
HistóriaTeólogos arminianos12 de 149
Conrado Vorstius: O sucessor de Armínio que nunca deu aula em Leiden
No outono de 1611, por ordem do rei Jaime I da Inglaterra, exemplares de um tratado latino sobre a natureza e os atributos de Deus foram queimados em público no adro da catedral de São Paulo, em Londres, e nas universidades de Oxford e de Cambridge. O autor era um professor alemão que acabava de ser chamado para a cadeira de teologia deixada em Leiden por Jacó Armínio. O rei escreveu aos Estados Gerais que nenhum herege merecera mais a fogueira e pôs em jogo a aliança com a república holandesa para que aquele homem não ensinasse. Conseguiu. Conrado Vorstius foi nomeado sucessor de Armínio, mudou-se para Leiden com a família e nunca deu uma aula ali.
Vida
Colônia e os anos de estudo
Konrad von der Vorst, que assinava em latim Conradus Vorstius, nasceu em Colônia em 19 de julho de 1569. Era o caçula dos dez filhos de Dietrich von der Vorst e Sophia Sterck, comerciantes católicos que se aproximaram da Reforma. Estudou em Colônia, em Düsseldorf, de 1583 a 1587, e em Aachen. No Colégio Laurentiano de Colônia, em 1586, recusou o juramento aos decretos do Concílio de Trento e por isso ficou sem o grau de mestre em artes.
Os negócios do pai entraram em crise, e o rapaz passou dois anos no comércio, até que o pregador reformado Johann Badius o convenceu a voltar aos livros. Em 1589 foi para a academia de Herborn, onde ouviu Johannes Piscator, com quem depois travaria uma longa polêmica. Em 1593 acompanhou alunos nobres até Heidelberg, estudou com David Pareus e Daniel Tossanus e recebeu o doutorado em teologia em 1594. Ali leu pela primeira vez os livros de Fausto Socino, o teólogo italiano que negava a Trindade e a satisfação de Cristo. Julgava que um doutor devia conhecer as doutrinas que examinaria, e escreveu a socinianos para conseguir os seus livros. Em 1595 recusou uma cátedra em Genebra, oferecida por Teodoro de Beza.
Quinze anos em Steinfurt
Em 1596 o conde Arnold de Bentheim o chamou para a escola superior que tinha fundado em Steinfurt, na Vestfália. Vorstius ficou ali quinze anos. A linguagem das disputas que publicou em 1597, sobre a predestinação, a Trindade e a pessoa e a obra de Cristo, fez correr os primeiros boatos de que ensinava o socinianismo. Em 1599 o conde o mandou a Heidelberg para responder à faculdade de teologia. Os professores aceitaram a sua confissão de fé, mas exigiram que ele se afastasse de Socino e reconhecesse que algumas expressões tinham saído do “fogo da juventude”.
As cartas que escreveu então a Pareus e a Tossanus mostram o homem. A verdadeira igreja, lembrou, não prende ninguém às hipóteses dos homens, por melhores que sejam. “Em matéria de religião, deve-se perguntar o que se diz, e não quem o diz”, escreveu, e acrescentou que a verdade continua verdade mesmo quando o diabo a pronuncia. À faculdade pediu que lhe provassem o erro, porque a convicção humana não se dobra pela força nem pelo medo, só por argumentos sólidos.
Em 1605 tornou-se pregador da corte de Steinfurt e assessor do consistório. Recusou convites de Saumur, Marburgo e Hanau e escreveu contra a teologia católica, sobretudo o Anti-Bellarminus (1610), resposta ao cardeal jesuíta Roberto Belarmino, que lhe deu fama de reformado sólido e moderado.
O chamado para Leiden
Armínio morreu em outubro de 1609. Os curadores da Universidade de Leiden queriam ao lado de Franciscus Gomarus, o defensor da predestinação incondicional, um teólogo que não fosse do partido dele. Johannes Wtenbogaert, pregador da corte da Haia e amigo de Armínio, indicou Vorstius, que se correspondera com Armínio, e em julho de 1610 os curadores o convidaram.
