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David J. A. Clines: O hebraísta de Sheffield e a predestinação no Antigo Testamento
Neste texto
- Vida
- Sydney e os Irmãos
- Cambridge e Sheffield
- Fuller e a igreja
- O editor e o lexicógrafo
- Morte
- Pensamento
- Classe: simpatizante do arminianismo
- A predestinação no Antigo Testamento
- O ser humano como imagem de Deus
- O tema do Pentateuco
- Hermenêutica entre os Irmãos
- Do leitor ao crítico
- Diferenças com a declaração de fé do site
- Obras principais
- Para aprofundar
Dos quatro anos de idade até o batismo, David Clines passou cerca de quinhentas manhãs de domingo sentado nas reuniões de partir o pão dos Irmãos, em Oatley, subúrbio de Sydney. Nas suas memórias, ele calculou setecentas e cinquenta horas de silêncio obrigatório, só com a Bíblia, o hinário e um livrinho de perguntas sobre a Bíblia. Achou aquilo “uma espécie de crueldade”, mas reconheceu que foi “um excelente alicerce para um estudioso da Bíblia” (Scenes from a Provincial Life, p. 15). O menino das reuniões dos Irmãos se tornou um dos hebraístas mais conhecidos do seu tempo: autor de um comentário de Jó em três volumes, editor do primeiro dicionário de todo o hebraico antigo e fundador de duas editoras acadêmicas. Em 1975, ainda no meio evangélico, escreveu o capítulo sobre o Antigo Testamento num livro organizado por Clark Pinnock contra a predestinação incondicional, e é por esse ensaio que o nome dele entra na lista dos teólogos arminianos.
Vida
Sydney e os Irmãos
David John Alfred Clines nasceu em Sydney, na Austrália, em 21 de novembro de 1938. A família pertencia às assembleias dos Irmãos, o movimento nascido na Irlanda e na Inglaterra no século XIX, sem clero ordenado, com a Ceia todo domingo e uma leitura da Bíblia marcada pelo dispensacionalismo. Clines avaliou essa formação com sentimentos mistos, mas foi nela que ficou íntimo do texto bíblico.
De 1956 a 1961 estudou na Universidade de Sydney: latim, grego, hebraico e história antiga. Formou-se em grego e latim em 1960. Para completar o hebraico da universidade, assistia como ouvinte às aulas de John A. Thompson no colégio teológico batista que funcionava então em Ashfield. No mesmo período começou a ensinar numa escola bíblica dos Irmãos recém-aberta em Sydney, que preparava missionários e obreiros, e dirigia acampamentos de jovens das assembleias.
Cambridge e Sheffield
Com uma bolsa de viagem, mudou-se para a Inglaterra em 1961. Estudou hebraico, aramaico e siríaco no St John’s College, em Cambridge, e se formou em 1963, com o mestrado em 1967. Em Cambridge frequentou a Tyndale House, o centro de pesquisa bíblica dos evangélicos britânicos.
Em 1964 foi contratado como professor assistente pelo Departamento de Estudos Bíblicos da Universidade de Sheffield. O departamento tinha sido criado em 1947, separado de qualquer faculdade de teologia, e o seu primeiro chefe fora outro membro dos Irmãos, F. F. Bruce. Clines ficou em Sheffield pelo resto da vida. Chegou a professor titular em 1985 e chefiou o departamento de 1994 a 2001.
Em 1967 deu a conferência anual de Antigo Testamento da Tyndale Fellowship, publicada no ano seguinte no Tyndale Bulletin com o título “The Image of God in Man” (“A imagem de Deus no homem”).
Fuller e a igreja
Em 1974-1975 lecionou no Seminário Teológico Fuller, na Califórnia. Ali deu um curso sobre o Pentateuco que deu origem ao livro The Theme of the Pentateuch (1978). Em 1975 saiu o ensaio “Predestination in the Old Testament”, no livro Grace Unlimited (“Graça sem limites”).
