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David A. deSilva: o biblista metodista que leu a graça pela cultura da honra
Neste texto
- Vida
- Da Igreja Episcopal a Emory
- Três décadas em Ashland
- O Sri Lanka
- A Igreja Metodista Global
- Pensamento
- Um wesleyano
- A graça vem antes, e para todos
- Graça, patronato e gratidão
- Hebreus 6 e a possibilidade da apostasia
- Justificação que transforma
- Onde ele se distingue
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Em setembro de 1985, um estudante de inglês da Universidade de Princeton, com dezoito anos, assumiu o órgão e o coro da Igreja Episcopal de São Jorge, em Helmetta, Nova Jersey. David Arthur deSilva nunca mais saiu do banco do órgão. Quatro décadas e mais de trinta livros sobre o Novo Testamento depois, ele dirige a música dos cultos tradicionais de uma igreja metodista na Flórida e diz que a música sacra está no centro da sua comunhão com Deus. O erudito da cultura da honra e do patronato no mundo greco-romano escreve também guias de oração, um catecismo e um romance sobre os macabeus.
Vida
Da Igreja Episcopal a Emory
David A. deSilva nasceu em 15 de abril de 1967. É americano de ascendência cingalesa, a maior etnia do Sri Lanka. Ainda menino leu o Evangelho de Mateus inteiro, um marco que ele mesmo aponta na sua vida espiritual. “A Escritura me agarrou cedo”, escreveu, “e me sustentou e dirigiu até hoje.”
Os primeiros 24 anos ele viveu na Igreja Episcopal, e diz que o livro que mais o formou depois da Bíblia foi o Livro de Oração Comum de 1979, cujas liturgias continuam a ser a sua “linguagem de oração”. Formou-se em inglês em Princeton em 1987, foi capelão universitário no Westminster Choir College (1987-1989) e concluiu o mestrado em Divindade no Seminário Teológico de Princeton em 1990.
Em 1990 mudou-se para Atlanta, para o doutorado em Novo Testamento na Universidade Emory. Foi nesses anos que conheceu a doutrina wesleyana e deixou a Igreja Episcopal pelo metodismo. Tocava órgão numa igreja luterana de Riverdale, na Geórgia, e ensinava na Escola de Teologia Candler, como professor adjunto (1992-1994) e instrutor assistente (1994-1995).
A tese, defendida em 1995, estudou a função social da retórica da honra e da desonra na Carta aos Hebreus. Saiu no mesmo ano como Despising Shame (“Desprezando a vergonha”, expressão de Hebreus 12:2) e ganhou edição revista em 2008. Ainda em 1995 foi ordenado presbítero da Conferência da Flórida da Igreja Metodista Unida.
Três décadas em Ashland
Em 1995 deSilva chegou ao Seminário Teológico de Ashland, em Ohio, no mesmo ano em que Ben Witherington III deixava a escola rumo a Asbury. Subiu de professor assistente a titular em 2002 e em 2005 recebeu a cátedra de Trustees’ Distinguished Professor de Novo Testamento e Grego.
Em 2001 foi eleito para a Studiorum Novi Testamenti Societas, a sociedade internacional dos estudiosos do Novo Testamento. Foi bolsista da Fundação Alexander von Humboldt, na Alemanha (2006-2007, com renovações em 2011 e 2022), e em 2024 lecionou na École Biblique et Archéologique Française de Jerusalém.
Trabalhou também na tradução da Bíblia: foi o editor dos livros apócrifos da Common English Bible (2007-2011), traduziu e revisou os apócrifos da English Standard Version e foi consultor da revisão da New Revised Standard Version (2022-2023). Introducing the Apocrypha (2002; 2ª ed., 2018) apresenta os livros que ficaram fora do cânon protestante, e o livro de que mais se orgulha é An Introduction to the New Testament (2004; 2ª ed., 2018), cujo subtítulo junta contextos, métodos e “formação para o ministério”.
