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David L. Allen: O pregador batista que defendeu que Cristo morreu pelos pecados de todos
Neste texto
Num domingo à noite, no outono de 1973, um adolescente da West Rome Baptist Church, em Rome, na Geórgia, foi à frente no apelo do fim do culto para dizer ao pastor que Deus o chamara para pregar. O pastor era Jerry Vines, e o rapaz era David Lewis Allen. Trinta e cinco anos depois, os dois estariam no programa da mesma conferência, em que professores batistas examinaram os cinco pontos do calvinismo. Coube a Allen o ponto mais técnico, a expiação limitada. Ele dedicaria a vida a mostrar que Cristo morreu pelos pecados de todas as pessoas e que essa convicção muda a maneira de pregar.
Vida
Chamado e pastorados
Allen conta que veio a Cristo aos nove anos e que começou a pregar aos dezesseis. Formou-se em 1978 no Criswell College, em Dallas. Desde 1977 era ministro de estudantes da Prestonwood Baptist Church, na mesma cidade, da qual foi o primeiro funcionário contratado. Concluiu em 1981 o mestrado em Divindade no Southwestern Baptist Theological Seminary, em Fort Worth.
Em fevereiro de 1982 assumiu a Audelia Road Baptist Church, uma igreja recém-formada em Dallas, que pastoreou por dezesseis anos. Nesse período fez o doutorado na Universidade do Texas em Arlington, em ciências humanas com concentração em linguística, concluído em 1987. A pesquisa tratava da análise do discurso, o estudo de como um texto organiza as suas partes para comunicar um sentido, aplicada à exegese e à pregação. A tese defendia que Lucas escreveu também a Epístola aos Hebreus.
Professor adjunto do Criswell College desde 1985, assumiu em 1998 a cátedra W. A. Criswell de Pregação. De 1999 a 2004 foi interino e depois pastor da Macarthur Boulevard Baptist Church, em Irving. Mais tarde foi interino em outras treze igrejas.
Curador e deão
Allen passou doze anos no conselho de curadores do Southwestern. Estava no conselho em 1994, quando os curadores demitiram o presidente Russell Dilday, num dos episódios mais duros da disputa entre conservadores e moderados na Convenção Batista do Sul, e presidiu o conselho de 2003 a 2004. Em 2004 tornou-se deão da Escola de Teologia do seminário, cargo que ocupou por doze anos, com a cátedra George W. Truett e a direção do Centro de Pregação Expositiva.
A conferência João 3:16
Em novembro de 2008, diante do avanço do Novo Calvinismo entre os jovens pastores batistas, cerca de mil pessoas foram à First Baptist Church de Woodstock, na Geórgia, para a Conferência João 3:16. Vines pregou sobre o versículo, e cinco professores trataram cada ponto do calvinismo. Allen lembrou que o primeiro a ensinar a expiação limitada foi o monge Gottschalk, no século IX, condenado por três concílios franceses, e que nem Lutero nem Calvino a ensinaram. Sustentou que é contrário à Bíblia dizer que Deus não ama todas as pessoas, que não deseja salvar todas ou que Jesus não morreu por todas. Foi aplaudido de pé.
As palestras viraram em 2010 o livro Whosoever Will (“Quem quiser”), organizado por Allen e Steve Lemke, com capítulos de Vines, Paige Patterson, Bruce A. Little e outros. Roger Olson elogiou a obra e chamou os autores de arminianos. Eles responderam no mesmo ano com o texto “Nem calvinistas nem arminianos, mas batistas”, assinado por Allen, Lemke, Vines, Patterson e outros três.
Em 2012 o pastor Eric Hankins redigiu uma declaração da “compreensão batista do Sul tradicional” da salvação, que afirmava, em dez artigos, que qualquer pessoa que ouve o evangelho pode ser salva. Allen, Hankins e Adam Harwood organizaram um número do Journal for Baptist Theology & Ministry em defesa dela, e Allen escreveu o ensaio de abertura e o comentário sobre a expiação. Em 2016 os três publicaram Anyone Can Be Saved, que saiu no Brasil em 2020 como Todos podem ser salvos.
