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Frank Turek: O ex-oficial da Marinha que leva a apologética aos campi americanos

Diego Gonçalves14 min de leitura2.734 palavras

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Neste texto

Durante a formação de voo na Marinha dos Estados Unidos, um jovem oficial dividia o quarto com um colega, filho de um pastor metodista. O colega lhe fazia perguntas sobre a fé cristã que ele não sabia responder. Frank Turek tinha crescido católico em Nova Jersey e dizia que sempre soube que Deus existia, mas que nunca tinha entendido quem era Jesus nem onde ele se encaixava. O colega lhe deu um conselho simples: ler os livros de Josh McDowell. Turek leu Evidência que exige um veredito e Mais que um carpinteiro e chegou a uma conclusão que orientaria o resto da sua vida: “isto parece mesmo ser verdade”. Hoje o ex-oficial da Marinha passa os semestres nos campi universitários americanos, respondendo de microfone aberto às perguntas de estudantes céticos.

Retrato de Frank Turek
Frank Turek num evento da série "Não tenho fé suficiente para ser ateu", em 2014. Foto de Clint Loveness, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

Vida

Nova Jersey e a Marinha

Frank Turek nasceu em 20 de novembro de 1961, em Neptune Township, no litoral de Nova Jersey. Foi criado na Igreja Católica, e ele mesmo resume a infância com bom humor: era católico “porque era a lei”.

Serviu na Marinha como oficial de voo naval (naval flight officer), o tripulante que cuida da navegação e dos sistemas do avião, e foi também instrutor, tempo a que atribui a facilidade para ensinar e falar em público. Foi ali que veio a leitura de McDowell. Turek descreve a conversão como um convencimento pelas evidências: as afirmações do cristianismo sobre Jesus tinham base histórica. Deixou o catolicismo da infância e passou a se considerar protestante.

Geisler e Charlotte

Turek fez um mestrado em Administração Pública na Universidade George Washington, em Washington, onde também deu aulas de liderança e gestão. Deixou a Marinha no começo dos anos 1990. Cerca de um ano depois, frequentava um curso de apologética para leigos quando, num fim de semana, o curso recebeu como preletor convidado Norman Geisler, e Turek se ofereceu para hospedá-lo em casa. Conta que não sabia quem ele era e que só percebeu, quando Geisler chegou, que estava recebendo “o Michael Jordan da apologética”.

Geisler tinha acabado de fundar o Southern Evangelical Seminary, em Charlotte, na Carolina do Norte. Em 1993 Turek mudou-se com a família para Charlotte para estudar ali. Concluiu o doutorado em Ministério em apologética e passou a viajar com Geisler nas conferências.

Consultor de empresas

Durante dezoito anos, Turek ganhou a vida como consultor de treinamento em liderança e formação de equipes para empresas da lista Fortune 500. Entre os clientes estavam a Coca-Cola, a Home Depot, a CIGNA e o Bank of America, para quem trabalhou, com intervalos, por cerca de quinze anos.

Nesse período saíram os dois livros que escreveu com Geisler. Legislating Morality (1998) ganhou em 1999 o Gold Medallion, o prêmio da associação das editoras cristãs americanas, na categoria cristianismo e sociedade. I Don’t Have Enough Faith to Be an Atheist (Crossway, 2004) se tornou o mais conhecido e chegou ao Brasil em 2006, pela Editora Vida. Em 2006 Turek fundou o CrossExamined.org, ministério evangélico interdenominacional criado por causa de um dado que o preocupava: três em cada quatro jovens cristãos deixavam a igreja na faculdade, muitos por dúvidas intelectuais sem resposta.

Os contratos cancelados

Em 2008 Turek publicou Correct, Not Politically Correct, em defesa do casamento entre um homem e uma mulher. Em 2011 o livro lhe custou dois clientes. Um gerente da Cisco achou o livro na internet e reclamou com o diretor de diversidade, e Turek foi dispensado. Depois, o Bank of America cancelou, três dias antes, uma palestra sua marcada para junho sobre como lidar com personalidades diferentes no trabalho, pelo mesmo motivo. Turek escreveu ao presidente do banco lembrando que o casamento nunca tinha entrado nas suas aulas, e disse no rádio que defendia a sua posição “não por ódio ou intolerância”, mas pelos fatos biológicos da procriação. A partir de 2011, passou a se dedicar só à apologética.

O CrossExamined

O formato principal do ministério é o seminário “Não tenho fé suficiente para ser ateu”, levado a igrejas, escolas e universidades seculares, com o microfone aberto no fim para as perguntas de céticos. Turek apresenta o programa de televisão I Don’t Have Enough Faith to Be an Atheist na rede NRB, o programa de rádio CrossExamined na American Family Radio e um podcast semanal.