A oposição começou antes que ele pisasse na Holanda. O pastor Petrus Plancius, de Amsterdã, pediu à faculdade de Heidelberg que condenasse o Tractatus theologicus de Deo, que Vorstius acabava de reeditar com dez disputas de Steinfurt e notas novas. Em 1º de outubro de 1610 Gomarus disse aos curadores que o livro abria caminho para o ateísmo e que, perto de Vorstius, Armínio era um santo. Depois deixou a universidade, dizendo aos estudantes que saía por causa do novo colega. Cerca de 55 estudantes assinaram uma petição contra a nomeação, mas os curadores ouviram Vorstius e mantiveram a escolha, com o apoio do advogado da Holanda, Johan van Oldenbarnevelt.
Em 23 de abril de 1611 Vorstius aceitou o cargo, vencido, disse ele, “pela força de boas razões e pela própria consciência”. Em maio respondeu, diante dos Estados da Holanda, às acusações de seis pastores, e os Estados não viram motivo para impedir a nomeação.
O rei e o fogo
Sibrandus Lubbertus, professor em Franeker, escreveu contra Vorstius e dedicou o livro a George Abbot, arcebispo de Cantuária, que levou o caso ao rei. Jaime I leu o Tractatus de Deo e a Exegesis apologetica (1611), a defesa que Vorstius dedicara aos Estados. Em setembro de 1611 o embaixador inglês, Ralph Winwood, pediu aos Estados Gerais que barrassem o professor, e os livros foram para a fogueira. Em carta de 6 de outubro o rei chamou Armínio de “inimigo de Deus” e pediu que Vorstius fosse afastado. Em 1612 publicou uma Declaração inteira contra ele.
Vorstius respondeu com respeito. Ao embaixador perguntou de quem a inocência estaria segura se bastasse acusar alguém para que toda acusação fosse tida como provada. Publicou a Christiana ac modesta responsio (1611), aos artigos enviados da Inglaterra, e em 22 de março de 1612 discursou em sua defesa diante dos Estados da Holanda. Oldenbarnevelt não quis ceder ao rei nem podia romper com a Inglaterra, e a saída foi suspender o professor: manteria o salário e não daria aulas. Em meados de 1612 Vorstius deixou Leiden e foi morar em Gouda. Em 1613 Hugo Grócio defendeu, contra Lubbertus, o direito dos Estados de nomeá-lo.
Em Gouda, até 1619, Vorstius respondeu a Lubbertus e a Piscator, seu antigo professor, que tinha atacado o Tractatus de Deo, com a Amica collatio (1613), a Amica duplicatio (1617) e um exame da doutrina dele sobre a predestinação (1618).
Dort, a fuga e Friedrichstadt
No fim do Sínodo de Dort, que condenou os remonstrantes, os delegados julgaram também o caso de Vorstius. Eles, inclusive os ingleses, concluíram que ele era indigno da cátedra e do ministério, porque nos seus livros tratava de modo errado da natureza de Deus, da Trindade, da divindade de Cristo e da justificação. Em maio de 1619 foi destituído, excluído da igreja e, por decisão dos Estados, banido da Holanda e da Frísia Ocidental.
Durante três anos viveu escondido, sobretudo perto de Utrecht. Recusou a volta a Steinfurt e aceitou outro convite. O duque Frederico III de Holstein-Gottorp acolhia os remonstrantes exilados e tinha fundado para eles, em 1621, a cidade de Friedrichstadt, às margens do rio Eider. Vorstius passou alguns dias em Amsterdã, na casa do poeta Joost van den Vondel, seguiu para Hoorn e em 4 de junho de 1622 embarcou para Tönning, em Holstein. Em 19 de julho o duque o nomeou professor de teologia, com direito de pregar em Friedrichstadt.
