raízes de santidade do metodismo unido, apresentando-o como o responsável pelo grupo Wesleyan Holiness Heritage no Facebook.

Pensamento

Adams é um wesleyano. Ele se define como “muito wesleyano em teologia e, portanto, metodista de coração” e serviu a vida inteira numa igreja cujos Artigos de Religião vêm de Wesley. Afirma a graça preveniente, a expiação para todos, a graça resistível, a justificação pela fé com a certeza dada pelo Espírito e a perfeição cristã recebida pela fé, e rejeita a eleição incondicional e a reprovação. Entre os teólogos que mais o influenciaram, cita Wesley, Tomás de Aquino, Wolfhart Pannenberg, Thomas Oden, N. T. Wright e Roger Olson; entre os comentaristas, Adam Clarke, que leu desde o começo da vida cristã.

A perfeição cristã como doutrina de toda a igreja

O tema que atravessa a obra de Adams é a perfeição cristã, que ele chama de coração da teologia de Wesley e de “batata quente” das igrejas de origem metodista. Para ele, a experiência de Aldersgate não mudou o alvo de Wesley, que era a santidade de coração e de vida, mas o pôs sobre base evangélica: se a justificação é pela fé, a santificação também é.

No artigo “Christian Perfection as an Ecumenical Doctrine” (2015), Adams argumenta que a doutrina não é excentricidade metodista. Wesley a tirou dos pais da igreja, dos místicos e do próprio Novo Testamento grego, que usa a palavra téleios, e a raiz dela está no Shemá de Deuteronômio 6:4-5: amar a Deus de todo o coração. Viver uma vida santa é ter o coração inteiramente voltado para Deus e para o bem dos outros, “isto e somente isto”. Com T. A. Noble, ele lembra que nenhum dos grandes mestres da igreja ensinou uma perfeição sem pecado; ensinaram a plenitude do amor. Num segundo artigo, parte da coleta de pureza do Livro de Oração Comum, que pede a Deus que nos permita “amá-lo perfeitamente”: se oramos por isso todo domingo, não deveríamos esperar que aconteça? E conclui com Wesley que a santificação vem pela fé: “Tentar com mais força não vai nos tornar melhores; é sempre uma questão de confiar mais profundamente” (“Two Wesley Quotes on Christian Perfection”, 2015).

Santidade e humanidade

A frustração da juventude deu a Adams a ideia que mais marca o seu ensino: a santidade não liberta a pessoa da própria humanidade, mas enche essa humanidade de graça. Ele a encontrou em Thomas Upham, que escreveu nas Religious Maxims (1846) que não somos chamados a arrancar as inclinações naturais, e sim a purificá-las, e não a deixar de ser homens, e sim a ser homens santos. Adams acrescenta o argumento cristológico: Jesus Cristo, plenamente Deus e plenamente homem, prova que o divino e o humano não estão em contradição. A santificação trata do egoísmo e do desejo de autonomia, e não do que Deus criou; o alvo é a semelhança com Cristo, e isso significa tornar-se “mais humano, não menos” (“Holiness and Humanness”, 2025).

Daí a desconfiança dele do legalismo. Wesley ensinava que a fé estabelece a lei porque gera o amor, e o amor é o resumo da lei; uma moral de “amor entronizado pela fé” não cabe num regulamento. O rigorismo lhe parece o contrário da santidade, porque “o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Romanos 14:17).

Arrependimento, fé e certeza

Em “Wesleyan Perspectives on Faith” (2025), Adams resume o que recebeu da tradição. A fé verdadeira inclui obediência; com Daniel Steele, ele lembra que no grego do Novo Testamento a palavra para incredulidade também significa desobediência. O arrependimento prepara para a fé: com o sermão “O Senhor, justiça nossa”, diz que é preciso perder a confiança na própria justiça antes de confiar na de Cristo, e critica o evangelismo moderno que chama à fé sem chamar ao arrependimento. A fé salvadora vem acompanhada do testemunho do Espírito (Romanos 8:15-16) e é confiança pessoal na misericórdia de Deus em Cristo, mais do que concordância com o credo.