De volta a Sheffield no fim de 1975, não encontrou uma igreja local que se comparasse à que tinha frequentado na Califórnia. A esposa e os filhos continuaram indo à igreja; ele deixou de ir. Nas memórias, conta que nessa época dizia aceitar todo o Credo Apostólico, menos a “comunhão dos santos”, e que o colega Anthony Thiselton ficou horrorizado. Por alguns anos ainda escreveu para o público dos Irmãos: em 1979 apresentou um estudo sobre hermenêutica, publicado em 1982 na Christian Brethren Review, e na mesma revista publicou mais tarde reflexões sobre o ministério profissional na igreja.
O editor e o lexicógrafo
Em 1976 fundou, com David M. Gunn e Philip R. Davies, o Journal for the Study of the Old Testament. Da revista nasceu a JSOT Press, depois Sheffield Academic Press, vendida em 2001. Com Gunn, fez de Sheffield um centro de leitura literária do texto bíblico na sua forma final. Em 2004 fundou com J. Cheryl Exum e Keith W. Whitelam a Sheffield Phoenix Press, que no fim de 2022 já tinha mais de trezentos títulos.
O maior projeto foi o Dictionary of Classical Hebrew, começado em 1988. Os nove volumes saíram de 1993 a 2016 e, além da Bíblia Hebraica, registram o vocabulário de Ben Sira, dos Manuscritos do Mar Morto e das inscrições hebraicas antigas: foi o primeiro dicionário de toda a língua hebraica antiga. A revisão completa começou a sair em 2018. Em paralelo, Clines escreveu o comentário de Jó da coleção Word Biblical Commentary, em três volumes (1989, 2006 e 2011).
Presidiu a Society for Old Testament Study, a associação britânica de estudiosos do Antigo Testamento, em 1996, e a Society of Biblical Literature em 2009. Recebeu o doutorado honorário da Universidade de Amsterdã em 2001 e a Medalha Burkitt da Academia Britânica em 2015, pela contribuição ao estudo da Bíblia Hebraica e à lexicografia hebraica.
Morte
David Clines morreu em casa, em Sheffield, em 8 de dezembro de 2022, aos 84 anos, com a esposa, Heather, ao lado. Em abril de 2023 houve um simpósio e um culto memorial em Sheffield. Depois da morte saíram as coletâneas Joban Papers e Play the Man! (2023) e as memórias Scenes from a Provincial Life, cujo último capítulo, inacabado, pede a “libertação” dos estudos bíblicos do controle dos que têm compromisso religioso.
Pensamento
Classe: simpatizante do arminianismo
Classe: simpatizante. Clines nunca se chamou de arminiano e, a partir do fim dos anos 1970, deixou a vida de igreja. Mas em 1975, ainda no meio evangélico, escreveu o capítulo do Antigo Testamento em Grace Unlimited, o livro que Clark Pinnock organizou para defender a universalidade da graça contra a ideia de que Deus predestina umas pessoas à vida eterna e outras à morte eterna. Ao lado dele escreveram Jack W. Cottrell, sobre a eleição condicional, I. Howard Marshall, sobre a predestinação no Novo Testamento, e A. Skevington Wood, sobre John Wesley. O ensaio rejeita a predestinação que fixa de antemão as ações de cada pessoa e foi mantido quando John D. Wagner atualizou o livro em 2015, com o título Grace for All: The Arminian Dynamics of Salvation.
A predestinação no Antigo Testamento
Clines não partiu de versículos isolados: tratou a predestinação como o plano de Deus para a história e perguntou como cada grande bloco do Antigo Testamento o apresenta.
Na história das origens (Gênesis 1 a 11), Deus aparece sobretudo reagindo às decisões humanas: ao pecado de Adão, ao crime de Caim, à torre de Babel. Na história dos patriarcas, o plano aparece como promessa: Deus promete a Abraão e cumpre, apesar das falhas de Abraão, de Isaque e de Jacó, e nada o impede de chegar ao que prometeu. Em Provérbios, o fim de cada caminho, o do sábio e o do insensato, está fixado; o caminho que cada um toma, não. Deus não decide de antemão quem será contado entre os justos e quem entre os ímpios, e a culpa do ímpio ainda pode ser expiada. Nos profetas, o plano é a eleição de Israel, escolhido para um propósito, e até os oráculos de juízo terminam com a promessa de que o povo será o que foi chamado a ser.