Enfrentou Christopher Hitchens duas vezes, em 2008 e em 31 de março de 2009, no College of New Jersey, em Trenton, e debateu também com David Silverman, então presidente da American Atheists.

Em 2014 publicou sozinho Stealing from God (NavPress), e em 2022, com o filho Zach, Hollywood Heroes (NavPress), sobre o que os filmes de heróis mais populares revelam de Deus. Em 2023 alunos da academia de instrutores do ministério publicaram em sua homenagem Faith Examined (Wipf and Stock), organizado por Clark Bates, com prefácio de Sean McDowell, filho de Josh McDowell.

Charlie Kirk

Turek foi mentor do ativista Charlie Kirk na apologética cristã. Em 10 de setembro de 2025 estava a poucos metros dele, na Universidade Utah Valley, quando Kirk foi baleado no pescoço durante um debate ao ar livre. Correu com a equipe de segurança e fez no banco de trás o trajeto do carro que levou Kirk ao hospital.

No culto em memória de Kirk, em 21 de setembro de 2025, em Glendale, no Arizona, Turek disse que Kirk tinha sido “como um filho” para ele e anunciou o evangelho: Kirk não estava no céu por causa do trabalho nem do próprio sacrifício. “Charlie Kirk está no céu porque o seu Salvador se sacrificou por Charlie Kirk.”

Em 2026 lançou, com Phoenix Hayes, The War on Reality (Harvest House), sobre uma cultura que recusa a realidade objetiva, e resumiu à revista World o que vê na educação dos jovens: “Em vez de ensinar as crianças a pensar, estamos ensinando o que sentir.” Em outubro de 2026, a Crossway publicou a edição atualizada de I Don’t Have Enough Faith to Be an Atheist, agora com o nome de Turek na frente do de Geisler, morto em 2019, e organizada em doze perguntas.

Pensamento

Mais fé para ser ateu

O título do livro de 2004 resume o projeto. Ninguém tem certeza absoluta sobre as grandes perguntas, e por isso a questão é qual visão do mundo exige menos fé diante das evidências; para Geisler e Turek, o ateísmo exige mais. O livro segue uma corrente de doze passos: a verdade existe e pode ser conhecida; o Deus do teísmo existe, como mostram o começo do universo, o projeto da vida e a lei moral; se Deus existe, os milagres são possíveis; o Novo Testamento é historicamente confiável; Jesus afirmou ser Deus e confirmou a afirmação com milagres, sobretudo a ressurreição; logo, o que Jesus ensinou é verdadeiro, inclusive que a Bíblia é a Palavra de Deus.

É a apologética chamada clássica, a de Geisler e, em boa medida, de William Lane Craig: primeiro se mostra que Deus existe, depois que a revelação cristã é verdadeira. A ferramenta preferida de Turek é a “tática do Papa-Léguas”: como o coiote do desenho, que só cai do penhasco quando olha para baixo, muitas afirmações céticas desabam quando aplicadas a si mesmas. “Toda verdade é relativa” pretende ser uma verdade absoluta.

Roubando de Deus

Em Stealing from God (2014), Turek mostra que o próprio ataque do ateu depende de Deus: “os ateus usam aspectos da realidade para argumentar contra Deus, aspectos que não existiriam se o ateísmo fosse verdadeiro” (p. xviii). Para afirmar que há mal demais no mundo, o ateu precisa de um padrão objetivo de bem; para argumentar, precisa da razão e das leis da lógica, que o materialismo não explica. Ele precisa, então, “roubar de Deus”.

O livro se organiza pela sigla CRIMES, em inglês: causalidade, razão, informação e intencionalidade, moral, mal e ciência. Na informação, apoiado em Stephen Meyer, escreve: “Mentes produzem mensagens e códigos; forças naturais, não” (p. 58). Turek defende o design inteligente e rejeita a macroevolução, embora aceite a adaptação das espécies ao longo do tempo. Na moral, critica Sam Harris por confundir o modo como conhecemos a moral com a razão pela qual ela existe.

A lei e a moral

Legislating Morality (1998) parte de uma observação: toda lei declara, direta ou indiretamente, que um comportamento é certo e o contrário é errado. A pergunta real, então, é qual moral será legislada, e os exemplos dos autores são a abolição da escravidão pela 13ª Emenda e as leis de direitos civis dos anos 1950 e 1960. A Primeira Emenda, dizem, proíbe uma religião nacional, mas não uma moral nacional.

Um apologista não calvinista

Classe: simpatizante. Turek rejeita os pontos centrais do calvinismo e fala de si como não calvinista, sem se apresentar como arminiano. Trata o assunto como questão secundária, e mesmo assim voltou a ela várias vezes. Em abril de 2023 recebeu no podcast o amigo Leighton Flowers, batista ex-calvinista e divulgador do provisionismo, a corrente de Adrian Rogers e Adam Harwood, para discutir os cinco pontos da TULIP. Em julho de 2024 dedicou dois programas a Romanos 9 e às “más implicações teológicas e morais” do calvinismo de cinco pontos.