A Escola de Pregação
Em 2010 saíram também o comentário de Hebreus da série New American Commentary, com 671 páginas, a tese de doutorado ampliada, Lukan Authorship of Hebrews, e o manual Text-Driven Preaching, organizado com Daniel Akin e Ned Mathews. Em 2015 Allen perdeu para o câncer a esposa, Sherri, com quem teve quatro filhos; casou-se de novo em 2016. Em agosto daquele ano tornou-se o primeiro deão da nova Escola de Pregação do Southwestern e, em novembro, publicou The Extent of the Atonement (“A extensão da expiação”), com cerca de 850 páginas.
Passou a viajar como formador de pregadores. Em março de 2018 esteve no Rio de Janeiro, na conferência teológica de um seminário batista, onde pregou com líderes brasileiros todo o livro de Hebreus. Fundou o ministério PreachingCoach e participou de mais de 450 conferências em vários países.
Mid-America
Em 2022, de volta de um ano sabático, Allen recusou a transferência para a condição de professor sênior, que descreveu como uma aposentadoria sem salário integral, e escreveu aos curadores que não pretendia se aposentar nem renunciar. O seminário tratou a recusa como renúncia, e o último dia dele no corpo docente foi 31 de julho. No dia seguinte, o Mid-America Baptist Theological Seminary, em Memphis, anunciou a sua contratação como deão do Centro Adrian Rogers de Pregação Bíblica.
Em 2024 foi indicado à presidência da Convenção Batista do Sul. Em Indianápolis ficou em segundo lugar na primeira votação, entre seis candidatos, e em terceiro no segundo turno, com 30,19% dos votos, por pouco atrás de Dan Spencer; Clint Pressley foi eleito.
Pensamento
Nem calvinista, nem arminiano
Classe: simpatizante. Allen rejeita o calvinismo de cinco pontos, sobretudo a expiação limitada e a graça irresistível, mas recusa o nome de arminiano. No texto de 2010, ele e os coautores escrevem: “Somos calvinistas? Não. Somos arminianos? Não. […] Somos batistas.” A razão principal é a segurança da salvação: a confissão da convenção afirma que os verdadeiros crentes perseveram até o fim. Pertence à corrente batista “tradicional”, ou provisionista, a mesma de Adrian Rogers e Adam Harwood.
Não se apresenta como inimigo dos calvinistas. No ensaio de 2012 contou que recomendou professores calvinistas para contratação e escreveu que os tradicionalistas não são calvinistas “não porque não entendemos o calvinismo, mas porque de fato o entendemos”.
A extensão da expiação
O centro da obra de Allen é a pergunta “pelos pecados de quem Cristo morreu?”. Ele separa três questões: a intenção da expiação (o propósito de Deus), a sua extensão (por quem Cristo morreu) e a sua aplicação (quando e a quem os benefícios são dados). Os calvinistas de quatro pontos concordam que Cristo morreu pelos pecados de todos, mas mantêm uma intenção desigual. Allen sustenta que Cristo morreu igualmente por todos, com a mesma intenção de salvar todo aquele que crer.
A fórmula medieval de que a morte de Cristo é “suficiente para todos, eficaz para os eleitos” mudou de sentido entre os defensores da expiação limitada: para eles, ela poderia ter pagado pelos pecados do mundo, se Deus quisesse. Allen responde que ela é suficiente para todos porque de fato pagou pelos pecados de todos.
Na exegese, reconhece que “todos” e “mundo” às vezes não significam “todos sem exceção”, mas afirma que em João 1:29, João 3:16 e 1 Timóteo 2:4-6 não há como reduzi-los a um grupo. Aos textos sobre as ovelhas e a igreja, aplica uma regra de lógica: provar que Cristo morreu por um grupo não prova que morreu só por ele, como Gálatas 2:20 não significa que Cristo morreu só por Paulo. Contra o argumento do pagamento duplo, de que a justiça não cobra duas vezes o mesmo pecado, lembra que a cruz é satisfação penal e não quitação de dívida comercial, e que os eleitos continuam debaixo da ira até crer (Efésios 2:1-3). Ninguém se perde por falta de expiação, e sim por não crer.