A conclusão é que o Antigo Testamento ignora uma predestinação que determina antes as ações particulares de cada indivíduo. O que ele mostra é uma relação entre Deus e o ser humano em grande parte aberta, em que a predestinação tem papel secundário. Clines evitou o outro extremo: dizer que Deus é pego de surpresa pelas decisões humanas, ou que só tira delas o melhor proveito, contraria o espírito do Antigo Testamento. Deus continua livre para ter misericórdia e é forte o bastante para levar adiante, por meio do Messias, o seu plano de salvar a criação.
Essa leitura combina com a eleição condicional em Cristo que o arminianismo defende, e sobretudo com a eleição entendida como escolha de um povo para uma missão. E se afasta do teísmo aberto que o próprio Pinnock adotaria nos anos 1990, porque nela Deus garante o fim da história. Há, porém, distância em relação ao arminianismo clássico. O ensaio é exegese do Antigo Testamento e não trata da incapacidade humana depois da queda nem da graça preveniente. Lido sozinho, o argumento sobre Provérbios pode dar a impressão de que o ser humano escolhe o caminho da sabedoria pelas próprias forças. Armínio e Wesley diriam que essa escolha só é possível porque a graça vem antes e liberta a vontade.
O ser humano como imagem de Deus
O artigo de 1968 começa pela gramática. A preposição hebraica de Gênesis 1:26 pode ter o sentido de “como” ou “na qualidade de”, e Clines defende essa leitura: “o homem não tem a imagem de Deus, nem é feito à imagem de Deus, mas é ele mesmo a imagem de Deus” (“The Image of God in Man”, 1968, p. 80).
Depois ele vai ao antigo Oriente Próximo, onde a imagem de um deus ou de um rei era a sua estátua, posta num templo ou numa terra conquistada para marcar a presença real de quem estava fisicamente ausente. O rei era chamado imagem do deus porque o representava. Gênesis estende essa dignidade a todos os seres humanos, e não só aos reis e nobres: o ser humano é o representante, na terra, do Deus que está acima da criação. O domínio sobre a criação é a função da imagem, e a imagem é o ser humano inteiro, corpo e espírito, e não uma faculdade da alma. O site trata do tema em imagem de Deus em Gênesis 1 e 2.
O tema do Pentateuco
No livro de 1978, Clines procurou o tema que dá unidade aos cinco primeiros livros da Bíblia: “o cumprimento parcial, que implica também o não cumprimento parcial, da promessa ou bênção aos patriarcas” (The Theme of the Pentateuch, 2.ª ed., 1997, p. 30). A promessa feita a Abraão tem três elementos: descendência, relação com Deus e terra. Em Gênesis predomina a descendência; em Êxodo e Levítico, a relação entre o Senhor e Israel; em Números e Deuteronômio, a terra. O Pentateuco termina com o povo diante da terra, sem ter entrado nela. Clines leu essa forma à luz do exílio: para os israelitas exilados, ela era esperança e chamado, com a promessa de Deus atrás deles e a terra prometida à frente.
Hermenêutica entre os Irmãos
No estudo de 1979, Clines criticou a maneira de ler a Bíblia que tinha aprendido: a Bíblia como arsenal de textos de prova nas polêmicas, a exposição versículo por versículo que perde de vista o todo, a tipologia que encobre a fé e a história reais de Israel, e um “cânon dentro do cânon” que põe Paulo acima de João e João acima dos Evangelhos sinóticos. O alvo principal foi o dispensacionalismo, que, ao entregar todo o Antigo Testamento a Israel, afastou os cristãos de dois terços da Bíblia. Ele o chamou de “o fator isolado mais nocivo na hermenêutica dos Irmãos” (“Biblical Hermeneutics in Theory and Practice”, 1982, p. 68).
A proposta positiva era que todo leitor traz pressupostos, indispensáveis para entender qualquer coisa, que o próprio texto vai corrigindo num movimento contínuo de ida e volta, o círculo hermenêutico. Nas reflexões sobre o ministério profissional, Clines defendeu o governo congregacional: os dons do Espírito em 1 Coríntios 12 são funções que qualquer membro pode exercer, e não cargos de especialistas pagos, e todo o povo de Deus é sacerdote (1 Pedro 2:9).