A igreja local continuou no centro. Foi organista e diretor de música da Igreja Metodista Unida Christ, em Ashland (1998-2014), e desde 2014 dirige a música dos cultos tradicionais em Port Charlotte, na Flórida, onde foi também pastor interino entre 2017 e 2018. É casado com Donna Jean, com quem tem três filhos adultos. O versículo que escolhe como predileto é 2 Coríntios 5:15: “E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si” (Bíblia Livre).
O Sri Lanka
A ascendência cingalesa virou ministério. deSilva ensinou como visitante no Seminário Teológico de Colombo em 2010, 2013, 2017 e 2022, e de lá saiu Global Readings: A Sri Lankan Commentary on Paul’s Letter to the Galatians (2011). Ao lado da exegese, o livro traz seções de “leitura com os cristãos do Sri Lanka”, fruto de conversas com líderes das igrejas locais sobre os desafios de viver a mensagem de Gálatas num país de maioria budista. Foi o primeiro passo para o seu comentário a Gálatas na série New International Commentary on the New Testament (2018). O Sri Lanka é a terra do pregador metodista Ajith Fernando, outro nome desta série.
A Igreja Metodista Global
Em 2023 deSilva transferiu as suas credenciais para a Igreja Metodista Global, fundada em 2022 por metodistas tradicionais que deixaram a Igreja Metodista Unida nos debates sobre a autoridade da Bíblia e a ética sexual. É presbítero da Conferência Anual da Flórida da nova igreja.
Coube a ele comentar o catecismo da denominação, de 77 perguntas e respostas. Christian Faith and Doctrine: An Annotated Catechism for the Global Methodist Church saiu em 2024 pela editora Seedbed, que desde então publica um trecho por semana.
Pensamento
Um wesleyano
deSilva é wesleyano, na linha de John Wesley: presbítero metodista desde 1995, intérprete do catecismo da Igreja Metodista Global e autor de Praying with John Wesley (2001), guia de uma semana de orações da manhã e da noite, construído sobre o modelo de oração diária que Wesley montou em 1733, com uma virtude cristã por dia. No catecismo anotado ele defende a graça preveniente universal, a inteira santificação nesta vida e uma perseverança que precisa ser guardada, os pontos que fazem do metodismo uma tradição arminiana.
A graça vem antes, e para todos
O comentário à pergunta 50 do catecismo (“Como a graça amanhece na alma desamparada?”) mostra com clareza onde ele fica. A resposta do catecismo diz que a graça preveniente de Deus alivia os efeitos do pecado original antes mesmo de percebermos que precisamos dele. deSilva lembra que, para Wesley, os seres humanos estão “totalmente incapazes de buscar a Deus e voltar a ele por iniciativa e força próprias”. Nisso, observa, Wesley concorda com Calvino e com a tradição reformada: depois da queda, ninguém dá o primeiro passo. A diferença está em outro lugar. Para os wesleyanos, Deus já deu esse passo em favor de todas as pessoas, e não de um grupo escolhido de antemão, porque ama a todos e quer que todos se arrependam.
Essa é a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana. Ela não apaga a inclinação para o pecado com que nascemos, mas devolve à vontade liberdade suficiente para escolher entre servir a si mesmo e servir ao Criador e Redentor. A pessoa não começa nada; responde a um Deus que já agiu. Daí uma consequência prática: quando alguém que ainda não segue Jesus mostra senso de justiça ou trabalha pelo bem do próximo, o cristão deve ver ali um sinal da ação de Deus e um ponto de partida para o convite ao evangelho (ver A graça preveniente: a graça que vem antes).
Ao comentar a pergunta 48 (“Quem, então, pode ser salvo?”), ele parte do jovem rico de Mateus 19 e da resposta de Jesus: “Para os seres humanos, isto é impossível; mas para Deus tudo é possível” (Mateus 19:26, Bíblia Livre). “O Espírito Santo”, escreve, “é a solução divina para o problema da rebeldia humana e da incapacidade humana” (Christian Faith and Doctrine, 2024). Do primeiro impulso de arrependimento à perseverança final, a salvação é obra de Deus.