A consequência é pastoral. Se Cristo não morreu pelos não eleitos, a oferta do evangelho a eles seria um convite para um banquete sem cadeira nem comida à espera do convidado. Paulo pregava aos coríntios ainda não convertidos que “Cristo morreu pelos nossos pecados” (1 Coríntios 15:3), e o pregador pode dizer a qualquer ouvinte que Cristo morreu pelos seus pecados. No prefácio de The Extent of the Atonement (2016), Allen resume: a expiação limitada é “uma doutrina à procura de um texto”. O livro percorre a história da igreja desde os pais, dedica uma parte aos batistas e termina com uma crítica de From Heaven He Came and Sought Her (2013), a principal defesa recente da expiação definida.
Sobre a natureza da cruz, o comentário de 2012 é claro: a substituição penal é “a doutrina-alicerce” para explicar a obra de Cristo, porque a morte de Jesus no lugar do pecador satisfez a justiça e a ira de Deus. Allen voltou ao tema em The Atonement (2019).
Livre-arbítrio
No mesmo comentário, Allen rejeita o compatibilismo, a ideia de que as ações humanas são determinadas por Deus e ainda assim livres. Se Deus muda a vontade por uma graça irresistível e a pessoa não pode escolher de outro modo, isso não é liberdade “em nenhum sentido normal”. Essa liberdade, acrescenta, é limitada e nunca anula a soberania de Deus.
Onde ele se afasta do arminianismo clássico
Sobre a cruz, Allen diz o que Jacó Armínio e Wesley disseram, e o que diz a nossa declaração de fé: Cristo morreu por todos, como substituto, e a graça pode ser resistida (ver a expiação na teologia arminiana). Em 2022 ele e Lemke organizaram Calvinism: A Biblical and Theological Critique, com autores arminianos como Roger Olson, J. Matthew Pinson, Brian Abasciano e Ben Witherington III.
A distância está em dois pontos. O primeiro é a condição do pecador. O texto de 2010 diz que a maioria dos autores não crê que a Escritura ensine que o homem seja totalmente incapaz de responder ao chamado de Deus, embora afirme que a verdadeira fé é impossível sem a obra do Espírito com a Palavra. Armínio ensinou, na Declaração de Sentimentos (1608), que o homem caído não pode, por si, pensar, querer ou fazer o bem, e que só a graça preveniente, obra do Espírito que vem antes de qualquer resposta, liberta a vontade para crer. A nossa declaração de fé segue Armínio e Wesley nesse ponto.
O segundo é a perseverança. Allen crê que o verdadeiro crente nunca perde a salvação. No comentário de Hebreus, dedica quase cinquenta páginas a Hebreus 6:4-8 e conclui que o texto fala de crentes verdadeiros que podem perder as recompensas futuras: “As passagens de advertência não tratam do perigo da apostasia”, e sim da desobediência deliberada de um crente genuíno (Hebrews, 2010, p. 537). Os arminianos leem essas advertências como ameaça real de abandono da fé e ensinam a perseverança condicional, também afirmada na nossa declaração (João 15:4-6; Hebreus 3:12-14).
A pregação guiada pelo texto
A linguística deu forma ao que Allen ensina aos pregadores. Como “pregação expositiva” ficou tão elástica que “se esticou até o infinito”, ele fala em pregação “guiada pelo texto”: um sermão que representa a substância, a estrutura e o espírito do texto bíblico. A substância é o assunto do autor e o que ele diz sobre ele; a estrutura, o modo como desenvolve o tema pela sintaxe e pelo sentido; o espírito, o tom que o gênero lhe dá. Para Allen, o pregador fiel “não prega sermões; prega textos”, porque “o texto é rei”.
