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Chuck Smith: O pastor dos hippies que fundou a Calvary Chapel
Neste texto
No fim dos anos 1960, quem passasse por Pirates Cove, uma pequena enseada de Corona del Mar, no sul da Califórnia, podia ver um homem de quarenta e poucos anos, de camiseta e calça comum, com a água do Pacífico pela cintura. Diante dele formava-se uma fila de rapazes cabeludos e moças, recém-convertidos da contracultura, e ele os mergulhava um depois do outro. Em alguns dias eram quinhentos batismos. As fotos dos batismos ajudaram a espalhar pelo país a notícia do Movimento de Jesus. Era Chuck Smith, que pouco tempo antes pensava em largar o ministério.
Vida
Ventura e a Igreja Quadrangular
Charles Ward Smith nasceu em 25 de junho de 1927, em Ventura, na Califórnia, o segundo dos quatro filhos de Charles e Maude Smith. A mãe vivia citando a Bíblia; o pai, vendedor, converteu-se já adulto e virou um cristão fervoroso. A família frequentava a Igreja do Evangelho Quadrangular, a denominação pentecostal fundada por Aimee Semple McPherson.
Anos depois, em Charisma vs. Charismania, Smith descreveu aquela igreja: sermões contra Hollywood, a dança e o cigarro, cultos interrompidos por duas ou três mensagens em línguas, e um menino que, quando levava amigos, orava baixinho para que certa irmã não falasse em línguas naquele dia. Ele se perguntava por que uma igreja que dizia ter tanto poder do Espírito tinha tão pouco amor e tantas divisões.
Aos 15 anos, em 1942, num acampamento da igreja, entregou a vida ao serviço cristão. Terminou o ensino médio em Santa Ana em 1945 e estudou na LIFE Bible College, a escola bíblica quadrangular de Los Angeles. Casou-se com Kay Johnson, com quem teve quatro filhos.
Dezessete anos de luta
Em junho de 1948, Smith assumiu a primeira igreja, em Prescott, no Arizona, por 15 dólares por semana. Vieram depois Tucson, Corona e outras igrejas da denominação. Em Corona, a congregação encolheu de 57 para 27 pessoas, sete delas da família. Durante dezessete anos Smith precisou trabalhar fora da igreja, entre outras coisas como gerente de hortifrúti num supermercado.
Em Huntington Beach, cansado de mudar de igreja a cada dois anos porque acabavam os sermões, resolveu ensinar a primeira carta de João versículo por versículo, e a igreja dobrou de tamanho em um ano. Depois ensinou a carta aos Romanos, e o estudo mudou o modo como ele entendia a graça de Deus. “Não me lembro da minha experiência de conversão”, dizia, “mas me lembro da minha experiência da graça.”
Numa noite sem sono, dividido entre o ministério e o emprego, somou as dívidas: 416 dólares. Na manhã seguinte, alguém telefonou prometendo um cheque de 426. “A confiança não pode ser parcial”, concluiu.
Mesmo assim, à frente de uma igreja de cerca de cem pessoas, pensava em mudar de profissão quando alguém, num grupo de oração, profetizou que ele seria pastor de muitos rebanhos. Por volta de 1964 deixou a Igreja Quadrangular, cansado da política da denominação, e em Corona um estudo bíblico num lar deu origem a uma igreja independente.
Costa Mesa
A Calvary Chapel tinha começado em 1961 como um estudo bíblico num parque de trailers em Costa Mesa, sob o pastor Floyd Nelson. Em 1965 eram uns 25 membros. Nelson, de licença, convidou Smith, que pregou o primeiro sermão oficial em 5 de dezembro de 1965 e começou a ler com a igreja o livro de Gênesis, dez capítulos por semana. Em setembro de 1966 tornou-se o pastor titular.