Contra a reprovação

Em “More Proof I Could Never Be a Calvinist” (2025), Adams cita as Institutas (III.23), onde Calvino diz que não há eleição sem reprovação e que Deus exclui os réprobos porque assim lhe agrada, e responde com Wesley em Predestinação calmamente considerada: a misericórdia de Deus brilha mais quando ele oferece a salvação a toda criatura, sem forçar ninguém. O argumento de Adams é moral: o amor e a justiça de um Deus que condena por decreto não seriam amor nem justiça em nenhum sentido que entendemos, e, como somos moldados pelo Deus a quem servimos, essa teologia se torna “moral e espiritualmente tóxica”. Ainda assim, reconhece que muitos calvinistas vivem acima dessa doutrina.

O argumento exegético vem em dois textos de 2025. No comentário de Calvino a João 3:16, Adams aponta uma contradição: o “todo aquele” convidaria todos, mas só os eleitos receberiam olhos para crer. Para ele, só a graça preveniente resolve o versículo, porque ela permite ao ser humano caído responder com fé à oferta da vida. Sobre João 6:44, mostra que o verbo helkō, “atrair”, pode significar arrastar, mas reaparece em João 12:32, “atrairei todos a mim”; se significasse sempre arrastar à força, o resultado seria o universalismo. E em Mateus 23:37 Cristo quis reunir os filhos de Jerusalém, “e vós não quisestes”. Pela cruz, Cristo atrai todos, mas nem todos vêm. Adams cita ainda John Fletcher, que via no “solafideísmo” um caminho para o antinomismo, a ideia de que a conduta não importa para quem já foi eleito.

Nada disso faz da salvação uma obra humana. Para Adams, a esperança em Deus nasce do desespero de si mesmo, e a graça age do começo ao fim: é Deus quem opera em nós tanto o querer como o realizar (Filipenses 2:13).

Os que nunca ouviram, o fim e a Bíblia

Com o bispo W. F. Mallalieu (1903), Adams sustenta que Deus aceita, em toda nação, quem o teme e pratica a justiça, mesmo sem ter ouvido falar de Cristo (Atos 10:34-35). O fundamento é a graça preveniente: Cristo é “a verdadeira luz, que ilumina todo homem” (João 1:9), e quem está numa sala iluminada se beneficia da luz sem saber de onde ela vem. João 14:6 continua verdadeiro, pois ninguém vem ao Pai senão pela mediação de Cristo, mas Adams não lê ali a exigência de conhecimento consciente de Cristo.

Ele rejeita o arrebatamento pré-tribulacional, que atribui ao dispensacionalismo de John Nelson Darby e não ao texto bíblico. Sobre a Escritura, afirma a inspiração com 2 Timóteo 3:16, defende o sentido literal e histórico contra a alegoria e recebe como sadias as perguntas da crítica histórica.

Diferenças com a declaração de fé do site

Adams e a declaração de fé do Diário do Diego concordam no essencial da soteriologia wesleyana, com duas diferenças. A declaração afirma que os escritos originais das Escrituras foram preservados de erro; Adams fala de inspiração e autoridade, mas aceita as perguntas da crítica histórica sobre o caráter histórico de alguns relatos. E a declaração diz que são salvas apenas as pessoas unidas a Cristo pela fé, enquanto Adams, com Mallalieu e Clarke, espera que Deus aceite, por causa de Cristo, quem respondeu à graça preveniente sem ter ouvido o evangelho.

Obras principais

  • Commonplace Holiness, site e biblioteca digital de textos do movimento de santidade (no ar em 2008)
  • Steele’s Answers e The Hidden Life, blogs de leituras de Daniel Steele e de Thomas C. Upham (no ar em 2013 e 2014)
  • “Christian Perfection as an Ecumenical Doctrine” e “Two Wesley Quotes on Christian Perfection”, United Methodist Insight (2015)
  • “Sanctification as a Central Theme”, “Wesleyan Perspectives on Faith” e “A Testimony to God’s Grace” (2025)
  • “Holiness and Humanness” e “More Proof I Could Never Be a Calvinist” (2025)
  • “Calvin on John 3:16”, “Calvinism and John 6:44” e “Toward a Wesleyan Eschatology” (2025)
  • “Christ & Non-Christians” (2026)

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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