Graça, patronato e gratidão
A contribuição mais conhecida de deSilva aos estudos bíblicos é a leitura do Novo Testamento à luz de quatro valores da cultura mediterrânea do século I: honra, patronato, parentesco e pureza (Honor, Patronage, Kinship and Purity, 2000; 2ª ed., 2022). No mundo greco-romano, a vida social girava em torno de benfeitores, que concediam favores, e de clientes, que respondiam com lealdade e gratidão. A palavra grega charis, “graça”, cobria as três coisas: a disposição generosa do benfeitor, o presente e a gratidão de quem o recebeu.
Para deSilva, esse pano de fundo ilumina o evangelho. A graça de Deus é favor imerecido, dado a pecadores (Romanos 5:8), e por isso mesmo pede resposta: quanto maior o benefício, maior a gratidão, e a gratidão que Deus espera é a fé, entendida também como lealdade (pistis), e o serviço. Nessa leitura, a resposta vem depois do presente e por causa dele; não o compra nem o completa.
Hebreus 6 e a possibilidade da apostasia
É em Hebreus que essa leitura mais pesa. O comentário Perseverance in Gratitude (2000) lê a carta como apelo a cristãos que pagavam em vergonha pública o preço de pertencer a uma minoria. No artigo “Hebrews 6:4-8: A Socio-Rhetorical Investigation” (Tyndale Bulletin, 1999), deSilva nota que eles não estavam sendo levados a negar Cristo diante de um juiz, mas apenas a esconder, sem barulho, a ligação com a igreja. O autor de Hebreus responde que esse afastamento silencioso equivale a crucificar de novo o Filho de Deus e expô-lo à vergonha pública (Hebreus 6:6), a pior ofensa contra um benfeitor sempre fiel.
A conclusão atinge as duas leituras sistemáticas do texto. Contra a segurança eterna incondicional, deSilva escreve que “o texto pressupõe a possibilidade de que uma pessoa caia depois de receber os dons de Deus”, e que muitas leituras feitas a partir daquela doutrina tiram do aviso a sua força. Contra a ideia de que o apóstata nunca pode ser restaurado, lembra que o benfeitor continua livre para perdoar: o aviso fala ao cliente, que não deve presumir da generosidade do patrono. Resolver a tensão para um lado só, diz, ameaça “a beleza da graça, tanto como favor de Deus quanto como resposta nossa”. O estudo dele se junta aos de I. Howard Marshall e B. J. Oropeza entre as leituras que levam a sério o perigo da apostasia, e converge com a perseverança condicional do arminianismo: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé.
No catecismo, a mesma convicção aparece em linguagem pastoral: a intenção de seguir a Deus precisa ser renovada a cada manhã e “cuidadosamente guardada”, e os meios de graça (oração, Escritura, exame de consciência, comunhão e Ceia do Senhor) são “as nossas fortificações” contra o mundo, a carne e o diabo.
Justificação que transforma
Em Transformation: The Heart of Paul’s Gospel (2014), deSilva argumenta que o “dom da justiça” em Paulo é muito mais que um salvo-conduto para escapar do inferno: é o meio pelo qual Deus renova a criação, a começar pelos que creem. Lendo Gálatas 2:20 (“Estou vivendo não mais eu, mas Cristo vive em mim”, Bíblia Livre), conclui que “essa descrição da vida justificada é a descrição de uma vida transformada”, e recusa separar a justificação da santificação.