Do leitor ao crítico
Clines foi um dos primeiros no Reino Unido a estudar a poética bíblica e passou depois por quase todos os métodos novos de leitura. Em What Does Eve Do to Help? (1990) perguntou que ajuda Eva presta a Adão em Gênesis 2 e respondeu que o texto vê a mulher sobretudo como mãe, e por isso é centrado no homem. Aplicou a desconstrução ao livro de Jó e, em Interested Parties (1995), praticou a crítica ideológica: perguntar a quem servia cada texto, incluindo os Dez Mandamentos, e julgar esses interesses com os valores do leitor de hoje. Nesse caminho, passou a ler a Bíblia como documento humano a ser criticado, e não mais como a Palavra que julga o leitor.
Diferenças com a declaração de fé do site
A declaração de fé do Diário do Diego afirma que a Bíblia é a Palavra de Deus, sem erro nos escritos originais e autoridade final em fé e prática. O Clines dos últimos trinta anos lia a Bíblia como produto de autores humanos com interesses a serem expostos, e essa é a principal distância entre ele e o site. A declaração também afirma a depravação total e a graça preveniente, que o ensaio de 1975 deixa de lado, e a comunhão da igreja local como pilar da vida cristã. O que o site recebe de Clines é o trabalho do exegeta: a imagem de Deus como representação, o Pentateuco como história de uma promessa e um Antigo Testamento em que Deus cumpre o seu plano sem fixar antes as escolhas de cada pessoa.
Obras principais
- “The Image of God in Man”, Tyndale Bulletin 19 (1968), p. 53-103.
- “Predestination in the Old Testament”, em Clark H. Pinnock (org.), Grace Unlimited (Bethany Fellowship, 1975).
- I, He, We and They: A Literary Approach to Isaiah 53 (JSOT Press, 1976).
- The Theme of the Pentateuch (JSOT Press, 1978; 2.ª ed., 1997).
- “Biblical Hermeneutics in Theory and Practice”, Christian Brethren Review 31-32 (1982).
- Ezra, Nehemiah, Esther, New Century Bible (Eerdmans, 1984).
- Job, Word Biblical Commentary, 3 volumes (1989, 2006, 2011).
- What Does Eve Do to Help? And Other Readerly Questions to the Old Testament (JSOT Press, 1990).
- The Dictionary of Classical Hebrew, 9 volumes (1993-2016).
- Interested Parties: The Ideology of Writers and Readers of the Hebrew Bible (Sheffield Academic Press, 1995).
- On the Way to the Postmodern: Old Testament Essays, 1967-1998, 2 volumes (Sheffield Academic Press, 1998).
- Scenes from a Provincial Life: Memoirs of a Biblical Scholar (Sheffield Phoenix Press, póstumo).
Para aprofundar
- Universidade de Sheffield, “In memory of David J.A. Clines” e “In memory of David J.A. Clines” (Sheffield Centre for Interdisciplinary Biblical Studies).
- “A short academic obituary”, página memorial de David J. A. Clines, 16 dez. 2022.
- Anthony R. Petterson, resenha de Scenes from a Provincial Life: Memoirs of a Biblical Scholar, Themelios 51.2.
- Stanley E. Porter, “Mourning the Loss of David J. A. Clines”, Domain Thirty-Three, 23 dez. 2022.
- Tim Grass, “F.F. Bruce: Lay Christian in a Secular University”, Highland Theological College, 2014 (sobre a fundação do departamento de Sheffield).
- D. J. A. Clines, “The Image of God in Man”, Tyndale Bulletin 19 (1968).
- D. J. A. Clines, “Biblical Hermeneutics in Theory and Practice”, Christian Brethren Review 31-32 (1982).
- David Clines, “Biblical Reflections on the Religious Professional”, Christian Brethren Review 37.
- Hulisani Ramantswana, “From Royal Tribe to Landless Tribe”, Journal for Semitics (2017), sobre a tese de The Theme of the Pentateuch.
- Society of Evangelical Arminians, “Book Review: Grace for All” (2015), e MikeB, “Grace for All: Exploring Predestination in the Old Testament” (2015), resumos do ensaio de Clines.
- Marg Mowczko, “Eve as helper in Genesis 2”, sobre o ensaio What Does Eve Do to Help?.
- “David J. A. Clines”, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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