O Movimento de Jesus
O que mudou tudo foi a decisão de Chuck e Kay de abrir a igreja aos hippies que lotavam as praias de Huntington Beach, Laguna e Newport. Em 1968 o casal recebeu em casa Lonnie Frisbee, um jovem evangelista de 18 anos, e a mulher dele, Connie. Frisbee levava tantos convertidos para casa que, em maio daquele ano, foi preciso arranjar outra, a Casa dos Milagres. Em duas semanas, 35 rapazes tinham aceitado a Cristo e se mudado para lá. “Um deles dormia até na banheira”, lembrava Smith.
Alguns membros não gostaram dos pés descalços no carpete e penduraram um aviso proibindo a entrada de descalços. Smith arrancou o aviso, disse à igreja que os jovens valiam mais que o carpete e trocou os bancos e o carpete por cadeiras de metal dobráveis. Em 1971 a igreja mudou-se para uma tenda de circo, e o público passou de cerca de 800 para mais de 2 mil pessoas; em 1974 ganhou um templo para 2.300.
A música veio junto. Quando a banda Love Song pediu para cantar na igreja, Smith ouviu duas canções e chorou: “Faz um ano que oro por algo assim”. Em 1971 pagou do próprio bolso 2.500 dólares para que músicos da igreja gravassem um disco, vendido no porta-malas dos carros. Foi o começo da Maranatha! Music, um dos berços do louvor contemporâneo. No mesmo ano Frisbee deixou a Calvary Chapel, em parte por discordar de Smith sobre o lugar dos dons espirituais.
Greg Laurie, Skip Heitzig e Mike MacIntosh começaram no ministério sob a liderança dele e fundaram as suas próprias igrejas. Em 1978 surgiu The Word for Today, que levou os estudos de Smith para o rádio e para livros. Nem todos ficaram: John Wimber, que pastoreava uma Calvary Chapel em Yorba Linda e dava cada vez mais ênfase a sinais e curas, saiu em 1982 e, com outras igrejas, juntou-se às igrejas Vineyard.
Erros e críticas
O erro mais conhecido de Smith foi de escatologia. No livro End Times (1978), partindo da parábola da figueira e da fundação do Estado de Israel, concluiu que a geração de 1948 provavelmente seria a última e que o arrebatamento da igreja viria até o fim de 1981. Houve culto de vigília na passagem para 1982, e muitos, decepcionados, deixaram a igreja. Smith nunca marcou outra data e passou a ensinar que não se deve fazer isso. Nas palavras de David Guzik, pastor formado no movimento, ele não profetizou o arrebatamento, mas o predisse.
Outras críticas vieram do modo de governar. Smith defendia que o pastor não respondesse a conselhos de presbíteros nem a uma hierarquia denominacional, e foi acusado de proteger pastores envolvidos em escândalos. Em 1992, por exemplo, contratou David Hocking poucos meses depois de outra igreja afastá-lo por adultério, dizendo que um mestre tão dotado seria destruído se não pudesse ensinar. Em 2006 afastou da associação o próprio filho, Chuck Smith Jr., por divergências teológicas.
Os últimos anos
Smith sofreu um derrame leve em dezembro de 2009. No culto de Ano-Novo de 2012 anunciou que tinha câncer de pulmão, e no mesmo ano criou um conselho de 21 pastores para cuidar da associação de cerca de 1.600 igrejas nascidas do seu ministério. Pregou em três cultos no domingo anterior à morte. Morreu em casa, em Newport Beach, em 3 de outubro de 2013, aos 86 anos, e o genro, Brian Brodersen, assumiu a igreja de Costa Mesa.
Pensamento
Onde ele fica
Classe: simpatizante. Smith recusava o rótulo de arminiano e o de calvinista, e escreveu o livreto Calvinism, Arminianism & the Word of God (“Calvinismo, arminianismo e a Palavra de Deus”) para dizer como a Calvary Chapel entendia os cinco pontos. Nos pontos centrais ele fica do lado arminiano: a eleição se baseia na presciência de Deus, Cristo morreu por todos e a graça pode ser resistida. Na perseverança, deixa a questão em tensão.