Essa renovação tem um alvo, que Wesley chamava de perfeição cristã. No comentário à pergunta 72, deSilva explica que a inteira santificação, a obra da graça que purifica o coração e o enche de amor perfeito a Deus e ao próximo, é recebida pela fé, “de forma gradual ou instantânea”. Wesley chegou à ideia do recebimento instantâneo, mas a linguagem bíblica de despir hábitos velhos e crescer em novos “nos leva a esperar um processo mais gradual como a norma”. O que importa é esperar essa obra, confiar nas promessas de Deus e buscá-la todos os dias (ver Santificação: a reforma interior que dura a vida inteira).
Onde ele se distingue
Em quase tudo o que toca a salvação, deSilva está próximo da declaração de fé do Diego: incapacidade humana, graça preveniente para todos, perseverança condicional, inteira santificação pela fé. As diferenças estão em dois pontos. Ao juntar justificação e transformação sob a palavra “justiça”, ele fala menos da justificação como declaração de Deus sobre o pecador, que a declaração do Diego destaca. E em Sacramental Life (2008), formado no Livro de Oração Comum, trata o batismo e a Eucaristia, com o casamento e o sepultamento, como ritos pelos quais Deus se encontra de fato com o seu povo; a declaração do Diego vê a Ceia como memorial e o batismo como testemunho que segue a conversão.
Obras principais
- Despising Shame (1995; ed. revista, 2008)
- The Hope of Glory: Honor Discourse and New Testament Interpretation (1999)
- Perseverance in Gratitude: A Socio-Rhetorical Commentary on the Epistle “to the Hebrews” (2000)
- Honor, Patronage, Kinship and Purity: Unlocking New Testament Culture (2000; 2ª ed., 2022)
- Praying with John Wesley (2001)
- Introducing the Apocrypha: Message, Context, and Significance (2002; 2ª ed., 2018)
- An Introduction to the New Testament: Contexts, Methods and Ministry Formation (2004; 2ª ed., 2018)
- 4 Maccabees: Introduction and Commentary on the Greek Text in Codex Sinaiticus (2006)
- Sacramental Life: Spiritual Formation Through the Book of Common Prayer (2008)
- Seeing Things John’s Way: The Rhetoric of the Book of Revelation (2009)
- Global Readings: A Sri Lankan Commentary on Paul’s Letter to the Galatians (2011)
- Transformation: The Heart of Paul’s Gospel (2014)
- Day of Atonement: A Novel of the Maccabean Revolt (2015)
- The Letter to the Galatians (New International Commentary on the New Testament, 2018)
- Ephesians (New Cambridge Bible Commentary, 2022)
- Christian Faith and Doctrine: An Annotated Catechism for the Global Methodist Church (2024)
Livros em português
- A esperança da glória (Paulinas, 2005). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- David A. deSilva, currículo acadêmico, no Substack do autor.
- David A. deSilva, página do corpo docente do Seminário Teológico de Ashland.
- David A. deSilva, Regent College.
- DeSilva, David A. 1967-, verbete de Contemporary Authors, em Encyclopedia.com.
- Rev. Dr. David deSilva, Port Charlotte Global Methodist Church.
- 7 Questions with David A. deSilva, entrevista ao blog EerdWord, da editora Eerdmans.
- Teaching Methodist Doctrine Through a Catechism?, conversa com Jeffrey Rickman no podcast PlainSpoken, 2024.
- David A. deSilva, “Hebrews 6:4-8: A Socio-Rhetorical Investigation (Part 2)”, Tyndale Bulletin 50.2 (1999).
- David A. deSilva, “How Does Grace Dawn in the Helpless Soul?”, “Who, Then, Can Be Saved?”, “Is Entire Sanctification Gradual or Instantaneous?” e “How Shall We Hold On to Such a Blessing?”, trechos de Christian Faith and Doctrine em Seedbed.
- Jake Mailhot, “Transform Your View on Pauline Theology”, com trecho de Transformation, Logos, 2014.
- Praying with John Wesley, Upper Room Books / Discipleship Resources.
- Sacramental Life, InterVarsity Press.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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