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Jerry Vines: O pregador de Jacksonville que leu João 3:16 contra os cinco pontos do calvinismo

Diego Gonçalves14 min de leitura2.742 palavras

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Neste texto

Numa tarde do primeiro ano de faculdade, um calouro de 18 anos da Mercer University, em Macon, na Geórgia, foi até um parque da cidade e se ajoelhou num trecho de mata com a Bíblia na mão. Nas primeiras aulas tinha ouvido professores dizerem que quem acredita que a Bíblia não tem erros é um tolo. Ele orou: “Senhor, eles são mais inteligentes do que eu jamais serei, mas o Senhor me ensinou”. E decidiu crer, pela fé, que a Bíblia é inspirada. O rapaz era Jerry Vines. Três décadas depois, ele pregaria na Convenção Batista do Sul um sermão sobre a Bíblia que marcou a virada conservadora da denominação, e mais tarde lideraria a resposta dos batistas do Sul não calvinistas aos cinco pontos do calvinismo.

Vida

Carrollton

Charles Jerry Vines nasceu em 22 de setembro de 1937, na zona rural do condado de Carroll, na Geórgia, perto de Carrollton. A mãe, Ruby, cuidava da casa; o pai, Clarence, dirigia um caminhão de pão e vendia seguros e móveis. Ainda menino, Jerry sentava no segundo banco da igreja e anotava os sermões. Converteu-se aos nove anos: um amigo o chamou para ir à igreja, o pastor explicou aos dois o plano da salvação, e naquela noite, no culto, Jerry recebeu a Cristo. O avô Johnson, homem de negócios chamado a pregar já idoso, ensinou-lhe a volta pré-milenista de Cristo.

Aos 16 anos Vines sentiu o chamado para pregar. Quando o anunciou à igreja, o pai desceu até a frente com lágrimas e lhe disse: “Pode contar comigo”. O primeiro sermão foi numa quarta-feira de chuva forte, na Shady Grove Baptist Church, para umas oito pessoas. A biblioteca do jovem pregador tinha dois livros, a Bíblia e A Quest for Souls (“Em busca de almas”), sermões evangelísticos de George W. Truett. Daí vieram as duas ênfases da vida inteira dele: a autoridade da Bíblia e a evangelização.

Os anos de formação

Em 1955 Vines entrou na Mercer, onde estudou cristianismo, grego e filosofia, e passou pela crise da abertura deste texto. Ao mesmo tempo pastoreou a Centralhatchee Baptist Church e, a partir de 1957, a Bethesda Baptist Church, em Carrollton. Formou-se em 1959. Num domingo de maio de 1960, quando ia pregar sobre a escada de Jacó, viu entrar na Bethesda Janet Denney, de Atlanta, e contava que “caiu da escada”. Casaram-se poucos meses depois e tiveram quatro filhos.

O casal foi para o Seminário Teológico Batista de Nova Orleans, mas teve de voltar à Geórgia, onde Vines pastoreou igrejas em Cedartown e no condado de Carroll. Em 1965 terminou o seminário indo e voltando de trem toda semana: saía de Nova Orleans na sexta à noite, fazia cerca de trinta visitas pastorais no sábado em Cedartown, pregava no domingo e voltava às aulas na segunda. Recebeu o bacharelado em divindade em 1966.

Em 1969 assumiu a West Rome Baptist Church, em Rome, na Geórgia, onde criou um programa de rádio, um ministério com surdos e um ministério de ônibus. Em 1973, um adolescente da igreja foi à frente num culto para dizer que Deus o chamara para pregar. Era David L. Allen, que se tornaria professor de teologia e de pregação e organizaria, quase quarenta anos depois, o livro em que Vines e outros batistas criticaram o calvinismo. Em 1974 Vines concluiu o doutorado em teologia no Luther Rice Seminary.

Mobile e Jacksonville

Ainda em 1974 foi chamado para a Dauphin Way Baptist Church, em Mobile, no Alabama. Resumia o ministério em dois propósitos, que repetiria a vida toda: levar pessoas a Cristo e ajudar os cristãos a crescer. Em Mobile começou a pregar livros inteiros da Bíblia, versículo por versículo, e em 1977 pregou Our Ascended Lord (“Nosso Senhor que subiu aos céus”), o sermão que mais respostas lhe trouxe.

Em julho de 1982 tornou-se copastor, com o amigo Homer G. Lindsay Jr., da First Baptist Church de Jacksonville, na Flórida, então a terceira maior igreja da convenção. Nos primeiros vinte anos dele ali, a igreja batizou 18.177 pessoas e construiu um auditório de 16 milhões de dólares. Lindsay morreu em fevereiro de 2000, e Vines ficou sozinho à frente de uma igreja de cerca de 28 mil membros. Deixou o pastorado em fevereiro de 2006, dizendo que se aposentava da igreja, mas não do ministério do evangelho.