O livreto começa pela queda: ninguém é justo nem capaz de fazer o bem (Romanos 3:10-12), e “sem a convicção e a regeneração do Espírito Santo ninguém pode ser salvo”. Deus escolheu o crente antes da fundação do mundo segundo a sua presciência (Romanos 8:29-30; 1 Pedro 1:2), mas o convite vai a todos: “Deus claramente escolhe, mas o homem também precisa aceitar o convite de Deus”. A expiação foi feita “pelo mundo inteiro” (1 João 2:2). E a graça pode ser recusada, como em Mateus 23:37 e Atos 7:51, de modo que ninguém é condenado por falta de oportunidade, mas porque escolhe não crer (João 3:18).
Curiosamente, o resumo que o livreto faz do arminianismo atribui a Armínio a ideia de que a queda não foi total. O próprio Armínio, na Declaração de Sentimentos de 1608, ensinou que o homem caído não é capaz, por si mesmo, de pensar, querer ou fazer o que é verdadeiramente bom. Nesse ponto Smith está mais perto de Armínio do que do retrato que faz dele, e a sua posição sobre a eleição repete, sem o nome, a eleição condicional em Cristo.
A peça que falta no livreto aparece em outro livro. Em Charisma vs. Charismania (1983), Smith distingue três relações do Espírito com a pessoa, a partir de três preposições gregas. Antes da conversão o Espírito está com ela (para): é ele quem convence do pecado e mostra Cristo como a resposta. Na conversão passa a habitar nela (en). E depois pode vir sobre ela (epi) com poder para o serviço (Atos 1:8). A primeira dessas relações é o que os arminianos chamam de graça preveniente, a graça que vem antes da fé e torna a pessoa capaz de crer.
Na perseverança, Smith afirma com João 10:28 que ninguém arrancará as ovelhas da mão de Cristo, mas enfileira as advertências de Colossenses 1:23 (“se permanecerdes na fé”), Hebreus 3:12 e 2 Pedro 2:20-21. A conclusão fica aberta: a Calvary Chapel crê na perseverança dos santos, isto é, dos verdadeiros crentes, mas se preocupa com quem se diz cristão e vive em rebeldia. Soberania de Deus e responsabilidade humana, escreveu, são como duas paralelas que não parecem se cruzar na nossa mente finita.
O fecho do livreto diz muito sobre Smith: “Discussão, sim! Discordância, sim! Divisão, não!”. Uma posição doutrinária que deixa a pessoa briguenta, legalista e divisiva era, para ele, suspeita. “Prefiro ter os fatos errados e a atitude certa do que os fatos certos e a atitude errada”, escreveu, porque Deus muda o entendimento num instante, mas a atitude leva a vida inteira.
Carisma e carismania
Charisma vs. Charismania tenta corrigir o que Smith viu na infância sem jogar fora os dons do Espírito. Carisma é a unção do Espírito sobre uma pessoa para fazer a obra de Deus; carismania é a tentativa de imitá-la com a força da carne, e nessa conta entram tanto as explosões de línguas que atrapalham o sermão quanto as estratégias de crescimento de igreja e as cartas de evangelistas que pedem dinheiro em nome da fé. Smith procurava um meio-termo entre os pentecostais, com o seu excesso de experiência, e os fundamentalistas que, querendo estar certos, ficaram “certos e mortos”.
Daí as posições que marcaram a Calvary Chapel. As línguas não são a evidência inicial do batismo no Espírito, e a prova de que alguém está cheio do Espírito é o amor (1 Coríntios 13:1; Gálatas 5:22). Os dons também não cessaram, porque o “perfeito” de 1 Coríntios 13:10 é o estado de coisas que virá com a volta de Cristo, e não o fechamento do cânon.