Adoeceu pouco depois de chegar, sem exercer o cargo, e morreu em Tönning no outono de 1622, com 53 anos. O corpo foi levado para Friedrichstadt e sepultado no terreno onde depois se construiu a igreja remonstrante da cidade. A oração fúnebre do reitor Marcus Gualtherus saiu impressa em 1624. Vondel escreveu um poema sobre a sua morte, em que a alma de Vorstius vai para Deus e o corpo para “a cidade da paz”.
Os filhos Willem Hendrik e Guernerus foram pregadores da Fraternidade Remonstrante, a igreja que os seguidores de Armínio organizaram no exílio. Guernerus publicou em 1670 um escrito do pai, Doodsteek der calvinistische predestinatie, “golpe mortal na predestinação calvinista”.
Pensamento
Vorstius pertence à história dos remonstrantes, a linha do arminianismo clássico que nasceu em Leiden e na Remonstrância de 1610: sucedeu a Armínio, foi defendido por Wtenbogaert e Grócio, condenado em Dort com o movimento e acolhido pelos exilados de Friedrichstadt. Na doutrina de Deus e da obra de Cristo, porém, ele se afastou de Armínio e chegou perto de teses socinianas, e por isso ocupa um lugar à parte na tradição.
A predestinação
Vorstius chegou devagar à crítica da predestinação calvinista. Quando foi chamado a Leiden, ainda se inclinava para a posição de Calvino. No Anti-Bellarminus (1610) expôs a eleição incondicional, a escolha de alguns por pura misericórdia, como a posição da maioria dos evangélicos. Mas registrou sem censura que “não poucos” faziam a eleição depender da fé prevista, “enquanto ela olha para Cristo e para o seu mérito”, e reclamou que Belarmino tratava os luteranos como pelagianos, isto é, como quem ensina que o ser humano se salva pelas próprias forças.
Nos anos de Gouda a posição mudou. Na polêmica com Piscator, que defendia o decreto absoluto de eleição e reprovação, Vorstius passou a rejeitar a ideia de um decreto eterno pelo qual Deus teria destinado uns à salvação e outros à condenação. O centro do seu interesse era a vida moral e a piedade prática: para ele, a onipotência de Deus é governada pelas suas perfeições morais, e não há justificação sem conversão. Nesse ponto ficou ao lado de Armínio, para quem a eleição se dá em Cristo e tem em vista os que creem. Armínio punha no centro dessa doutrina a incapacidade humana depois da queda e a graça que vem antes de qualquer resposta, como se lê na Declaração de Sentimentos: a eleição é condicional, e a fé é sempre dom da graça.
A doutrina de Deus
Na tradição escolástica, Deus é simples, isto é, sem partes: os seus atributos coincidem com o seu ser, e por isso ele é imutável. Vorstius discutiu essas teses como questões abertas. Admitiu em Deus “alguma diversidade ou multiplicidade em si mesmo, e até o princípio de certa mutabilidade” (Tractatus de Deo, citado por Jaime I na Declaração, 1612). Nas notas da terceira disputa, depois de escrever que as qualidades de Deus são simples e uniformes, admitiu nele propriedades acidentais tantas quantas são os seus decretos sobre as coisas de fora. Os críticos o acusaram ainda de atribuir a Deus qualidade e quantidade, e até um corpo, de limitar a sua imensidade, de tratar a eternidade como sucessão de eras e de restringir o conhecimento que Deus tem do futuro contingente, ou seja, das ações que dependem de escolhas livres. A defesa de Vorstius era que muito daquilo tinha sido proposto como disputa de escola e não como dogma. O rei respondeu que, nos mistérios de Deus, abrir a pergunta já equivale a concluir contra a fé.