A Convenção Batista do Sul

Vines esteve desde o começo no movimento que os conservadores chamaram de “ressurgimento conservador”, e os moderados, de “tomada” da convenção. O objetivo, nas palavras dele, era devolver a denominação às suas raízes conservadoras, sobretudo nos seminários. Em 1977 Adrian Rogers indicou o nome dele para a presidência, e Vines perdeu no segundo turno. Em 1979 o candidato foi Rogers, que venceu.

Em 1987, em St. Louis, Vines pregou o sermão da convenção, A Baptist and His Bible (“Um batista e a sua Bíblia”), sobre 2 Timóteo 3:14-4:13. Disse que quem obriga a Bíblia a pagar pedágio em cada posto da opinião racional acaba entregando a criação, depois a história, depois os milagres, até ficar com “uma Bíblia cheia de buracos em vez de uma Bíblia inteira”. No ano seguinte, em San Antonio, foi eleito presidente da convenção com 50,5% dos votos contra o moderado Richard Jackson, uma das margens mais estreitas da história da denominação. Em 1989, em Las Vegas, venceu Daniel Vestal por 10.754 votos a 8.248 e declarou que a questão da autoridade da Bíblia estava resolvida entre os batistas do Sul.

Duas controvérsias marcaram a vida pública dele depois disso. Em junho de 2002, na conferência de pastores da convenção, Vines chamou Maomé de “pedófilo possuído por demônios”. A frase foi condenada por líderes muçulmanos e por pastores de várias igrejas, inclusive batistas, e em 2003 ele disse à rede NBC que não pretendia incitar ódio. Em 2014, a editora B&H retirou três frases da autobiografia dele sobre o evangelista Darrell Gilyard, que Vines e Paige Patterson tinham promovido e que depois foi condenado por abuso de menores. Uma das jovens que denunciaram Gilyard disse que o livro contava a história dela de modo incorreto, e Vines concordou que as frases não descreviam bem a situação.

Os últimos anos

Depois de Jacksonville, Vines dedicou-se à Jerry Vines Ministries, que promove as conferências Power in the Pulpit (“Poder no púlpito”) para ensinar pastores a pregar de forma expositiva. Em 2008 a organização ajudou a patrocinar a Conferência João 3:16, cujas palestras viraram o livro Whosoever Will (2010). Em 2017, aos 79 anos, matriculou-se no doutorado em pregação do Seminário Teológico Batista do Sudoeste, em Fort Worth. “Achei melhor praticar o que prego”, brincou. Concluiu o curso em 2020 com uma tese sobre o páthos, o apelo às emoções, na carta de Judas.

Pensamento

Onde ele fica

Classe: simpatizante. Vines é batista do Sul e, no sermão em que tratou do calvinismo, em 2006, declarou-se nem calvinista nem arminiano. Em 2012 assinou, com outros ex-presidentes da convenção, a Declaração da compreensão batista do Sul tradicional do plano de salvação de Deus. Esse grupo chama a sua posição de “tradicional” e hoje também de provisionista, a mesma de Adam Harwood. Nos pontos centrais da controvérsia, Vines fica do lado arminiano: Cristo morreu por todos, a graça pode ser resistida e a eleição está ligada à fé e à presciência de Deus. Afasta-se do arminianismo clássico na segurança do crente, que considera incondicional.

Roger Olson escreveu que a teologia dos autores de Whosoever Will é, em grande parte, coerente com o arminianismo clássico, embora eles evitem o nome, porque muitos batistas do Sul associam “arminiano” à perda da salvação. É uma associação estreita: na Declaração de Sentimentos, de 1608, Jacó Armínio deixou a questão em aberto, e a Remonstrância de 1610 pediu que ela fosse examinada nas Escrituras.

João 3:16

Perguntado por um repórter o que pregaria se pudesse reunir toda a cidade para ouvir o último sermão, Vines respondeu que pregaria João 3:16: “Isso é tudo, num resumo”. O sermão dele sobre o versículo abre Whosoever Will. “Mundo”, no grego kosmos, é a raça humana inteira, e por isso o amor de Deus é global: “O amor de Deus não depende de quem o recebe ser digno dele”. “Todo aquele” traduz o grego pas, palavra de totalidade, e não pode ser reduzido a “todos os eleitos que creem”. A exegese vem antes do sistema, e Vines dizia que, conforme o texto que prega, uns o chamam de calvinista e outros de arminiano. A fé nasce da Palavra pregada (Romanos 10:17) e da convicção do Espírito, e 2 Tessalonicenses 2:13 junta os dois lados: a salvação vem “pela santificação do Espírito e fé da verdade”. Na serpente de bronze, que Jesus evoca em João 3:14-15, quem olhava vivia; crer vem antes da vida eterna.