Graça, restauração e o “modelo de Moisés”
No capítulo sobre a graça de Calvary Chapel Distinctives (2000), Smith confessa que, quando orava por si mesmo, nunca pedia justiça, só misericórdia. Daí o empenho em restaurar pastores caídos. Comparava dois tipos de ministério ao que acontece num acidente de trânsito: a polícia chega para medir as marcas de freada e achar o culpado, e os paramédicos chegam para socorrer quem sangra. Ele queria igrejas de paramédicos. Os críticos lembraram que, em alguns casos, a restauração veio antes da prestação de contas.
No mesmo livro, Smith rejeita o governo congregacional, porque na Bíblia, dizia, a congregação nunca aparece com a razão, e propõe o modelo de Moisés: Cristo como cabeça, o pastor como Moisés, que busca a direção de Deus, e um conselho de anciãos de oração que o apoia, como os que ajudavam Moisés (Êxodo 18:13-27). O modelo deu liberdade ao pastor e também concentrou poder nele, e essa é a crítica mais repetida ao movimento. O centro de tudo, porém, era o ensino da Bíblia inteira, de Gênesis a Apocalipse, versículo por versículo e em linguagem simples.
Onde a declaração de fé deste site difere
Smith era pré-milenista e pré-tribulacionista: esperava o arrebatamento da igreja a qualquer momento, antes de uma tribulação de sete anos. A declaração de fé deste site é amilenista e espera a volta de Cristo como um evento único, seguido da ressurreição e do juízo. Na perseverança, o site afirma o que Smith deixou em aberto: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e a fé pode ser abandonada (João 15:4-6; Hebreus 3:12-14), como se lê em Apostasia na Bíblia. E o revestimento de poder da relação epi é uma capacitação para o serviço, enquanto a inteira santificação wesleyana é uma obra da graça que purifica o coração e o enche de amor perfeito.
Entre os batistas do Sul, Adrian Rogers e Jerry Vines chegaram a uma posição parecida com a de Smith sobre os cinco pontos, também sem adotar o nome arminiano.
Obras principais
- End Times (1978)
- Charisma vs. Charismania (Harvest House, 1983; The Word for Today, 1992)
- Harvest, com Tal Brooke (1987)
- Why Grace Changes Everything (Harvest House, 1994)
- Calvary Chapel Distinctives (The Word for Today, 2000)
- Calvinism, Arminianism & the Word of God: A Calvary Chapel Perspective (The Word for Today, edição de 2005)
Para aprofundar
- Chuck Smith, Calvinism, Arminianism & The Word of God: A Calvary Chapel Perspective, The Word for Today.
- Chuck Smith, Charisma vs. Charismania, The Word for Today (1992).
- Chuck Smith, Calvary Chapel Distinctives, The Word for Today (2000).
- Chuck Smith, 86, Dies After Cancer Battle, Christianity Today (2013).
- History in the Making: Longhairs for Jesus, Christian History.
- Calvary Chapel, History, cronologia da igreja de Costa Mesa.
- The Word for Today, Pastor Chuck, biografia.
- Calvary Visalia, The Late Pastor Chuck Smith.
- Rob Moll, Day of Reckoning, Christianity Today (2007).
- Steve Rabey, Maranatha Music Comes of Age, Christianity Today (1991).
- John G. Turner, They Got High on Jesus Instead, resenha de God’s Forever Family, de Larry Eskridge, Christianity Today (2013).
- Timothy C. Morgan, The Case for Big Change at Calvary Chapel, entrevista com Brian Brodersen, Christianity Today (2014).
- What Would Chuck Smith Do?, Christianity Today (2017).
- David Guzik, Do Chuck Smith’s False Predictions of the Rapture Undermine His Credibility?, Enduring Word.
- Paul Griffo, Remembering When Chuck Smith Predicted the End Times, OC Weekly (2011).
- G. Connor Salter, Who Was Lonnie Frisbee?, Christianity.com (2023).
- Wikipédia, Chuck Smith (pastor).
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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