O argumento do programa de 19 de julho de 2024 tem quatro passos. Primeiro, Deus não quer que ninguém se perca (Ezequiel 18:32; 1 Timóteo 2:3-4; 2 Pedro 3:9); se ele fizesse toda a escolha e desse a fé só a alguns, não se explicaria por que não a dá a todos. Segundo, Romanos 9 trata da eleição de Israel como nação, o povo do qual viria o Messias, e não da escolha de indivíduos para o céu ou para o inferno. “Amei Jacó e odiei Esaú” vem de Malaquias e fala de dois povos, e em Romanos 11:28 Paulo separa essa eleição do evangelho. A leitura é próxima da de Brian Abasciano.

Terceiro, em Efésios 1 Deus nos escolheu “nele”, e Paulo diz como se entra em Cristo: “tendo ouvido a palavra da verdade […] e nele tendo crido” (Efésios 1:13). Turek propõe ler “predestinou” como “garantiu”, com uma imagem tomada de Flowers: diante de uma tempestade, Deus garante de antemão que todos os que estiverem dentro da fortaleza serão guardados e conformados à imagem do Filho (Romanos 8:29-30). O que está predestinado é o destino de quem está em Cristo, e não a lista de quem entra. É a eleição condicional em Cristo que os arminianos ensinam desde Armínio.

Quarto, a presciência não causa o que conhece. A mãe que põe o bebê para dormir sabe que ele vai acordar com fome de madrugada, e nem por isso o faz acordar. Deus está fora do tempo e conhece de uma vez as escolhas que fazemos no tempo. “O mesmo ato pode ser ordenado por Deus e ainda assim escolhido pelo homem”, diz Turek, e por isso não há contradição entre a predestinação e o livre-arbítrio. É o argumento de Geisler em Chosen but Free (1999), embora Geisler se dissesse calvinista moderado (ver presciência, eleição e predestinação).

Perto e longe do arminianismo clássico

Nos pontos centrais, Turek está do lado arminiano: Deus deseja salvar todos, Cristo atrai todos, a graça pode ser recusada, a eleição é em Cristo e inclui os que creem, e Deus conhece todo o futuro sem causá-lo. Ele também não tira de Deus a iniciativa. Sobre João 6:44, diz que os não calvinistas concordam que Deus precisa atrair a pessoa; a diferença está em quem Deus atrai, e João 12:32 responde: “atrairei todos a mim”. Daí a conclusão: “Deus quer que todos sejam salvos. Por isso, ele atrai todas as pessoas.” Quem se perde é porque entristeceu o Espírito, e não porque Deus escolheu alguns e deixou os outros.

A diferença com o arminianismo clássico está no peso que cada um dá à vontade humana. Turek explica que nem todos se salvam “por causa do livre-arbítrio” e descreve a entrada na fortaleza como uma decisão: “você decide crer”. Para Armínio, o centro da doutrina é a graça. Na Declaração de Sentimentos (1608), o homem caído não é capaz, por si mesmo, de pensar, querer ou fazer o bem, e a vontade só pode crer porque a graça preveniente, uma obra sobrenatural do Espírito que vem antes de qualquer resposta, a liberta. O arminiano clássico começa pela depravação total e vê o livre-arbítrio como fruto da graça, a vontade libertada. O “atrair” de João 12:32, na leitura de Turek, ocupa o lugar dessa graça, mas sem ligação com a incapacidade da vontade caída, que o provisionismo de Flowers nega.

Em Efésios 2:8, Turek lê o “dom de Deus” como a salvação, e não a fé, como muitos arminianos. A nossa declaração de fé acrescenta o que não pode faltar: a fé não é mérito, e só é possível porque o Espírito “capacita cada um a responder ao chamado do Evangelho” (Tito 2:11). Quanto à perseverança, a fortaleza fala da garantia para quem está dentro; os arminianos, desde a Remonstrância, acrescentam que se permanece em Cristo pela fé, e que a fé pode ser abandonada (ver a segurança da salvação).

Obras principais

  • Legislating Morality: Is It Wise? Is It Legal? Is It Possible? (Bethany House, 1998), com Norman Geisler. Gold Medallion de 1999.
  • I Don’t Have Enough Faith to Be an Atheist (Crossway, 2004), com Norman Geisler; edição atualizada em 2026.
  • Correct, Not Politically Correct: How Same-Sex Marriage Hurts Everyone (2008).
  • Stealing from God: Why Atheists Need God to Make Their Case (NavPress, 2014).
  • Hollywood Heroes: How Your Favorite Movies Reveal God (NavPress, 2022), com Zach Turek.
  • The War on Reality (Harvest House, 2026), com Phoenix Hayes.

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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