A eleição e a presciência

Em outubro de 2006, Vines pregou na First Baptist Church de Woodstock, na Geórgia, o sermão Calvinism: A Baptist and His Election (“Calvinismo: um batista e a sua eleição”). Pela primeira vez na vida pregou lendo um manuscrito, para ser preciso, e percorreu os cinco pontos um a um.

Afirmou que todo ser humano nasce com natureza pecaminosa, manchada em cada parte, mas recusou a tese de que a regeneração vem antes da fé: “Se você nasce de novo antes da fé, o que a fé realiza?”. Lembrou que, em Atos 17:30, Deus “anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam”. Mas não deu ao pecador uma capacidade natural de se salvar: “O homem tem total incapacidade de fazer qualquer coisa para se salvar, mas tem a capacidade, dada por Deus, de receber a salvação pela fé”.

A eleição, disse, é incondicional do lado de Deus, que dá, e condicionada pela fé do lado de quem recebe. A expiação vale para todos (1 João 2:2): se um homem se oferece para pagar o jantar de vinte pessoas e só quinze aceitam, a oferta não falhou, apenas não foi aceita. E sobre a presciência: “O conhecimento que Deus tem do futuro não determina o futuro, assim como o conhecimento que o homem tem do passado não determina o passado”. Deus é como um mestre de xadrez diante de um principiante, que faz o lance que quiser enquanto o mestre vence sempre.

É, sem o nome, a estrutura do quarto decreto de Armínio, que fala em salvar os que Deus sabe de antemão que vão crer, e da eleição condicional em Cristo. A frase sobre a incapacidade humana também fica perto da graça preveniente, a graça que alcança todas as pessoas antes da fé e as torna capazes de crer. Já o artigo 2 da declaração que ele assinou nega que o pecado de Adão tenha incapacitado a livre vontade de qualquer pessoa. Albert Mohler, que concordou com boa parte do texto, disse que esse artigo parecia semipelagiano. O arminianismo clássico afirma que, depois da queda, a vontade está morta para o bem e só a graça a liberta. Nesse ponto, o sermão de Vines está mais perto de Armínio do que o artigo que ele assinou.

Evangelização e unidade

Para Vines, uma teologia se prova pelo que faz com a evangelização. Em 2006 disse que, quando um calvinista ganha almas, ganha “apesar do calvinismo, não por causa dele”. Em 2012 chamou a expansão do novo calvinismo na convenção de “o elefante na sala” e escreveu que “alguns, não todos” os novos calvinistas eram “hostis, militantes e agressivos”. Ao mesmo tempo, disse não querer que nenhum calvinista se sentisse indesejado e pediu que cada lado defendesse as suas convicções dentro da confissão batista. “Não tenho estômago para uma batalha”, escreveu. “Já estive em batalhas suficientes para duas vidas.”

Onde a declaração de fé deste site difere

A declaração de 2012 nega até a possibilidade de apostasia. A declaração de fé deste site, com Wesley e os remonstrantes posteriores, ensina a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e a fé pode ser abandonada (João 15:4-6; Hebreus 3:12-14). Entre os batistas do Sul houve quem chegasse a essa conclusão, como Robert Shank e Dale Moody. Vines, como o avô que o formou, é também pré-milenista, enquanto este site é amilenista. As diferenças entre a tradição dele e a metodista estão em Batistas vs Metodistas.

O pregador expositivo

O legado mais duradouro de Vines está nos livros sobre pregação, sobretudo Power in the Pulpit (1999), escrito com Jim Shaddix. O método: diante de cada trecho, perguntar o que o texto diz, o que significa e o que manda as pessoas fazerem. Como pastor, gastava cerca de vinte horas em cada sermão e pregava sem anotações. Em Passion in the Pulpit (2018) e na tese sobre Judas, insistiu que o pregador precisa expor também o tom emocional do texto. Para ele, a pregação de necessidades sentidas “é como algodão-doce: doce na boca, mas sem substância”.

Obras principais

  • Fire in the Pulpit (Broadman, 1977)
  • “I Shall Return”… Jesus (Victor Books, 1977)
  • Interviews with Jesus (Broadman, 1981)
  • A Practical Guide to Sermon Preparation (Moody, 1985)
  • A Guide to Effective Sermon Delivery (Moody, 1986)
  • Exploring 1, 2, 3 John (Loizeaux Brothers, 1989)
  • SpiritLife (Broadman & Holman, 1998)
  • Power in the Pulpit, com Jim Shaddix (Moody, 1999)
  • Pursuing God’s Own Heart: Lessons from the Life of David (Broadman & Holman, 2003)
  • “Sermon on John 3:16”, em David L. Allen e Steve W. Lemke (orgs.), Whosoever Will (B&H Academic, 2010)
  • Vines: My Life and Ministry (B&H, 2014)
  • Progress in the Pulpit, com Jim Shaddix (Moody, 2017)
  • Passion in the Pulpit, com Adam Dooley (Moody, 2018)
  • The Vines Expository Bible (Thomas Nelson, 2018)

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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