O comentário de Hebreus aplica essa leitura. Allen vê a epístola como um sermão que interpreta o Salmo 110:1 e 4 à luz de Cristo, em três partes: o Filho, o Sumo Sacerdote e o Rei. Em Lukan Authorship of Hebrews reúne os argumentos de que Lucas, a seu ver judeu, escreveu Hebreus antes do ano 70 para antigos sacerdotes judeus convertidos. O resenhista Michael Kibbe apontou erros nas listas de vocabulário, mas concluiu que qualquer discussão futura sobre a autoria terá de enfrentar o argumento de Allen.
O adolescente que foi à frente em Rome passou a vida ensinando que o pregador pode dizer, a quem estiver diante dele, que Cristo morreu pelos seus pecados.
Obras principais
- Hebrews (New American Commentary, B&H, 2010).
- Lukan Authorship of Hebrews (B&H Academic, 2010).
- Whosoever Will: A Biblical-Theological Critique of Five-Point Calvinism (B&H Academic, 2010), com Steve W. Lemke.
- Text-Driven Preaching (B&H Academic, 2010), com Daniel L. Akin e Ned L. Mathews.
- 1–3 John: Fellowship in God’s Family (Crossway, 2013).
- The Extent of the Atonement: A Historical and Critical Review (B&H Academic, 2016).
- Anyone Can Be Saved (Wipf & Stock, 2016), com Eric Hankins e Adam Harwood.
- The Atonement: A Biblical, Theological, and Historical Study of the Cross of Christ (B&H Academic, 2019).
- Calvinism: A Biblical and Theological Critique (B&H Academic, 2022), com Steve W. Lemke.
- Exalting Jesus in Job (B&H, 2022).
Livros em português
- Por quem Cristo morreu? Uma análise crítica sobre a extensão da expiação (Carisma, 2019). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- A expiação: um estudo bíblico-teológico e histórico da cruz de Cristo (Carisma, 2020). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Todos podem ser salvos (Verbum, 2020), com Eric Hankins e Adam Harwood. Ver na Amazon
Para aprofundar
- David L. Allen, página “About” no site pessoal.
- David L. Allen, “The Current SBC Calvinism Debate” e “Commentary on Article 3: The Atonement of Christ”, Journal for Baptist Theology & Ministry 9.2 (2012).
- David L. Allen, Ken Keathley, Richard Land, Steve Lemke, Paige Patterson, Jerry Vines e Malcolm B. Yarnell III, “Neither Calvinists nor Arminians but Baptists”, White Paper 36, Center for Theological Research (2010).
- David L. Allen, “Remarkable Sermons: ‘A Baptist and His Bible,’ by Jerry Vines”, Equip the Called (2025).
- Baptist Press, “David Allen to be nominated for SBC president”, republicado no Baptist Standard (2024).
- Baptist News Global, “Distinguished preaching professor says he was fired from Southwestern Seminary; administrators say he quit” (2022).
- The Baptist Paper, “Clint Pressley elected SBC president in 2nd runoff” (2024).
- Andrew Lindsey, “John 3:16 Conference: message on limited atonement by Dr. David Allen”, Challies.com (2008).
- Baptist Press, “‘Text is king,’ Allen says at pre-Pastors’ Conf. workshop”, republicado no Biblical Recorder (2017).
- Texas Baptist College, “Allen models text-driven preaching at Brazilian seminary’s annual theology conference” (2018).
- Barry Joslin, resenha de Hebrews, Themelios 36.2 (2011).
- Michael Kibbe, resenha de Lukan Authorship of Hebrews, Themelios 36.1 (2011).
- Dallas Theological Seminary, resenha de The Extent of the Atonement, DTS Voice.
- David Schrock, resenha de The Extent of the Atonement, Books at a Glance.
- Tim Moss, resenha de Calvinism: A Biblical and Theological Critique, Books at a Glance.
- Wikipédia, Southern Baptist traditionalism.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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