Cristo e a satisfação
O primeiro ponto em que Vorstius divergiu do calvinismo, e a porta pela qual entrou em contato com Socino, foi a doutrina da satisfação, a de que Cristo pagou na cruz a pena devida pelos nossos pecados. Ele a reinterpretou em termos não penais, mais próximos de uma obra moral de reconciliação. Ao mesmo tempo negou sempre ter adotado a doutrina dos antitrinitários. Na Fidei christianae delineatio brevis, escrita em 1620 e publicada em 1632, afirmou a Trindade, embora destacasse a primazia do Pai. Os socinianos o contaram entre os seus por causa de uma confissão atribuída aos seus últimos dias, e Pierre Bayle julgou que a suspeita tinha fundamento; o historiador holandês H. C. Rogge viu nele quem buscava uma doutrina mais branda que a escolástica, sem fazer seu o sistema de Socino.
Nesses dois pontos Vorstius se separa de Armínio e da declaração de fé deste site. Armínio defendeu a Trindade e a divindade do Filho nos termos dos credos, afirmou que Deus conhece todo o futuro, inclusive as escolhas livres, e ensinou a satisfação penal de Cristo, e o site crê da mesma forma no Deus trino, em Cristo como sacrifício pelos pecados e na presciência exaustiva de Deus. A nomeação também pesou sobre o movimento: Grócio admitiu que os remonstrantes prejudicaram a própria causa ao insistir nele, e a acusação de socinianismo acompanhou por muito tempo os remonstrantes, entre eles Simão Episcópio.
O que ficou de mais duradouro em Vorstius foi a defesa da liberdade de examinar. Ele não aceitava que uma tese fosse julgada pelo nome de quem a defendia nem que alguém fosse condenado sem ser convencido, e pagou por isso com a cátedra, o país que o tinha chamado e os últimos anos de vida.
Obras principais
- De praedestinatione, De sancta Trinitate e De persona et officio Christi, disputas (Steinfurt, 1597).
- Anti-Bellarminus contractus (Hanau, 1610).
- Tractatus theologicus de Deo, sive de natura et attributis Dei (Steinfurt, 1610), com disputas de 1598 a 1602.
- Exegesis apologetica (1611).
- Christiana ac modesta responsio, aos artigos enviados da Inglaterra (Leiden, 1611).
- Amica collatio cum Iohanne Piscatore (Gouda, 1613).
- Amica duplicatio (Gouda, 1617).
- Plenior idea doctrinae Piscatoris de praedestinatione (1618).
- Commentarius in omnes epistolas apostolicas (Amsterdã, 1631, póstumo).
- Fidei christianae delineatio brevis (escrita em 1620, publicada em 1632).
- Doodsteek der calvinistische predestinatie (póstumo, 1670).
Para aprofundar
- J. C. van Slee, “Vorstius, Konrad”, Allgemeine Deutsche Biographie, vol. 40 (1896), em Deutsche Biographie.
- H. Y. Groenewegen, “Vorstius, Conradus”, Nieuw Nederlandsch Biografisch Woordenboek, vol. 3 (1914), em DBNL.
- A. J. van der Aa, “Vorstius (Conradus)”, Biographisch Woordenboek der Nederlanden, vol. 19 (1876), em DBNL.
- H. C. Rogge, “Het beroep van Vorstius tot hoogleeraar te Leiden”, De Gids 37 (1873), primeira parte e segunda parte.
- “Vorstius, Conrad”, The New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge, vol. 12, em CCEL.
- Alexander Chalmers, “Vorstius (Conrade)”, General Biographical Dictionary, vol. 30, em From Old Books.
- Conradus Vorstius, Anti-Bellarminus contractus (Hanau, 1610), digitalização da Biblioteca Estatal da Baviera no Internet Archive.
- Jaime I, A Declaration against Vorstius (1612), em The Workes of the Most High and Mightie Prince, James (Londres, 1616), no Internet Archive; trecho também na Universidade do Texas.
- Thomas Fuller, The Church History of Britain, livro 10, seção 4, na Universidade do Texas.
- Bernhardus de Moor, Commentarius perpetuus IV, 24, sobre a simplicidade de Deus contra os socinianos e Vorstius, em From Reformation to Reformation.
- Joost van den Vondel, “Lyck-dicht, op ‘t overlijden van D. Coenradus Vorstius” (1622), com notas, em DBNL.
- “Conrad Vorstius”, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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